24 março 2007

FRAGMENTOS DE UMA FOTO-ANÁLISE





Ligo o velho computador, que já conta com mais de sessenta a nos de uso, e tento resgatar fatos registrados em sua memória há cinqüenta e cinco anos. Porém, o cérebro ─ esta máquina eletrônica criada por Deus ─, trava, destrava, trava de novo, esquenta. Enfim, conformo-me com os pequenos e significativos fragmentos colhidos com muito esforço.

Olho e observo detidamente por longos minutos a foto encardida pelo tempo. Não há como negar, que é a expressão facial, o que chama de imediato a atenção. Não é preciso ser psicanalista coisa nenhuma, para identificar a mensagem que os olhos da foto transmitem: MEDO e DESASSOSSEGO.

Algo como uma lufada de vento frio e penetrante, refresca a minha mente, abrindo-a para ver e sentir a verdade do meu ser, captada em frações de segundo naquela foto de 1951. O meu verdadeiro “eu” estava ali exposto através do olhar inocente dos meus verdes cinco anos de idade. Menino pobre, e ao mesmo tempo rico de estranhos sentimentos, cujos olhos, a maneira de uma navalha, rompia o envoltório da carne, para retratar a solitária agonia que ia dentro da alma. Ali naquela foto, a minha atitude expectante de uma medrosa obediência, decepcionou por certo a platéia que assistia ao espetáculo, constituída por meu pai, minha mãe, uma tia que me serviu de babá nos meus primeiros anos de vida, e o velho e rabugento fotógrafo com sua geringonça em forma de caixa de engraxador de sapatos sustentada por um tripé.

Quanto atraso! Naquela idade ainda não aprendera a posar para uma foto. Isto é, não sabia representar para um público ávido de imagens fabricadas. Hoje, uma criancinha de dois anos de idade, mesmo com um coração vazio, sem querer, e atendendo aos pais, sabe esboçar muito bem um sorriso de alegria, frente a uma câmera digital.

Há algumas semanas, minha velha mãe ao observar a antiga e encardida foto, dizia para mim:

─ Eu me lembro. Estavas com muito medo do “lambe-lambe”.

“Lambe-lambe”, era como se chamava popularmente o tirador artesanal de fotos, que saia de casa em casa oferecendo seus serviços. Acho que ele tinha esse nome, por lamber os dedos, enquanto reproduzia a foto em uma bacia com água e emulsão química. A geringonça de produzir imagens tinha a cor preta, com uma cortina de pano preto em forma de fole onde o fotógrafo enfiava a cabeça, e um bisaco também preto, onde ele metia o seu braço e a sua mão direita para bater a foto. Aqueles panos pretos me metiam muito medo, pois se assemelhavam a uma mortalha.

Quinze dias após aquele sofrido dia, em que expus para os outros um sentimento que tinha tudo, menos alegria e satisfação, chega o “lambe-lambe” com a foto ampliada. Foto esta, recebida com desgosto, pois ali, não estava o retrato de uma criança alegre, que os meus pais tanto gostariam de ver e mostrar aos amigos. Ali, estavam as ruínas de uma infância remota cercadas pelo medo, que não podiam ser mais reparadas. Eu suponho, que os meus pais viram nesta foto a imagem de um menino ausente, constituída de estranheza e timidez, como uma estátua construída de pedra e cal, mais reveladora do que encobridora.

Cá estou eu, o sessentão, olhando de novo a velha e surrada foto. Recolhendo do baú da memória, fragmentos perdidos de um tempo em que fui mimado como objeto de desejos dos meus pais que tanto ansiaram pelo nascimento do primogênito. De inicio, eles desejaram cores fortes, mas só recolheram sombras. Enquanto eu morria de medo na claudicação intermitente dos primeiros passos, eles riam de prazer do meu cambalear incerto. Fui forjado no caldo dos sentimentos verdes e imaturos de duas crianças (adultos), que no frescor de seus vinte anos se tornaram pais.

