16 março 2011

A Dimensão “BEM — MAL” em Nossa Cultura




Como a nossa cultura está assentada na tradição judaico-cristã, não há como deixar de recorrer à história mítica da “Criação” do livro do Gênesis para compreender mais sobre os nossos desejos paradoxais.

Nilton Bonder — rabino e líder espiritual da Congregação Judaica do Brasil, doutor em literatura hebraica pelo Jewish Theological Seminary — em seu livro “A Alma Imoral” —, que deu origem a uma peça de Teatro que ficou por quatro anos ininterruptos (2006 à 2010)em cartaz no sul do país, diz o seguinte:

“Adão e Eva estão nus e tem um mandamento a cumprir (está implícito o descumprir). [...] O termo “alma” surgiu para explicar a dualidade do cumprir (bem) e do descumprir (mal). A alma seria parte do corpo, sua parte “transgressora”. (Os grifos entre parênteses são meus)
Para este autor, o “comer do fruto da árvore do bem e do mal”, significa passar a ter consciência, simbolizada no mito pela percepção do “nu”, e o ser humano a partir daí, dá início a sua condição de animal moral. “Vejam que toda a nossa sociedade está voltada para “vestir” a nudez humana”.

A dimensão “sagacidade” que traz a capacidade de transgredir está projetada de forma mítica na “serpente”.

Diz ainda o rabino, Nilton Bonder: “Essa imoralidade (que é tida como mal) que muitas vezes ameaça contundentemente o corpo, é o lugar onde o ser humano briga com Deus, e dessa contenda se inventa o novo homem — o homem de agora. Afinal, este é o temor de Deus, expresso no texto de Gênesis: o animal consciente, de posse da informação de sua mortalidade, pode querer ser imortal. Por que o “corpo nu” e que passa também a buscar de forma consciente sua preservação — é profundamente mortal. A obediência pura e simples seria a sua estagnação evolucionária [...]. Adão e Eva foram tentados pela alma para cumprir com seu desígnio de desobedientes. Foi expulso por sua outra natureza (má) — a que trai o corpo, e é empurrada para outro território pela alma. Para sobreviver nesse outro lugar que não era seu habitat natural, o corpo desenvolveu uma proteção conhecida como MORAL”.

O “sentimento religioso” é justamente esse desejo de religar-se ao Éden, naquela fase que não existia a discordância, quando desconhecíamos a ambivalência do Criador. Este sentimento existe de forma inconsciente em todo o ser humano, ateu ou não ateu. Quando os cientistas estão à procura de um planeta habitável, no fundo no fundo, estão movidos pelo mesmo nobre sentimento de se religar a um paraíso de paz, que já viveram de forma inconsciente em suas origens bio-psíquicas.
A paz, como ausência de mal, deve ter sido vivenciada naquilo que o Gênesis alegoricamente demonstra: existia, sim, no tempo em que éramos um ser sem consciência como se fôssemos uma extensão do corpo de nossa própria mãe. Não podíamos discordar por que éramos UNO. No mito de Gênesis já existia a figura da psique humana, representada pelo “céu” bíblico. Para mostrar as sementes dos afetos ambivalentes de nossa psique, o mito se valeu de Deus(como Pai autoritário) e seus filhos, representados pelos “anjos obedientes” e os “anjos rebeldes ou transgressores de uma ordem pré-estabelecida”

Mas tarde, Cristo, na "Parábola do Filho Pródigo", para demonstrar o que se passa no interior do homem com seus sentimentos paradoxais, faz uma analogia dos anjos que ficam e dos que decidem sair do convívio paterno no mito do Gênesis. A proposta da parábola nos faz ver que, no final, o filho transgressor ficou em melhor situação do que o seu irmão obediente e hipócrita que, pelo ressentimento que o tomou, demonstrou secretamente que invejava o seu irmão (talvez tenha lhe faltado coragem e a ousadia suficiente para romper com o pai). O ressentimento do irmão mais velho é uma prova de que lá no seu íntimo (ou no seu inconsciente), já residia o desejo de conhecer o mundo lá fora, mas não o fazia por medo.

O Pai que expulsou “o filho perdido” — figura dos “anjos rebeldes” do mito do Gênesis, agora, procura ardentemente a sua outra parte (o filho pródigo) que se perdeu dele, figurado pelos anjos rebeldes, os quais faziam parte intrínseca do seu ser antes da “fundação do mundo”, ou em outras palavras, antes do “nascimento da consciência”.

