23 janeiro 2011

Somos Babélicos por Natureza



Mitos são verdades ancestrais que nos ajudam a compreender melhor a vida. Um deles, para mim, se reveste de crucial importância: o Mito de Babel, descrito no livro do Gênesis, que simboliza antes de tudo, a utópica idéia humana de que a felicidade pode ser construída e desfrutada racionalmente ou através da razão. Erigir uma “torre” que toque os “céus” é a metáfora representativa daquela vontade premente de ter, um dia, autonomia e capacidade de criar um paraíso com nossas próprias mãos.

Os eternos construtores dessa torre têm, todos, um mesmo interesse: corrigir o que seria uma injustiça cósmica ou divina.

Segundo Jacques Derrida, em seu livro Psyché (1987), “a tradução desse emblemático mito bíblico diz muito do projeto humano que visa uma comunicação clara e direta com os homens, e também mostra um Deus poderoso que impõe a sua própria língua, que fragmentada em miríades de línguas humanas — será para sempre estranha e estrangeira para os homens, que estarão irremediavelmente condenados à falibilidade e incompletude, além de necessitarem de uma sempre falha tradução. [...] Mais ainda, o nome de Deus é uma metáfora na própria língua para simbolizar o enigma da origem de tudo — nosso anseio de paternidade, nós, pobres homens órfãos, condenados à vida sem sabermos o porquê”.

Luiz Felipe Pondé, filósofo e professor da PUC – SP, em seu recente livro “Ensaios do Afeto”(página 159), a respeito da metáfora — Babel, diz o seguinte: “Sobretudo, o que nos faz babelianos e descendentes de Adão e Eva é nossa revolta banal contra a evidente infelicidade da vida. Com isso não quero negar, como alguns críticos babelianos mal informados suporiam, o direito de superarmos a dor no que for possível, quero sim apontar o necessário fracasso de toda empreitada humana de perfeição (assaltar o paraíso)”

Os modernos teólogos de Babel que sentem a necessidade de um discurso comum, vêem Deus como um usurpador, e se vêem como desprestigiados. O que o babeliano não sabe é que a torre cientificamente erguida tem dias contados, pois, ao se tentar entender o conhecimento do ser em si, por meios racionais, o que se experimenta é simplesmente uma confusão de línguas. É que ao se atingir certa altura no soerguimento da torre em direção ao “céu”, entra-se numa zona de grande turbulência, onde forças obscuras falam línguas totalmente diferentes daquela que conscientemente usamos.

O fato, é que o paraíso é subjetivo e não se resolve ou se disseca com as equações da engenharia humana.

Goethe (em Educação e Formação Orgânica da Natureza) diz que “todo ser vivente não é simples, mas uma multiplicidade; embora nos pareça um indivíduo, “permanece sendo uma ‘reunião’ de seres vivos autônomos [...] [que] se separam – e se procuram novamente”. Nessa dimensão polilógica, o multilingüismo possui muitas valências e muitos destinos: riqueza e multiplicidade, mas também confusão e perda (p. 312)”.

Mas o que este mito nos remete, senão à evidência da passagem da natureza humana para a cultura. Na linguagem mítica, Deus, como metáfora do inconsciente, permanece em sua essência o mesmo, variando apenas a Sua interpretação por cada povo. A variedade de línguas é a solução, quando se deseja particularizar o Indefinível e Insondável, dando-lhe um nome.

Quanto à Torre de Babel, o “ato de destruição” de Deus significa que não podemos erradicar a ambivalência que em cada cultura existe, com seu próprio pano de fundo lingüístico.

A atmosfera pesada de Babel, só se tornará mais respirável quando nos dermos conta de que estaremos reprimindo a nossa própria heterogeneidade psíquica, toda vez que quisermos impor, sobre todas as formas, a nossa razão sobre a do outro, fazendo valer a nossa língua em detrimento da linguagem expressa pelo outro.

O uno (de uma única torre com uma única língua) seria uma maldição, ao passo que a diversidade de pensamentos e línguas é sinal de riqueza. É por isso, que hoje, podemos dizer: a internet é uma babel (divina confusão), e não poderia ser diferente, uma vez, que ela reflete a nossa “babel interior”.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 23 de janeiro de 2010

9 comentários:

André Pereira disse...

A Graça e a Paz amado irmao Levi

estou aqui te visitando novamente e parabenizalo por postagens bem humoradas mais verdadeiras...

fique na Paz do nosso Senhor...

shalom

Guiomar Barba disse...

