31 dezembro 2008

O TEMPO NÃO PASSA. PASSAMOS NÓS




A história do homem se repete porque ela é cíclica dentro do tempo infinito das eras. “O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo os seus circuitos. (Eclesiastes 1:6).”


As guerras de hoje, no fundo, são as mesmas de outrora. O ódio que as move vem do mesmo núcleo estrutural. Mudaram os personagens, mas a natureza humana continua a mesma. No lugar de armas toscas como lanças e espadas bíblicas usadas contra os inimigos de antigamente, temos hoje armas sofisticadas, como foguetes teleguiados que atingem o alvo com precisão milimétrica. As desculpas e razões para explicar a intolerância entre as gentes continuam sendo as mesmas dos primórdios. Enfim, nada mudou debaixo do sol como bem disse o autor de Eclesiastes. A incessante busca dos prazeres que consome a maior parte da vida do homem é a mesma dos tempos remotos. Ela tem a mesma seiva de milênios de anos atrás. Os canais por onde deságua a agressividade latente que está em cada um de nós, em nada difere da dos tempos passados. Mudaram as formas externas, porém por dentro, tudo continua igual.


Será que a hipocrisia que Cristo tanto combateu entre as lideranças de seu povo, não é a mesma de hoje?


O longo capítulo de Mateus 23 (Ai de vós hipócritas) proferido por um Cristo indignado contra os Fariseus e Escribas de sua época, por acaso, não ressoa hoje como no passado? Os atuais dirigentes e líderes dos povos sedentos de justiça não estão a reeditar os fatos do passado? Se a história é cíclica, ela se repete. Ficando claro e evidente que os fariseus e escribas de hoje continuam agindo e semeando a discórdia como faziam os seus antepassados. Todas as tiranias (as atuais e as de ontem) fazem parte da história de alguns indivíduos, ou grupos no poder, que se servem dos recursos da violência para inconscientemente exteriorizar os seus sentimentos mais animalescos.


Raciocinando bem, o tempo não passa; nós é que passamos por ele. O que vemos hoje como novidade, já foi no passado, como disse sabiamente o autor do livro de Eclesiastes (1:9): o que foi, isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há de novo debaixo do sol.”

Entra ano e sai ano, mas a caminhada implacável do tempo sempre é a mesma. O que notamos exteriormente em nós de mudança, são apenas as marcas visíveis e indeléveis que o tempo vai deixando em nossos corpos, à medida que passamos por ele. Em todo o tempo as virtudes, as vicissitudes e aflições são as nossas companheiras indissociáveis. Se nos despirmos dos trajes das representações no grande teatro da nossa vida de relacionamentos, e mergulharmos em nós mesmos, é que poderemos perceber os instintos mais rudes que estão escondidos lá no mais profundo do nosso ser, nesse tenebroso e escuro oceano chamado pelo pai da psicanálise de “inconsciente”. O apóstolo Paulo num dos seus profundos mergulhos em si mesmo, reconheceu que nele não habitava bem algum (Rom. 7:18). Para logo depois exclamar: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”(Rom. 7:24)


O homem criou fórmulas para encaixotar o tempo em calendários astronômicos e lunares. E numa tentativa de dar forma a mudança dos dias iguais, englobou o girar constante do tempo em semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios. Quis transubstanciar o vazio do nada, lhe dando “carne e ossos” para chamá-lo de “tempo”.


O nosso calendário não marca o tempo. Ele marca sim, os acontecimentos cíclicos, repetitivos de nossa vida de relacionamento, sob o rótulo de “história da humanidade”. Marca os fatos agradáveis e prazerosos. Marca também os fatos violentos, as guerras e conflitos que, na verdade, nada mais são do que as conseqüências nefastas das pulsões destrutivas que habitam as profundezas da natureza humana.


Muito embora saibamos que o tempo não passa, amanhã estaremos trocando de calendário. Não tendo o poder de interferir na rotação da terra, continuaremos embalados no carrossel do tempo, o qual nos fará circular pelos mesmos lugares, ouvindo os mesmos discursos e cantilenas, vendo as mesmas paisagens, o mesmo ceu e as mesmas cores.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 31 de Dezembro de 2008

29 dezembro 2008

DAS VAIDADES ÚLTIMAS

....[...]Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. (Eclesiastes 1:2)




Vaidade, sorrateiro sentimento do coração humano.
Tem às vezes aparência de uma virtude em excesso.
Mas o maior dos vaidosos, não admite a vaidade;
Não sabe que nasce com ela. E ela se acaba nele.
Até mesmo na humildade, ela está à sua espreita.
É a companheira sombria, misteriosa e esquisita.





De todas as paixões, é ela a que mais se esconde.
Até as ações mais pias, podem nascer da vaidade.
Quem tem não a conhece, tampouco a distingue,
É como espelho de grau que aumenta nossa forma.
É um instrumento que tira dos olhos nosso defeito,
Ao mesmo tempo expõe os defeitos que há no outro.





Das vaidades últimas, ela é vanglória antecipada,
Ao sermos despejados de volta solene à terra.
A vaidade está presente até mesmo na agonia,
Enriquecendo de adornos o pobre vil moribundo.
Como se na hora fatal, o morrer não fosse nada,
E o nosso mundo de coisas, pudéssemos conduzir.





Vaidades das vaidades. Em tudo está a vaidade.
Vaidade que se nota até nos últimos suspiros,
Ela está nas pompas frias da derradeira partida,
Está na lápide brilhante de um branco mausoléu,
Está nas letras inseridas na pedra fria marmórea;
Na suntuosidade do túmulo, a inspirar veneração.





É como um sonho infinito de desejo recorrente,
Encastelado no centro da moldura imaginária.
Até no nobre ataúde, a vaidade está presente,
Até mesmo na antevisão do nicho no altar-mor.
É nos mórbidos preparos da funesta caminhada,
Que o ser inconsciente desfruta a vaidade última.





Versos por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de Dezembro de 2008

27 dezembro 2008

BOMBARDEIOS NO NATAL DA TERRA SANTA




Hoje (27 de Dezembro de 2009), após o café da manhã, entro na internet, e deparo com o real natal da suposta terra santa Israel. A foto (acima estampada) mostra o violento e insano bombardeio, cometido ao ocaso da data em que se comemora o nascimento de Cristo. A triste notícia está em destaque no topo do site da UOL, encabeçada pelos seguintes dizeres: “Israel ataca faixa de Gaza em represália. Ao todo são cerca de 155 mortos, e mais de 300 feridos em estado grave".