O desejo de partir para um mundo diferente, no coração do filho mais velho da parábola, era percebido por ele como um desejo mal, e por isso, esse sentimento foi reprimido. O desejo de partir do filho mais novo era o “bem” dele. O pai amoroso (representado por Cristo) recebe com festas o filho que o pai autoritário perdeu — no mito do Gênese – metáfora do “desejo de transgredir” (anjos rebeldes). O filho mais novo ao voltar com a auto estima baixa passa a se situar no pólo do bem. O filho que sempre estava ao lado do Pai ajudando-o, aparentemente era o filho bom, quando se ressentiu por inveja, passou a ser mal. Mas o que mostra essa parábola, senão a dança entre o medo de transgredir uma ordem (bem) e a coragem de transgredi-la(mal), simbolizados pelo filho mais velho e o mais novo da história. O sentimento religioso cristão aparece no filho mais novo, cujo desejo é o de “religar-se” com as suas origens. O filho mais velho da parábola é aquele que por não ter experimentado a “transgressão”, quer a volta do Pai autoritário que na sua ótica deveria jogar no inferno o filho desobediente. Os representantes do filho mais velho são os legalistas (a maioria?) que pregam céu para os “bons” e o inferno para os “maus”.

A conclusão de que o Bem é o Mal, causa perplexidade. Talvez resida aí o “porquê” da persistência ao longo dos milênios dessa dualidade, em que um jamais vence ou extermina de vez o outro. Quando discordo do outro num diálogo, eu posso até vê-lo como a parte má, da mesma forma que o outro pode ver em mim o mal. O mal dele é o meu bem, e vice-versa.
“O generoso(bem) só pode se alimentar se existir o egoísta(mal). Olhando por outro ângulo, os egoístas são bem-vindos, pois existem para alimentar o prazer dos generosos em serem parasitados. Bem aventurados os generosos (bem) e bem aventurados os egoístas(mal)” [Flávio Gikovate — psiquiatra e psicoterapeuta da USP]

Há um verso da canção “Meu Bem, Meu Mal”, do poeta Caetano Veloso, que explícita bem a dimensão “Bem—Mal” como uma dualidade afetiva (ambivalência) existente desde o princípio:

Você é meu caminho
Meu vinho, meu vício
Desde o início estava você.



Ensaio por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de março de 2011



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FONTES:

1. A Alma Imoral — Nilton Bonder — Editora Rocco
2. Egoístas, Generosos e Justos — Flávio Gikovate — MG Editores
3. Psicanálise e Religião — Erich Fromm — Livro Íbero Americano
4. Letra de “Meu Bem, Meu Mal” — Caetano Veloso
5. Prólogo do Gênesis — Velho Testamento (Bíblia Sagrada)
6. Parábola do Filho Pródigo — Novo Testamento (Bíblia Sagrada)


Imagem: http://comunidadeindo.blogspot.com/2011/02/venca-o-mal-com-o-bem.html

9 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

levi, este texto é a continuação do teu texto na confraria, devia estar lá agora para que continuasse o debate do "meu bem" contra "o seu mal"...rsss

se os citados lá na confraria não postarem até amanhã, você devia publicar essa segunda parte. ou seria muita imposição da "diretoria"? rssss

Levi Bronzeado disse...

“...o "meu bem" contra "o seu mal"

Edu é meio difícil fugir desse padrão perpetuado em nossa vida de relação, uma vez que desde criança, passando pela adolescência, até a fase adulta, crescemos ao redor de pessoas tidas como egoístas (más) e generosas(boas).

Então, criamos comportamentos em que, via de regra, imitam as atitudes egoísticas e generosas, de acordo com as circunstâncias com que nos deparamos.

Comumente, se pensa que o egoísta é o vaidoso. Mas olhando bem, o generoso se sente também envaidecido pela sua ação altruística.

No fundo, no fundo, o generoso(do bem) e o egoísta(do mal) estão atrelados um ao outro, de forma irremediável.


