30 agosto 2008

DOS JULGAMENTOS E DAS SURPRESAS




Em nossos relacionamentos pessoais estamos constantemente exercendo racionalizações sobre o outro. Quer conscientemente, quer inconscientemente, estamos a valorizar certos ideais ou verdades pré-estabelecidas que nos são de suma importância. Temos os nossos valores que se confrontam com os ideais do outro. Muitas vezes, aquilo que mais prezamos, é desprezado pelo nosso semelhante, por nossos familiares, ou nossos amigos. Às vezes, os nossos valores parecem-nos tão importantes e inquestionáveis que chegamos a pensar que todas as pessoas deveriam aceitá-los.

Cada pessoa é um ser único neste mundo, tem a sua própria história de vida, tem a sua própria “visão de mundo”. Devemos refletir que ninguém é obrigado a sentir o que sentimos, da forma como sentimos. Os julgamentos que fazemos são puramente subjetivos, pois cada um percebe de modo diferente as suas convicções. Às vezes, colocamos o outro em um patamar inferior, por não conseguir perceber ou se expressar a nossa maneira sobre determinados sentimentos ou idéias. Não é por acaso, que somos apanhados de surpresa toda vez que subestimamos ou superestimamos o nosso próximo. É de nossa própria índole este maniqueísmo de pensamento: “Ele é bom ou mau?” “Está certo ou errado?” “É superior ou inferior?”. É entre estes dois pólos, entre estes dois extremos, que realizamos a maior parte do nosso jogo de julgamento de valores.

Subestimamos o outro quando o julgamos incapaz de ter determinada virtude. Superestimamos o outro quando o achamos inatingível em suas qualidades ou virtudes.

Os julgamentos que engendramos cotidianamente em nossa mente, a respeito do outro, trarão como conseqüências as inevitáveis “SURPRESAS”, que de acordo com nossas racionalizações, denominamos de Surpresas agradáveis ou Surpresas desagradáveis. Diante de algumas surpresas ficamos tristes; diante de outras ficamos alegres.

Entre os inúmeros exemplos, colhi um, para demonstrar como um julgamento por “superestimação” pode nos proporcionar uma “surpresa desagradável”:

Uma pessoa sofreu uma grande decepção que lhe deixou arrasada, quando soube que um ‘casal exemplar’, na mais sublime concepção conjugal da palavra, cometeu uma gigantesca insensatez. Esta surpresa lhe trouxe um gosto amargo, pois julgava o “perfeito casal” supracitado, acima de qualquer suspeita. Nesse caso, a elaboração de um julgamento prévio, em nível pré-consciente, fez o sujeito da ação, projetar no outro um ideal inatingível. A imagem do casal foi se solidificando paulatinamente, como se estivesse sobrepondo argila, camada sobre camada. Quando aquilo que se tem a respeito do outro, como imagem definitiva, desmorona, traz sempre em conseqüência uma surpresa desagradável. No centro de tudo está a superestimação, a qual é sempre fruto de um falso julgamento.

Não é bom fazer do nosso próximo um baluarte de segurança, ética e moral, imaginando que nunca poderemos alcançá-lo, pois aquilo que a gente coloca tão alto se desmancha no ar, podendo ocasionalmente nos levar de roldão. Ficamos frustrados por um dano imaginário, tristes por ter perdido um referencial que estava se vivenciando como algo real. O casal da história acima tinha se tornado um símbolo da “verdade aparente” do outro.

A queda ou fraqueza daquele que nos servia de referencial nos traz um sentimento de tristeza; um sentimento de que algo dentro de nosso ser se perdeu. A superestimação engendrada quando se atribuiu uma perfeição inumana a dois simples mortais (o casal da história) foi responsável pela surpresa desagradável.

Com a perda daquilo que idolatrávamos vai embora uma máscara que possuíamos, e que tanto prezávamos, pois era com ela que nos víamos no espelho do nosso relacionamento humano. Ao arrancar esta máscara de nosso rosto, sentimos a dor, de que com ela, foi embora um pouco de nossa pele. A surpresa decorrente de um julgamento por algo que superestimamos, dói demais.

Quando tomamos consciência do falso julgamento que provocou em nós essa tristeza, nos refazemos, renovando nosso pensamento para prosseguir pelo mundo afora procurando não nos surpreender tanto. Façamos nossas as palavras de parte do segundo versículo, do capítulo doze, da carta de Paulo aos Romanos: “...Mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento.”

