20 março 2011

O Choro Que Já Dura Quase 4.000 Anos




A revista Veja (N°2209) que saiu hoje nas bancas, traz como imagem da semana, na seção “Panorama”(página 49) uma cena que se repete há milênios no oriente médio: Encimando a reportagem está uma foto com corpos de uma família israelita que foi assassinada por árabes em disputa por assentamentos na Cisjordânia. Vê-se um casal e seus três filhos envolvidos em mortalhas com as cores da bandeira israelita, sob o olhar de lamento dos familiares e judeus ultra-religiosos que, acreditam estar cumprindo um mandato divino para reproduzir os limites bíblicos de Israel. Em represália, o governo de Israel, cumprindo o velho axioma javélico de “olho por olho, e dente por dente”, autorizou a rápida construção de mais casas nas regiões contestadas.

Mas é bom, em rápidas pinceladas, rever esse interminável conflito que nasceu de uma visão profética — um chamado de Javé:


“Por volta de 1850 a.C., um velho mercador da cidade de Ur, na Mesopotâmia (atual Iraque), recebeu um chamado de Deus. O Senhor ordenou-lhe que juntasse todos os seus pertences, abandonasse seu país natal e partisse em busca de um novo lar, rumo ao oeste: a terra de Canaã. Lá o mercador devia estabelecer sua descendência e dedicar-se ao culto de seu benfeitor, Jeová, o Deus único – uma novidade naqueles tempos politeístas. E lá se foi Abraão, com seu séqüito de parentes, escravos e concubinas.
Ao longo da jornada, o favorito divino teve dois filhos. O mais velho, nascido de sua serva Agar, foi batizado de Ismael. O segundo, filho de Sara, esposa legítima do patriarca, recebeu o nome de Isaac. O país prometido aos descendentes de Abraão era uma terra de desertos e oliveiras, banhada pelas águas do rio Jordão. Ficou conhecida ao longo dos séculos como a Terra Santa – paisagem dos grandes dramas da Bíblia, adorada pelas três maiores religiões do planeta e, hoje, palco do conflito mais importante de nosso tempo. Segundo a lenda, os tataranetos de Abraão deram origem a dois povos de aparência, língua e cultura muito parecidas, mas que agora se entrincheiram em lados opostos no front da política internacional: árabes e judeus”
[http://historia.abril.com.br/guerra/arabes-x-israelenses-sangue-mesmo-sangue-435007.shtml ]


Que paradoxo, dos paradoxos!

A promessa da “bênção” de bens terrenos oferecida a Abraão por Javé, há quase 4000 anos, com o advento de Cristo, passou a ser estigmatizada como tentação diabólica:

Quando foi tentado para ter todo o oriente médio a seus pés, Cristo conhecedor do Velho Testamento devia estar bem lembrado do episódio Abraâmico. Quando na sua mente surgiu o desejo ardente de possuir todos os reinos do mundo e a glória deles, para não cair na cilada abraâmica, o pensamento da posse de um império foi logo rechaçado com um: “Vai-te Satanás” (Mateus 4: 8 – 11)

Mais tarde, Cristo, em uma de suas sensacionais "tiradas", disse para os fariseus que se orgulhavam de ser seguidores e filhos de Abraão:

"Vós tendes por pai o diabo, pois quereis satisfazer o desejo de vosso pai" (João 8: 44)



Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de março de 2010

8 comentários:

Eder Barbosa de Melo disse...

Olá caro Levi, sempre bom visitar os amigos.

Abraão, assim como Moisés, Davi e outras testemunhas javélicas foram homens falíveis, suas idiossincrasias não ficaram de fora dos registros bíblicos; segundo as Escrituras, somente em Cristo habita a plenitude do conhecimento, mas considerando que Ele e o Pai são um, a culpa dos "4.000 anos de solidão" aí, seria de uma interpretação mercadologica do patriarca? Ou das contantes incoerencias biblicas entre o Javé do AT e o do NT? Se Abraão agiu como um diabo, ele havia sido instruido por Deus? O fato é que quando agimos com o intuito de alcançar o nosso bem estar, via de regra, geramos conflitos que podem se estender por gerações. Estou curioso por outras nuances suas sobre este artigo. Abraço!

Levi Bronzeado disse...

Prezado amigo Eder


“...Ou das constantes incoerências biblicas entre o Javé do AT e o do NT? Se Abraão agiu como um diabo, ele havia sido instruido por Deus?”

A “imago paterna” internalizada na psique dos fariseus conservadores era totalmente oposta à mensagem do Homem Jesus, a quem os pobres e oprimidos o viam como Filho de Deus.

A promessa de Javé feita a Abraão, vinculada ao TER, na mente de Cristo reverberou ao contrário, pois ele sentiu que o “TER” não vinha mais da parte do Deus Javé.

De certa forma, Cristo assumiu uma postura antiteísta, ou antijudaica, pois a teísta tinha no poder a sua força. O desejo dos fariseus estava vinculado ao TER Abraâmico, e não ao SER Cristológico que se igualou ao homem em suas fraquezas e impotências.

Em Cristo, Deus(Javé) se esvaziou do seu poder. Por isso que se diz que o cristianismo é a realização do luto do Pai todo- poderoso.

Mas isto, já é assunto para outra postagem (rsrs)

Abraços, e volte sempre, com suas instigantes inserções.

Altamirando Macedo disse...

Há 4000 anos, Abraão fundou o MST e até hoje sua invasão não deu certo. E seus seguidores, sem mente, ainda derramam seu sangue por um pedaço de deserto improdutível. "Santa ignorância".

Levi Bronzeado disse...

Caro confrade Altamirando

Muito genial a sua analogia. MST — Não há expressão tão bem apropriada, para descrever a luta inglória de um povo que nasceu para ser errante.

Eles parecem não entender que a nossa alma, apesar de sempre almejar a volta do lar antigo (Éden), tem que viver entre “estranhos” para influenciar e receber influências.

Abraços,

Levi B. Santos

Eduardo Medeiros disse...

levi, sua resposta ao éder seria mais ou menos (sem a mesma genialidade)as minhas considerações ao seu texto. é isso mesmo, jesus foi "antijavista". ele mudou a imagem do pai. mas é claro, isso não se faz, por isso foi entregue aos romanos para ser crucificado.

quanto ao comentário do altamirando, é bom lembrar que israel fez florescer o deserto com técnicas criativas de agricultura copiada por muita gente.

abraços

Eder Barbosa de Melo disse...

Obrigado pela elucidação, como apontou o Eduardo, foi mesmo genial. Fiquei ansioso pela próxima postagem. Abraço!

Eder Barbosa de Melo disse...

Obrigado pela elucidação, como apontou o Eduardo, foi mesmo genial. Fiquei ansioso pela próxima postagem. Abraço!

Altamirando Macedo disse...

Israel fez florescer um deserto com tecnicas copiadas de quem tinha experiência agrícola como os japoneses.
Não se esqueça que a necessidade é a mãe da invenção.