29 março 2010

A AGONIA FINAL DE DOIS AMIGOS



Foi em meio a sua “via crucis” que Ele tomou conhecimento do fim trágico de Judas. Alguém, ali perto, sussurrou aos seus ouvidos o que tinha acontecido ao seu desafortunado amigo.


Apesar de cansado, ofegante e banhado em sangue, Ele chorava, não só por suas dores, chorava mais pelo seu maior amigo que fraquejara, quando por força das circunstâncias foi forçado a delatá-Lo. Tinha recebido trintas moedas de prata, e isso, era o mínimo, diante da coragem que ele demonstrou depois, ao jogá-las de volta na cara dos que o tentaram corrompê-lo.


O Mestre estava arrasado com o sofrimento que levara o seu melhor amigo a tomar aquela atitude extrema, de se jogar de cima de um penhasco: Duas lágrimas rolaram dos seus olhos quando Ele balbuciou: “Coitado, o seu pecado não foi maior do que o de Pedro aquele que por três vezes me negou diante das autoridades”.


Continuou a sua caminhada cambaleante carregando a pesada cruz. Parecia inacreditável , mas, aqueles dois toros de madeira que levava sobre os ombros, não pesavam tanto quanto o sentimento profundo que dilacerava o seu peito pela perda do seu maior amigo.


De passos trêmulos, tombando aqui e ali, já sem forças e com a vista a escurecer, Ele via pelos olhos da alma, exércitos de anjos saindo de um céu aberto, avançando ao seu encontro. Naquela imensa agonia, por um instante, se viu junto ao seu amigo Judas. Viu-se criança de novo. Lembrou-se de que, carinhosamente, o chamava de “Juju”, e, também, das estripulias e escaramuças que faziam juntos pelas ruelas e sítios de Nazaré, cavando poços, fazendo moleques e jarros de barro, à sombra das parreiras e oliveiras.


Que grande coincidência! Pois não é que Judas, minutos antes, tivera o seu coração tomado pelos mesmos sentimentos do seu amigo do peito. Sentira-se invadido pelas mesmas lembranças da infância, quando fazia juras eternas, prometendo ao querido amigo, que nunca O abandonaria.


No cimo da colina a ventania fria da tarde açoitava o seu corpo em frangalhos. Sua cabeça estava tomada por um vendaval de pensamentos, que traduzidos, diziam, que não haveria mais razão para ele continuar existindo, sem a companhia de seu grande amigo. O remorso advindo da gravidade do ato que cometera era tão intenso, que ele jamais poderia imaginar que Cristo o perdoaria. Dizia então no seu íntimo: “Viver sem Ele ao meu lado, é melhor morrer!”


Deteve-se meditando por alguns instantes, para em seguida jogar-se de despenhadeiro abaixo. Por alguns segundos teve a impressão de ver cavaleiros reluzentes de prata, com uma grande rede lá embaixo apara ampará-lo na queda. Quis falar, mas não conseguiu, pois uma onda extremamente gelada partindo dos pés à cabeça, parecia querer anestesiá-lo. No último instante, com a cabeça a pender sobre um galho de bambu, lembrou-se onde estava, o que era, e porque sentia dor. Ouviu uma voz que dizia: “Não! Não és um covarde, nem desertor, nem tampouco traidor!”.


Não muito longe dali, estava o seu amigo pendurado na Cruz em estado de desidratação e anemia aguda. Ao lado Dele estava também crucificado o ladrão chamado Dimas que, em seus últimos momentos lhe fez uma súplica: “Lembra-Te de mim quando entrares no Teu Reino”. Na imaginação, o que Cristo via, era a figura do seu grande amigo Judas, ali ao seu lado, pedindo socorro.


Judas, meu irmão e amigo disse Cristo, bem baixinho, começando a tremer por inteiro Porque fizeste isto? Partiste, sem ao menos saber que eu antes já tinha pedido ao meu Pai que te perdoasse.


Fazendo um esforço sobre-humano, já sucumbindo, com sua voz trêmula na direção de Dimas (ou Judas), assim balbuciou: “Hoje mesmo estarás comigo no PARAÍSO”.


Dizem, que os dois amigos foram solidários até no momento da partida. “O que está feito, está feito!” foi o último brado que saiu de suas gargantas.