Abçs altruístas e egoísticos (rsrs)

Eduardo Medeiros disse...

levi, você falou do lamarque mas o edson carmo o "192" também é um grande escritor e creio, também deve ser psicólogo.

agora, quanto ao "Gerontocracia" (vide Aulete ou Aurélio) eu só tenho a dizer: kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

quanto ao seu texto,
de fato é "meu bem meu mal"...rsss

"Comumente, se pensa que o egoísta é o vaidoso. Mas olhando bem, o generoso se sente também envaidecido pela sua ação altruística."

eu penso que seja assim mesmo, mas então, que o mundo tenha mais generosos envaidecidos do que egoístas vaidosos.

quanto ao filho pródigo quero lhe fazer uma pergunta de acordo com a compreensão psicanalítica da parábola.

o filho transgressor tem a coragem de tomar a decisão que lhe ia no coração enquanto o filho mais velho, não tomou tal decisão mas vivia em amargura por não fazê-lo.

mas no final da parábola, o transgressor se arrepende do que fez e volta, e pede para o pai o tratar como um simples empregado da casa.

como a sua interpretação analisa tal atitude?

Eduardo Medeiros disse...

levi, outra coisa. tenho lido seus textos antigos devagarinho, degustando alguns, refletindo com outros e rindo com outros.

você me permite eu abrir lá no meu botequim e no caminhos da teologia um marcador com o título "reflexões do Bronzeado" e postar textos antigos seus?

só não me cobra muito pelos direitos de publicação que eu sou um pobre sargento reformado...

Levi Bronzeado disse...

Edu

“O filho pródigo” representa cada um de nós com nossos desejos de independência, de sair da tutela de um superego rígido, de sair pelo mundo e dar vazão completa aos instintos.

O filho pródigo representa aquela parcela de nós, capaz de romper com os padrões e com a moral. É diante da decepção e do vazio existencial, das agruras da vida, que nos invade o desejo de RELIGAR-SE psiquicamente — uma espécie de um anseio profundo em retornar as delícias do Éden

A parábola no meu entender poderia ter dois desfechos(dualidade de novo – rsrs), tanto para o filho transgressor, como para o Pai:

1) Tentar reparar o erro alienando-se a uma cobrança paterna excessiva como castigo por uma desobediência ou erro que, no caso do “filho pródigo”, estava simbolizado pelo seu desejo de ser um dos mais simples empregados de seu pai (uma forma de pagar pela transgressão). O ressentimento do filho mais velho (simbolizando o pai tremendo - Javé) faz ver que esse era o sentimento que Jung denominou “Arquétipo patriarcal do V.T.”

2. Ou entender que o pai não é tão carrasco assim, e poderá receber o filho transgressor de braços abertos, e não com castigo ou sacrifício. A realidade de um “superego abrandado” faz nascer no transgressor uma “Imago Paterna amorosa”, simbolizada na parábola pelo desejo do Pai em reaver a Sua parte perdida, sem a exigência do sacrifício do filho. É como se dentro da psique do filho pródigo, a “imago paterna” estivesse lhe falando : “Vem para mim, retorna a nossa casa, pois não foste tu que te perdeste, mas eu que te perdi”. “Eu vim salvar o que se havia perdido de mim” — “Arquétipo da Alteridade do N.T.” — correspondente ao Mito Cristão que surge para resgatar a maldição do Gênese.

Bem Eduardo, a dialética continua, pois não sei se correspondi ao que você queria (rsrs)


P.S.: Prometo-lhe não lhe cobrar nada pelos direitos autorais.

E quando devo pagar para aparecer na Coluna do Bronzeado? (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

Eduardo

Vai lá dar as boas vindas ao Edson Carmo (que você já o conhece), para variar.(rsrs)

Chegou o 192?!

Isto é um sinal de que a C.P.F.G. está sendo bastante apreciada. Há poucos minutos, quando eu digitava o agradecimento pela visita do Lamarque estava no 191.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Prezado Levi,

Aos poucos vou compreendendo melhor o que tem escrevido a respeito deste tema, muito embora eu veja com certa cautela o que coloca a respeito dos anjos caídos porque o juízo de condenaçãod eles é irreversível segundo a Bíblia.

Entendo que somos caos e ordem, energia e partícula, concentração e dispersão, tese e antítese.

Mas como haveria a síntese se não fosse a antítese? Ou partículas sem as ondas de energia? Ou da vida sem a morte? Da luz sem as trevas?