Um outro tipo de SURPRESA é a que nos agrada, nos causa alegria, e levanta nosso “ego”, a qual, também, não deixa de ser fruto de um falso julgamento engendrado no mais recôndito de nossa mente. Esta é por subestimação, contrária àquela que foi por superestimação.

Para explicar a surpresa por subestimação tomemos entre os demais casos, este como exemplo: “um dos nossos filhos que considerávamos relapso nos estudos decide-se prestar um exame dificílimo. Racionalizamos logo em nossa imaginação, que o mesmo por não ter capacidade, não vai ter um bom desempenho, e um belo dia tomamos conhecimento de que o mesmo conseguiu ser aprovado. Então saímos logo a propagar a tão grata surpresa. Fomos surpreendidos. Porém esta surpresa não incorreu em tristeza, como no primeiro caso do ‘casal perfeito’. De inicio a sensação que nos invade é de vergonha, pois julgávamos o filho incapaz. Só depois de uma reflexão apurada, é que temos a humildade de reconhecer que algo de bom veio de onde menos se esperava. É sempre assim: só esperamos algo de bom daquele “bem direitinho”, daquele “bem comportado” que reza pela nossa cartilha. A subestimação, no caso do filho considerado incapaz, adveio de uma projeção de nossa fraqueza em nosso próximo, fruto que foi, de nossa própria baixa auto-estima “Então nos flagramos dizendo: ‘não esperava nunca que ele fosse aprovado’. Se parássemos para pensar melhor, veríamos que primeiramente subestimamos aquele filho, para em conseqüência sermos surpreendidos por ele. Diante desta surpresa, nos alegramos, porque aquilo que pensávamos que era fraco, era forte ─ numa analogia ao que Paulo falou aos Corintios (... pois quando estou fraco, então é que sou forte). Somos desta forma, sempre traídos quando fazemos juízos de valores em relação ao nosso semelhante. Não temos a capacidade de realizar justo julgamento, pois, julgamos pelo que vemos e pensamos e não pelo que existe no coração do outro.

Quanto nos causa prazer citar a parte final de Apocalipse 20:4: “... e foi lhes dado o poder de julgar”. Por enquanto, para nós mortais isto é impossível. Na outra vida, talvez possamos exercer esse dom com justiça e sobriedade, sem aquele tempero de vingança que até em sonhos permeia nossas ações nesse mundo competitivo e hostil.



Ensaio por: Levi B. Santos

29 agosto 2008


CARO(A) INTERNAUTA

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26 agosto 2008

A ROTINA



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23 agosto 2008

O STF E O SIMBOLISMO DAS ALGEMAS




As algemas postas no poderoso Sr. Daniel Dantas por ocasião de sua emblemática prisão, produziram na corte de justiça máxima do país, uma inusitada reação, que tem tudo a ver com a nossa história. O legado sobre algemas, que todos nós brasileiros estamos familiarizados, através dos livros e filmes históricos é outro. Talvez um psicanalista explicasse melhor a causa do mal-estar que estas algemas provocaram nos senhores juízes do Supremo. Jung, um dos maiores estudiosos da alma humana diria que os dotados de poder reagiram de acordo com o seu próprio inconsciente. O “inconsciente” sendo a sede dos mitos, dos símbolos religiosos e dos padrões sociais e culturais de um povo, é sempre instado a dar uma resposta, quando fica diante de uma situação em que um modelo tradicional corre perigo, de ser usurpado em seu próprio significado.

Ao assistirem no horário nobre da TV, as cenas chocantes de uma alta personalidade da esfera social, de paletó e gravata, sendo vítima de um instrumento que não condizia culturalmente com o seu padrão social e político, os juízes, de um modo inconsciente, se sentiram na própria pele da vítima. Ali estava um homem igual a eles ─ das altas esferas do poder político ─ sendo “vilipendiado” publicamente. Sendo assim, tiveram uma reação natural em defesa da própria casta a que pertencem, e não poderia ser diferente.