P.S.: Com o passar dos anos, em nossa cultura, Judas ficou conhecido como a encarnação do diabo, coisa que Cristo, o seu maior amigo, nunca pensou que um dia fosse acontecer. É triste constatar que a morte Daquele que pregou o perdão de forma ilimitada, seja rememorada com o hediondo ato simbólico de vingança, ainda mais, em pleno sábado de Aleluia.



DIGA NÃO À MALHAÇÃO DE JUDAS.




Ensaio-ficção por Levi B. Santos

Guarabira, 30 de março de 2009

26 março 2010

A HISTÓRIA QUE NÃO FOI ESCRITA






Os Discípulos estavam bastante preocupados, pois a sexta-feira estava indo embora junto com os últimos raios solares avermelhados no horizonte, sem que eles tivessem conseguido provisões para o Sábado ─ dia consagrado ao Senhor, em que eles não podiam arredar uma palha do chão. Ficaram mais atônitos ainda quando viram que a mochila de Judas só continha meia lata de banha de porco, meia garrafa de mel de abelha e um pouco de sal. Só Jesus não demonstrava intranqüilidade, tanto é que já iniciava uma soneca em meio ao descontrole geral dos doze que o seguiam. O barulho de vozes era tão intenso que terminou por tirar a paciência do Mestre.

Por que estão tão ansiosos? ─ pergunta Cristo, se espreguiçando.

Mestre, amanhã é Sábado! Já está anoitecendo e não conseguimos nenhuma provisão para a grande caminhada que iremos enfrentar por dois dias seguidos! ─ fala Pedro, o mais afoito, ao pé do ouvido de Jesus.

Desfiando a longa barba ainda por fazer há mais de um mês, Jesus sem demonstrar um pingo de preocupação, começa a falar pausadamente:

“Conta-se que um homem chamado Abraão, chegando ao Monte Moriá, começou a juntar lenha para a sua fogueira sacrificial, quando o seu filho curiosamente perguntou: ‘Pai! Onde está o cordeiro que vai ser sacrificado?’. Ele então respondeu: ‘Deus proverá!’”

Com essas palavras do mestre, os discípulos, em sua maioria, céticos, se acalmaram mais. Só Pedro e Judas ficaram a noite quase inteira, resmungando.

Já passavam das duas horas da tarde do sábado, quando os discípulos, esfomeados e empapados de suor reclamaram de tonturas e náuseas.
Jesus também estava pra lá de faminto, e, num estalo, lembrou-se que ali perto, à cerca de pouco mais de mil metros, em direção ao norte, existia um roçado de milho. Animou-se e encorajou os discípulos:

Vamos cambada! Andaremos só uns 1.500 metros para encontrar o maná que irá saciar a nossa fome.

Chegaram enfim junto à cerca do milharal e viram grandes e belas espigas a balançar açoitadas pelo vento, que encheram de água as suas bocas.

Os discípulos se assustaram quando Jesus gritou para eles:

Vamos rapazes! Vamos rápidos!. Pulem a cerca e tragam uma mão de milho (cerca de 50 espigas) para assarmos, e se possível fazer uma pamonhada daquelas! João e André ficam aqui comigo providenciando o fogo.

Um Uhhhhhhhhh! ─ tomou conta do ambiente. Os discípulos extasiados, de olhos arregalados não acreditavam no que estavam vendo. Pedro o mais metido, toma da palavra:

Tu bem sabes Mestre, que é coisa muito grave invadir a seara alheia para retirar alimentos sem autorização do dono, ainda por cima, num dia de Sábado. Se fizermos isto, os fariseus e os homens da Lei que andam doidos para Te apanhar, estarão dessa forma com a faca e o queijo nas mãos.

Meus inocentes discípulos, com certeza eles virão com essa velha história de : “As escrituras dizem....; A Lei de Moisés diz...”. Se vierem com esses velhos chavões, eu vou responder no mesmo nível a esses “sepulcros caiados”, a essa “raça de víboras”.

Os discípulos taparam os ouvidos com as mãos para não ouvir os palavrões do Mestre. Naquela época, denominar uma autoridade de “raça de víbora” e “sepulcro caiado” era de uma gravidade extrema.