Quantas torres de babel temos levantada neste mundo caótico? E quantos de nós desejamos realmente falar a mesma língua? E se conseguissemos falar a mesma língua, será que íriamos realmente viver em um paraíso?

Deus nos conhece quando ainda informes...

Belo ensaio, realmente sua mente é brilhante.

Beijo.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Prezado Levi,

Parabéns pelo artigo!

Conforme havia compartilhado ao responder o email do UOL que fora enviado aepnas com o início do artigo, escrevi que o mito da torre também me mostra, secundariamente, a impossibilidade dos homens em chegarem até Deus pelo auto-esforço.

Lendo hoje seu texto na íntegra, concordo quando diz que "a atmosfera pesada de Babel, só se tornará mais respirável quando nos dermos conta de que estaremos reprimindo a nossa própria heterogeneidade psíquica, toda vez que quisermos impor, sobre todas as formas, a nossa razão sobre a do outro, fazendo valer a nossa língua em detrimento da linguagem expressa pelo outro".

Eu diria que, na história cristã estamos cheios de babéis doutrinárias. Por isto agente vê tantas divisões no nosso meio. Não apenas no protestantismo, mas também no próprio catolicismo romano, o qual só conseguiu manter sua unidade papal às custas de excomunhões e até por meio das inquisições com as mais hediondas perseguições religiosas.

Se não ficar chateado pela despretenciosa propaganda sem fins lucrativos, quero compartilhar um artigo em meu blogue que também fala do assunto:

"Quando os templos das igrejas se transformam em terríveis “zigurates”..."
http://doutorrodrigoluz.blogspot.com/2010/09/quando-os-templos-das-igrejas-se.html

Eder Barbosa de Melo disse...

Olá Levi,

Certamente a internet é uma das maiores torres de Babel que existem e nisso está a sua grandeza, na sua diversidade, na interatividade, na troca. Sempre que ambicionamos a supremacia e que isso nos coloca em posição de superioridade em relação ao próximo - porque na verdade o homem sempre quis ser deus, como lemos em Genesis, daí a necessidade de impor a nossa autoridade - constataremos a nossa pequenez, o quanto somos falíveis.

Deus requer de nós muito mais que uma simples fé, mas a prática do amor que se consolida na igualdade, mesmo quando se faz necessário vencer esse abismo linguistico.

Eduardo Medeiros disse...

levi, que bom que vivemos em babel, na "confusão", na variedades de línguas e de nomes, culturas e fés, pois só nesse caos de diferenças, podemos exercitar o que você tão bem conclui ao dizer que

"estaremos reprimindo a nossa própria heterogeneidade psíquica, toda vez que quisermos impor, sobre todas as formas, a nossa razão sobre a do outro..."

essa heterogeneidade é saudável apesar do aparente caos, já que a unanimidade das línguas só produziu um zigurate racional confuso quando o topo chegou a

"... certa altura no soerguimento da torre em direção ao “céu”, entra-se numa zona de grande turbulência, onde forças obscuras falam línguas totalmente diferentes daquela que conscientemente usamos"

CANTINHO DA JÚÚH disse...

Parabéns pela postagem,fiquei muito feliz com seu comentario em meu blog,saiba que sempre estarei passando por aqui,para deixar um comentario e visitar seu blog.Fica com Deus;*

Levi Bronzeado disse...

Guiomar, Rodrigo, Eder e Eduardo


Nesse ensaio, quis trazer a metáfora - “Torre de Babel” para representar o nosso confuso e ambíguo sistema psíquico.

Na verdade, quando escrevemos um texto, o fazemos para provocar discussões, e, é nesse falatório interpessoal que mostramos no espelho, que é o outro, um pouco do nosso lado mais profundo e ambivalente; mostramos um pouco da desarmonia interior de nossa própria Torre de Babel.

Às vezes me surpreendo erguendo uma “torre”. Logo, logo, me refaço e peço para os sábios que discutem inflamadamente em minha cabeça, se calarem. Eles simbolizam as vozes de gentes diversas que falam interminavelmente em meu inconsciente. No mais das vezes, eu sou o último a tomar consciência das resoluções dessa confusa assembleia mental (rsrsrs)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Realmente precisamos ficar atentos se estamos construindo novas torres de babel em nossas mentes e corações. Gostei desta reflexão.

Eduardo Medeiros disse...

sim, levi, é claro que babel só poderia mesmo significar o nosso sistema psíquico, cheio de "línguas" discordantes...rsss