Nessa época em que se deseja a “paz” entre as nações, por ironia, é justamente na terra em que Cristo viveu e pregou as “Boas Novas de Paz”, que o ódio e a vingança exalam os seus vapores mais bestiais. Para corroborar o que digo, leiam o que diz um trecho da recente reportagem:

“A organização Hamas pediu aos seus seguidores que 'vinguem pela força' os bombardeios israelenses na Faixa de Gaza".
"Pedimos que nossas tropas se vinguem pela força às operações do inimigo israelense" - conclamou o porta-voz do Hamas em uma mensagem difundida na emissora de rádio da organização.

Tudo isso que está ocorrendo lá na Palestina confirma a rejeição por parte desses povos em constantes atritos, de um dos pilares básicos do evangelho de Cristo, que preconiza o AMOR AO INIMIGO. Lá continua vigorando a máxima do Velho Testamento: “Olho por Olho, e Dente por Dente.”
Ainda bem, que na maior parte do mundo, o ódio e a vingança, se é que existem, andam camuflados, escondidos em algum recanto do coração humano. Aqui entre nós, esses sentimentos agressivos não se exteriorizam sob a forma de guerra de extermínio. Porém, talvez, eles se façam presentes nas palavras ditas e escritas por nós à respeito do outro que não comunga da mesma fé.


Por estar tão visível, tão perto dos nossos olhos, o ódio e a vingança entre Palestinos e Judeus se constituem uma coisa desumana, uma monstruosidade.


Israel quer impor a ferro e fogo a sua vontade sobre os palestinos através da coação, e vice-versa. Mas esse desejo de coagir o outro a viver ao nosso modo é simplesmente um desejo de “posse”, que por recusar a alteridade, transforma-se na própria negação da mensagem de Cristo.

A verdade de Cristo é uma verdade nômade, uma verdade que não tem terra nem lugar comum, por isso mesmo ela é a exclusão de qualquer possessão. O sentimento possessivo movido a ódio e vingança é como o lodo que contamina a água, e ele está na raiz de todas as guerras.


Mas fica a pergunta:


Será que no nosso cotidiano, de modo sutil, o ódio e a vingança não estão presentes em nossas ações e palavras?

Só poderemos responder adequadamente a essa indagação, após mergulharmos no mar sombrio e escuro de nosso inconsciente; lá no mais profundo abismo do nosso ser, onde talvez se abriguem lembranças inconfessáveis e crimes não ditos.



Crônica por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de Dezembro de 2009

24 dezembro 2008

PÚLPITO PARA AUTOMÓVEIS?! É O FIM




Nas minhas andanças pela internet, sempre estou visitando o blog “Púlpito Cristão” do meu cyberamigo Leo Gonçalves. No seu espaço do Google, ele posta suas denúncias sobre os descalabros e situações bisonhas preconizadas pelos senhores adeptos do Neo-neo-pentencostalismo, os quais vêm usando o púlpito (lugar sagrado) para fazer suas estripulias e aberrações em nome de um cristianismo de fachada. Sempre que posso, faço meus comentários de indignação e ponho no seu blog, no intuito de somar forças contra essa onda de anomalia espiritual que tenta solapar a credibilidade do evangelho de Cristo.

O que me levou a lembrar do irmão Leo Gonçalves e seu site “Púlpito Cristão”, foi uma reportagem que li recentemente na VEJA de 24 de Dezembro último, a cargo do jornalista André Petry. É coisa de estarrecer qualquer cristão, e vem lá do berço do neo-pentecostalismo. Lá dos EUA.
Todos sabem da crise atual que ameaça de falência as três gigantes da indústria automobilística americana.

Pasmem os senhores. Não é que na cidade de Detroit (sede da GM, da Ford e da Chrysler), uma igreja pentecostal colocou em cima do púlpito três carros utilitários, um da cada marca, para pedir proteção a Deus pelos fabricantes ( vide foto acima do texto). Tudo realizado de uma maneira “solene” ao som do hino: “Em Busca de um Milagre”. É trágico e ao mesmo tempo cômico essa esdrúxula situação a que chegou o evangelismo espetaculoso e imediatista dos EUA. Um total desrespeito com aquilo que outrora era um lugar sagrado (“o altar”, como diz a reportagem).

Não posso deixar de mencionar aqui o que se passou por minha imaginação, ao ler tamanha monstruosidade. Como deve ter sido essa oração ante os reluzentes carros O Km. Penso que foi mais ou menos assim:

“Senhor meu Deus, nós queremos continuar com nossos carrões. Eles nos dão status e visibilidade. Não importa Senhor, que eles sejam poluidores e causadores de mortes violentas. Não importa que eles desumanizem as cidades e façam muito barulho. Não importa que eles sejam inimigos da saúde, pois estimulam a obesidade. Mas Tu sabes Senhor que o que é bom para os EUA, é bom para Ti. Portanto salva a GM. Salva a Ford e salva a Chrysler”. Amém.

Bem, não quero me estender muito sobre esse tipo de oração. Fica ao critério do leitor, através de seu comentário, acrescentar mais dados sobre como poderia ter sido essa prece automobilística.

Já que as grandes metrópoles estão sendo engolidas pelos automóveis em fenomenais engarrafamentos (caso de São Paulo), não seria mais sensato pedir a Deus uma outra alternativa de emprego para os fiéis que trabalham nessas fábricas?

Pelo andar da carruagem desse vergonhoso neo-pentecostalismo, logo logo, aparecerão por essas bandas, templos com heliportos e grandes garagens para carretas. Aliás, no futuro ─ talvez não veja, pois já estou com sessenta e dois anos de idade ─ muitos templos serão substituídos por “mega-shoppings” de Deus.

Nesse momento de tanto escândalo, quero fazer meu, o velho refrão de Boris Casoy: “ISSO É UMA VERGONHA!!!”.


Crônica por Levi B. Santos
Guarabira, 24 de Dezembro de 2008


13 dezembro 2008

O NATAL ARTIFICIAL DE SEMPRE




É Dezembro, aproxima-se a festa magna da cristandade. Aqui em minha cidade de pouco mais de sessenta mil habitantes, o barulho ensurdecedor dos apelos comerciais natalinos invade sem pedir licença os nossos lares. A cidade normalmente calma e pacata transforma-se em um verdadeiro caos. Alto falantes despejam seus decibéis em excesso, afetando os nossos tímpanos. Camelôs gritando a plenos pulmões oferecem as suas bugigangas eletrônicas ao som de batidas de sinos e músicas natalinas em ritmo de axé. Farmácias superlotadas de pessoas a comprar tranqüilizantes e analgésicos para sanar as suas insônias e dores de cabeça. Clínicas e Hospitais a receber pessoas com pressão alta e crises nervosas. Lojas e supermercados com filas enormes de mulheres, velhos, rapazes e moças com as mãos abarrotadas de compras. Muitos enfrentando um calor insuportável, com as faces a espelhar ansiedade, não atentam para o sacrifício inútil do consumismo irrefreável de que são vítimas. Outros aparentemente satisfeitos desfilam por corredores carregando as apetitosas guloseimas para as suas tradicionais ceias de Natal.