Recordemos um pouco da nossa colonização. Qualquer estudante do primeiro grau ao ler ou ouvir a palavra “algema”, irá associar esse instrumento repressor ao tempo da escravidão, onde os pesados grilhões de ferro que limitavam a liberdade do indivíduo, eram destinados aos escravos e não aos seus senhores. As algemas combinavam perfeitamente com os pulsos musculosos e nus dos escravos, e não com os antebraços cobertos pela indumentária de puro linho branco reservada aos barões.

Hoje, o tratamento indigno do tempo da escravidão está destinado aos pobres e desvalidos que vivem à margem da sociedade. O caso “Dantas” suscitou todo um clamor vindo de cima, no sentido de coibir com veemência o uso das algemas na prisão de cidadãos que não oferecem perigo à sociedade. Evocando princípios humanistas, os ministros de uma tacada só preservaram os “arquétipos sociais” imprimidos nos tempos da “Casa Grande e Senzala.”

Os senhores do Supremo bem que poderiam citar Fernando Pessoa, no seu poema, Emissário de um Rei desconhecido: “sou emissário de um Rei desconhecido, eu cumpro informes e instruções do além[...]. Inconscientemente me divido entre mim e a missão que o meu ser tem. E a glória do meu Rei dá-me o desdém por este humano povo entre quem lido”.

Ao tentar maquiar a vergonha da indignidade desse vil instrumento de prisão, os juízes aproveitando-se do ensejo, legislaram rápidos para favorecer uma elite da qual eles mesmos fazem parte, sem que a sociedade tivesse a oportunidade de entender o motivo real da decisão, vinda das entranhas do "poder".

As algemas colocadas em um “joão-ninguém” não gritam e nem criam tanta celeuma quanto os grilhões atados às mãos de um megainvestidor ou banqueiro qualquer. Pelo contrário, a insensibilidade ao se algemar um desvalido, por fazer parte intrísseca de nossa triste história, já não suscita nas autoridades as mesmas reações de constrangimento.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 23 de Agosto de 2008

19 agosto 2008

ALMA FLUTUANTE


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.................És alma leve. Nesta terra errante, vagas,

.................Em meio a dissabores e momentos de prazer.

.................A esperança e o medo, cujo peso te esmaga,

.................São filhas da dúvida, que habita o nosso ser.



..................És alma que flutua, impelida pelos ventos.

..................Te aparece o medo, quando pensas o ruim.

..................Quando almejas o bem em sóbrios momentos,

..................A esperança aparece dentro do teu ser enfim.



...................O medo e esperança são ondas do teu vagar,

...................Que lutam e se alternam na imensidão do mundo,

..................E, como pólos fincados não se deixam arrancar;

...................Bebes deles a seiva que fazem o teu ser, fecundo.



...................Nas ondas da esperança que tu desejas gozar,

...................Surgem os ventos do medo que te trazem o sofrer.

...................Que entre estes dois afetos, deixa-te flutuar.

...................Conforma-te ó alma, este é o nosso viver!



..........No abismo do medo cujo símbolo é o mar,

..........Temeroso flutuas, mas sem nada alcançar

..........E a esperança invisível que é metáfora do ar,

..........Faz tão leve o teu peso que te leva a pairar.



...................Disse o apóstolo Paulo com certeza e pujança,

................ “Quando queria o Bem, com ele estava o Mal”.

...................Se o mal é filho do medo, e o bem da esperança,

...................Num dia vagas em calma, noutro em vendaval..




......................Versos por Levi B. Santos

......................Guarabira 19 de Agosto de 2008



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15 agosto 2008

UM NOCAUTE EM PLENO SEMINÁRIO




Não estava acostumado a falar para uma platéia, de modo que a timidez aumentava à medida que se aproximava o momento de expor o meu trabalho no seminário de Saúde da Mulher. Fui chamado para tomar lugar à mesa, e, ao pegar o microfone notei que minhas mãos estavam trêmulas, frias e pálidas. Os dados fidedignos que eu tinha em mãos, me transmitiam certa segurança, além de me imbuir de uma tênue tranqüilidade para o que finalmente iria expor. Aliás, eu estava bem documentado, inclusive com fotocópias de fichas ambulatoriais, transparências e laudos histopatológicos referentes aos casos que ia apresentar. Procurei concentrar-me no intuito de afastar o nervosismo que teimava em querer me dominar.

