03 março 2010

OS VERDADEIROS E OS FALSOS PALHAÇOS





Toda vez que um circo se instalava em minha pequena cidade o meu coração ficava em alvoroço. Naquele tempo não existia carros com alto-falantes para anunciar eventos pelas ruas. As apresentações das peças noturnas do circo eram anunciadas por um palhaço de longas pernas de paus, que elevava o seu corpo a altura dos telhados das casas. A gurizada que acompanhava o palhaço pelas principais ruas da cidade, respondendo em coro as suas perguntas carregadas de humor, tinham direito a um ingresso para assistir as peripécias dos meliantes circenses durante uma noite escolhida por eles durante a temporada do circo, que geralmente não ultrapassava os oito dias.


Tinha lá os meus dez ou doze anos de idade, quando tive a oportunidade de ouvir pela primeira vez a palavra “espetáculo”. Lembro-me bem dos gritos esfuziantes do palhaço.


Hoje tem espetáculo? ─ bradava ele numa espécie de megafone feito de lata.


Tem sim senhor!” – respondíamos em uníssono.


Vai haver marmelada? ─ emendava o palhaço, dando passadas longas com suas pernas de paus cobertas por um pijamão intensamente colorido.


Vai sim senhor! ─ gritávamos, todos em uma só voz.


Tínhamos que decorar as respostas do jeito que o palhaço nos ensinara, sem gaguejar ou sair do tom, numa cantilena repetitiva. As demais estrofes da opereta eu não me lembro agora.


Mas a palavra “espetáculo” ficou gravada indelevelmente em minha mente.


Não é que hoje, aos meus sessenta e três anos de idade, toda vez que vejo os telepastores executando suas diabruras e retetês nos supostos programas evangélicos pela Televisão, me vem à lembrança os meus tempos de menino em que corria aplaudindo e repetindo os refrões previamente decorados, seguindo o palhaço de pernas de paus, para ganhar um ingresso de uma noite no circo de lona esburacada.


Acho, que devido os tele-evangelistas serem tão engraçados em suas piruetas e mungangas, e que apesar de não se pintarem nem se vestirem com roupas extravagantemente coloridas, evocam lá do meu inconsciente um outro espetáculo o da figura do palhaço de pernas de pau, que alegremente fazia a propaganda do seu circo nas ruas íngremes de minha cidade.


Assistindo aos programas dos supostos homens de deus, na TV, eu me sinto como se estivesse no meio da plateia ensandecida e histérica gritando bordões e dando palmas para Jesus.


Não seria esse o motivo pelo qual Freud denominou a religião de uma ilusão infantil, ou infantilismo?


O que me atrai, ou o que me faz ligar a Televisão para assistir os espetáculos “Show da Fé”, o “Programa da Vitória do Silas” entre outras peças ridículas do evangeliquês universal, senão, o desejo inconsciente que em mim ficou gravado do tempo que corria embevecido atrás do palhaço de gigantes pernas de paus?


Naquele tempo o que me atraia muito era ver o palhaço verdadeiro caminhar com raro equilíbrio em cimas das pernas de paus gigantes, sem titubear. Talvez, o que me faz deter por alguns momentos diante das figuras do telepastores nos seus risíveis programas seja o prazer de reviver ou trazer à tona aqueles tempos que não voltam mais.

Mas cadê as pernas de paus que me atraiam tanto, nos palhaços de outrora?


Ah! já sei: elas na certa sofreram um deslocamento, ou transmutação (processo de transferência de natureza psicológica). O rosto do apresentador “evangélico” que me prende o olhar, está com certeza simbolizando as pernas de paus do palhaço do tempo de minha meninice. Ah! Agora, sinto que tudo se encaixa direitinho. Entendi perfeitamente a razão pela qual sempre saio revoltado para o meu quarto de dormir, após os programas gospel, ocasião em que fico repetindo para mim mesmo: “Esses bandidos são uns ‘caras de pau’, são uns ‘caras de pau’”.


Quando acaba a pantomima televisiva, dirijo-me ao leito, sem deixar de sentir reverberar em mim o vozerio do palhaço gospel manipulando sua platéia com gastos bordões:


Repitam comigo agora!

Deuuuuuuuus!

Deuuuuuus ─ repete a platéia de olhos fechados e punhos erguidos

Vai me dar a Vitória Financeira. É hooooooooje! – berra o ator pregador

Vai me dar a Vitória Finaceeeeeeiraaa – repete sem pensar a multidão entorpecida.

