25 dezembro 2009

SALDO DO NATAL: Almas e Bolsos Vazios



È nas festas de fim de ano que a sedução consumista que afeta milhões de pessoas, atinge o seu ápice. Trata-se de uma época em que se busca refúgio nas compras. Época em que nos iludimos com a idéia de que comprando, será possível aplacar angústias, ansiedades e dores que têm causas mais profundas. Época em que gostamos de nos divertir e nos enganar por algum tempo.


Passado o acalanto ilusório das festas de Natal, nos frustramos ao constatar que o presente bonito oferecido, não pode compensar lacunas afetivas. Esse irresistível impulso nos faz até ultrapassar os limites da razão, embotando a nossa visão para não enxergarmos o rombo futuro em nosso extrato bancário, ou do cartão de crédito.


O personagem dominado pela ânsia incomum das compras, talvez não saiba que, o que o seduz é unicamente o espírito impulsionador das estratosféricas vendas de um comércio que soube muito bem aproveitar o nascimento do Redentor da humanidade a seu favor. O "amor" embrulhado passou a ser objeto dos interesses comerciais. Durante todo o mês de dezembro, essa palavra é a mais citada e exaustivamente repetida.


Paremos um pouco para tomar conhecimento de um fato que ocorreu com uma senhora e sua filha mais velha, em um shopping de São Paulo:


Uma mulher aparentando seus 45 anos de idade, ofegante e apressada, carregando um montão de sacolas, comentava para a filha adolescente que a acompanhava nas compras: “Agora só falta comprar dois malditos presentes daquela lista que fiz!”. A jovem imediatamente respondeu: “Não mãe, faltam apenas o presente do meu pai e de meu irmão Junior!”.


Obviamente, ali, não existia nada que denunciasse a presença de amor, ainda mais, que os “malditos presentes” eram justamente para as pessoas mais próximas da senhora em questão.


O que realmente existia no coração daquela senhora era a obrigação de comprar para cumprir exigências da tradição de presentear, talvez, estimulada pelo conto dos três reis magos que levaram ouro, incenso e mirra para o menino Jesus.


Mas, por que essa tradição é tão forte, a ponto de vencer a nossa resistência, fazendo-nos tomar decisões baseadas na atitude dos outros, que não são nossas?


Longe de afirmar que o universo das pessoas nessa época é absolutamente sem Deus, pelo contrário, seu Nome é invocado a cada hora, e os ritos por elas executados garantem a sua lembrança.


Entretanto, serei sincero para expor o que fica em mim, após essas festanças Natalinas. Fica em mim, um sentimento estranho como se a Divindade se tivesse ausentado, tornando-se apenas um contorno de uma ausência ─ algo que não está lá, embora devesse estar.


O saldo do Natal parece me mostrar que um Deus se ausentou e deixou almas e bolsos vazios. Assusta-me o Deus desse Natal se tornar tão distante. Contudo, resta-me um mundo em que as pessoas têm de reconciliar-se consigo próprias, para conviver com seus dramas, suas desventuras e também suas raras alegrias.



Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 25 de dezembro de 2009

7 comentários:

Marcio Alves disse...

Mestre Levi

O consumismo muitas das vezes, ou na maioria das vezes, não é um simples problema externo, fora de nós, ele tem raízes mais profundas, é um problema interno, de nós com nós mesmos, em que a pessoa utiliza do consumismo como uma espécie de válvula de escape, uma fuga existencial, para fugir nem que seja por um momento, dos seus problemas circunstanciais que são um reflexo dos problemas internais.


A sociedade além de aguçar os nossos apetites profundamente consumistas-materialistas, com propagandas cada vez mais, ilusionista e ambicionista, facilita essa mesma compra, escravizando as pessoas em créditos intermináveis.


O consumismo, passa-se a ser, um vicio compulsivo, em que a pessoa com cartões de créditos nas mãos, compra o que não precisa com o dinheiro que não tem.


O resultado disso é um circulo vicioso, em que a pessoa precisa ter mais para comprar mais,e, comprar mais para ter mais.



Em relação a Deus, também tenho esse sentimento, de que colocaram outro deus que não é deus no lugar de Deus.


Talvez tenha substituído o Deus menino, para colocar em seu lugar o deus-consumo.


Abraços

Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.

Edson Moura disse...

É Levi, concordo plenamente com você.

Nós, ainda, mesmo que incoscientemente,cremos no "papai noel cocacolizado".

Contribuímos muito com isso, não dizendo a verdade para nossas crianças.

Pode até parecer que sou insensível (E nesse aspecto sou mesmo).

O nosso povo passa o ano inteiro pagando carnês de prestações que fizeram no natal passado.

O que eles não entendem é que:

"Eles mesmos não compraram nada..na verdade foi a mídia quem lhes vendeu tudo"(quem lê entenda)

abração Leví!

Gresder Sil disse...

“Agora só falta comprar dois malditos presentes daquela lista que fiz!”

Tu és um encanecido estraga prazeres e cruel
Não parece nem um pouco com o bom velhinho Noel

Dei a primeira gargalhada do ano lendo essa estória que você colocou. Essa frase dessa senhora diz tudo do “espírito” de natal, que não passa de uma coação social tipo histeria de grupo. E olha que isso e contagiante, ate parece que existe um tal espírito de natal meio que sobrenatural.

Eduardo Medeiros disse...

Você vai ao cerne do problema: consumismo onde deveria haver confraternização. A força da propaganda é tão perniciosa, que temos a certeza que só podemos nos confraternizar se comprarmos alguma coisa para alguém.

E a cada ano Jesus está mais ausente do natal. Chegará um dia em que o natal será totalmente uma festa pagã(se já não o é), onde a única estória contada será das maratonas ensandecidas em busca de "malditos" presentes e a única divindade lembrada será a do bom e gorducho velhinho Noel.

Na minha família comemoramos sim o natal. Reunimos à noite, fazemos orações, comemos, conversamos assuntos familiares, mas não trocamos presentes. O único presente que todos recebem é a presença um do outro.

abraços

Levi Bronzeado disse...

Prezados amigos Márcio, Edson, Gresder e Eduardo.


Vocês todos, através dos lúcidos e bem abalizados comentários, deram um "show de bola", aqui nesse recanto do Google.

Fica aqui o nosso grito de inconformismo: "Pelo resgate do verdadeiro sentido do Natal de Cristo!!!'


Abçs para todos,

Levi B. Santos

Adriana Melo disse...

Primeira vez aqui...
Gostei muito.
Infelizmente, em mim fica o sentimento: -Chega logo dia dois!

Gláucia Carneiro disse...

Natal é uma data constrangedora para muitos.

Há pessoas que passam o ano inteiro sem ver a família e vê o natal como uma data obrigatória em que a família deve se reunir.

Comprar um presente e levar é uma forma de quebrar o clima pesado que existe dentro de muitas famílias.

O melhor é exercer o amor que o Senhor JESUS nos deixou e se há prolemas mal resolvidos, que sejam sanados ou pelo menos conversados.

Mas como disse o grande Paulo "No que depender de ti tende paz com todos."

Há pessoas que colocam barreiras intransponíveis, o melhor mesmo é levar um maldito presente.