Tem um caso urgente parecido com o nosso aqui, que versa sobre fome, lá mesmo, nas escrituras deles. Se eles vivem a torto e a direito, dizendo a Escritura Sagrada diz..., para me acusar, eu vou contar uma história que está registrada na própria Torah, para justificar a razão pela qual invadimos essa propriedade para saciar a nossa fome - disse o Mestre, já demonstrando indignação

Mestre! Sei que já é tarde, mas conta-nos em poucas palavras o desfecho dessa história, pelo amor do Teu Pai que está nos céus! ─ pediu João, amorosamente.

O mestre mandou todos sentarem sobre a relva, e contou como Davi e os que com eles estavam livraram-se de uma grande fome, sendo que a única solução que o rei encontrou foi invadir o recinto sagrado onde só o sacerdote podia entrar. Então, se apossou dos pães da propositura, saciando a sua fome e a dos demais que estavam com ele, tudo com a aquiescência e o consentimento do sacerdote, de modo que Davi e os seus, não se sentiram culpados ao violarem o templo, num sábado. (Mateus 12: 3 – 8)

Terminada a pequena história, o Mestre ainda disse: “Nós somos maiores que o Sábado”. Tem mais: “ele é nosso servo!”. Portanto, comamos nosso milho assado e nossas pamonhas, sem medo de nos sentirmos culpados.

Muito mal Jesus concluíra a sua lição, Pedro, Judas e Bartolomeu, já estavam lambendo as cascas das deliciosas pamonhas de milho verde colhido na hora.



Ensaio-ficção por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de março de 2009

21 março 2010

OS ARQUÉTIPOS QUE NOS ESTRUTURAM




Há dentro do ser humano que não atingiu a maturidade, uma ansiedade profunda que o leva a desejar indefinidamente permanecer criança, esboçando quase sempre uma atitude defensiva que o impede de tomar decisões, assumir responsabilidades e exercer sem culpas o exercício do PENSAR. Inconscientemente procura a todo custo, evitar a experiência inquietante do existir.


É na qualidade de criança que não confia em si, que ele se dirige a uma autoridade ou líder, e, incapaz de ter crenças e opiniões próprias, prefere se render ao acalanto imaginário do gozo oferecido pelos pais naturais nos seus primeiros anos de vida.


A proposta repressiva idealizada brilhantemente por Freud com base na tradição religiosa judaico-cristã, foi genial, e continua, ainda hoje, dando uma enorme contribuição para compreensão da deformação cultural, que atualizou cientificamente a maldição do Gênese na trajetória histórica da humanidade. A obra repressora da inquisição antiga não acabou, antes, continua de forma sutil ou sub-reptícia entre nós.


A psicanálise foi muito além, ao descobrir a neurose religiosa e sua forma de gozo advinda de uma submissão doentia. Foi Jung que estudou, cansativamente, os “arquétipos”. Eles são funções estruturantes que extraem características dos símbolos para formar e transformar a identidade humana.


A nossa civilização vive hoje a realidade social preconizada pelo Mito da Criação, como que tolhida pelo Arquétipo patriarcal, representado pela figura do Deus Vétero-Testamentário. A sede de conhecimento e a criatividade humana e psíquica já nasceram estigmatizadas pela maléfica “serpente edênica” ─ tida como o mais sagaz entre todos os animais selvagens.


Conhecemos, quando crianças, a autoridade/autoritarismo do nosso pai natural, que foi inserida em nossa psique estruturalmente e nos marcou pela vida afora, e que, hoje, pode se exibir em forma de um arquétipo dominador ─ aquele que tem o poder de destruir o desobediente. Então, muitos, por falta de conscientização ficam nessa condição psicológica de servidão infantil. A submissão é a principal garantia de sua estabilidade emocional e social, e, seu gozo maior é participar da geléia geral que domina a sociedade de consumo.


A religião ocidental tomou posse da repressão dos desejos para cumprir a sua tarefa de impedir qualquer independência psíquica. A docilidade infantil é socialmente necessária para “o agir” da autoridade. Ao mesmo tempo em que se oferece às massas certa satisfação simbolizada pelo “gozo da submissão”, impede que elas procurem modificar a sua posição de filhos obedientes à de filhos rebeldes.