O Natal de Cristo foi enfim transformado na principal mola propulsora de vendas do comércio, em consonância com a música de fim de ano, enfadonhamente cantada, cujo final da estrofe diz: “muito dinheiro no bolso. Saúde p’ra dar e vender”.

O espírito artificial natalino se faz a cada ano mais presente no coração do povo. Pelas emissoras ecoam os gastos jargões ditos e repetidos, na voz pausada, impostada e fingidamente solene dos locutores: “A associação dos lojistas agradece aos compradores e deseja-lhes um feliz natal e um próspero ano novo”.

O termômetro para medir esta espiritualidade, são as vendas estratosféricas realizadas pelo comércio. No final dizem: “o natal desse ano foi melhor que o do ano passado, pois vendemos 15% a mais”. É quase impossível resistir ao marketing das “ofertas” de produtos natalinos. Muitos contraem dívidas e mais dívidas, iludindo-se com os parcelamentos oferecidos com juros embutidos que vão corroer os seus parcos salários pelos próximos 12 meses. E ainda dizem: “valeu o sacrifício”, como se estivessem rememorando o autêntico natal de Cristo.

O pressuposto da mentalidade ocidental de que tudo que se produz deve ser consumido, característica de nossa cultura, encontra nessa data o seu apogeu. Dessa forma, a consciência mercantilista, a cada ano, vem impulsionando milhões de crianças, jovens e adultos a ouvir a mesma ladainha, de que devem adquirir passivamente tudo que é oferecido, a fim de comemorar "dignamente" o Natal de Cristo.

O deus “Mamon” do comércio agradece o aparecimento do Messias de dois mil e anos atrás, fazendo votos de um próximo natal ainda melhor.

Que paradoxo! Cristo veio trazer a Paz, e o povo escolheu esse “frenesi” caótico do TER, que se prolonga por todo o mês, culminando no dia magno da cristandade. As Boas Novas de paz para os homens, nessa época, vem sendo substituída por um espetáculo consumista e hedonista, que por instantes, encantam os olhos e entorpecem os corações. Quem quiser saber as conseqüências nefastas desse Natal Artificial que visite os hospitais após os festejos. Lá encontrará quase todos os leitos tomados pelos que se excederam nas comemorações. Não foi à toa, que um estudo recente do Hospital de Boston nos EUA revelou que os casos de infarto de miocárdio chegam a aumentar em quatro vezes, na época do Natal.

É nos dias que antecedem a esta festa, que a tranqüilidade vai às favas. As ruas são transformadas em um caldeirão fervente de balbúrdia e correrias sem sentido. As nossas cidades, nessa época, não diferem muito da atual Belém da Judéia, cujas ruas e vielas ficam tomadas por um formigueiro de gente de todas as nacionalidades, que ali vai adorar mais ao deus “Mamon”, que ao Deus Cristão.

O verdadeiro Natal, quem sabe, talvez esteja acontecendo longe das mesas repletas de guloseimas e vinhos. Lá, distante do burburinho da cidade engalanada, sem os efêmeros atrativos natalinos, talvez exista um casal pobre em andrajos necessitando de socorro. Talvez exista um pobre marido com um saco às costas, a segurar as mãos de sua esposa grávida em dores de parto, repetindo a odisséia de Maria e seu esposo José, os quais, não encontraram estalagem em sua própria cidade, tendo que se acomodarem em uma humilde e suja cocheira, com animais como bois e jumentos a servir de companhia.

Mas enfim, que Natal é este, que os da cidade coloridamente iluminada comemoram? Na certa, comemoram a maior festa profana da antiga Roma, em homenagem ao Deus "Sol", que originalmente ocorria no dia 25 de dezembro.

Até quando, vamos ficar subjugados a uma comemoração, que serve mais aos apelos comerciais e carnais do que aos espirituais?

As “Boas Novas” que o anjo anunciou com o advento de Cristo, se forem bem entendidas, devem ser vividas diuturnamente, e não apenas numa data inventada unicamente para usufruto do mundo pagão.




Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de Dezembro de 2008

04 dezembro 2008

CAMELÔ DE AMULETOS



A “ortodoxia religiosa imediatista” tem aprisionado Deus em uma instituição. Na tentativa de vivenciá-Lo, continua a se adotar uma série de ritos, tradições e sacrifícios. Esquece-se que não podemos limitá-Lo, pois Ele através de sua palavra se tornou nômade, exorbitando o espaço exíguo e petrificado dos conceitos idólatras. Os horizontes curtos dessa visão ritualística e comercial não permitem entender o sentido de um Deus feito homem.


O cristianismo de fachada, à maneira de um judaísmo disfarçado, tem enveredado por caminhos nunca dantes navegados. As subdivisões institucionais religiosas ditas cristãs são tantas, no intuito de abarcar o “sagrado”, que as pobres almas com sede de justiça, se sentem desorientadas, sem saber onde encontrar guarida, ouvindo de todos os lados mensagens as mais estapafúrdias e inimagináveis, pelo rádio, jornais, televisão e carros de propaganda, que mais parecem a gritaria louca dos camelôs a oferecerem os seus produtos em meio ao tumulto das feiras.



Algumas almas aceitam as “verdades” apelativas, dirigidas a elas através de ameaças apocalípticas. Outras, à procura de alívio para as suas doenças, adquirem até sabonetes fabricados com gorduras derretidas de ovelhas de Israel, que lhes são oferecidas publicamente pelos supostos guardiões de Deus. Areias do deserto da “terra santa” são comercializadas, a fim de serem espalhadas pelos cômodos das casas, para afastar maus fluidos. Frascos com águas do rio Jordão, para pingar entre as pálpebras, a fim de tirar a concupiscência dos olhos, entre outras cavilações, que em respeito aos de boa índole, deixamos de mencionar. Executam enfim uma paródia ordinária; abusando dos elementos fascinantes do judaísmo arcaico. É em meio a esta banalização do “sagrado”, que nos vem à lembrança, um Cristo indignado a expulsar os vendilhões do templo.



Em analogia ao que ocorria no antigo templo, comercializam réplicas de símbolos judaicos, com supostos poderes de afastar espíritos imundos, à semelhança dos amuletos usados no mundo pagão, enganando multidões de incautos.


Este horrendo espetáculo teatral vem transformando o que resta do cristianismo primitivo, em uma mera comédia, que a cada representação, comprova a irreconciliabilidade da mensagem dos evangelhos com os “pressupostos simbólicos” do Judaísmo ortodoxo.


Encerro este breve ensaio com as palavras iniciais de Paulo, em I Timóteo 6.11: “Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas...”.




Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 03 de Dezembro de 2008

02 dezembro 2008

DUAS CENAS DE UMA TRAGÉDIA




Duas cenas comoventes da tragédia que se abateu sobre Santa Catarina, captadas pelas lentes dos repórteres da TV Globo e apresentadas no programa “Fantástico” de Domingo (dia 30 de Novembro) levaram-me à reflexão sobre os meandros da alma humana em ocasiões de grandes perdas.



Foi mostrada uma grande quadra de esportes repleta de desabrigados, cujos únicos pertences que podiam ser notados, eram um colchão e um cobertor para cada pessoa. Ali estavam seres humanos de coração despedaçados que perderam seus parentes, perderam suas casas, seus móveis, seus projetos e seus muitos anos de trabalho. Pude constatar em seus rostos, a resignação ante a fúria da natureza, que levou de roldão todo o fruto do seu suor. Todo o sacrifício despendido em construir suas vidas durante anos a fio tinha se reduzido à lama, em questão de poucas horas.


Mas, o que mais me impactou foram dois momentos distintos focalizados pela câmara do repórter. Primeiro foi mostrada uma criança de seus cinco ou seis anos de idade visivelmente abatida, de pé sobre o seu colchão. Tinha um olhar desapontado e vazio do desamparo. Pude perceber nos seus olhos a solidão e um ar de incompreensão, como se estivesse a perguntar sem obter resposta, sobre o “porquê” de tanta dor. Não demorou mais que trinta segundos, e eis que a câmera focaliza uma outra cena que contrastou com todo o cenário de sofrimento do primeiro ato que estava assistindo. Ali, bem juntinho à circunspecta criança de olhar triste e melancólico, estava um senhor da terceira idade sentado sobre o seu colchão, brincando com uma criancinha de mais ou menos três anos de idade, que bem poderia ser sua neta. Por incrível que pareça, esse adulto e sua pequena criança, em meio àquela constrangedora situação, encontraram forças para esboçar um riso. Mesmo que tenha sido por dois ou três segundos, eu os vi sorrindo. Esta última cena captada pelas lentes do exímio repórter, me trouxe um grande alento, renovando as minhas esperanças na raça humana e na sua capacidade de superação.


Nos dois momentos distintos daquela tragédia, encontravam-se ali lado a lado, a tristeza e a superação. Na face da criança da primeira cena, visivelmente estampados estavam os sentimentos da solidão e do desamparo .

Na segunda cena, o pai ou avô e sua criancinha refugiavam-se na fantasia do brincar, que como consolo, diante de uma cruel adversidade, as fazia sentir algum raio de felicidade. Talvez, ali, de mãos vazias, tendo por chão apenas um colchão, eles estivessem comemorando o milagre da vida, o milagre de terem escapado.


Naquela noite, a cena registrada pelo repórter da Globo focalizando o exato momento em que o idoso e a sua criança nos braços esboçavam sorrisos em meio a tanta dor, me fez lembrar do Italiano Roberto Benigni. Este cineasta, através do seu filme “A VIDA É BELA”, usou todo o seu imaginário e, mesmo preso num campo de concentração, conseguiu juntar forças para mostrar ao seu pequeno filho, que valia a pena viver, mesmo cercado pelo terror e a violência.


Que os descendentes dos colonos Alemães do Dr. Hermann Blumenau, que há 160 anos se instalaram nas escarpas e vales à margem do rio Itajaí-Açu, reconstruam o que foi desmoronado, imbuídos do mesmo propósito, do mesmo espírito dos seus antepassados, que do nada fizeram surgir a tão bela e acolhedora Blumenau.

Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 02 de Dezembro de 2008





26 novembro 2008

ÍNTIMA COMPAIXÃO versus MERCADO GOSPEL




Foi uma oração lida recentemente por acaso, na Internet, que me levou a escrever este ensaio. Há muito tempo já vinha refletindo sobre o “amor” interesseiro, sobre o amor condicionado a determinados paradigmas, que se tornaram jargões no meio evangélico. Percebi no meu meio de convivência a quase unanimidade expressa naturalmente através da seguinte assertiva: “Se não fosse a promessa do céu, e o medo de ir para o inferno, eu estaria no mundo gozando o que ele tem de ‘bom’, estaria ‘pintando e bordando’ ”, como se diz na gíria popular.

A bela e significativa oração de Rabia (mulher Iraquiana - 800 DC), resumiu para mim tudo que eu sempre queria dizer, que há tantos anos estava latente dentro de mim, e eu não conseguia passar para o meu interlocutor, pois não tinha sabedoria ou palavras para expressar convenientemente essa “Grande Verdade”. Algumas vezes que tentei expressar o meu ponto de vista sobre este tipo de “amor” que para existir necessita de uma troca, fui muito mal compreendido.

Gostaria que todos, sem exceção, deixassem as resistências ou parcialidades de lado, para refletir de forma acurada sobre o alto valor metafórico implícito na oração que se segue:

"Se eu te adorar por medo do inferno, queima-me no inferno. Se eu te adorar pelo paraíso, exclua-me do paraíso. Mas se eu te adorar pelo que Tu és, não escondas de mim a Tua face”. (Rabia 800 D.C.)

Imediatamente após ler essa interessante e sábia oração, me veio à lembrança a Parábola do “Bom Samaritano”. A oração de Rabia trouxe para bem perto de mim a figura do Samaritano (excluído da sociedade). Samaritano, como os demais, considerado por muitos como um ser da pior espécie. No entanto, moveu-se de “ÍNTIMA COMPAIXÃO”, porque não dizer “AMOR” prestando imediato socorro a um homem que havia sido assaltado, despojado e espancado, e que jazia quase morto a beira da estrada (Lucas 10: 30 à 37).

Não me passa, nem nunca passou pela minha cabeça, que aquele ato de AMOR executado pelo Samaritano estivesse vinculado a alguma coisa em troca. O samaritano excluído e marginalizado viu naquela cena a imagem de si próprio refletida no espelho de sua consciência.

Não! Não! Não tenho nenhuma dúvida, que se houve uma oração por parte do “Bom Samaritano”, foi uma oração idêntica à inspirada por Deus no coração da sua serva “Rabia”.

Amor ao próximo é a maior prova de adoração a Deus (quem fizer a um desses a Mim o faz). Sim, é possível amá-Lo sem pensar em recompensa ou castigo ─, que me perdoe o meu irmão Paulo de Tarso.

Mil vezes acreditar nesse tipo de amor (do Bom Samaritano), do que se render ao “amor” que barganha, que busca os próprios interesses, através de um “pragmatismo gospel” que mais parece um MERCADO de coisas, supostamente apresentadas como sagradas.
Esse espírito de mercado vem de muito longe, pois os filhos de Zebedeu, à época de Cristo, queriam negociar o Reino de Deus, pedindo assentos à direita e à esquerda do Seu Trono. Cuidavam que se devesse servir a Deus por algo que não é Ele mesmo.

