20 junho 2009

NAQUELA NOITE, A SUA MÁSCARA CAIU




Ele era um pregador fantástico. Dizia-se que no meio evangélico, não havia igual. Ganhou fama e notoriedade pelos sermões que realizava nas noites de domingos em sua igreja. Era um perito tanto em anestesiar as massas, como em incendiá-las. Aplicava com esmero, as noções do populismo eclesiástico que importara dos EUA.

Tinha mandado aumentar a área do púlpito de seu templo, a fim de poder executar as suas dramatizações com mais liberdade. Tomara aulas de patinação por dois meses, e ultimamente usava patins com roldanas para deslizar suavemente no assoalho reluzente do palco “divino”, onde emocionava a platéia ensandecida, com suas peripécias circenses. O som estridente de “Ô glóoooooriaaaa!” ecoava quando ele rodopiando sobre as rodas dos seus patins, assim falava:

─ Irmãos! Lá no Céu não iremos nos cansar, caminhando ou andando, como se faz aqui na terra. Lá deslizaremos suavemente em patins de ouro e de prata, pelas ruas de cristais da Nova Jerusalém.

Para demonstrar o ruído dos patins “celestiais”, ele deslizava em círculos pelo palco gritando:

─ Vai ser assim irmãos! Vai ser assim! Olhem, olhem bem!

E como ele sabia bem dominar o público! Com esperteza e astúcia, conseguia tirar da multidão o tipo de emoção que quisesse ─, como um exímio violonista faz com as cordas do seu instrumento. Ante a sua verve, a multidão ora respondia com gritos histéricos, ora reverberava com choros e saracoteios.

Os seus emblemáticos sermões de domingo à noite o levaram aos píncaros da fama. Os cachês que no início eram modestos, agora atingiam vultosa soma Era disputadíssimo, para falar em congressos evangelísticos nas grandes cidades do país. Sabia como ninguém, sugestionar as massas. Dizia: “hoje eu quero cinqüenta almas rendidas aqui a minha frente”. E não é que vinham aos pés do preletor, o dobro do número por ele vaticinado!.

Adorava criar vinhetas e bordões, executando uma exegese exótica e fantasiosa dos escritos de João no seu Livro, Apocalípse. Numa excitação alucinatória inacreditável, fazia todos verem as mansões celestiais. Para isso, ele primeiramente mandava a multidão fechar os olhos, e pressioná-los com bastante força com os dedos, para em seguida perguntar:

─ O que vocês estão vendo nesse momento?

E a multidão ensandecida, e sob esfuziante barulheira dizia em coro:

─ Estamos vendo as luzes da Cidade Santa.

Quem estivesse observando o quadro à certa distância, concluiria, tratar-se de uma histeria coletiva.

Ao chegar a sua casa, após o término dos seus fantásticos sermões, o pregador executava a velha rotina: despia-se de sua colorida indumentária, lavava o rosto, para retirar as tinturas da pegajosa maquiagem, e vestia o seu pijama de pura seda, para mergulhar, em seguida, na sua imensa e macia cama.

Recentemente, após um desses fenomenais cultos, um fato surpreendente fez com que ele não conseguisse conciliar o sono. Ele ouvia um programa evangélico pelo seu radinho de cabeceira, quando, foi surpreendido por um hino do “Trazendo a Arca” ( Ministério do Louvor). A letra do hino bateu muito forte dentro dele, ocasionando uma súbita elevação de sua tensão arterial, que terminou por levá-lo a um Serviço Médico de urgência, onde ficou em observação tratando-se de uma crise hipertensiva. Segundo a equipe médica de plantão, tudo fora ocasionado por um forte abalo emocional.

Após essa noite fatídica, ninguém mais ouviu falar no nome desse ator gospel.
Diziam, à boca pequena, que ele tinha tomado um chá de sumiço. É bem verdade, que alguns da igreja ficaram com saudades dos fantasiosos e açucarados sermões, entremeados de cenas circenses, nas noites de domingo.



Nota do autor:

O leitor, com certeza, está ansioso para ouvir a canção que desestabilizou o famoso pregador dos domingos à noite. O título desse hino é: “Quem é Você”

Relaxe bem, e clique aqui embaixo, para ouvir essa bela melodia, prestando, é claro, bastante atenção na sua inspirada e interessante letra:

19 comentários:

Danilo Fernandes disse...