Falta a compreensão de que existe na psique do homem ocidental, um outro Arquétipo ─ o Arquétipo da Alteridade, que na tradição cristã é Jesus Cristo, e faz com que o indivíduo não permaneça polarizado na posição de submissão ao Arquétipo Patriarcal. Foi sob a égide do Deus Patriarcal que surgiram as tiranias, que mantém os privilégios dos poderosos em detrimento dos oprimidos.


Hegel, foi genial, ao formular em sua lógica, que a “tese” e a “antítese” são necessárias para formar a “síntese”. Esta síntese, religiosamente falando, representa a dialética resultante da ação entre o pólo do Arquétipo Patriarcal e o pólo do Arquétipo da Alteridade. Na figura de Cristo, podemos identificar, através da dialética, o que do antigo Arquétipo deve ser preservado, e o que na “antítese” a inovação deve ser aproveitada na composição da “síntese”. Na alteridade de Cristo perante Deus, ele parece desdenhar do Arquétipo Patriarcal, ao trazer os pecados do mundo para o seu colo, como o Cordeiro sacrificado que ele mesmo foi.


Salieri, famoso professor Europeu de música, que conviveu com Mozart, já sob o peso da velhice, lembrou-se de uma oração que fizera quando criança, que expressa sobre si mesmo, o domínio avassalador do Arquétipo Patriarcal:


“[...] ajoelhei-me diante do Deus da Barganha com todo o fervor, e assim orei: ‘Fazei de mim um compositor. Dai-me fama. Em troca viverei em virtude. Lutarei para melhorar a sorte dos meus colegas, e vos honrarei com muita música todos os dias da minha vida’.

Assim que eu disse amém, vi que os olhos Dele brilhavam como se dissesse: ‘vá em frente, Salieri! Dedique-se a mim e a humanidade e Eu o abençoarei’. Eu então respondi: ‘serei vosso servidor por toda a vida’.


O arquétipo Patriarcal, diante da mentira, responde com o castigo, a pena e a culpa.

O arquétipo da Alteridade coordena a elaboração de modo democrático, regido pelo princípio da compaixão, do desapego à unilateralidade, e diante da mentira não a reprime, antes, a reconhece, a acolhe, a elabora, trazendo seu conteúdo para consciência, evitando que ela se transforme numa “Sombra”, acobertada pela “Persona” defensiva da santidade e honestidade do mentiroso.



Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 20 de março de 2010



FONTES: 1. Psicanálise e Religião – Erich Fromm (Editora Ibero-Americana)

...............,,2. Psicologia e Religião – C.G. Jung (Editora Vozes)

...............,,3. Inveja Criativa – C. A. B. Byington (Editora Religare)


18 março 2010

O DIÁCONO ESPEROU ATÉ O FIM




Ele era bastante jovem quando foi promovido a diácono em sua igreja. Adorava prestar serviços por horas a fio no posto de sentinela à porta do velho templo. Aquele era um local muito barulhento, e naquele entre e sai de gente conversando, sem o mínimo de respeito à Palavra do pregador, em sua imaginação ele parecia estar lutando contra as tropas estrangeiras do mundo de Lúcifer. Com sua velha e rota Bíblia em punho, via-se armado como se estivesse à espera de um inimigo oculto, que poderia aparecer a qualquer momento.

Durante anos viveu solitariamente naquele posto de diácono-porteiro, mas sempre pensando um dia galgar o posto máximo da hierarquia eclesiástica. Doara a sua vida na vigilância contra um inimigo que nunca chegara a conhecer. Vivia enfim uma vida petrificada numa agenda monótona de dias terrivelmente iguais. Não se dava conta que ia envelhecendo dentro de uma concha silenciosa, numa espécie de obsessão disciplinar, castradora dos sentimentos mais puros e estranhamente reprimidos pelo medo imaginário que o deixava sempre à espreita de um estranho a invadir os seus domínios sagrados.

Andava para lá e para cá, varando manhãs ensolaradas, tardes de ventania e noites gélidas, repetindo os mesmos gestos, marchando pelos mesmos caminhos, buscando com os olhos de assombração uma utópica imagem que pudesse afugentar com os versículos chavões previamente marcados em vermelho no seu Sagrado livro de capa preta. Alimentou, por anos a fio, a esperança de que chegaria o dia em que pudesse, afinal, demonstrar a sua valentia contra o inimigo e assim poder subir na carreira eclesiástica, profetizada e escolhida no seu tempo de menino pela sua velha mãe. Vivia enfim numa esperança mórbida, na expectativa de uma batalha imaginária que poderia levá-lo a um destino de glórias.