Iniciei fazendo uma analogia. Argumentei que do mesmo modo que um clínico antes de tratar uma amidalite, dirigia o seu “olhar” para as amídalas, examinando-as, assim devia fazer o ginecologista: antes de tratar uma paciente recorrente em suas vulvovaginites, deveria também olhar o seu colo do útero ─, local onde se inserem as lesões precursoras do câncer cérvico-uterino. Acrescentei que, ante a impossibilidade de examinar todas as pacientes, tinha de acordo com justos critérios, selecionado um grupo de risco que seria contemplado com a colposcopia. Sobre o colposcópio, falei que ele era um simples aparelho que nos permitia com grande nitidez olhar o revestimento do colo uterino. Lembro-me bem de outra analogia que fiz na ocasião: disse que a citologia funcionava como uma peneira retendo a areia mais grossa, e a colposcopia como uma peneira um pouco mais fina, filtrava o que a citologia tinha deixado de reter, e, que essas duas instâncias juntas à anatomia patológica, formavam um tripé vigoroso na detecção de um maior número de displasias do colo uterino”.

No momento em que fazia a exposição das transparências, mostrando os gráficos dos casos de citologias negativas com colposcopias positivas confirmadas pelas biópsias, fui surpreendido por um safanão que repentinamente arrebatou-me o microfone que empunhava, tal qual o pulo de uma aranha abocanhando a sua indefesa vítima em suas teias. Era nada mais, nada menos que a figura brevilínea e obesa da Coordenadora do Serviço de prevenção do C.C.U. (Ministério da Saúde) que, sem que ninguém esperasse, tinha deixado o seu lugar na mesa e, com suas roupas frouxas e esvoaçantes, se dirigira rápido em minha direção, bradando destemperadamente:

─ Não admito que um mero assistente de uma Unidade, sem conhecimento de causa, venha denegrir o meu serviço. Outra coisa ─ disse ela, já com a face toda avermelhada. ─ Esse negócio de colposcopia foi coisa inventada por americanos. E, mesmo assim, eles nem a usam sistematicamente por lá. Esse exame não serve para as massas; isso é coisa de rico. Eu só vou admitir que se façam colposcopias, somente nas pacientes cujos laudos citológicos vierem solicitando esse exame, e estamos falados!.

Um clima de constrangimento se abateu sobre todos que estavam na platéia e principalmente sobre os que estavam compondo a mesa redonda. O Superintendente Regional quis contornar a situação, dizendo que tinha havido um mal entendido; que eu tinha sido infeliz na minha exposição, etc e tal.

A coordenadora estava com a voz rouca e cansada, pois tinha me precedido na apresentação de suas já tão conhecidas e gastas transparências contendo dados estatísticos de citologias oncóticas. Transparências estas, que de tanto serem expostas pelo Brasil afora, já tinham uma cor encardida, e mal dava para se ler no telão o que estava escrito nelas.

Após ter sido nocauteado em pleno auge do seminário, ainda encontrei forças para mesmo constrangido dirigir-me aos colegas, que a esta altura eram só ouvidos em meio a um silêncio agora sepulcral. E, mesmo sem o auxilio do microfone que me foi cassado, fui falando pausadamente em tom de vítima:

─ Não há problema algum! Se os senhores quiserem pararei com o programa que me dispus a executar. Agora mesmo, os senhores presentes neste seminário poderiam decidir se continuo ou não ─ disse, sem hesitar, sublinhando sempre que os exames colposcópicos não seriam realizados de forma indiscriminada, e que os mesmos eram destinados a um grupo de pacientes de risco rigorosamente selecionado.

Ainda bem que a coordenadora, já mais calma, pois tinha descarregado toda a sua adrenalina minutos antes, não se manifestou, quando a maioria dos que estavam na platéia assentiu que eu deveria continuar o meu trabalho. Um mais afoito levantou-se e deu sua opinião:

─ Eu acho que o nobre colega deveria continuar o seu trabalho. Sou testemunha ocular de sua dedicação em prol desse programa. Tudo o que ele está propondo fazer é para qualificar melhor o serviço!. ─ concluiu e sentou-se, ante os olhares capciosos dos que não tinham coragem de falar.

Antes do colega terminar a sua argumentação em minha defesa, eu ouvi uma voz abafada, saindo da extremidade esquerda da segunda fileira de cadeiras, dizendo:

─ Senta seu bicho burro! Tu queres ser queimado também?.

