21 agosto 2010

NÓS — As Eternas Crianças



É só na aparência que a criança se separa da mãe. Na realidade, ela só se separa de uma parte de si mesma que ficou dentro da mãe. A criança cresce sem ter essa lembrança, mas ela não sabe que na fase adulta, as separações e reencontros que vivencia em sua existência são rescaldos da presença e ausência materna, fruto do primeiro desamparo, da primeira solidão, quando “desligou-se” das doçuras do seio materno.

Separado da mãe, o novo ser continua sentimentalmente ligado a uma “mãe” simbólica, que o acompanhará durante toda a sua vida. A comunidade, a confraria, a igreja são figuras representativas da mãe primeva. Sem os eflúvios dessa mãe o indivíduo caminha nu, desamparado e irreconhecível.

“Durante muito tempo, quando éramos crianças, recebíamos o apoio de nossos pais naturais ou substitutos. O comportamento desses co-viventes, desses nossos tutelares forjou-nos e informou-nos de modo indelével em sua caracterização diária, tanto em termos de estrutura como de linguagem” — disse a psicanalista Françoise Dolto, autora do livro “Psicanálise dos Evangelhos”

O sentimento da “falta” ou do “vazio” nada mais é que a nostalgia daquilo que foi tirado do indivíduo nos seus primórdios. Nada do que foi gravado no “disco virgem” do nosso cérebro pode ser deletado. Apesar de não termos lembranças daquele passado longínquo, não podemos negar que os nossos sentimentos, hoje, fluem no sentido de nos reatar a algo que foi desligado de nós. Ora, como podemos dizer que não somos religiosos, se esse instinto de agregar, de nos re-ligar ao “gozo” primitivo que nos é INCONSCIENTE, perdura em nós e não obedece ao nosso comando consciente? Como dizer que somos independentes, se toda nossa ação é fruto das profundezas obscuras dessa área da psique, que está esquecida ou adormecida em nós? Na verdade, antes de pensarmos, algo lá no nosso íntimo é que determina os nossos pensamentos. A grande frase bíblica: “Vós não Me escolhestes, eu escolhi a vós”, aplica-se, magistralmemte, a linguagem do inconsciente, que diz: “não sabemos por que somos o que somos”.

Dizem aqueles pentecostais que já experimentaram o fenômeno da “glossolalia”: “‘falar em línguas estranhas’ é um gozo indescritível”.

Mas, pergunto eu: “Não seriam os balbucios estranhos (a glossolalia), uma experiência DIRETA com o inconsciente? Não poderia por intermédio desse fenômeno, o indivíduo está realizando um retorno daquele antigo “gozo”, em que repetia as fonetizações diante dos pais, quando ficava todo radiante ao pronunciar as primeiras sílabas de forma desajeitada?

Quantas vezes, nós adultos, experimentamos o medo, sem saber de onde ele vem! Quantas coisas, nós adultos dizemos hoje, que nada mais são que reflexos dos tempos maravilhosos de nossa meninice. Às vezes, na ânsia de bloquear os afetos infantis, o que conseguimos é a indiferença ou reações defensivas representadas pela amargura, revolta e ressentimento. Às vezes, na ânsia de não ser criança de novo, reprovamos o outro quando ele se mostra infantilizado, sem saber que ao ridicularizá-lo, estamos rindo de nós mesmos.

A predominância da função dos pais fica ligada à nossa memória, e se exterioriza nas artes, na poesia, na escrita e em tudo que é linguagem. Viver é reconhecer que somos veículos de um emaranhado de afetos, cujos ecos aparecem de uma forma figurada no vasto oceano dos símbolos. Só se consegue TRANSCENDER aos tempos da casta ternura quando não se amordaça o desejo infantil de unir-se, de religar-se para poder caminhar.

.................


................Quando a gente tenta
.....................De toda maneira
......................Dele se guardar
...................SENTIMENTO ilhado
....................Morto, amordaçado
.....................Volta a incomodar.

................(estrofe da canção “Revelação” de Clodô e Clésio – gravada por Fagner)


...............Ensaio por Levi B. Santos

...............Guarabira, 21 de agosto de 2010

17 comentários:

Isa Medeiros disse...

Belo texto, Levi. Realmente, a infância parece dizer muito do que os indivíduos serão.

E sobre se tornar irreconhecível fora de uma "religação", faz sentido. Afinal, todos nós somos muitos "istos" e "aquilos" (rótulos) e sem eles muitas das vezes as pessoas não nos compreendem, ou seja, ficamos 'invisíveis'. Um abraço.