Em resumo, a história do “bom samaritano” se converte hoje naquilo de mais emblemático que Cristo deixou para os que querem entender que no relacionamento humano, o AMOR não pode estar atrelado a CONDICIONAMENTOS ou TROCAS. ELE É DE “GRAÇA” MESMO.

A compaixão, de que foi portador aquele samaritano foi espontânea e íntima. Compaixão que não tem esses atributos é pura exibição ou representação. E como qualquer representação, está presa aos falsos valores das estratégias mercadológicas.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 26 de Novembro de 2008

06 novembro 2008

OBAMA ─ ARAUTO DA ESPERANÇA OU DA ILUSÃO?



“Com a recentíssima eleição do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, os americanos renovam seus sonhos e remoçam suas esperanças no verdadeiro “sonho” americano, propalado no passado pelo reverendo Martin Luther King.

Barack Obama não representa somente a vitória sobre o racismo velado de hoje em dia, que encobre as atrocidades do passado, nem tão pouco a ascensão do menino negro e pobre da periferia lutando contra um sistema injusto e excludente. É a vitória do novo contra o velho, a vitória do vanguardismo idealista-progressista contra o conservadorismo arcaico e provinciano do pensamento Republicano. Obama é mais do que o mundo esperava em seus mais lindos sonhos. Obama é a oportunidade mais certa e perfeita no corpo de um homem, a chance mais concreta que os norte-americanos têm de se reconciliarem com o mundo, o momento azado para fazer as coisas certas, no momento propício.

Barack Obama acena como um pequeno fio de esperança que pode ressuscitar os ideais democráticos americanos mais longínquos, esquecidos desde a época da Declaração de Direitos, perdidos na noite do tempo. Obama pode, e tem plenas condições de mudar a forma e orientação política com que a os americanos conduzem os seus laços internacionais com a comunidade internacional, deixando de lado a arrogância monologal americana e repensando as posições arbitrariamente unilaterais que marcaram o governo Bush, no que diz respeito á guerra no Afeganistão e no Iraque, e no que tange as questões ecológicas que versam sobre o aquecimento global e a poluição, podendo rever a sua posição em relação aos tratados. Obama é ainda um sopro de vida para os pulmões tão violados dos Direitos Humanos, e até mesmo pela sua origem humilde e formação humanista, representa um “sinal” de bonança para Cuba, e para por um fim no absurdo de Guantánamo. A vitória de Obama é a vitória da democracia, do multiculturalismo, do diálogo, do pensamento, das idéias, do progresso, do moderno, do humanismo. Obama representa a possibilidade de mudança no diálogo da nação mais poderosa do mundo com o próprio mundo. É como se os americanos agora tivessem a chance de verbalizar suas idéias no mesmo idioma do mundo inteiro. E dependendo dos seus posicionamentos, sendo ele, o homem mais influente e importante do mundo à frente da “máquina americana”, pode influenciar a política mundial, interferindo significativamente na orientação das políticas internacionais em relação às nações subdesenvolvidas e a questão da pobreza e da miséria na África, Índia, etc., pode mudar o foco do pensamento ocidental sobre os grandes problemas do nosso mundo pós-moderno.

Portanto, saudemos a esse jovem negro idealista, que chega à Casa Branca como o arauto benfazejo da esperança em dias melhores, dias tão intensamente almejados por um mundo sedento de Paz e Justiça”


(George Bronzeado)

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O emblemático e empolgante texto acima, relatando os ecos da vitória de Barack Obama, partiu da pena e do coração de um jovem sincero da pós-modernidade, moço já experimentado às asperezas da injustiça que campeia tanto na política, como na economia da maior nação do planeta que vem tomando, de há muito, a responsabilidade de reger os destinos do mundo ocidental e parte do mundo oriental.


Não queria por água na fervura dessa geração que vem depositando tantos anseios, tantos projetos de vida por um mundo melhor com a eleição recente de Barack Obama. Quisera eu ter a mesma ênfase, e a mesma esperança. Porém, no coração cansado de um velho pai, de 63 anos de idade, reverbera um sentimento de frustração imprimido por antigos sonhos inacabados, que se tornaram projetos infinitamente adiados. Na cabeça desse velho estão bem vivas as lembranças de Getúlio Vargas (o defensor do pobre?), de Jânio Quadros (a vassoura que varreria a imundície do país?), de Collor de Melo (o caçador de Marajás?) e mais recentemente LULA e sua turma do “sem medo de ser feliz”.


Assim como aconteceu com Obama lá no hemisfério norte, ocorreu com o nosso atual presidente. Ambos vieram das camadas paupérrimas de um sofrido povo. Para mim e para muitos, a eleição do propalado torneiro do ABC paulista, traria a redenção e a moralização do país, e deu no que deu. Não haveria pessoa melhor para resgatar a moralidade do que aquela que vivenciou as maiores agruras no esturricado e infértil sertão Pernambucano. A esperança que os Americanos hoje depositam em seu novo presidente, foi a mesma que depositei em um homem de dores, acostumado a sentir na pele o peso da miséria, da fome e da exclusão. E o que vi, foi uma monstruosa máquina espoliadora triturar tudo de bom que tinha imaginado, fazendo-me baixar a cabeça, e ter vergonha de ser brasileiro, diante de escândalos nunca antes imaginados.


Assistindo no momento a euforia generalizada em torno de um jovem negro assumindo o trono da maior e mais poderosa nação do mundo, me vem a grande pergunta: “O que fará por uma nação que se diz cristã, um homem de uma raça que, apesar dos ventos do progresso, vem sendo duramente castigada e injustiçada há séculos?". Vejam o que ocorreu com os habitantes de Nova Orleans em sua recente tragédia , que como fruto de uma proposital incompetência foram abandonados ao Deus dará, pelas próprias autoridades.


A engrenagem de uma máquina que privilegia o capital em detrimento dos que nada têm, por acaso aceitará em seu mecanismo insano, um Obama decidido a reparar injustiças, a ressuscitar a ética e a honestidade na coisa pública? Ou será simplesmente ele, uma voz no deserto a clamar como João Batista: “arrependei-vos...”.


Ao ver jovens alegres, cheios de ufania, batendo no peito e gritando “Obama, a esperança”, me refaço, me recomponho, procurando não deixar transparecer o desânimo e a decepção que me persegue. De longe, mesmo tocado pelo ceticismo, fico torcendo para que os “Herodes” do mundo globalizado não destruam mais um grande sonho da juventude americana sedenta de justiça.



Levi Bronzeado dos Santos

Guarabira, 06 de Novembro de 2008

03 novembro 2008

LÍRIOS PARA MORTOS E VIVOS



Dia de Finados. A nossa principal praça amanhece multicolorida de flores, contrastando com vestes de cores variadas de pessoas que se espremem, a fim de adquirir ramalhetes destinados a ornamentar os túmulos dos entes queridos que hoje vivem em um outro mundo totalmente desconhecido de nós, os ainda vivos.

