07 novembro 2007

A PRELEÇÃO DE ALMEIDA FOI REAL DEMAIS

................................................Pastor Almeida (de terno)


A Segunda Conferência Missionária das Ass. de Deus em Guarabira-Pb, em sua última noite, transcorria como sempre acontece em ocasiões festivas: muitas exclamações de alegrias, muitas aleluias e glórias a Deus. Eu ouvia pelo rádio, os cânticos e os testemunhos emocionados que agitavam a multidão que superlotava a nave do grande templo. Dava-se perfeitamente para ouvir pela emissora, o intenso vozerio.

Porém, algo inédito aconteceu naquela noite. Eram mais ou menos nove e quarenta, quando o preletor Almeida (Mineiro de Belo Horizonte – braço forte de apoio nas missões trans-culturais) foi convidado para dar a sua mensagem. Fez-se um silêncio sepulcral no interior do templo, quando o pregador dissecava com a sua espada afiada, fazendo ver cruamente o que era levar o evangelho às camadas excluídas da sociedade. O silêncio era tão intenso, que daria para se ouvir pelo rádio, um simples rasgar de um papel. Aquele silêncio era uma resposta mais do que clara, de que a palavra falada estava provocando uma profunda reflexão (inclusive de minha parte). Pude escutar a mudança altamente significativa que ocorreu naquele ambiente: o ribombar de vozes em alegria e êxtase, transformara-se repentinamente em um grandioso silêncio. O Pastor Almeida foi feliz e sábio em sua exposição, em consonância com o que diz o autor do livro de Eclesiastes (9, 17): “As palavras dos sábios devem ser ouvidas em silêncio [...]”.

Almeida tocara no ponto nevrálgico da interioridade humana, fazendo aflorar o paradoxo que norteia a nossa existência. Dentre os casos que ele expôs, um, foi de uma contundência cruciante e real. Em um dos seus arrebatamentos, expressou-se mais ou menos assim:

─ Irmãos! ─ Eu vou contar o que se passou comigo, lá em minha cidade: “eu era como um desses jovens bem vestidos, que estão aqui à frente, bem alegres e satisfeitos. Foi no caminho em direção à igreja, que avistei uma mulher em andrajos, parecia ser uma prostituta ou uma drogada, e estava sentada no chão de uma calçada. Algo, como uma voz dentro de mim, dizia naquela ocasião que eu parasse e falasse para aquela mulher. Eu tratei de fazer ouvidos moucos, racionalizando: ora, já estou atrasado para o meu compromisso na igreja. Ademais, com o meu terno todo bonitinho e impecavelmente passado, eu vou me amarrotar todo, vou chegar ao templo no meio do culto e todo desarrumado. Não! Prossegui no meu caminho. A voz mais uma vez ao meu ouvido: fala com aquela mulher! Eu dizia para mim: isso é uma tentação, não posso me demorar aqui e perder tempo, possivelmente, com uma bêbada. Além do mais, o que poderiam pensar os meus conhecidos que me vissem conversando com uma prostituta a uma hora daquelas, em um local suspeito e escuro. Continuei caminhando para minha igreja. A voz pela terceira vez soa: aborda aquela mulher! Não dei ouvido, e pensei: ora, é engraçado eu vou para casa de Deus onde lá todos estão me esperando, e esta voz aqui me atrapalhando”.

“Entrei no templo, alegrei-me bastante junto com os meus irmãos, e esqueci logo aquele fato ocorrido”.

Almeida, nesse momento, dá mais ênfase ao desfecho de sua história, falando desta forma:

“Terminado o culto, feliz da vida, dirigi-me a pé até o ponto do ônibus. Passando de volta pelo local onde estava a mulher, vi um aglomerado de gente. Resolvi espiar por entre a multidão espremida, o que estava acontecendo naquele momento. Esticando bem o pescoço e de pontas de pés, o que vi chocou-me profundamente. Em toda minha vida, jamais esquecerei aquela trágica cena. A mulher estava ensangüentada e morta. Constrangi-me até a morte, ao ouvir aquilo dentro de mim: “Tu foste o culpado”. “Se tivesses parado para ouvir aquela pobre mulher, ela não teria morrido”.

Almeida já emocionado, faz uma pausa e pergunta a platéia:

─ Quem aqui, tem a coragem de colocar bem juntinho de si uma prostituta daquelas bem fedorentas? Quem tem coragem de sentar junto ao um aidético aqui nos bancos? Aqui na igreja é muito bom. Está todo mundo engordando, engordando, e ainda mais cantando hinos como: “Estou pronto, estou pronto. Senhor eis-me aqui...” ─ diz, solfejando a estrofe de um corinho. Sabe quando é que o crente mais mente? ─ fala Almeida. ─ É quando está cantando na igreja. Ninguém que está cantando hinos como esses, atenta para o que está a dizer, e se treme de medo só em ouvir falar que alguém vai a uma missão na África ─ conclui veementemente Almeida.