Levi Bronzeado disse...

ISA

"...todos nós somos muitos "istos" e "aquilos"(rótulos)"

O trecho de sua fala acima, fez-me lembrar do que disse Jung:

“Todos nós vivemos papéis o tempo todo. O risco é nos identificarmos demais com os nossos papéis, e nos distanciarmos da nossa natureza e da nossa integridade”.

Há ocasiões que é tão bom ficar invisível. Concorda?(rssss)

Abçs,

Levi B. Santos

Gresder Sil disse...

Levi Levi estas a nos perturbar! A nos desmitologizar!

Estas a dizer que a nossa confraria não passa da substituição do rebanho da igreja, que também não deixa de ser a satisfação e reminiscências de nosso colo materno.

Estas a quebrar nosso orgulho de livres pensadores que não mais credita em ser amimais de rebanho.
Como é cortante sua pena, como é afiada suas folhar escritas.

Fizeste me perceber que não sou o livre e independente fazedor de idéias des-construtor de fabulas, mas sim um alguém que estava perdido e que naturalmente fui conduzido a uma nova grei por necessidades primordiais de meus instintos mais latentes.

Mas tu estas certo, temos esta necessidade social de nos agrupar e como esta dito, pela razão do que perdemos na ruptura materna.

Guiomar Barba disse...

"Se você acredita no que lhe agrada nos evangelhos e rejeita o que não gosta, não é nos evangelhos que você crê, mas em você." Agostinho.

Lembro-me um dia em que eu estava orando com toda minha alma, e o meu espírito em comunhão com o Espírito de Deus, foi cheio do "fenômeno da glossolalia." Eu nunca tinha ouvido palavras em hebraico, a igreja dos meus pais era muito simples, sem conhecimentos, e daquele dia, eu jamais esquecerei, eu estava orando em línguas de uma forma linda, suave, doce e suplicante e comecei a falar Adonai, Adonai.
O tempo passou, um belo dia eu estava lendo um livro que contava a história de uma judia e foi ali que numa maravilhosa surpresa eu conheci o significado da palavra Adonai e soube que era uma palavra falada por seres humanos. Lembrei do pentecostes.

Eu creio que a natureza é sábia, quando ela nos corta o cordão umbilical, ela nos deixa as doces lembranças, que com certeza têem muito peso na construção do nosso caráter, mas também prover em nós a capacidade de buscarmos a sabedoria que nos acolhe e ajuda-nos a entender que a vida apesar das suas dores, é um encanto e podemos viver e sermos felizes com a nossa própria identidade.

O vazio que muitas vezes sentimos,
eu creio como Santo Agostinho:

"Porque nos frizestes Senhor, para Ti, nosso coração anda sempre inquieto enquanto não se tranquilizar e descansar em Ti."

Sou leiga, falo apenas do que experiencio.

Abraço.

Levi Bronzeado disse...

GRESDER

Estamos condenados a angústia de querer descobrir as nossas raízes, através da desconstrução dos mitos e das fábulas.

Cada vez que desconstruímos alguma coisa, descobrimos mais de nós mesmos, de modo, que “desconstruir” nada mais é que cavar fundo na terra do desconhecido (inconsciente).

Ao nos aprofundarmos mais no ato de cavar, encontramos pedaços de raízes misturadas a restos de objetos de um tempo que não lembramos mais. Pedaços de moldes onde fomos forjados para ser o que somos hoje.

Marcio Alves disse...

LEVI

Realmente estamos todos interligados, pois escrevi ainda esta semana, um texto que tem tudo haver com sua postagem, onde brevemente estarei postado no blog “outro evangelho”, onde falo sobre a fé como forma de remédio para o desamparo humano.

Mas no fundo, não importa qual seja o “remédio” para tentar “curar” o desamparo humano, pois nunca conseguiremos, o máximo que podemos é minimizar, tornar a dor do desamparo em uma sensação possível de se carregar.

Inclusive, nesta mesma semana, andei pensando sobre isto, e cheguei à seguinte conclusão pensante:
O amor que é a maior de todas as formas humanas para amenizar suavizando a dor do desamparo é um prazer negativo, pois só é amor no sentido de satisfazer uma carência, portanto, se inicia no negativo do ser subjetivo do sujeito para trazer ele ao equilíbrio harmonioso da vida do zero da existência.

Abraços

Gresder Sil disse...

Levi eu estou com sensação que você esta me enrolando, não adianta fugir não adianta falar difícil, você disse ou não disse com seu texto que a confraria é uma substituição da nossa mãe igreja e que nos não somos gaviões predadores e solitários, mas pintinhos reunidos de novo em uma nova grei rsrsrs

Guiomar Barba disse...