As flores que eu vejo nesse dia são flores mortas, de pétalas com pálido brilho, cujo viço artificial é mantido por gotículas de água jogadas de instante a instante por ávidos vendedores. Flores que foram arrancadas cuidadosamente de seus caules para serem trocadas por moedas, que por sua vez serão transformadas no pão farto do mês de Novembro, na mesa dos ambulantes desse mercado espetaculoso de variadas cores e suaves perfumes.

Não sou adepto das flores ornamentando ritual de festa fúnebre. Acho que as flores nasceram para serem apreciadas no seu próprio habitat, que são os campos. Lá, elas são mais vivas, são mais belas, mais misteriosas, mais inspiradoras. O Mestre dos Mestres apreciava mais os lírios, não atados com fitas, nem enfeitando túmulos. Observando atentamente os lírios no campo, Ele foi inspirado a construir uma metáfora, que passados dois mil anos, ainda repercute entre nós, de maneira marcante. Metáfora esta, que serviu de tema a Érico Veríssimo no seu inesquecível livro, “Olhai os Lírios do Campo”.

Dia de Finados é um dia triste, mesmo tendo monte de lírios e muita gente ao redor. Na minha mente um contraste fala mais alto, pois vejo na imaginação, Cristo,tendo ao seu lado uma multidão, e logo ali a sua frente uma plantação de lírios até se perder de vista, no horizonte. Vejo-O parando e observando meticulosamente os lírios flutuantes ante o sopro de uma brisa suave. Vejo-O observando também a multidão preocupada com o que havia de vestir. Vejo-O respirando fundo e falando poeticamente:
“Aprendei com os lírios do campo, como crescem, não trabalham e nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em toda sua glória, se vestiu como um deles”.

Dei uma última olhada na praça de minha cidade e saí para minha casa, deixando atrás uma multidão bem vestida, tendo às mãos flores em sua maioria brancas, que bem poderiam ser, quem sabe, “lírios do campo”.
Mais tarde, tive a impressão de ver muitas pessoas cabisbaixas balbuciando preces inintelegíveis, enquanto outras impassíveis e com o olhar vazio, contentavam-se em observar ramos de lírios murchos deitados sobre uma lápide fria.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 03 de Novembro de 2008

24 outubro 2008

SALVA PELO ECLIPSE




Era sempre naquele intervalo de tempo, entre o final do almoço e o início da sesta que, assim meio a esmo, surgia um tema para ele e sua velha e cansada mãe discutirem juntos, enquanto palitavam os dentes. Ultimamente, ele vinha sempre perguntando sobre fatos relevantes da história pregressa de seus pais, no intuito de estabelecer um paralelo entre a mentalidade das duas gerações. Porém, nesse dia foi ela quem lhe dirigiu os velhos e surrados conselhos que costumava desfiar em ocasiões de dificuldades no meio da família: “olhe meu filho, está na hora de você voltar para a igreja, e se entregar a Jesus. Esse mundo não tem nada mais a lhe oferecer. De uma hora para outra a gente vai embora dessa terra, e o que será de você, sem a certeza da salvação?”.

Nesse dia ele resolvera explorar o tema “salvação”, em conversa com a sua mãe. Após alguns segundos em silêncio, resolveu fazer a primeira pergunta, enquanto molhava a língua com a colherinha cheia do caldo grosso da salada de frutas grudada no fundo da taça. Respirou fundo e perguntou:

─ Como foi a sua salvação mãe, ou melhor, o que fez a senhora procurar a igreja?

─Ah, meu filho. Eu morava no sítio Várzea Grande, quando mais ou menos lá para as três e tanto da tarde, o mundo começou a escurecer. De repente, em pleno dia, as galinhas e os galos começaram a subir nos poleiros. Anoiteceu rapidamente, e eu ouvia os crentes todos alegres orando alto e dizendo que era o fim do mundo, era a vinda de Cristo, e quem não fosse salvo não iria para o céu. Meu filho, eu disse “perna pra que te quero”, e corri desabaladamente para o local onde os crentes estavam reunidos, gritando: “eu também quero ir com vocês, quero ser crente”. Fui me proteger debaixo do teto onde todos estavam unidos de mãos para cima em um só pensamento, aguardando só a hora de ser arrebatada. Depois de alguns minutos o dia foi se tornando claro de novo, e tudo ficou normal. Depois fiquei sabendo que tudo tinha sido obra do tal de “eclipse”.

O filho, no entanto, insiste diante da mãe, dizendo que ela não tinha ainda revelado o sentimento cristão que ocasionara a sua conversão, e ouve dela a frase óbvia:

─ Meu filho, não se faça de burro! É claro que foi o “medo”, que me fez tomar a decisão de ser crente. Eu nem precisei ouvir palavra nenhuma, para me tornar uma pessoa "salva". O medo do fim do mundo me fez correr para a igreja. Chegando lá eu disse: eu também quero ir para o céu junto com vocês. E estou aqui até hoje, graças a Deus.

O filho querendo suscitar na mãe uma maior reflexão acerca dos detalhes narrados em sua conversão, inquiriu-a dessa forma:

─ Quer dizer que o “eclipse” lhe salvou? E onde fica Jesus nessa história toda?

A mãe antevendo aonde o filho queria chegar, muda de assunto e fala em tom de repreensão:

─ Olhe meu filho, aí é onde está todo o seu 'atrapalho'. Você nesses seus estudos, tudo quer saber. - Sabe do que eu tenho medo?

─ Medo de que mãe?

─ De tanto tu estudar, ficar como o filho de Olegário, que leu demais e ficou doido.

A essa altura, ele sabia que não adiantava ir mais além. Afinal, sua mãe além dos 82 anos de idade, era hipertensa e cardíaca e, ele não devia puxar muito pelo seu juízo. Terminou a entrevista para evitar uma dor de cabeça na velha, e saíu para a “sesta” na velha rede do quarto de visita. Lá ele continuou com os seus botões a refletir sobre o tema “salvação”. Deu asas a imaginação, chegando à conclusão de que cada pessoa tem a sua maneira peculiar de relacionamento com Deus. As “boas novas” de salvação da sua mãe, a seu ver, tinha sido o aterrorizante “eclipse”, que a fez decidir-se através do medo. Ainda tão moça, passou a viver em função do seu maior anseio: a vida após a morte, o “céu” de delícias, sem dores, sem eclipses e sem medo.

