25 março 2011

Sobre os Meus Medos — O Que Me Contaram e Não Me Contaram...



Contaram-me que o suave mar rumorejante era a perigosa morada dos demônios.

Contaram-me que o mundo era povoado por diabos, duendes, gnomos, monstros e fadas malignas.

Contaram-me que todos os crentes que se arrependessem receberiam o céu como prêmio ou garantia.

Contaram-me que a noite traz os seus monstros para nos provocar pesadelos.

Contaram-me que os desastres naturais resultavam de forças sobrenaturais de um comando divino.

Contaram-me que minha vida seria um sucesso quando vencesse os meus medos.

Só não me contaram que o medo plantado induziria-me a um outro medo ainda maior.

Só não me contaram que pagaria um alto preço pela minha efêmera liberdade.

Só não me contaram que a "religião" ainda assusta as pessoas supervalorizando o medo como parte necessária à sua sobrevivência.

Só não me contaram que o caminho do Paraíso é uma meta difícil de ser alcançada.

Só não me contaram que o direito à segurança não afugentaria meus temores.

Só não me contaram que o medo não passa de uma reação natural, e que mesmo os mais destemidos não estão tão aptos a vencê-lo.

Só não me contaram que na velhice, voltaria a ser criança, com meus pesadelos e temores, agora, escondidos sob a capa sutil dos refinamentos científicos.

Só não me contaram que a quantidade de informação científica acumulada não atenuaria meus medos, antes os intensificaria mais.

Só não me contaram que os remédios das doenças da alma que tanto estudei, não apagariam os meus fantasmas interiores.

Só não me contaram que eu poderia transformar todos meus temores e medos naturais em fonte de inspiração.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 25 de março de 2012

Imagem: http://planetin.blogspot.com/2009/06/sonhos-significados-interpretar-sonhos_25.html


5 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

levi, uma antiga música do grupo rebanhão dizia: "ensinaram-me a sonhar mas desertaram quando um dia acordei..."

mas é assim mesmo. quem nos conta, conta a versão que aprendeu como certa. aprendemos. mas depois cabe a nós decifrarmos as inconsistências do que aprendemos.

Mariani Lima disse...

Acho q o pior medo é aquele que você descobre que tem. Um belo dia por exemplo você descobre, que vai morrer, por exemplo.
Não é saber, isso a gente sabe, mas tem um dia que você pensa seriamente nisso, aí abre-se a caixa do medo: de envelhecer, de não estar aproveitando bem a vida, medo de ter feito escolhas espirituais erradas que podem comprometer TODA ETERNIDADE (medo de não morrer) rs..., medo de deixar os filhos, de nunca mais ver quem se ama.
Esses medos ninguém revela. A gente encontra com eles cedo ou tarde, certo?
Um abraço!

Mariani Lima disse...

**Acho q o pior medo é aquele que você descobre que tem. Um belo dia, por exemplo, você descobre que vai morrer. (correção)

Levi Bronzeado disse...

Edu

Como eu disse no final do texto:

“Só não me contaram que eu poderia transformar todos meus temores e medos naturais em fonte de inspiração”


Veja o que o medo, fez sair do bico da pena de Toquinho:


Medo, tenho medo, muito medo
Se o desejo é forte de ver
Minha vida se modificar.
Tenho medo, muito medo
Se a saudade é grande
Da noite sagrada
Em que eu quis amar.

Vem a vontade de crescer.
Vem a coragem de gritar.
Aí, eu fecho os olhos,
Tranco a porta, calo a boca
Pra me guardar.

Medo, tenho medo, muito medo
Quando vem a vida e obriga
A gente a se decidir.
Tenho medo, muito medo
De enfrentar a morte e a má sorte
E eu tenho medo de seguir.

Vem a vontade de viver.
Vem a coragem de sorrir.
Aí, eu fecho os olhos, tranco o riso,
Calo a boca pra prosseguir

Levi Bronzeado disse...

Mariani

Lá no íntimo de todos nós está encravado o medo de saber que um dia vamos nos separar de outras almas que fazem parte de nós (pais, filho, netos e amigos)

Filosofamos, tentando encontrar nessa nossa efêmera vida, alguma finalidade.

Gosto muito dessa frase do filósofo e teólogo espanhol, Miguel de Unamuno:

“Não será um sonho nossa vida toda, e a morte, um despertar?”