Parabens irmão e amado Levy. Voce novamente me emociona! Vou colocar este no Genizah, já!

Fica com Ele!

Danilo

Leonardo Gonçalves disse...

Mais uma vez, parabéns pela excelente postagem. Parece até aqueles pregadores ingleses, que fazem a gente rir, pra depois nos fazer chorar.

Seria um grande pecado atribuir esta letra a qualquer personalidade importante, líder midiático ou apóstolo contemporâneo, sem antes confrontar a nós mesmos com esta pergunta: "Quem é você?". Tranquilize-se, não falo por ti, mas por mim mesmo.

Contudo, o melhor é saber que, ainda que eu viva submerso em um oceano de dúvidas, mesmo que uma profunda crise existencial me faça perder o chão e, confundido, venha a me perder na aridez de um deserto, eu sei que ELE me conhece (Jo 10.14, 27-29).

Abraço fraterno,

Leonardo.

Rodrigo Melo disse...

Muito bom o post...

Quem sou eu?!

Abçs!
A Paz!

Rodrigo Melo.

Gláucia Carneiro disse...

Quem É Você

Depois de pregar seu lindo sermão
E de cantar a última canção
Quando você volta pra casa
E ninguém mais que você
Precisa impressionar está por perto
Quem é você?
Quem é você quando ninguém vê?
Quem é você?

Só você mesmo pode responder
Por trás da aparência, onde só Deus vê
Bem no seu intimo sombrio
Sufocado e trancado a sete chaves
Maquiando o teu vazio
Deus e o travesseiro sabem
Quem é você quando ninguém vê?
Quem é você, Quem é você?
Quem é você?
Longe do altar, o que Deus vai ver quando Te sondar
Quem é você além de um domingo
Depois das luzes, do discurso e da máscara
Quem é você quando ninguém vê
Quem é você?

Marcelo Batista Dias disse...

Meu querido Levi,

Seu texto é perigoso.
Ele nos desafia e mexe com um lado que muitos nem querem pensar...
Por certo ele tb vai provocar muitos disturbios do coração.

Q Deus continue te abençoando muito.

Abrçs.

Levi Bronzeado disse...

Caro Danilo

Emoções, emoções... Sem elas, o que seríamos?

Seríamos zumbis (rsrsrs).

Muito obrigado pela sua visita. A “casa aqui” é sempre sua.

Abçs fraternos,
Levi

Levi Bronzeado disse...

Meu “alter -ego” Leo

Digo “alterego”, por esse seu comentário cortante – ao meu texto.
Comentário este que, não tenho nenhuma dúvida, saiu de suas entranhas ,e bem que poderia ser acrescentado ao meu post, como moral de toda história.

O pregador fantasioso do texto, talvez tenho servido de isca, para que eu pudesse demonstrar a dificuldade que tenho de suportar o desmoronamento de meus fantasmas.

Penso:
“Quem sou eu?” E até: “Será que eu sou?”

A autoanálise revela-me, quase sempre, verdades dolorosas e desagradáveis.
Estaria eu disposto a aceitá-las?. Seria capaz de modificá-las?

Só me resta a resignação, pois esse “espinho na carne” não será extraído nunca, enquanto aqui viver.

O que alivia o meu caminhar, é viver impregnado daquilo que Paulo ouviu: “A minha Graça te basta!”

Um grande abraço,
Levi B. santos

Levi Bronzeado disse...

Prezado Rodrigo Melo

Agradeço a divulgação do texto em seu blog.

Quero aqui declarar que, a maior razão do ensaio postado, foi a profunda letra desse emblemático hino. E eu a comparo a uma “espada de dois gumes –, aquela que penetra lá na divisão entre a alma e o espírito”. (Hebreus 4: 12)

Abç fraterno

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

Prezada irmã Glaucia Carneiro

Você demorou aparecer por aqui. Mas, em compensação, quando resolveu aparecer, foi como uma lufada gratificante de comentários que, além de bem elaborados, deixam transparecer certa sintonia com o meu modo de visão de mundo.

Nunca é demais repetir a letra desse emblemático hino.

Ficarei acompanhando o seu blog, de agora em diante.

Graça e Paz,

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

Prezado Marcelo Batista


A gravidade do texto oscila para uma leveza, quando procuramos e encontramos a nossa verdade escondida, lá no mais profundo de nosso abismo.

Graça e Paz,

Levi B. Santos

Antonio Tadeu Ayres disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Tadeu Ayres disse...