Enquanto esperava o sono, balançando-se em sua rede na penumbra do quarto, o filho lembrara-se de um trecho do que dissera Cristo na sua filosófica e sábia oração, descrita assim no livro do evangelista S. João: “Ora, a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. Ele entendia que nessa emblemática parte da prece dos Mestres dos Mestres, estava todo o esteio das “Boas Novas” do evangelho. Dessa forma, o gozo da “salvação” ─ a “vida eterna” ─ já seria experimentada “aqui e agora”, não se restringindo apenas a uma vida sem fim, após a morte.

Enquanto a sua mãe cantarolava na cozinha lavando os pratos e talheres, ele chegara à conclusão de que o mais enriquecedor seria, em vida, conhecer a mensagem salvadora, cuja essência não está atrelada a cataclismos como eclipses, terremotos e outros vendavais. A condenação eterna, essa sim, seria ter que continuar nas trevas da ignorância, ou seja, continuar cego para o conhecimento da Luz que está em Cristo.

Entre um cochilo e outro, forçando um pouco o ouvido, dava para ele ouvir o estribilho do hino que a sua mãe continuava a cantar, navegando num mar de louças e caçarolas em sua cozinha. Ele ouvia a sua vozinha fraca e um pouco desafinada dizendo assim bem no final da estrofe: "Aqui na terra nada mais almejo. A vida eterna eu terei lá no céu".

Ao escutar o estribilho do saudoso hino repetidas vezes, chegara a pensar que sua mãe ainda continuava a viver na escuridão do eclipse solar de sua mocidade, mas depois entendeu que "Salvação", "Vida Eterna" e "Condenação Eterna" tinham conceituações que realmente não encaixavam no entendimento dela.

Pressentindo que a linguagem de sua mãe era outra, ele decidiu sensatamente não tocar mais no assunto.
Sabia de antemão que ela tinha outros valores diferentes dos seus; certamente, em sua relação simbólica com o Divino, o medo do fim do mundo transmutado no fatídico "eclipse" fora a causa de sua "redenção". Onde entraria aí a "salvação pela graça" , ele não tinha a menor idéia. Refletindo melhor, entendeu que não adiantava questioná-la, ainda mais sabendo-se que a multiface de Deus é infinita, e cada um tem o céu que imagina, em conformidade com o velho ditado: "em cada cabeça um mundo".



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 24 de Outubro de 2008

22 outubro 2008

COMPRIMIDOS PARA REFLEXÃO

.................(Pensamentos por: Levi B. Santos)


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“Cada um de nós guarda em silêncio um mundo perdido, do qual, temos uma tênue imagem ao observarmos atentamente uma criança”.



“LIVRO ─ Uma caixa de sementes a espera de uma terra fértil para germinar”


“Como tratar os diferentes. Tornando-os iguais a nós, ou aproveitando o que neles nos é estranho para aprendermos mais?”.


“Quando morremos, o que fica não é o que imaginamos que somos, e sim o que os outros imaginam de nós”.


“No céu de nossa existência expulsamos anjos caídos todos os dias”.


“O ofício de escrever é movido pela necessidade da alma, e não do bolso”.


“A fé me faz alçar vôos altíssimos. A razão me puxa para baixo a fim de manter meus pés no chão”.


“REFLETIR ─ é dar uma lufada de ar nos pensamentos”.


“O encontro entre as pessoas, mesmo o mais simples dos contatos, reverte-se mais em possibilidades de ganho do que de perda”.


“É nesse ‘estranho’ familiar que provoca dissensões, onde reside a minha própria verdade recalcada”.


“A vida é um incessante avaliar crítico daquilo que temos nos tornado”.


“A pressa turística de um rosto, nos insere em um mundo de terrores e maravilhas que animam nosso cotidiano”.



10 outubro 2008

GRAÇAS PELAS DIFERENÇAS




Obrigado ó Deus, por este corpo em bela harmonia.
Tantas células, tantos órgãos com tecidos diferentes
Estão sempre funcionando em uma perfeita sintonia,
Levando-me a pensar na convivência entre as gentes.



Te agradeço, teres me dado tantos entes diferentes,
E que naquelas diferenças em que tanto discordava,
Vi certos valores que em mim não estavam presentes
Estimulando-me a paciência de ouvir, pois só falava.



Sou grato por meu fracasso, em querer um só pensar.
Descobri que era só vaidade de uma mente obstinada.
Aquele ser que combatia, hoje vejo com outro olhar;
Não compreendia o outro, pois tinha visão obcecada.



Exatamente o contrário do que pensava aconteceu,
Pois aonde eu via covardia, já não vejo mais assim.
Via uma ação diabólica, mas eram os dedos de Deus,
Abrindo mais os meus olhos para ver dentro de mim.



Grato a Deus nestes versos, por todas as diferenças,
Se tudo fosse unanimidade, o diálogo não existiria,
Renovei o entendimento, e abandonei certas crenças:
De ver no outro um inimigo; julgando-o me defendia.


Versos por: Levi B. Santos
Guarabira,10 de Outubro de 2008

22 setembro 2008

NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos. (Isaías 55: 8)



........................Flutuar
......................No etéreo
........Movimento contínuo de asas
..............Exaltar teus sentidos
.....................CORPORAIS.

.....................Pensamentos
..................Transcendentes
.......Que consolam e fazem sonhar
...............Tal cantiga de ninar
.......................APAZÍGUA.


........................Mergulho
.................... ..No infinito
.........Do imaginário céu das idéias
.............Ilusões, contos d’além
........................IRREAIS.


........................A imagem
.......................Do Sagrado
........Imperfeita, porque és humano
...............O imortal é sem formas
......................IMPENSÁVEL.


.......................Impossível
......................O outro lado
......Da essência e linguagem dos anjos
..................És carnal e és barro
.......................ATERRISAS.



.....................Por: Levi B. Santos

13 setembro 2008

A COMÉDIA DOS PODERES À BRASILEIRA



A panacéia de comicidades que acontece entre os poderes da República do nosso país, nos faz lembrar de fatos ocorridos há duzentos anos, por ocasião da chegada de Dom João VI e sua “troupe” ao Rio de Janeiro. Naquela época deu-se o início da interminável comédia que dura até hoje, no grande teatro chamado Brasil. Aliás, é no presente momento, que com outros coadjuvantes, ela atinge o seu auge de “ópera bufa”. Somos os súditos remanescentes daquele tempo de colônia, cuja maioria dos nativos assistia a tudo sem entender nada. Há dois séculos, os habitantes das terras de Santa Cruz foram obrigados a ver passivamente a degradação dos costumes trazida por uma rainha louca, um rei medroso e uma corte corrupta.

O livro 1808 (lançado em 2007), de Laurentino Gomes, traz um retrato fiel do que foi aquela época, em que os nossos primeiros atores vindos do além-mar deram início a essa trágica-comédia, que hoje, com ingredientes mais picantes, tempera o caldo de nossa triste herança cultural. Dois versos popularmente conhecidos, da era imperial, que faz parte desse denso e significante livro, traduzem mui apropriadamente o sentimento daquele tempo, que não é diferente do de hoje. Vejamos:


Quem furta pouco é ladrão
Quem furta muito é Barão
Quem mais furta e esconde
Passa de Barão a Visconde.