Um silêncio profundo ─ foi a resposta de todos. Não se ouvia um sussurro sequer.

Não tenho dúvidas, que o inspirado Almeida sacudiu as profundezas do ser humano, de uma maneira, instigante, dura e real. Fustigou o meu coração como os de muito que o escutavam naquele momento. Pena, que a rádio encerrou o programa, pelo adiantado da hora, impedindo que eu e os ouvintes das redondezas pudessem escutar o restante de sua mensagem. Fiquei imaginando: se os organizadores do evento não tivessem demorado tanto, fazendo as costumeiras apresentações dos visitantes, teria dado tempo para que os rádio-ouvintes assistissem até o fim, o tão expressivo sermão do missionário visitante.

Depois de tudo, desliguei o meu rádio, para fazer uma auto-reflexão.

A mensagem de Almeida permitiu-me um olhar mais profundo sobre a verdade ancestral que reside na natureza humana: o “paradoxo” entre o “desejar fazer e o que realmente deve ser feito”. Almeida deve ter refletido e tirado uma grandiosa lição sobre o que aconteceu com ele naquela fatídica noite em Minas Gerais: “O zelo pela tradição do culto, o levara a perder uma alma”. Melhor que tivesse perdido o culto, aproveitando a oportunidade para socorrer aquela alma. O Pastor Almeida deu a entender que na igreja nos abrigamos do mundo, porém, é no trabalho missionário que se enfrenta o desafio de “sair para o mundo”. O que se passou com ele constituía-se em mais uma das muitas contradições do impensado evangelho de resultados, pregado nos tempos modernos: ele se encontrava na igreja onde estavam os sãos, enquanto uma alma se perdia lá fora, sem ter alguém para dar a mão. Esse acontecimento emblemático veio ratificar de forma insofismável o “porquê” do ministério de Cristo ter tido um caráter itinerante, indo ao encontro das gentes sofridas.

Em meio à violência e à maldade campeando de forma nunca vista por todos os recantos, não é coisa fácil abordar aqueles que vivem à margem da sociedade. Ficamos temerosos e sobressaltados ao abordar qualquer estranho que atravesse à nossa frente. Não é assim que aconselhamos os nossos filhos?: “Olhem, tenham cuidado, quando se depararem com alguém estranho e com cara de gente má, não se aproximem! Passem de longe, pedindo a proteção de Deus.”

O caso verídico de Almeida realça o grande paradoxo que nos mete MEDO, e por conseqüência, nos afasta do “IDE” imperativo do evangelho, destinado aos que estão caídos nas sarjetas da periferia das cidades. Preferimos que o desvalido VENHA ao templo, se bem quiser; é mais cômodo e não nos constrange. O MEDO de ser violentado, assaltado ou seqüestrado, nos impede de levar as “boas novas” a esses desamparados da sociedade, principalmente, naquelas horas mais arriscadas (após os cultos de domingo), em que voltamos para as nossas casas, tomados de MEDO e pedindo a Deus não encontrar ninguém pelo caminho. É nessas horas, que nos vem o tão sonhado anseio de poder andar sem sobressaltos. Nos vem também a vontade de confinar todos os marginalizados em um ambiente longe dos nossos, para que não possam nos incomodar.

A preleção de Almeida deve ter levado alguns, naquela noite, a uma reflexão, no sentido de tentar entender a mentalidade do homem rotulado de "moderno", que tem se sensibilizado apenas em seguir a sua própria agenda de realização pessoal, na crença de que com uma boa pitada de fé, receberá uma “sorte grande”, que o possa levar rumo ao poder, à riqueza e à fama.

Reconhecendo a nossa fragilidade (a carne é fraca) e, em meio ao silêncio do fim de festa desta Segunda Conferência Missionária, só nos resta um pedido a fazer: “Senhor, tende misericórdia de nós. Dai-nos mais coragem e ousadia para sair da apatia dos dias atuais”.








2 comentários:

Cristiane disse...

Pregação tranquila, mas contundente. Valeu, por deixá-la registrada.Assim não será esquecida!

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Graça e paz!

Parabéns pela reflexão, Levi!

Lendo o texto, consigo entender por que João Marcos, sobrinho de Barnabé, amarelou no Chipre durante a primeira viagem missionária que seu tio fez junto com Paulo.

Muitas vezes, dentro das igrejas, sonhamos em ser enviados como missionários para as nações. Porém, quando aparece uma missão situada às vezes bem pertinho de nossas casas, vários sentimentos abalam nossa mente a ponto de nos paralizar.

Realmente o medo é um desses sentimentos, assim como a vergonha, nosso status social ou "espiritual", o comodismo, a pouca experiência e a dúvida (será que é a voz de Deus me falando?).

Entretanto, o verdadeiro amor lança fora o medo e acredito que, pela prática constante do maior dos mandamentos, recebemos graça para superar todos esses sentimentos contrários.

Deus abençoe o irmão!