O tempo passou, e o diácono ainda não percebia que paulatinamente dissolvera os seus dias, os seus anos, numa repetição contínua de atos mecânicos, insossos, sem alegria, numa atmosfera de inexorável obsessão. E assim, congelado no tempo, não mais sabia se ainda estava vivendo ou se morrera. Renunciara a alegria de viver para obedecer de maneira fiel a um “rito” que o transformou em um autômato a serviço da instituição religiosa.

O moço diácono transformado agora num velho diácono passava em revista a sua vida. A profissão da eterna espreita de um inimigo o engessou num invólucro impermeável e estéril ao gozo, transformando a sua vida numa interminável expiação. Erigiu então dentro do seu próprio ser uma fortaleza, fundamentada sobre o “temor”, que se nutria das severas penitências pelas faltas cometidas. Passou toda a sua vida numa atmosfera austera e sinistra à espera de um inimigo, que nunca apareceu aos seus olhos, nem nunca poderia aparecer, pois era cego para ver dentro de si. Vivendo sempre uma expectativa de guerra com as forças diabólicas.

Envelhecera no seu posto, tentando expiar a sua culpa, com obsessão inesgotável contra um ilusório inimigo, tal qual um militar que monta guarda, verificando diuturnamente as armas, preparando os canhões, limpando o telescópio, e mantendo-se em vigília. Arrebatado pelo que poderia aparecer no horizonte, nunca veio suspeitar que estivesse fiscalizando a sua própria sombra oculta nos porões do seu inconsciente.

Ali no seu leito de dor, via terminada a sua estrada rumo ao posto maior da Eclésia. No seu quarto, quando envolto pelas trevas da noite, parecia ouvir os doces hinos de sua igreja, entre os arpejos de um violão, e isso fazia então nascer dentro de si uma nesga de esperança, sem saber que a batalha final estava tão perto.

Em sonhos ouvia uma voz constante dizer ao seu ouvido: “Coragem meu velho diácono, esta é a sua última cartada, vá ao encontro da morte como um soldado. Mesmo que ninguém cante louvores para ti, mesmo que ninguém te chame de Pastor. Mesmo com os teus sonhos transformados em desejos rotos e amarguras, és bravo, por ainda esperar”.

Moribundo, o diácono mal conseguia respirar, mas ainda pensava: “e se dentro de alguns minutos, dentro de uma hora, alguém viesse ungir-me como pastor?”.

Nessa noite a voz lhe soou ao ouvido pela última vez: “meu querido e velho diácono, mesmo se não houver mais os cânticos para te consolar e, ao contrário dessa fria noite, vierem névoas fétidas, tudo será o mesmo. O que importa já foi feito, não podem mais enganá-lo".

Na escuridão densa do seu quarto, ninguém o vê, mas ele parece sorrir, antes de dar o seu último suspiro.




Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de março de 2009



12 março 2010

O NASCIMENTO DA INDIVIDUALIDADE

O desejo de liberdade é algo inerente a natureza humana. Hobbes identificou a ânsia de poder como a força propulsora do homem. Freud foi mais além, ao ver que cada pessoa trabalha para si, individualisticamente, por seu próprio risco. A concepção freudiana das relações humanas é essencialmente a mesma: o indivíduo tem impulsos biológicos que precisam ser satisfeitos. A fim de satisfazê-los a pessoa entra em relação com outros objetos, que são os outros indivíduos, pois, eles são sempre um meio para se alcançar o fim necessário, sendo o campo das relações humanas, análogo ao Mercado, cuja moeda, é o intercâmbio de desejos ou necessidades, em que a relação com o outro indivíduo é sempre um meio para atingir um fim, nunca um fim por si mesma.

Mas, ao lado de um desejo inato de liberdade, há também uma aspiração instintiva à submissão. Não só nos submetemos a um chefe pessoal, como nos submetemos às compulsões interiores que são uma espécie de autoridade anônima das profundezas do nosso inconsciente.

