02 janeiro 2011

A Alma Sofredora do Ensaísta


Encontrar uma “pedra” no meio do caminho é sempre bom: a gente PÁRA, e senta sobre a mesma, descansa um pouco e, mais relaxado inicia uma breve reflexão sobre o mundo das palavras ditas e ouvidas. Não dá para se demorar nesse repouso, porque o lado mecânico que a civilização nos impõe, exige uma caminhada célere, sem interrupções. Quanto ao recanto oferecido como sombra para a escrita dos nossos ensaios, alguns, querem submetê-lo às regras rígidas da sociedade mercantilista.

Estou a escrever, e ao mesmo tempo, ligadíssimo, no que está registrado nas “escrituras sagradas” da blogosfera (não sei o capítulo e o versículo): “Queres ser lido? Tenhas agilidade para dizer tudo em frases curtas ou condensadas ao máximo. Quanto ao objetivo do teu pensamento, não importa que fique incompleto ou ininteligível”.

Mas a intenção do ensaísta não é a de exaurir e tirar o fôlego do leitor?

Como fazer isso, sem pressa, na fauna exuberante em que se vive? Como realizar tal façanha, se as pedras existentes no caminho não fazem deter as pessoas que, à maneira de “insetos”, correm assustadas pelos canais ou escoadouros dos “guetos” globalizados? Como ser ouvido, se a maioria não consegue parar, pois, se encontra como um bando de crianças amedrontadas, batendo-se umas nas outras num quarto escuro?.

Como atrair para a leitura, àqueles que estão sempre com pressa, sempre fazendo contas, falando ao celular, preso em seu carro em um engarrafamento?

Infelizmente, o ensaísta está fadado ao ostracismo. O homem “pós-moderno” não irá lê-lo, é quase impossível ele desligar o motor que o move, para ver a pedra que está no seu caminho; ele fatalmente a contornará.

Cabe ao ensaísta se reinventar e esboçar uma filosofia do cotidiano, para que, assim, possa acompanhar o indivíduo energizado pelo comando midiático da sociedade de consumo. Faz-se necessário encontrar um meio de acompanhá-lo em seu movimento contínuo e inexorável pela sobrevivência. Se esse homem nunca se encontra disponível para um intercâmbio no campo das idéias, que encontremos uma fórmula para cooptá-lo no trabalho, no comércio, no hospital, no avião, no celular, no shopping, no hospital, ou até na cama (onde, se supõe, esteja mais solto e leve).

Quem sabe, poderíamos até tomar aulas com os grandes empresários da rede "fast food". Não foram eles que, finalmente, encontraram a solução mágica para alimentar as massas com refeições tão rápidas, que não permite pensar no que se está a deglutir?! Ah, ia esquecendo que a internet já dispõe de sistemas de intercâmbio, tipo "fast food", tendo a frente esse importante aviso: “não ultrapasse os 140 caracteres” (para não causar indigestão?!)

Não! Não irei aceitar esse tipo de engessamento no campo da escrita. Ainda guardo no meu peito um fio de esperança que os blogs não venham adotar tal forma de aprisionamento.

Mesmo que me atrase na jornada que me foi predeterminada, sempre que encontrar uma pedra no caminho, não me furtarei em sentar sobre ela, a fim de poder escrever fragmentos do meu pensar, em esboços ou rascunhos, sem me preocupar com o número de palavras que irei usar. Essa será a trincheira de resistência da minha alma ensaísta, que não quer se render a um mundo obcecado pela “felicidade enlatada”. Se por acaso fracassar, o aforismo do filósofo e ensaísta, Luiz Felipe Pondé, me consolará: O Que Nos Humaniza é o Fracasso”.

P.S.: Perdão, caro usuário do Facebook ou do Twitter, por este ensaio ter ultrapassado os 140 caracteres.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 02 de Janeiro de 2011

4 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

levi, muito oportuna a tua reflexão.