Vivia-se o último espasmo da ditadura militar, e, ocorrência como esta, em que um superior hierárquico impunha sem mais nem menos a sua ferrenha vontade sobre os subalternos, tinha que ser aceita como coisa normal dentro do clima de exceção no qual fui acostumado a viver desde os idos de 1965.

Por ocasião do almoço, após o incidente daquela manhã, fui instado por alguns figurões da diretoria regional, a me desculpar pelo mal entendido. Era assim naqueles anos de chumbo: o subordinado, mesmo sendo alvo da ira e agressividade de um superior, tinha que se mostrar culpado e se justificar como causador do embaraço.

Findo o emblemático seminário, o chefe da Unidade onde trabalhava, o qual já estava sendo posto na frigideira provavelmente por ter dito alguma verdade inconveniente, segredou-me:

─ Olha! Sabe o que eu ouvi ontem á noite?

─ Não! ─ respondi, chegando o ouvido o mais próximo possível do meu chefe, para ouvir a sua bombástica revelação.

─ Peguei a coordenadora do C.C.U em “flagra” falando para alguns de sua patota. Ouvi perfeitamente ela perguntando para alguém, se referindo a você: “Quem é esse menino besta metido a pesquisador?”. Após uma pequena pausa escutei ela falar em meio a risos: “O que ele não pode é me impedir de vender o meu PEIXE!”.

Saí dali aturdido e revoltado. Enquanto caminhava perguntava a mim mesmo: “Como poderei crer que exista seriedade na saúde pública desse país, quando a própria autoridade encarregada de um programa de tamanha envergadura, considera-o como um produto descartável, que se pode vender e comprar?”.

Durante o longo período da ditadura militar, me esquivava para não ser domado como animal de circo, o qual é obrigado a obedecer incondicionalmente ao seu dono. O exercício diuturno do poder disciplinador tentou inculcar em mim um espírito dócil, para que nada questionasse, e desse modo, ficasse a mercê da ambição dos “detentores do todo saber”. Entendi afinal, que qualquer idéia inovadora em prol da saúde, vinda de baixo, era sempre considerada uma ameaça ao “status quo”. Compreendi que para manter a inércia mental da maioria dos dirigentes do sistema de saúde, a maior arma era a repressão de qualquer iniciativa ou pensamento contrário aos ditames oficiais.

O GRANDE LEMA ERA ESSE: Quem quisesse crescer e subir na hierarquia dos serviços de saúde pública, que procurasse prosseguir com lealdade vendendo as “sardinhas enlatadas” sem questionar os seus prazos de validade.

Hoje, decorridos vinte e dois anos do fatídico seminário, no que diz respeito a área de saúde da mulher, tudo continua como dantes no quartel d’Abrantes.




Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 13 de Agosto de 2008

06 agosto 2008

O "BLOG" FAZ DOIS ANOS DE IDADE



Foi em agosto de 2006 que resolvi registrar em um blog, alguns ensaios, prosas, versos e crônicas de minha autoria. Dei inicio postando alguns textos em rascunhos, que tinha juntado ao longo de quatro ou cinco anos. De lá para cá, venho me aventurando no delicado campo da linguagem escrita, redigindo dois ou três textos mensais. Tenho preferência pelo estilo de escrita em forma de crônica. Ela nos confere mais intimidade no jogo das palavras, na retratação dos fatos emblemáticos que inundam o nosso dia-a-dia, neste movimento contínuo e cheio de surpresas, que é a VIDA.

A etimologia confirma o alto valor da crônica. O termo grego que deu origem a palavra crônica foi “chronus” – o Deus do tempo. Na mitologia esse deus devorava os filhos impiedosamente. Na nossa vida o deus “chronus” representado pelo tempo devora com avidez os momentos de alegrias, de prazeres, risos e tristezas, deixando no rasto algumas reminiscências entre fatos sepultados no mar do esquecimento.

As águas do rio que atravessamos em tempos remotos não são mais as de hoje, apesar do leito desse rio ser o mesmo. Ah, quem nos dera esconder e retardar a caminhada inexorável do tempo. Enchemo-nos de vontade, porém é inútil a tentativa de parar o relógio das horas. Ricardo Reis em um de seus poemas escreveu: “Envelhecemos. Não vale a pena fazer um gesto. Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora...”.