O mito bíblico do Gênesis relata uma escolha em que o primeiro ato de liberdade é também um ato de sofrimento. Ao comer do fruto da árvore do Bem e do Mal o homem realiza o seu primeiro ato de liberdade, que em suma é um ato gerador de culpa, pois é resultado de uma transgressão. Ao agir contra Deus, ou contra a autoridade do seu inconsciente o homem emerge para sua existência, impotente e temeroso. A recém conquistada liberdade aparece-lhe como maldição. Ele se vê livre do doce cativeiro do paraíso para realizar a tão sonhada e espinhosa individualidade.

Mas esse mito bíblico nos remete a nossa infância, quando saímos da esfera de proteção materna para enfrentamento do processo educativo, que gera frustrações. Nos primeiros anos a criança se comporta com submissão rígida às autoridades, mas com o tempo ela aprende a não se curvar com ternura diante dos seus mestres e tutores, passando a experimentar, a partir de então, os aspectos perigosos e avassaladores da solidão da liberdade instintiva.

É na criança, que logo cedo, se inicia o salutar desejo de promoção, mas coitada, sente-se culpada pelo desejo de tomar uma iniciativa contrária a da autoridade que lhe rege, e, se não pode exprimir o que sente, foge para o seu mundo imaginário, arriscando-se a viver à margem da comunicação. A educação que ensina, logo cedo, a criança a ter sentimentos que não são de forma alguma dela, em particular, é responsável, em parte, pela artificial etiqueta de ter que ser sempre amistosa com todos, mesmo sabendo que isso é uma insinceridade e hipocrisia.

Por uma determinada época, a criança descobre a contradição entre o que os adultos dizem e o que fazem. A criança termina por reconhecer as verdades não ditas, ignorando ou recalcando os seus desejos, que mais tarde, quando adultos vão ser responsáveis pelos seus sentimentos de poder, uns sobre os outros.

Nós, os adultos e crianças de ontem, vivemos como que fascinados pelo aumento da liberdade de poderes fora de nós, e cegos para as nossas restrições, compulsões e medos interiores, que forjados nos primeiros anos de vida foram desaguar no assombroso individualismo da sociedade moderna.

O homem moderno se esconde por trás de uma fachada de satisfação e otimismo; em verdade, está à beira do desespero. Ele se apega desesperadamente à noção de individualidade; quer ser “diferente” e não encontra maior elogio para qualquer coisa que não a de ser “diferente”.




Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de março de 2009



FONTES:. 1. O Medo à Liberdade - Erich Fromm (Editora Zahar)
...............2. Solidão - Françoise Dolto (Editora Martins Fontes)



03 março 2010

OS VERDADEIROS E OS FALSOS PALHAÇOS





Toda vez que um circo se instalava em minha pequena cidade o meu coração ficava em alvoroço. Naquele tempo não existia carros com alto-falantes para anunciar eventos pelas ruas. As apresentações das peças noturnas do circo eram anunciadas por um palhaço de longas pernas de paus, que elevava o seu corpo a altura dos telhados das casas. A gurizada que acompanhava o palhaço pelas principais ruas da cidade, respondendo em coro as suas perguntas carregadas de humor, tinham direito a um ingresso para assistir as peripécias dos meliantes circenses durante uma noite escolhida por eles durante a temporada do circo, que geralmente não ultrapassava os oito dias.


Tinha lá os meus dez ou doze anos de idade, quando tive a oportunidade de ouvir pela primeira vez a palavra “espetáculo”. Lembro-me bem dos gritos esfuziantes do palhaço.


Hoje tem espetáculo? ─ bradava ele numa espécie de megafone feito de lata.


Tem sim senhor!” – respondíamos em uníssono.


Vai haver marmelada? ─ emendava o palhaço, dando passadas longas com suas pernas de paus cobertas por um pijamão intensamente colorido.


Vai sim senhor! ─ gritávamos, todos em uma só voz.


Tínhamos que decorar as respostas do jeito que o palhaço nos ensinara, sem gaguejar ou sair do tom, numa cantilena repetitiva. As demais estrofes da opereta eu não me lembro agora.


Mas a palavra “espetáculo” ficou gravada indelevelmente em minha mente.