"Não dá para se demorar nesse repouso, porque o lado mecânico que a civilização nos impõe, exige uma caminhada célere, sem interrupções."

a linguagem da internet, usada principalmente pelos jovens, expressa esta geração que não pára, que por ser acelerada ao extremo, diz tudo com símbolos (emotions... é isso mesmo? rs) e corta as palavras pela metade pois a vida acelerada urge e prá que perder tempo escrevendo "porque" se basta um "pq" ou escrever "você", se basta um "vc"?

quando eu comecei a usar a net, já se vão uns 15 anos eu acho, eu sentia uma tremenda dificuldade em entender os que os outros escreviam em chats e percebia que só eu escrevia o português pois todos só conheciam o netquês...rss

dizer muito com poucos palavras é uma arte que poucos têm. me reporto aqui ao rubem fonseca que escreve de modo bem sintético e diz muito com pouco.

mas as novas linguagens estão aí e precisam ser debatidas, afinal de contas, a linguagem é viva e se modifica com o tempo.

(eu também estou assassinando o bom português pois não uso mais maiúsculas nos comentários para ganhar tempo e por preguiça...rsssss a velocidade pós- moderna não poupa ninguém, você é o último bastão do bom vernáculo, inclusive nos comentários.) rsssss

Anônimo disse...

Parabéns ao ensaista pelo belíssimo texto. Caro cronista, conhecendo bem sua verve condoreira de artista, devo dizer que os leitores estão ansiosos e ávidos para sorver o cálice de tua prosa contumaz no que trata do ineditismo de uma mulher assumir o cargo mais "alto"(talvez não em metros de altura, considerando que não há muitos picos no planalto brasiliense...)da burocracia nacional, que é o posto de Chefe maior da nação brasileira. Talvez menos por sua historiografia política que pelo apóio massificado em apóio ao seu padrinho Lula, deve-se salientar que de qualquer forma o Feminismo, ou melhor, o movimento feminista, não no sentido

Anônimo disse...

...oposto ao machismo, mas no sentido mais límpido e puro do feminismo Bovaryano, a mulher, com a chegada de Dilma ao poder, tem simbolicamente a coroação máxima das lutas femininas, que se não enobrece ainda mais todas as conquistas, ao menos pontua finalmente a sentença que nós homens já intuíamos muito "guela abaixo", de que a mulher atingiu completamente um patamar de igualdade com o sexo oposto. Ainda que toda essa liberação feminina venha a causar traumas e fraturas irreconciliáveis na alma masculina, que vê a mulher masculinizada, bem como não raras vezes uma confusão mental na própria mulher, que "acorda" com novos modos de ser e experimentar a vida de um ângulo agora masculino. Já pensou nas crises existenciais masculinas no corpo feminino da mulher? E os novos medos, as novas neuroses nascidas da sonhada igualdade entre os sexos?
Abraços...
Ferreira Pessoa Roterdã Drummond de Andrade.

Paulinha disse...

Meu amigo LEVI,

Isto é verdade...porque não sentar-se em cima daquela pedra que está no meio do caminho e descansar um pouco?!

Até que seria a melhor saída, já que a jornada é longa..mas as pessoas têm pressa, porque se perderem "o trem das onze" já era..Rss...

E bem salientado a questão do mundo virtual, confesso que tenho todo o tipo de site de relacionamento existente no mundo moderno, e já me adequei um pouco às escritas abreviadas e aos emoticons do tipo :P (mostrando a língua...Rss..)..

E confesso que se eu abreviasse todo este comentário como faço lá no Twitter, e MSN...Levi, um tradutor ainda seria pouco...haha

Mas fazer o que?! Eu não sei onde este mundo vai parar com tanta pressa, com tanta agilidade...se nem a Terra tem tanta pressa e leva um ano para dar uma volta completa...

Imagine se ela quisesse dar uma volta completa em 2 horas?! kkkk..

Beijos querido!