Mais altoooooooooo!! Parece que aqui só tem crente frouxo – dispara o sofista pregador.


São em momentos como esse que, tomado de intensa indignação, acabo por desligar a televisão, abruptamente.


Acho que Freud explica as razões de minha revolta: Talvez, a parte divina do meu inconsciente faz com que eu não suporte ver homens que se dizem representantes de Deus, desvirtuar na maior “Cara de Pau” o palhaço profissional e honesto do meu tempo de menino. A minha revolta está aí explicada, inconscientemente exteriorizada em forma de repulsa pelo espetáculo dos falsos palhaços gospel, que de forma canhestra, deturpa ou falseia as alegres noitadas em que me divertia com um palhaço de verdade, na minha tenra infância.




P.S: No dia 27 de março comemora-se o dia do Circo. Aproveito o ensejo para deixar registrada aqui a minha homenagem aos grandes, sinceros e verdadeiros palhaços brasileiros que fizeram a alegria de muitos, como Carequinha, Arrelia e Piolin, de saudosa memória. Ao mesmo tempo em que deixo o meu repúdio aos falsos palhaços da prosperidade pentecostal que protagonizam diariamente um espetáculo de baixo nível, cobrando ingressos extorsivos pela pregação de mentiras e falsos milagres num suposto nome de Deus.




Por Levi B. Santos

Guarabira, 03 de março de 2010


18 comentários:

Isaias Medeiros disse...

Mestre Levi

Um ensaio delicioso, nostálgico, com cheirinho de infância, mas também sério e contundente.

"Os homens costumam ser apenas crianças grandes", já dizia Napoleão. No mesmo sentido do que Freud disse e você transcreveu em seu texto, que a religião é infantilizadora. Agora, com minhas próprias palavras: eu, quando era pequeno achava que existiam "adultos"; hoje, que já sou grande, vejo que eles nunca existiram, senão na minha fértil imaginação infantil.

Claro que os telepalhaços não tem graça - em nenhum sentido -, são maliciosos, e não inocentes, vivem do seu ofício, e não da sua arte gentil e inocente, além de explorarem a ingenuidade das "crianças grandes" das quais o general francês falava.

"E assim caminha a cristandade"...

Forte abraço.

Eduardo Medeiros disse...

Levi, você também provocou em mim certa nostalgia...

Deixando os palhações gospel de hoje um pouco de lado, depois que li seu belo texto lembrei-me da única ocasião em que fui ao circo.

sabe como é, minha mãe, à época uma fundamentalista moral das boas, nunca permitira tal ato de carnalidade: irmos ao circo!

Mas meu bom e velho pai, um novo convertido ainda não muito condicionado pela moral cristã, nos levou eu e meus irmãos ao circo...

Éramos muito pequenos, mas ficaram algumas pontas de lembranças das estripulias dos palhaços.

quanto aos nossos grandes pregadores telivisivos: Eles não têm a alma pura dos palhaços. Mas nem por isso deixam de fazer suas palhaçadas.

Levi Bronzeado disse...

Prezado Isaias


Teus comentários, como sempre, são de uma lucidez cristalina.

Tens toda razão ao dizer:

"os telepalhaços não tem graça, pois são maliciosos e não inocentes, vivem do seu ofício (R$), e não da arte gentil e inocente..."

Essa de explorar a ingenuidade das "crianças grandes" - do teu substancioso comentário, foi fenomenal!


Grande abraço,

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

Muito bem Eduardo

Concordo com você: "Os nossos televisivos pregadores não tem a alma pura dos verdadeiros palhaços".

E é justamente por se fazerem passar por palhaços, que eles estão aviltando a profissão dos verdadeiros comediantes.

Ao tentarem desajeitadamente representar a "divina comédia", sem a leveza e a graça dos palhaços de verdade, eles estão cometendo um grave pecado: o da falsificação, e da apropriação indevida.

Gresder Sil disse...

Sabe Levi toda vez que eu olho Ratinho na televisão eu fico imaginando que se ele fosse crente ele seria um pastor pentecostal porreta mesmo.

Ou seja: poder pentecostal não tem nada a ver com espiritualidade, mas com personalidade.
Aqueles que têm unção na igreja teriam essa mesma graça em outro lugar na sociedade.
Assim que um bom artista carismático poderia ser um bom pregador na igreja.