À medida que escrevemos uma crônica vamos recriando uma imagem daquilo que se experimentou como realidade, acrescentando pitadas de sentimentalismo, humor e sátira, que dão um sabor especial aos acasos revividos e passados para a escrita. E, essa recriação envolve tanto a área do humano, como a área do Divino. Na crônica, registramos coisas efêmeras que logo são esquecidas, como também escrevemos sobre coisas que não envelhecem e ficam sempre jovens. Ângelus Silesius (1624 -1667), místico e poeta, sugeriu que vivemos em dois tempos diferentes. Ele disse: “Nós temos dois olhos. Com um olho vemos o que se move no tempo e desaparece. Com o outro, vemos o que é eterno e permanece”. Os gregos tinham consciência desses dois tempos, por isso, usavam a palavra “chronos” para definir o tempo dos homens, cadenciado pelas batidas do relógio. Usavam por outro lado o termo “kairos” que significava o tempo medido pelas batidas do coração.

Enquanto o deus “chronos” avança paulatinamente no seu percurso, deixando em mim as marcas dos anos, vou anotando sem perda de tempo, o que o coração, através de suas pulsações de vida me leva a digitar nesse cantinho cedido pelo "google". Em dois anos de atividade, este espaço virtual que no americanês denominamos de BLOG, se tornou o local propício para expor minhas reflexões e divagações, assim como local para colher os ecos das críticas e opiniões dos amigos, acerca do que escrevo. E, nesta dialética cibernética vou renovando os meus conceitos, desconstruindo-me e reconstruindo-me na batida cadenciada desse relógio duplo chamado "coração-tempo".





Ensaio por: Levi B.Santos

Guarabira, 06 de Agosto de 2008

03 agosto 2008

TEMPO INTEGRAL E DEDICAÇÃO EXCLUSIVA





Estava lá escrito no meu contrato profissional: “Médico do SESP sob regime de tempo integral e dedicação exclusiva, segundo normas da CLT”. No estágio probatório de cerca de um mês de duração me foi dito em palavras oficiais o significado do famigerado carimbo: 50% do salário corresponderiam às oito horas diárias, e os outros 50% destinados às horas extras trabalhadas durante o expediente noturno, incluindo aí sábados, domingos e feriados.

Como ovelha muda, jamais passou pela minha cabeça averiguar a legalidade do meu contrato no âmbito da justiça do trabalho. Fazer uma contestação dessa estirpe nas esferas do Direito seria um suicídio, pois corriam os anos de chumbo da ditadura militar (década de oitenta), época em que a discordância contra as ordens superiores era considerada um ato de rebeldia e de afronta à Lei de Segurança Nacional. Além do mais, a quantia que recebia mensalmente compensava a dureza do regime semi-escravo implantado pelo Ministério da Saúde. No dizer dos médicos veteranos da repartição, o salário era um bom pé de meia, para após dois ou três anos se tentar alçar vôos maiores, desta feita, em melhores condições financeiras. Uma coisa que eu não sabia era que o veneno da acomodação anestesiava a grande maioria dos médicos que se empregavam com esse nobre pensamento de, passado poucos anos de atividade em Saúde Pública, enfronharem-se em seus próprios consultórios, fugindo da servidão cansativa no cumprimento das metas de saúde impostas de cima para baixo.

Tinha feito residência médica em cirurgia geral, cirurgia obstétrica e ginecológica durante o ano de 1972, no Rio de Janeiro, razão pela qual fui admitido na Fundação como cirurgião e obstetra. Lembro-me de que a minha prova prática de admissão foi um sucesso: tinha me saído muito bem na cesárea realizada sozinho, sem a ajuda da instrumentadora e do auxiliar. Após o término do heróico ato cirúrgico, fui cumprimentado pelo supervisor médico, que todo paramentado, sentado em um tamborete num canto da sala de operações, assistia sereno o desenrolar da épica cirurgia. Lembro que ele me disse: “parabéns, você gastou apenas vinte minutos ‘pele a pele’.” O tempo decorrido no ato cirúrgico era um fator que poderia me reprovar. Saí dali consagrado. Hoje, tal procedimento realizado dessa forma, me levaria a perda do diploma de médico.