A fotografia revela claramente a teimosia do meu semblante, expressão real de quem não pôde corresponder ao que os jovens pais tanto esperavam. Contudo, resta o consolo de ter estampado ali, a fiel imagem de quem se sentia realmente desamparado, triste, e ameaçado por temores vindos não sei de onde. Se hoje, neste teatro que é o mundo, sou forçado a representar, não posso negar que naquela foto ficou registrado o meu verdadeiro “eu”: todo bem vestidinho, de sapatos da moda e meias de linho como quem vai para uma festa, porém, desejoso de fugir urgentemente daquele perigoso ambiente. Com um ar de quem está contrariado, ao ver a sua alma sendo captada pelo “lambe-lambe”, para uma posterior exibição de sua tristeza emoldurada.


Crônica de Levi B. Santos. (Guarabira, 23 de Março de 2007)

17 março 2007

DO ANZOL PARA O AQUÁRIO







O desejo do homem de esquadrinhar o que existe no interior do outro, é tão forte, que ele chega a esquecer do seu próprio coração. E numa ânsia ousada, luta para tomar posse do outro, quando muito mal cuida dele próprio. Esse homem não é senhor de si, mas quer ter a certeza do destino do seu semelhante. Ele diz para si mesmo: “Eu já estou seguro”. Ao olhar para o outro que lhe serve de espelho, tranqüiliza-se, pois vê nele a sua própria imagem refletida.

Agora, o espelho quebrado, já não reflete mais a imagem ilusória de duas almas em um só corpo. Ele se entristece e se indigna ao contemplar aqueloutro que outrora, de tão parecido em idéias, pensamentos e costumes comportava-se como se fosse o seu duplo. E esse homem, ao invés de se contentar em viver aprendendo com as diferenças, junto com aquele que lhe é agora estranho, procura por todos os meios torná-lo um igual.

Esse homem se vê só e perdido. E para sair de sua solidão, resolve reconstruir o templo, consertando o véu que foi rasgado de alto a baixo por Cristo. Este véu reparado volta a esconder um altar, que não havia mais razão de existir. É lá neste altar refeito, que ele se sacrifica a fim de afugentar os seus medos e temores.

Ele não sabe, ou faz de conta que não sabe, que o “muro” que separava os de pensar diferentes, como os judeus e os gentios, foi derrubado para que ele pudesse compreender seu próprio ser, na estranheza do outro.

Esse homem não visita mais o livro do Gênesis, pois não gosta de “museu”. Não entende, que lá nos primórdios da criação, Deus deixou um ser diferente dele, chamado EVA, para que ele pudesse iniciar o “jardim da infância” do aprendizado com as diferenças. Porém, o que este homem adora, é fazer do outro “objeto” de seu desejo.

Ele quer a todo custo retomar a posse daquele que era o seu espelho. Então, ao avistar aquele que era o seu duplo, abre a boca e dá uma “profetada”, dizendo que é por amor. Com a mão em punho, dá um soco no ar e o ameaça: Tu virás, nem que seja pelo “anzol”.

Pobre “pescador de anzol”. Esqueceu que a pescaria que Cristo ensinou a Pedro, era de rede. Que insanidade, pescar almas aflitas com anzol. Pedro até que tentou este tipo de pescaria, fazendo das minhocas dos gentios, iscas para o seu anzol, de cuja vara pendia uma linha frágil chamada “circuncisão”.

Esse homem aprendeu esse tipo de pescaria, com os “fariseus”.

As iscas dos fariseus eram de imitação. Eles se acostumaram a pegar aqueles peixes incautos, que tomados pela fome dos olhos, não enxergavam a arma letal que se escondia por dentro da isca. Os peixes mais belos eram retirados ainda vivos dos seus anzóis e colocados em “aquários”, cujas paredes denominavam de “doutrina”. E ali, os pobres peixes ficavam a nadar na insípida água de seu novo templo, chamado tanque, ou aquário ─ , representação esdrúxula do real oceano criado por Deus.

