17 janeiro 2009

UMA CRISE BEM-VINDA



Uma das recentes preocupações do mundo globalizado, e que a imprensa vem dando uma cobertura toda especial, é a relativa à crise das montadoras de automóveis. O governo dos EUA já desembolsou quantias bilionárias para salvar a GM, a FORD, e a Chrysler. No Brasil as nossas autoridades econômicas vêm fazendo de tudo, tentando manter o ritmo de crescimento dessa indústria. Para isso criou várias facilidades, entre as quais, a diminuição de impostos do setor.

O mercado saturado de automóveis não dá bolas para as cidades entupidas de carros, em detrimento da população que vem perdendo a cada ano o seu direito de livremente circular pelas ruas. Na grande metrópole, São Paulo, as ruas não são mais das pessoas, são tomadas por filas intermináveis de carros praticamente parados, andando a uma velocidade menor que a do pedestre. Até agora, todas as tentativas de melhorar o trânsito na nossa maior cidade foram infrutíferas.
Quem, porventura, tiver a ousadia de tentar disputar o espaço com esses bólidos automotivos nas grandes cidades, pagará caro. O pobre do pedestre é obrigado a aceitar como "coisa" normal, os barulhos acima de sua capacidade auditiva, a poluição no ar que se respira, sem falar da invasão desrespeitosa de seu já exíguo espaço, entre outros infernais incômodos.


Não é de se pensar que essa crise caiu do céu? Não seria esse o momento para uma reflexão mais profunda por parte de nossas autoridades? Não seria essa a ocasião propícia, para entender que as cidades já não suportam a grande quantidade de automóveis existentes, além do que é despejado anualmente pelas montadoras? As nossas estradas e vias urbanas não têm as mínimas condições para oferecer um tráfego razoável. Porém, apesar dos engarrafamentos monstruosos que nos causam tanto estresse durante a maior parte do dia, esses bólidos poluidores e causadores de acidentes continuam sendo a nossa ambição maior de consumo.


Esta crise “bendita” é mais que um alerta, é um recado urgente convocando-nos a deixar para trás, certos paradigmas sociais que nos animam a comprar um carro sempre que recebemos o nosso primeiro salário, sempre que assumimos um emprego, ou melhoramos a nossa condição econômica. Se quisermos que as nossas cidades sobrevivam, temos que acabar com essa racionalização burguesa de que a aquisição de um automóvel é a condição prévia para ser visto como participante de uma elite. Elite esta, que nunca pára, a fim de refletir sobre sua qualidade de vida.


Aqui mesmo, andando por minha capital (João Pessoa – PB), é raro o dia no qual não vejo acidentes. Os motoristas nem sequer param mais para observar as vítimas estiradas no solo, cobertas com papéis ou sacos plásticos. Diante das tragédias nas pistas bem asfaltadas e sinalizadas de nossas cidades, os comandantes em suas máquinas potentes, passam céleres rumo aos seus destinos, sem nenhum olhar de condescendência dirigida ao local da tragédia. À medida que cresce o nosso corre-corre cotidiano e sem sentido, os acidentes nas rodovias vão sendo banalizados como “coisa” inerente ao que se chama de “progresso”.


Esse progresso insano que não nos deixa enxergar que as cidades não suportam mais tantos automóveis circulando, deve ser revisto ou repensado.


Será que o povo não será o maior beneficiário da quebradeira que atingiu as multinacionais automotivas?


Poderão dizer os grandes da indústria automobilística: “E o desemprego com as demissões em massa?”. Essa será a resposta dos que têm cabeça para pensar: “O setor de defesa do meio ambiente, incorporará muitos desses desempregados em suas fileiras”.


As montadoras em crise produzirão menos carros a partir de 2009. E daí...


Que importa! Essa “crise bem-vinda” da indústria automobilística, com falência e tudo, trará, quem sabe, as famílias de novo para as tranqüilas caminhadas nas ruas de suas cidades, sem medo de atropelamentos. Resta a cada um de nós, possuidores de um ou mais veículos automotivos, refletir, se queremos deixar um mundo melhor para nossos filhos e netos, ou continuar com os nossos maiores objetos de desejos em meio ao caos atual das estradas e avenidas.


Pode ser uma utopia, ou começo de um sonho, mas na minha imaginação eu vislumbro as gerações futuras vencendo essa guerra e voltando a tomar conta das ruas ─, seu lugar de sempre. Vislumbro as artérias da saudosa cidade das acácias fervilhando de gente a passear despreocupadamente, como acontecia nos tempos de minha mocidade.




Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 17 de Dezembro de 2009

Um comentário:

FRANCISCO SOLANGE FONSECA disse...

Sabiamente Nelson Mandela disse:"Ninguem nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar".Eu digo:um dia as pessoas vão ver que a maior arma é o amor, capaz de transpor barreiras, fronteiras e promover a paz. Um dia ainda vai ter alguem que ensine esse povo a amar e não se odiarem tanto.