Marcinho, você me assusta amigo.

Você disse:
"O amor que é a maior de todas as formas humanas para amenizar suavizando a dor do desamparo é um prazer negativo, pois só é amor no sentido de satisfazer uma carência, portanto, se inicia no negativo do ser subjetivo do sujeito para trazer ele ao equilíbrio harmonioso da vida do zero da existência."

Será que tudo acabou para você? Não há mais beleza, encanto no viver?

Eu não creio que o amor só é amor no sentido de satisfazer uma carência, também amamos sem nenhuma necesidade de amar, só porque nosso coração tá cheio de amor e pronto.

Ai Marcinho, já estava preocupada com você, agora fico muito mais.
Eu te amo sem te conhecer em cores e ao vivo, sem nenhuma carência de te amar. Beijão meu amigo.

Eduardo Medeiros disse...

Gresder, o Levi não ta enrolando não, ele realmente disso isso..rsssss e como poderia ser diferente? Por mais que eu desconstrua as crenças que eu herdei em minha tenra infância, eu não consigo me “livrar” delas de uma vez por todas. Quem conseguiu fazer isso, substituiu essas crenças, por outras mais amenas para a nossa “razão”. Mas ninguém, em todo tempo, pode ser sempre racional. A nossa racionalidade precisa e é dependente da fantasia, ainda que alguns queira até, racionalizar a fantasia...Levi disse, que: “descontruir é cavar fundo no incosciente” e quando lá chegamos, o que encontramos são as fôrmas e as formas que nos levaram ao que somos hoje.

Valeu, mestre, pela aula.

Levi Bronzeado disse...

GUIOMAR

A experiência inefável da glossolalia é uma realidade que a psicanálise não nega. Enquanto o pentecostalismo diz que o “falar em línguas estranhas” é um dom que vem de Deus, a psicanálise diz que é um fenômeno que tem origem no inconsciente. Ambas as instâncias estão dizendo a mesma coisa, cada uma em sua linguagem.
Se Jung reduz a religião a um fenômeno psicológico, ao mesmo tempo ele eleva o inconsciente à categoria de fenômeno religioso.

Os conceitos de religião e inconsciente se equiparam. Havendo definido a experiência religiosa como uma dominação por uma força exterior a nós mesmos, Jung passa a interpretar o conceito de “inconsciente” como um fenômeno religioso.O inconsciente para ele não pode ser apenas uma simples parte da mente individual; constitui-se um poder que escapa ao nosso controle, invadindo a nossa própria mente.

A linguagem do inconsciente, às vezes, é acolhedora como a fala da mãe; às vezes, é aterradora como a repreensão de uma autoridade (pai, chefe, tutor, Deus)

Abçs,

Levi B. Santos

Levi Bronzeado disse...

GRESDER


Não tem o que discutir meu amigo. A igreja, a confraria, a família, são formas de vivenciar o “arquétipo materno” que não nos larga.

A imagem da “Grande Mãe” pode ser uma confraria, ou a igreja, na medida em que ela se torna receptáculo de nossas fantasias, na medida em que ela nos sustenta em seu colo, nos proporcionando condições de crescimento espiritual e inspiritual.

É preciso que nos reportemos aos tempos de criança, para tomar parte no Reino dos Céus — ou Reino do Inconsciente, como diz JUNG.


“...se não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.” (Mateus 18: 3)

Gresder Sil disse...

É levi! eu sei! eu sei! mas é duro este discurso para nosso ego, é uma verdade Muito indigesta jogada em nossa cara, tu foste cruel muito cruel pra conosco !!! rsrs

Levi Bronzeado disse...

GRESDER

Não desanimes meu caro pensador!

Continuemos o nosso jogo das relações inter-humanas mediadas pela palavra.

Quem por acaso nos deterá nessa caminhada alucinada em que o campo da realidade é frequentemente invadido pelas hostes do imaginário?

Só quando estreitados pelo sentimento de não sermos compreendidos, que faz o corpo estar mal em meios aos outros, em família, em sociedade, é que aspiramos o retorno do consolo primevo (chupeta) para aliviar nosso tédio, se não na realidade pelo menos na imaginação.

Bendita seja a Confraria. Benditos sejam esses lugares onde o tempo parece parar num instante de graça.

Marcio Alves disse...

Querida GUIOMAR

Não se preocupe comigo, estou vivendo um tempo de uma mágica felicidade, onde estou casado com uma mulher linda por dentro e por fora, e com um filho que sou apaixonado por ele.