Esse homem fica horas, e mais horas, estático, diante destes “templos-aquários”, apreciando os movimentos estonteados dos peixes a se baterem contra as paredes de vidros (doutrinas), numa tentativa inútil de se livrar da prisão onde foram confinados. Esse homem, no entanto, ignora que eles, os peixes, foram violentados com a perda da liberdade.

Esse homem, ou é surdo, ou faz ouvidos moucos para o que Cristo está a bradar:

─ Atenta-te para me ouvir ó insensato homem! ─ Eu vim ao mundo para encurtar a distancia entre ti e o meu Pai. Não quiseste; preferiste erigir um púlpito, ou altar para ficar bem distante de mim. Eu vim para conversar contigo, como os irmãos fazem a hora do jantar, sentados ao redor de uma mesa. Eu queria te tratar como a um irmão, e não ser adorado e temido como um ídolo. Queria te ver vestido na simplicidade dos comuns, mas preferiste paletó e gravata. Os pequeninos têm medo de se aproximar de ti, pois estás muito diferente com esta vestimenta e, além do mais, coberto por um véu que eu já tinha rasgado de uma vez por todas lá na cruz do “calvário”. Soerguesse de novo o altar que foi destruído com o templo, para adornar o teu céu ficcional com os inocentes peixinhos, criados por meu Pai para serem livres. Esqueceste, que a maldição da força do “anzol”, eu quebrei lá na cruz. Agora, abre os teus olhos, e recolhe o teu anzol. Quebra os teus aquários, e devolve estes peixes ao meu mar, de onde nunca deveriam ter sido violentamente tirados.

SE O FILHO VOS LIBERTAR, VERDADEIRAMENTE SEREIS LIVRES. (João 8,36)

04 março 2007

A REDE DO MEIO-DIA




Foi muito feliz o filósofo Nietzsche, quando concebeu a idéia de que “a vida é um eterno retorno”. Pois o tempo gira, gira, gira, e nos leva finalmente ao mesmo ponto de partida.

Aos sessenta anos de idade, ainda exercendo a função de médico, me vejo descansando no mesmo lugar que me serviu de pousada no inicio de minha carreira. O quarto em que residi por um bom período, tem as paredes muito altas, de reboco irregular, com cobertura de telhas antigas feitas à mão, sustentadas por “caibos” e linhas de madeira de lei. Nas noites quentes de verão, ele ficava infestado de muriçocas, atrapalhando o meu sono. Foi neste cubículo que curti as ressacas de minhas farras, de minhas aventuras, festas e namoricos no fogoso tempo dos meus vinte e seis anos.

Hoje, toda quinta-feira, após o tradicional almoço de galinha caipira, feijão mulatinho, arroz e macarrão, com sobremesa de salada de frutas, eu me recolho a este mesmo “quarto”. Ao meio-dia, lá estou eu estirado em uma rede velhinha, já um pouco puída, porém bem cheirosa, separada especialmente para mim. Ali dou o meu cochilo de uma hora e meia, para depois iniciar o batente do segundo expediente no mesmo Hospital que iniciei minhas atividades profissionais há trinta e cinco anos.

Tudo agora é vazio neste quarto. Vazia está uma estante velha de três prateleiras, instalada no mesmo canto de sempre. Era nela que guardava os meus livros de medicina. Essa estante serve hoje de suporte a um jarro grande, também vazio, na cor escarlate.

As duas velhinhas Bia e Bazinha, cabisbaixas, uma em cada canto guardando um vazio de palavras talvez pensadas, mas não ditas. De tanto tempo juntas, quem sabe, enfastiaram-se do diálogo. Na ausência de palavras só o entrecruzar dos olhares, fala por si mesmo. Sendo os olhos a janela da alma, para que conversar? Se as janelas destas duas almas gêmeas estão tão escancaradas, que as fazem se enxergar mutuamente por dentro, sem a necessidade da palavra, é porque uma é o espelho da outra. É como se estivessem a dizer entre si: “ Se eu sei o que tu queres, e tu sabes o que eu desejo ─ para que falar”?