Só que só tem um pobreminha, no pouco do mundo as pessoas fazem as coisas para serem aplaudidas pelo seu mérito se permitindo os elogios e honras, mas na igreja os homens fazem o mesmo, dizendo que é para a gloria de Deus.

Que é o mesmo que dizer que no mundo os artistas são muito mais honestos do que os homens de Deus, pois eles recebem a sua gloria destinadas a eles, enquanto alem de mandar para deus um gloria mixuruca eles fingem não ser para eles todos glorias a Deus e aleluias que são o equivalente de aplausos e assobios de uma platéia de circo ou teatro.

Isaias Medeiros disse...

**PREZADOS CONFRATERNOS**

O endereço da Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola é: http://cpfg.blogspot.com/

Atendendo a sugestão do Márcio, criei o endereço para que não venhamos a perdê-lo e estou enviando os convites para os demais confraternos serem os co-autores do blog.

Os convites que enviei até o momento foram para os seguintes endereços:

marcioaf2728@hotmail.com, edsonmourad@yahoo.com.br, glauberbronzeado@uol.com.br, gresdr@gmail.com, eduardo.medeiros.44@gmail.com, jl-jlima@hotmail.com, anapaullinhag@gmail.com, ednelsonuniversal@hotmail.com, jairhome@hotmail.com

Os que não estiverem nesta lista, por favor enviar seus respectivos emails para poucoalem@ymail.com

O blog ainda não possui um layout definido, muito menos gadgets e etc. Como é a primeira vez que crio um blog coletivo não sei bem como funcionam as coisas na prática, mas a idéia é todos colaborarem - em todos os sentidos - e depois de a cara dele estiver pronta, cada um escolher as postagens mais interessantes uns dos outros e publicá-las.

Conto com a divulgação desta mensagem e com o envolvimento dos amigos.

Abraços.

Isaias Medeiros disse...

Visitem a nossa comunidade virtual, nosso blog coletivo:

Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola

Abraços.

Anônimo disse...

Esse pensamento me fez indagar o porque de eu ter nascido aqui junto com eles.Qual meu nivel de salubridade mental para que eu fosse endereçado prá cá?Para o planeta dos palhaços.
Acho melhor não pensar muito.KKKK

eduardonov@yahoo.com.br

Paulinha disse...

Meu querido amigo Mestre LEVI,

Parabénsssss!!!...

Seu texto é engraçado (em detalhes), surpreso (em partes) e sério (por completo)...rs...

Sabe, que já fui uma menina cheia de ilusões, e me entusiasmava com poucas coisas.....até acreditava em contos de fadas...hahahahah....Cachinhos dourados, Branca de Neve.....rs

Eu adorava correr com minha turminha atrás do carro do palhaço, para pegar ingressos para a "matinê" infantil no circo....que coisa linda!!! hahaahah...

Mas agora, eu também vejo que muitas pessoas, ainda não saíram desta ilusão...desta comtemplação com algo insatisfatório. (Glórias que saíii...) rs...

Assim como o palhaço é "insatisfatório" para nós em todos os pontos, muitos pregadores são "insatisfatórios" para encher nosso ego espiritual.

Creio que muitos pregam para manipular, e não para nos trazer o amor de Deus!

Pobres coitados são os subordinados que pensam não ser subordinados.....

Fui numa igreja outro dia, que o pastor só falava para os fiéis...."doe seu décimo terceiro, doe a décima parte do seu salário...sua vitória vai chegar esta noite, basta fazer a doação de uma determinada quantia"..(Deus tenha misericórdia!!)...

Mas todos aplaudiam o "espetáculo" assistido...e agora eu pergunto: Quem é o palhaço?! O pregador sofista manipulador ou o povo que diz amém para tudo??!!

Eis o X da equação...quero dizer, da questão...hahahah......

Beijos!!!

Levi Bronzeado disse...

Seu raciocínio está correto, caro pensador Gresder


Os telepalhaços da prosperidade gospel não são verdadeiros, pois, não admitem que estejam recebendo glórias e aplausos para si mesmo, ao contrário dos reais palhaços de circo que têm consciência de que os aplausos são para ele mesmo.

O telepastor, mesmo que de forma inconsciente, está recebendo os aplausos e as glórias da platéia para si mesmo, e a grande falácia ou mentira é fazer com que a multidão que o assiste acredite que está aplaudindo ou ovacionando Deus.