Mas o certo é que toda partícula no fundo é energia reunida a ponto de materializar-se. A antítese é uma tese. As trevas um grau de luminosidade. E a morte dos seres permite que a própria vida se desenvolva.

A consciência da nudez, ou da morte física, levaram os homens a uma desconexão com a vida. Até então, parece-me que os seres morriam e não se afligiam com este tipo de preocupação. Para o homem antes do neolítico o seu 'ruah' (sua energia) tornava-se para o todo e o corpo para a terra. Entao, o 'nefesh' (a alma) desfrutava plenamente da natureza, relacionando-se harmonicamente com o Eterno.

Ora, é esta consciência ecológica que o homem precisa recuperar, o que tem a ver com a sua re-ligação, a volta para uma relação amorosa com todos os seres visíveis, o que significa viver intensamente a nossa humanidade. Aliás, é o que Cristo experimentou como 100% homem, o que faz do Messias o Caminho para o Pai.

Shalon!

pefabiolobo disse...

Achei o texto interessante, porém gostartia de fazer algumas observações... primeiro que de fato o texto do gêneses é uma explicação do mal moral e nada mais. Nesse sentido, Santo Agostinho, que na minha opnião é quem melhor explica sobre o problema do mal, diz existir três tipos de mal: o mal físico, o mal moral (o qual a bíblia se refere) e o mal métafisico ou ontológico - os dois primeiros existem e o último não existe, argumentando que se Deus é o sumo bem, então não poderia ter criado o mal e se ele criou todas as coisas, então tudo o que existe é bom por natureza, inclusive o homem ("façamos o homem a nossa imagem e semelhança"). Portanto, o homem por natureza é bom e não mal, o que afasta todo e qualquer tipo de dualismo ou pretenções maniqueistas, tão presente nos dias de hoje.
Numa perpectiva semítica, não existe essa idéia de corpo X alma, tal com se apresenta em meio aos gregos e mesmo no ocidente. Semiticamente não se fala em corpo, mas em corporiedade; não se fala em alma, mas em espírito(ou em embraico - Ruach, que não é masculino, mas feminino - sopro de vida. Nesse sentido, o homem jamais pode ser visto como um ser dicotomizado = corpo e alma, tal como pensava platão... mas integralmente. Daí, então que a antropologia teológica moderna concebe o homem não como corpo e alma, mas como pessoa - o ser humano visto integralmente, na sua relação como o mundo, com outro, consigo mesmo e com Deus.
Portanto, a doutrina que prega a luta entre o bem e o mal, dois seres que combatem o tempo todo, em que o bem sempre vence, é o maniqueismo e não as doutrina que se fundamentam na Sagrada Escritura, como: judaismo, cristianismo, etc...
Valeu... E até uma próximo oportunidade!

Anônimo disse...

14/06/13 - 19:09:57
LEIA SOZINHO porque no passado eu também não acreditava que ia dar certo, mas… funciona mesmo!!! Entrei neste site e fiz esta prece. Fiz para ver se ia dar certo e deu, assim que acabei meu amor ligou. A pessoa que eu copiei também não acreditava mas para ela também funcionou! AGORA VEREMOS…
Diga para você mesmo o nome do único rapaz ou moça com quem você gostaria de estar (três vezes)…
Pense em algo que queira realizar na próxima semana e repita para você mesmo (seis vezes).
Se você tem um desejo, repita-o para você mesmo (Venha cá ANJO DE LUZ eu te INVOCO para que Desenterre ej de onde estiver ou com quem estiver e faça ele ME telefonar ainda hoje, Apaixonado e Arrependido, desenterre tudo que esta impedindo que ej venha para MIM , afaste todas aquelas que tem contribuído para o nosso afastamento e que ele ej não pense mais nas outras… mas somente em MIM. Que ele ME telefone e ME AME. Agradeço por este seu misterioso poder que sempre dá certo. Amém…).
Publique esta simpatia por três vezes , basta copiar e colar por três vezes em in forum diferente esta simpatia abaixo e logo em 48hs você terá uma linda surpresa, beijos Ainda esta noite de madrugada o TEU amor dará conta de que TE ama, algo assim acontecerá entre 1 e 4 horas da manhã esteja preparada para o maior choque de sua vida! Se romper esta corrente terá má sorte no amor. Deus vai lhe abençoárá e sua vida não será mais a mesma