Caro amigo e irmão em Cristo, Levi:

Sua dramática postagem fez-me recorrer à releitura de um texto preferido para comentá-la:

...os dramas mais impressionantes, e os mais excêntricos, não são desempenhados nos teatros, mas nos corações dos homens comuns, pelos quais passamos sem prestar atenção e que, no máximo, mostram ao mundo, através de um colapso nervoso, as batalhas que que se desferem em seu íntimo" JUNG,Carl Gustav;PSICOLOGIA DO INCONSCIENTE, Ed. Vozes, pg. 122.

Graça e Paz!

Guiomar Barba disse...

Senhor, que muitos pregadores escutem Quem é você?
Parabéns, continue falando que estamos gostando de ouvir. Abraço.

MINISTÉRIO BATISTA BERÉIA disse...

Bela postagem, de uma sencibilidade muito grande. Esta letra nos faz refletir quem nós pensamos que somos.
Que Deus o abençoe.
Fique na Paz!
Pr Silas

Jailson Freire disse...

Cada vez que lei um dos seus textos, sou levado a viver aquilo do qual digo eu ser no meu blog: um observador. Sim, ao ler este texto pude observar que muitos de nós nos comportamos como o personagem do texto, senão numa igreja pregando, certamente em outros setores da nossa vida. Quantos de nós não somos constrangidos por situações a ter que vestir uma máscara para que outra alma sensível não fique avexada por sermos nós mesmos em nossas verdadeiras opiniões. Isso nos adoece, pois no fundo, todos temos um desejo oculto de poder ser o que se é... Mais isso tem um preço, que para tantos pode custar muito caro. Quem ia querer pagar?
Excelente texto... Parabéns por mais essa!

sandrahelena@ disse...

Bom é ouvir a verdade que vem de Cristo!Realmente muitos viram dizendo senhor,senhor,pregando,fazendo maravilhas,porem a nossa Biblia nos deixa bem claro que por falta de amor o amor de muitos esfriaria e é justamente o que ta acontecendo.
A nossa Biblia tambem diz que bom é deixr que ojoio e o trigo andem juntos para que ao tirar umo outro não morra! mas uma coisa eu aprendi;ainda que não estejam alicessados na rocha da palavra a mesma não volta vazia,ainda a esperança para arvore que se for cortada se renovaram ao cheiro das aguas...
nosso Deus é fiel e como diz o louvor que muito toca os que conhecem nosso senhor quem somos nos diante dos bastidores de nossas vidas?onde so nosso Deus que ver tudo sabe de cada atitude nosa?quem somos?
Que Deus nos abençoe e que sua graça permaneça em nossas vidas prque se no fora a graça ja tinhamos sidos consumidos.
Abraços,
Sandra Helena.

Guiomar Barba disse...

O que mais me emocionou e me deixou contente foi saber que aquele pregador não estava com a consciência cauterizada. Saber que o hino entrou profundamente no coração dele, convencendo-o de pecado, renova as nossas esperanças; saber que nem todos os que fazem comércio da fé já estão totalmente dominados pelo amor ao dinheiro.

Pouco tempo atrás um pastor conversou comigo e chorou profundamente envergonhado. Ele me contou que começou um relacionamento virtual com uma mulher, justo quando ele estava no auge do seu ministério, pregando por vários países, mas sua consciência de pecado era tão forte que ele começou a buscar meios para não pregar mais. Ele não conseguia ficar no púlpito, até que confessou o seu pecado e deixou a igreja a qual pastoreava. Ele consertou sua vida, isto já fazem alguns anos, mas ele ainda não voltou ao ministério. E sempre que nos encontramos vejo uma pessoa profundamente quebrantada e envergonhada.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Boa tarde, Levi.

Interessante a reflexão pois até nós questionadores das instituições e dos comportamentos teatrais das pessoas também podemos inconscientemente estar esculpindo nossas máscaras. Talvez pela necessidade do não enfrentamento o tempo inteiro da realidade a qual muitas das vezes, por ser dura, impõe que precisamos evitar certas exposições de quem somos. Ruim é quando se perde a consciência e o indivíduo passa a viver seu personagem ao invés de ele mesmo.

Levi Bronzeado disse...

Exatamente. Ruim é quando a máscara gruda tanto no rosto do sujeito, fazendo com que ele esqueça de sua face verdadeira. (rsrs)