Não é que hoje, aos meus sessenta e três anos de idade, toda vez que vejo os telepastores executando suas diabruras e retetês nos supostos programas evangélicos pela Televisão, me vem à lembrança os meus tempos de menino em que corria aplaudindo e repetindo os refrões previamente decorados, seguindo o palhaço de pernas de paus, para ganhar um ingresso de uma noite no circo de lona esburacada.


Acho, que devido os tele-evangelistas serem tão engraçados em suas piruetas e mungangas, e que apesar de não se pintarem nem se vestirem com roupas extravagantemente coloridas, evocam lá do meu inconsciente um outro espetáculo o da figura do palhaço de pernas de pau, que alegremente fazia a propaganda do seu circo nas ruas íngremes de minha cidade.


Assistindo aos programas dos supostos homens de deus, na TV, eu me sinto como se estivesse no meio da plateia ensandecida e histérica gritando bordões e dando palmas para Jesus.


Não seria esse o motivo pelo qual Freud denominou a religião de uma ilusão infantil, ou infantilismo?


O que me atrai, ou o que me faz ligar a Televisão para assistir os espetáculos “Show da Fé”, o “Programa da Vitória do Silas” entre outras peças ridículas do evangeliquês universal, senão, o desejo inconsciente que em mim ficou gravado do tempo que corria embevecido atrás do palhaço de gigantes pernas de paus?


Naquele tempo o que me atraia muito era ver o palhaço verdadeiro caminhar com raro equilíbrio em cimas das pernas de paus gigantes, sem titubear. Talvez, o que me faz deter por alguns momentos diante das figuras do telepastores nos seus risíveis programas seja o prazer de reviver ou trazer à tona aqueles tempos que não voltam mais.

Mas cadê as pernas de paus que me atraiam tanto, nos palhaços de outrora?


Ah! já sei: elas na certa sofreram um deslocamento, ou transmutação (processo de transferência de natureza psicológica). O rosto do apresentador “evangélico” que me prende o olhar, está com certeza simbolizando as pernas de paus do palhaço do tempo de minha meninice. Ah! Agora, sinto que tudo se encaixa direitinho. Entendi perfeitamente a razão pela qual sempre saio revoltado para o meu quarto de dormir, após os programas gospel, ocasião em que fico repetindo para mim mesmo: “Esses bandidos são uns ‘caras de pau’, são uns ‘caras de pau’”.


Quando acaba a pantomima televisiva, dirijo-me ao leito, sem deixar de sentir reverberar em mim o vozerio do palhaço gospel manipulando sua platéia com gastos bordões:


Repitam comigo agora!

Deuuuuuuuus!

Deuuuuuus ─ repete a platéia de olhos fechados e punhos erguidos

Vai me dar a Vitória Financeira. É hooooooooje! – berra o ator pregador

Vai me dar a Vitória Finaceeeeeeiraaa – repete sem pensar a multidão entorpecida.

Mais altoooooooooo!! Parece que aqui só tem crente frouxo – dispara o sofista pregador.


São em momentos como esse que, tomado de intensa indignação, acabo por desligar a televisão, abruptamente.


Acho que Freud explica as razões de minha revolta: Talvez, a parte divina do meu inconsciente faz com que eu não suporte ver homens que se dizem representantes de Deus, desvirtuar na maior “Cara de Pau” o palhaço profissional e honesto do meu tempo de menino. A minha revolta está aí explicada, inconscientemente exteriorizada em forma de repulsa pelo espetáculo dos falsos palhaços gospel, que de forma canhestra, deturpa ou falseia as alegres noitadas em que me divertia com um palhaço de verdade, na minha tenra infância.




P.S: No dia 27 de março comemora-se o dia do Circo. Aproveito o ensejo para deixar registrada aqui a minha homenagem aos grandes, sinceros e verdadeiros palhaços brasileiros que fizeram a alegria de muitos, como Carequinha, Arrelia e Piolin, de saudosa memória. Ao mesmo tempo em que deixo o meu repúdio aos falsos palhaços da prosperidade pentecostal que protagonizam diariamente um espetáculo de baixo nível, cobrando ingressos extorsivos pela pregação de mentiras e falsos milagres num suposto nome de Deus.




Por Levi B. Santos

Guarabira, 03 de março de 2010