Por acaso Deus é homem, para sentir necessidade de que alguém massageie o seu “Ego”?

Levi Bronzeado disse...

Prezada Paulinha

Agradeço a sua visita e o seu comentário.

Que bom você ter feito uma viagem nostálgica, igual a minha, naquele tempo que a gente era feliz e não sabia! (rsrsrs)
Quanto a esse período do seu comentário:

“...Mas todos aplaudiam o "espetáculo" assistido...e agora eu pergunto: Quem é o palhaço?! O pregador sofista manipulador ou o povo que diz amém para tudo??!!”

O pregador sofista manipulador é um palhaço a serviço do circo de Belial ─ aquele que queria se passar por Deus, e foi destronado de uma vez por todas.

Quanto ao povo que diz amém para tudo, está simplesmente sendo ludibriado ou anestesiado pelo veneno da falsa lábia do deus das trevas. Até quando? Não sei...


Volte sempre,

Levi B.Santos

Jair dos Santos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jair dos Santos disse...

Mestre Levi Bronzeado;

Poeta da psicanalize que nos leva a uma viagem aos lugares mais distantes da nossa tenra infância. óh que saudosa lembrança nos traz.

Lembro que ainda menino, descalço, correndo nas ruas de terras, correndo atras daquele carro de som, como quem corre atras de um sonho.

Para mim era mesmo um sonho, pois á noite quando o circo abria as lonas para receber o publico e iniciar o espetáculo; minha mãe me colocava para dormir.

Sonhava em ser um apresentador de circo um artista que ataria as multidões com aquela frase peculiar: "Respeitavel público".

Hoje sou poeta, sou artista, sou um pregador, mais sigo ao pé da letra o respeito pelo meu ouvinte e meu leitor.

Forte abraço meu querido Mestre Bronzeado.

Marcio Alves disse...

Sabe meu Mestre Levi, quero confessar-lhe um segredinho sodomazoquista:

De vez enquanto eu me sinto muito pecador, e para purgar os meus pecados eu assisto os programas gospel dos tele-enganadores, eu sinto com isto, que já recebi o meu castigo e consegui pagar a minha divida com deus, por que vai ser um sofrimento assim lá longe, eu não agüento mais ouvir e ver esses programas “evangelísticos” da vitoria financeira, da unção e dos atos proféticos.

Prefiro mesmo é ir ver os verdadeiros e sinceros palhaços.

Abraços

Levi Bronzeado disse...

É isso mesmo meu caro Jair


Naquele tempo o verdadeiro palhaço antes de se dirigir a plateia dizia de coração: "Respeitável público"

O contrário ocorre hoje com os falsos tele-palhaços de deus, que inescrupulosamente gritam para a multidão: "A paz do $enhor", com a mão no bolso, pensando só na venda de "unções" e outras macumbarias, roubando os incautos na maior cara de pau

A Justiça deveria chamar às barras da Lei, essa corja de falsificadores dos honrados e sinceros profissionais do veradeiro CIRCO.


Abçs,

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

É uma pena Marcio!

Mas esses Tele-palhaços do deus Mamon, tendem fazer coisas piores, acobertados pela imunidade que a "religião" lhes oferece.

Até quando meu Deus!!!

Edson Moura disse...

Leví meu mestre Bronzeado!

Obrigado por escrever este belo texto!

No início de minha "carreira" de blogueiro, era esta a itenção de minhas postagens, mas como você pode observar, eu e o Marcinho, descambamos para outros caminhos...talvez mais espinhentos, mas não mais importantes.

O pior de tudo isso meu mestre, é que só existem os palhaços, por que também existe ainda o "respeitável" público. (e pagam ingressos caros) rsss


Abração meu amigo!

Estou conseguindo me reestruturar e logo mais estará tudo como era antes...comentarei com mais frequência seus artigos que tanto adoro!

Beijão!

Gláucia Carneiro disse...

Sempre vi a figura do palhaço como um ser triste, fantasiado e maquiado com um sorriso, porque por trás da fantasia havia alguém que estava chorando.

O que vejo acontecer na igreja é que estão fazendo o povo de palhaço, todo enfeitado e maquiado cheio de uma falsa alegria por fora, ma por dentro, um abismo de tristeza.

"E como um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e as tuas vagas têm passado sobre mim."