Após alguns meses de trabalho fui avisado pelo diretor da minha Unidade Hospitalar, que o Superintendente Regional queria falar comigo. Na ocasião recebi as instruções de que deveria me apresentar ao Chefe maior, com os sapatos bem engraxados, cabelos devidamente cortados e roupa bem passada.

Numa certa manhã, logo após o atendimento ambulatorial, o superintendente todo risonho me abordou de uma maneira acolhedora. Realizadas as saudações de praxe, assim ele falou:

─ Vim lhe trazer uma promoção ─ disse solícito, entregando-me um vistoso envelope com uma carta de apresentação e uma passagem aérea para Belo-Horizonte (MG). ─ Isto aqui é um estágio de dois meses em anestesiologia, que a presidência da Fundação resolveu lhe presentear. Você, dessa forma ficará mais completo, visto que poderá fazer a anestesia e a cirurgia, sem a necessidade de mais um outro médico na sala de operações.

A atitude alegre do superintendente contrastava com a minha surpresa e decepção. Pensei comigo: “Meu Deus! O que é que esse pessoal do Ministério tem na cabeça, para fazer uma proposta estapafúrdia como esta?.” Criei então coragem e argumentei:

─ Caro doutor, não posso aceitar esta proposta. Já que faço as cirurgias, o certo seria mandar outro colega fazer este estágio.

O superintendente em um segundo ficou com o rosto vermelho, e os olhos arregalados. Com respiração apressada foi me repreendendo:

─ O queeeeeee! Como ousa recusar uma ordem da Presidência! Isto jamais aconteceu nesta Fundação. O que você está fazendo é muito grave, gravíssimo. Corre o risco de ser demitido sumariamente, além de me deixar em maus lençóis. Não faça isto, a passagem já está aqui no seu nome.

─ Doutor! Eu poderia me explicar melhor. Posso telegrafar para o Presidente mostrando as minhas razões? ─ disse no intuito de contornar a situação.

─ O queeee? Você não sabe que as normas não permitem um médico-assistente dirigir-se a uma autoridade da presidência? Ou está se fazendo de bôbo?

Não pude saber naquela época, quais foram os trâmites tomados para solucionar o impasse com a Presidência da Fundação. O certo é que um colega meu da Unidade, enfim, foi mandado em meu lugar, para o estágio em anestesia geral. Só depois de muitos anos, quando estava perto de me aposentar, soube que a minha ficha funcional em Brasília estava com observações em cor vermelha, provavelmente tinha sido incluído no rol dos funcionários indisciplinados e rebeldes.

Quanto ao famigerado contrato de “dedicação exclusiva e tempo integral” registrado em minha carteira profissional, só depois de muitos anos de trabalho varando dias, noites e madrugadas ininterruptas, sem contar os fins de semana e feriados, é que fiquei sabendo que era tudo uma farsa. A minha casa era por assim dizer o próprio hospital, pois trabalhava em média cento e dez horas por semana. Por infelicidade minha, o tempo de serviço sob essas condições prescreveu, impedindo-me de entrar na Justiça com um pedido de indenização pelo trabalho prestado em regime semi-escravo.

Durante o longo ciclo político de exceção que vigorou no país, no qual servi como funcionário público, quase todo questionamento era tido como insubordinação pelo discurso disciplinador, que só poupava àqueles que para progredir na carreira, se anulavam, negando o que se tem de mais elevado: a consciência e a vontade própria. Cumprir metas estabelecidas longe de nossa realidade era a minha obrigação. Vivia mergulhado num verdadeiro frenesi de índices numéricos a serem alcançados. Na maioria das vezes sentia-me como um fantoche operacionalizado por mãos estranhas, submetido a uma manipulação metódica que me impedia de apresentar as experiências colhidas no âmbito da saúde na minha própria região.

Hoje, revendo a minha primeira e encardida carteira de trabalho, vem à lembrança os tenebrosos anos de repressão, tempo em que as idéias partidas do pessoal de campo, no sentido de aperfeiçoar as ações de saúde, eram recebidas pelos superiores com menosprezo ou indiferença, como se nada de fundamental importância pudesse brotar dos soldados da linha de frente. Os escribas das “normas” não valorizavam os vanguardeiros, que no corpo-a-corpo eram os primeiros a enfrentar a adversidade.




Crônica por: Levi B. Santos

Guarabira, 02 de Agosto de 2008