Apesar de vazio, o silêncio do meu quarto é quebrado de uma maneira quase constante, pelo barulho que vem dos carros passando na rua em frente de casa. Há 35 anos, o barulho que eu ouvia não vinha dos automóveis. Eles eram raros. A rua era mais do povo, e o que eu escutava eram restos de conversas das pessoas que passavam na calçada, junto ao velho janelão do quarto, que dava para a rua. O janelão continua o mesmo. As camadas de tinta a óleo, que a minha mãe manda dar todos os anos em sua superfície, evitaram que a madeira apodrecesse. Do lado de dentro de casa, os barulhos que ouço vem do tilintar dos pratos e talheres sendo lavados na pia da cozinha, pela velha Bazinha (apelido carinhoso de minha mãe), já meio capenga e ruim da vista. O outro barulho vem da tosse insistente de Bia (mãe de criação), portadora de uma doença cardíaco-pulmonar que a castiga há anos.

Era nesse mesmo quarto, que no inicio de minhas atividades de médico, minha mãe gostava de trazer as suas amigas mais chegadas, para se consultarem comigo. Eu ficava contrariado, pois achava que ao meio-dia, não eram horas de se ouvir lamúrias dos doentes. Além do mais, eles estavam me tirando do meu sagrado descanso na velha “rede do meio-dia”.

Hoje, a minha velha mãe, já sem amigas, pois quase todas já se foram, é a única a se consultar. E eu, meio acordado, meio dormindo, vou ouvindo os seus sintomas, que já se tornaram uma ladainha. De olhos semicerrados, vou ouvindo ela falar:

─ Ó Levi, eu quero que tu dê uma olhada aqui nas minhas pernas e nos meus pés.

E apontando para os lugares doloridos das pernas ela vai dizendo:

─ Dói aqui, olha! Aqui... Aqui...Bem aqui...

Olhando de soslaio, sem me mexer da rede vou respondendo como sempre:

─ Isso é reumatismo, mamãe. A Sra. não pode tomar remédios para este tipo de doença, por causa de sua gastrite. O jeito é ir levando a vida assim mesmo.

E é assim, bem junto a minha rede, após o almoço, que ela vai desfiando suas demais queixas, como se eu tivesse a varinha mágica e o poder de fazer desaparecer todas as suas dores.

─ Olha Levi, eu não posso caminhar nem para feira, nem para a igreja, pois fico muito cansada ─ continua falando minha mãe.

Essa sua ultima queixa eu valorizei, porque ela sofre de cardiopatia crônica, e não pode fazer muito esforço. Imediatamente, abaixando um lado da rede, levanto a minha cabeça e o pescoço duro afetado pela artrose, e falo sério para ela:

─ A Sra. só pode ir à igreja ou à feira, de carro, mamãe! Numa caminhada dessas, a pé, o seu coração pode pifar. Tenha cuidado! Vou falar com Davi (meu irmão) para ele providenciar um automóvel para lhe levar a esses lugares.

Depois de consultar-se, ela se retira, e eu continuo o meu cochilo na rede do meio-dia.

De repente, mas de repente mesmo, sinto a rede balançar. Abrindo os olhos lentamente, vejo a sua mão puxando o punho da rede. É quando ouço a velha “gravação”:

─ Já são duas horas da tarde. Tá na hora de tu levantar. Levanta! Senão vai chegar atrasado. Tem doce de goiaba e café com biscoito “delicia” lá na mesa.

Ela continua com aquele mesmo cuidado de muitos anos atrás, de não me deixar atrasar para o expediente da tarde. No horário exato diz: “levanta”! E eu, preguiçosamente saio em câmera lenta da minha tão confortável rede, para o mesmo e gostoso lanche que ela sempre me preparou por todo esse tempo.

Toda quinta-feira, na minha "rede do meio-dia", participo desse rito médico-sentimental. Até quando? Só Deus sabe.

Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 28 de Fevereiro de 2007