Furta Azevedo no Paço
Targini rouba no erário
E o povo aflito carrega
Pesada cruz ao calvário.



Um capítulo recente dessa comédia foi comentado exaustivamente através dos meios globalizados de comunicação (Rádio, TV, Jornais, e Internet), sendo também motivo de piadas, risos, medos e indignação. Entre outros, este episódio recente, sem sombra de dúvida, ficará registrado na história rizível desse gigante e eternamente adormecido país. Não sei, mas o negócio é tão absurdo, que fica até difícil descrever a hilariante barafunda em que se atolaram os nossos principais atores dos poderes veneráveis da República, quando da prisão cinematográfica do megainvestidor Dantas pela Polícia Federal.
Do que foi veiculado pela imprensa, naquilo que bem poderia ser chamado de a versão brasileira da “Comédia dos erros” de Shakespeare, extraí esta emblemática e chamativa manchete: “O Presidente anunciou que a Polícia Federal vai investigar a ABIN (agência brasileira de inteligência), que colaborou nos grampos telefônicos a pedido da polícia Federal, que agora vai tentar prender os arapongas da ABIN, que fizeram um grampo contra o ministro do STF, que mandou soltar o grampeado Dantas, que a Polícia Federal mandou prender.” De todo esse desvario de incongruências, na gíria popular, dir-se-ia que a cobra mordeu o próprio rabo.
Escrevendo sobre a Polícia de Dom João VI no seu livro "1808", Laurentino Gomes fala do advogado Viana, o mais influente auxiliar do príncipe regente, o qual recebeu a incumbência de por ordem no caos colonial reinante. Foi justamente em 1816 que Viana criou com a aquiescência do manda-chuva da nação, aquilo que seria o embrião da nossa ABIN. A partir daquele ano, um serviço de espionagem estava montado para bisbilhotar a vida dos habitantes dos bairros do Rio de Janeiro. No dizer do autor, “os agentes de Viana eram implacáveis e truculentos”.
O recente imbróglio dos “grampos” que provocou alvoroço entre o Presidente, o STF, a Polícia Federal, a ABIN e o Senado, se tornou o melhor presente que se poderia oferecer ao povão na comemoração dos duzentos anos do Império e sua Polícia. Dessa maneira, as altas personalidades dos três poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo) protagonizaram na pós-modernidade, a melhor e mais hilariante cena da longa comédia iniciada nos tempos de Dom João VI.
Razão teve William Shakespeare quando falou: “Só se conhece um homem de verdade no exercício do Poder”. Parece que os homens que ambicionam os mais altos degraus das altas instituições de uma nação, não resistem ao fascínio de lutar bravamente pelos papeis principais dessa grande “telenovela” que é a comédia da vida política de uma nação, a ponto de cegar para o ridículo dos atos que representam no seu dia-a-dia.
Os súditos de hoje, de tão acostumados já não se indignam mais. Pelo contrário, riem e aplaudem calorosamente os seus inescrupulosos e carismáticos personagens.
Salve o atual Príncipe e sua “troupe”!!!
Até o próximo ATO dessa comédia interminável chamada Brasil.



Ensaio por: Levi B. Santos
Guarabira, 13 de Setembro de 2008

03 setembro 2008

EXCESSOS NA PROPAGANDA ELEITORAL



Atinge as raias do absurdo, o que vemos no interior de nossas cidades durante os sessenta dias que antecedem as eleições. Nem parece que vivemos na era de ouro da comunicação, onde tudo que é de informação chega as nossas casas, através da TV, da internet, do rádio e dos jornais. Época de propaganda eleitoral se tornou sinônimo de conturbação, confusão no trânsito, desrespeito ao cidadão, que não sossega um minuto sequer, sem que seja molestado por uma barulheira ensurdecedora de provocar distúrbios auditivos tanto em crianças como
em idosos. Não há o mínimo de respeito ao silêncio no “horário nobre”, no interior das residências. E o que dizer dos engarrafamentos monstruosos que os carros de propaganda e passeatas provocam nos dias de feira, perturbando o ir e vir dos pais e mães de famílias, que cumprem a obrigação semanal na compra de produtos para a sua sobrevivência.

São os próprios candidatos e partidos que, numa atitude insana, decidem como, e o que veicular para chamar atenção do eleitor. Se não respeitam o mais simples código de convivência; se não entendem que estão ferindo o direito do outro, como irão se comportar esses candidatos quando estiverem com o poder nas mãos?

O STF recentemente se pronunciou sobre a propaganda eleitoral de forma até certo ponto sutil, dando um basta nos shows-comícios que torravam uma parcela considerável dos nossos suados impostos. Agora há pouco um Juiz Pernambucano proibiu carreatas em sua cidade. Quando aqueles que se arvoram em reger os destinos de um povo, sem nenhuma parcimônia, desrespeitam a tranqüilidade de uma cidade, só resta a Justiça se pronunciar de forma dura.

Não há mais razões para tantos excessos, distorções e abusos praticados nas ruas em nome de uma insensata propaganda eleitoral. Se em cada recanto, em cada casa, a mais longínqua que seja, existe um rádio ou um televisor para transmissão das idéias (se é que existem) dos candidatos, não há como tolerar a baixeza e a infantilidade gritada aos quatro cantos das cidades, em serviços de alto-falantes ajustados ao máximo de sua potência.

Comícios, carreatas e passeatas são modelos de campanhas que, de tão desgastados e ultrapassados, não deviam fazer parte do cardápio político atual. Nos tempos antigos essas formas de propaganda política tinham sua razão de ser, pois o cidadão não dispunha dos modernos meios de comunicação que se tem hoje.

A letargia e a inércia mental contaminam a muitos nessa época de alvoroço e intranqüilidade. Tudo é feito de uma maneira escancarada e vergonhosa, como se os eleitores fossem meros receptáculos para deposição de idéias estapafúrdias com rótulos de “política saudável”. Alguns mais afoitos chegam até usar o nome de Deus em suas artimanhas eleitorais. Outros picham frases esdrúxulas e sem sentido nos muros e paredes residenciais num verdadeiro atentado às regras gramaticais mais simples de nossa língua. Desse modo o país vai vivendo o paradoxo de ter um sistema de votação eletrônico exemplar, ao lado de um modelo obsoleto de campanha eleitoral que nada esclarece. Antes, ludibria e confunde a cabeça do humilde eleitor.



.......................Texto de: Levi Bronzeado dos Santos

.......(Reproduzido no Jornal Correio da Paraiba de 02/09/2008)

.......................Guarabira, 03 de Setembro de 2008