Quando disse o que disse sobre o amor ser um prazer negativo, estava como estou partindo da premissa psicanalítica de avaliar o amor – quem mais poderia falar com toda propriedade do mundo sobre isto, está justamente calado....o LEVI cadê você para dar um show comentando o comentário e tema em questão que levantei?

Então deixa eu tentar lhe explicar, e me aventurar num campo onde apenas “aranho”:

O amor é um prazer negativo porque existe para satisfazer uma carência, se ele satisfaz a carência do desamparo, logo ele parte do negativo para o zero.

Assim também é com a doença, quando o sujeito esta doente e é curado, ele retorna ao equilíbrio o qual eu chamo de ponto “zero da existência” por ser o estado normal dos seres humanos, portanto, logo quando estamos doentes, estamos no estado negativo, quando somos curados, saímos desse estado negativo para entrar no estado zero, estado natural das coisas.

Desta forma, não somente o amor e a cura são prazeres negativos, como todos aqueles prazeres que trazem o sujeito do negativo da existência para o ponto zero (equilíbrio), como também existem muitos prazeres positivos, que levam o sujeito do ponto zero, a um ponto positivo, onde não há necessidade para se satisfazer, apenas o prazer pelo prazer.

Entendeu???

Ou vou ter que recorrer ao mestre da psicanálise LEVI, para me ajudar??

Abraços

Guiomar Barba disse...

Ola Levi,

Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos. Antoine de Saint- Exupéry

As coisas do Espírito, só se discernem pelo Espírito.

No quadro que vou descrever: temos três pessoas, que nunca se viram, totalmente estranhas entre si.

Cheguei na Ig. Batista Missionária de Salvador, numa manhã de oração e jejum, haviam apenas 4 pessoas ajoelhadas orando, ninguém me olhou quando entrei caladinha. Ajoelhei-me e em silêncio, apenas com a minha mente orava, como Ana, orava, ela balbuciava, eu não. Daí um pastor que também estava ali e não era daquela igreja, começou a falar em línguas, uma irmã começou a interpretar, para minha surpreza ela respondia a cada pergunta da minha mente. Não tendo dúvidas que Deus estava falando comigo, começei a perguntar sobre coisas muito minhas que eu estava vivendo, a todas Ele me respondeu da mesma forma, através da interpretação da língua do Pr. Mizael. Quando terminou, eu ainda estava com o coração muito triste, só Deus sabia disto, mas ainda ajoelhada aquela irmã falou: por que ainda estás triste? Consola-te com o que Eu já te disse.
Ao sair daquela reunião, fui a uma livraria e ali eu recebi um telefonema que começava confirmar o que Deus havia falado comigo. seguiram-se os fatos conforme Deus falou através daquela irmazinha quase analfabeta. Eu fui embora para Belo Horizonte, e a profecia continuou se cumprindo na minha vida de forma impressionante.

Jamais vou duvidar das profecias que têem se cumprido claramente em minha vida .
Com certeza já ouvi muitas "profetadas", que eu descartei na hora, mas essas não anulam a verdade de que Deus fala como quer, através de quem quer.

Quero apenas ter discernimento para saber o que vem de Deus e o que vem de paranóias ou falsidades.

Abraço.

Guiomar Barba disse...

Marcinho querido,

Uma linda mulher por dentro e por fora, filhos maravilhosos, equilíbrio financeiro, realização profissional, tudo junto não impedem uma depressão quando estamos ansiosos em busca do inexplicável, principalmente quando isto se torna um desafio para nós.

Estou certa Levi?

Marcinho você disse: O amor é um prazer negativo porque existe para satisfazer uma carência, se ele satisfaz a carência do desamparo, logo ele parte do negativo para o zero

Só o fato do amor satisfazer uma carência, já me faz vê-lo como positivo. Nossas óticas diferem... Eu entendo, no entanto, que também se ama só pelo prazer.

Será que é egoismo quando se ama só por prazer? É "compricado".

Sei que, apesar de todas as suas loucuras, a vida tem uma lucidez que me encanta nas minhas loucuras.
Beijo.

Levi Bronzeado disse...

Prezada Guiomar

Quão interessante foi a sua experiência. Mais interessante ainda pelo fato de mostrar que o essencial pode se tornar visível aos olhos e ser expresso em palavras nos seus mínimos detalhes, contrariando o que disse Antoine de Saint-Exupery: “...o essencial é invisível aos olhos” .

Abraços,

Levi B. Santos