18 fevereiro 2007

LÁ SE FOI O VELHO ALCIDES






Iniciava o mês de dezembro de 2006. Em uma de minhas inúmeras idas a residência do meu velho sogro e amigo Alcides, senti um nó na garganta ao contemplá-lo num estado de sofrimento físico e mental intenso. Estava ali sendo consumido pela velha diabetes descompensada que lhe afetara a visão, os rins e o cérebro. Seu olhar era o de quem estava prestes a partir. Dirigiu-se para mim com os olhos marejados e a voz fraquinha embargada pela emoção: “Levi! Eu já me sinto um morto”. Vim saber por uma de suas filhas, que ele tinha falado que partiria em uma dessas festas de fim de ano.
O homem que tantas vezes enfrentara a morte, já vinha me surpreendendo há muito tempo em sua trajetória de enfermidades, saindo de situações críticas em várias entradas em CTIs. Perguntava para mim mesmo: “Será que ele não vai buscar forças para sair de mais um quadro grave, como este que estou presenciando?” A sua força de vontade de viver, até então, era muito grande, e eu achava que esse desejo intenso dele, em não se render às evidências médicas, era o fator primordial de suas muitas recuperações. Quantas vezes, eu não fui testemunha ocular dos difíceis momentos em que tudo apontava para um desenlace final, e ele surpreendentemente saía do “coma”. O homem realmente era imprevisível.
Naquele dia estava diante de mim um outro Alcides. Já sem forças para andar, para falar, e se alimentar com as próprias mãos. Resignado. Certo de que a sua passagem se daria até final do ano em curso. Eu, como médico, jamais ia concordar com este triste vaticínio. Lembro que na ocasião disse para ele: “Os pensamentos do homem não são os pensamentos de Deus, Seu Alcides!” “O Sr. Não vai morrer este ano”. Ao dizer estas palavras, recebi como resposta o seu olhar desapontado, que revelava mais a tristeza da finitude humana, do que a esperança de um dia poder em sua cadeira de rodas, conversar descontraidamente comigo, como fazia comumente no final das tardes dos dias em que estava de folga do meu trabalho. Naquelas tardes, quando a sua saúde ainda não dava sinais de que o seu fim estava próximo, eu me regalava ouvindo as suas aventuras contadas de uma maneira peculiar, que só ele magicamente sabia relatar. Eram histórias ditas com tantos e interessantes detalhes, que na minha imaginação parecia estar fazendo com ele uma viagem sentimental de volta no tempo, vendo com os olhos da alma o mundo encantado em que ele vivera em uma época distante.
Chegara o Natal. Foi no almoço tradicional deste dia, quando toda a família estava reunida em torno da mesa, que eu notei o semblante do velho Alcides Leite diferente. A alegria e a esperança voltaram a se estampar naquele rosto. Não podia alimentar-se com as suas mãos, mas estava feliz, com a sua filha caçula a levar o alimento a sua boca com um carinho todo especial. O desejo ardente de viver tinha novamente nascido em seu coração.
Subi a ladeira da Sta. Terezinha, entrei em sua casa, fui até o seu quarto e falei: “Estamos em 2007, Seu Alcides e o senhor ainda está aí contando sua história”. Aquilo que o senhor pensava que ia acontecer, era tudo produto da imaginação humana”. “Tá vendo ─ disse eu. A gente não sabe o dia da partida, só Deus é quem sabe.”
Daquele dia em diante ele passou a se sentir mais animado. Passou-me a responsabilidade de fazer o que fosse necessário em benefício de sua saúde. Inclusive de levá-lo para ser atendido por especialistas em João Pessoa. Estava até disposto, se fosse o caso, a ser hospitalizado no Hospital da Unimed. A partir daquele momento, lutou contra a morte por mais de quarenta dias. O diagnóstico de que os seus rins estavam quase paralisados, não o esmoreceu. Durante todo este período nunca reclamou nem se lamentou. Era um homem acostumado às dores. Afeito aos maiores tipos de sofrimento.
O prognóstico a cada dia que passava, era muito ruim. Os exames periódicos demonstravam a caminhada fatídica para uma paralisação total dos rins. Porém ele não desanimava. No dia em que viajou para Capital do Estado e recebeu do médico a noticia de que deveria fazer urgentemente hemodiálise três vezes por semana, chegou a sua casa triste, não pelo diagnóstico, mas pela recusa de suas filhas em não terem deixado o mesmo lanchar uma tapioca com bastante coco e queijo derretido que tanto desejava naquele momento, como fazia antigamente quando eu viajava em sua companhia.
Na segunda semana de Fevereiro a sua doença se agravou profundamente. Estava ofegante, como se estivesse morrendo afogado em seus próprios líquidos pulmonares. Foi diagnosticado um edema agudo de pulmão, e internado urgentemente no CTI do Hospital Regional de Guarabira. Não entregou os pontos. Lutou por oito dias. Todo cheio de sondas, mangueiras, fios. Respirando com a ajuda de aparelhos. Eu o visitava três vezes por dia. Hora nenhuma perdeu a serenidade. Eu via ali um valente guerreiro a desafiar a morte.
No oitavo dia, os exames que eram realizados diariamente apontavam para um quadro irreversível. Ali eu já tinha certeza de sua passagem iminente para outra vida. Na manhã desse dia, uma quinta-feira, lhe fiz minha última visita. Aproximei-me do seu leito e falei alto ao seu ouvido: “Seu Alcides! Quer ir p´ra casa hoje?” Ele não respondeu. Os olhos já sem reflexos, banhados por uma nata, já não viam mais coisas deste mundo terreno. Repeti a pergunta: “Se estiver me ouvindo, faça um sinal: quer ir para casa hoje?” Ele com muita dificuldade levantou o polegar direito por entre os lençóis, em sinal positivo. Saí dali sem compreender, pensando comigo: “Como é que um homem num estado desse, ainda sente o desejo de voltar para sua casa. É muita fé mesmo”.
Não tinha a mínima idéia de que a casa a que ele se referia era uma outra casa, onde não havia dor, nem tristeza.
Depois, olhando para o velho sogro e amigo no ataúde, pude observar atentamente, que o seu rosto irradiava uma tranqüilidade que não era desse plano. Nunca tinha visto em minha vida uma expressão tão perfeita de serenidade.
É, não tenho dúvida nenhuma: ele dormia o sono dos justos.


2 comentários:

Alcides Neto disse...

Quando li este texto vi o quanto você alcançou da personalidade de Voinho, mostrando um homem forte, surpreendente, maravilhoso, magnífico e admirável que ele foi; em síntese um típico "cabra macho". Fui um dos privilegiados a escutar suas hístorias, cheias de emoções e sentimentos, sobre sua juventude desbravando esse sertão nordestino, ali sentado com ele, no terraço de sua casa, em várias tardes. Sei um dia que vou poder contar ao meu filho essas hístorias e dizer o quão magnífico era o seu bisavô.

Levi Bronzeado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.