10 agosto 2011

Do Pai Arcaico ao Pai Moderno

O que os filhos fizeram do pai (editor desse blog)



Parece que aquele pai arcaico e guerreiro, à semelhança do Deus judaico, senhor dos exércitos e das famílias, cedeu o seu trono em troca de uma relação de cumplicidade com os filhos, para desempenhar funções jamais imaginadas em eras passadas. O pai de hoje já não consegue ser mais aquele que toma posse do filho para reger o seu destino.

Um exemplo de como eram as relações entre filhos e pais antiquados estão presentes na “Carta ao Pai”, que o escritor checo, Kafka (1883 – 1924), redigiu e nunca teve coragem de enviar ao seu destinatário. Na carta do autor de “Metamorfose”, que só veio a público após a morte de seu pai, encontramos essa emblemática declaração:

“Da tua poltrona, tu regias o mundo.

Tua opinião era a certa,

qualquer outra era disparatada,

extravagante, anormal”.

Hoje, as descrições da antropologia definem o pai da pós-modernidade como o “Pai Mutilado” que, ao fundar ou permitir uma moderna desordem no seio da família, abalou os velhos costumes centrados no poder coercitivo patriarcal.

Esse pai pós-moderno, já não vê mais o filho como um objeto inteiramente submisso a sua vontade. Por outro lado, o filho moderno também deixou de ser uma coisa para se tornar um sujeito integral.

O fato é que o que antigamente era totalmente imprevisível, hoje, se tornou corriqueiro: pai e filhos, no final de semana, passam horas na cozinha da casa fazendo barbeiragem nos fogões, ou jogando conversa fora após o almoço, trocando impressões de forma divertida sobre assuntos diversos do cotidiano familiar. Foi-se o temor do filho ser repreendido por discordar do pai. Aliás, não são poucos os filhos, que hoje, têm se tornados verdadeiros conselheiros dos pais, antes deles tomarem qualquer decisão importante. A seriedade da família antiga que, exigia uma postura sacra na hora solene das refeições, deu lugar aos incontroláveis momentos de humor, onde a descontração é o que conta, ante um pai espontâneo, rindo dele mesmo, em meio às histórias engraçadas contadas pelos filhos sobre as hilariantes peripécias do seu dia a dia.

A relação “Senhor-Servo” (patriarcal) deu lugar a um vínculo permeado de intensa cumplicidade, onde o pai é mais amigo do filho do que mentor, em que pese a sua condição de provedor. Os laços afetivos são tão estreitos, com visões de mundo tão alinhadas que os próprios pais chegam a aceitar de bom grado que os filhos posterguem ao máximo a sua saída definitiva da casa paterna.

Pais sendo contestados, desafiados e recebendo conselhos dos filhos?! Quem, em santa consciência do tempo dos nossos avós, poderia pensar que fosse um dia acontecer?!

Não sei bem como será a família do futuro após o desmoronamento dos muros rígidos que separavam o terreno da autoridade paterna do que era a área do filho.

Quem diria que o pai-patrão, um dia, viria a ser um exímio trocador de fraldas, fato que por si só, é um indicativo de que os tempos são outros, tempos de servir aos filhos sem pensar em interesses pecuniários, como era comum no passado dos pais que diziam com fervor: “Estou investindo nos filhos, para no futuro ser bem recompensado por eles”.

O terrível julgamento que proibia os filhos de superarem os pais, presente na evocação da famosa frase do poeta e filósofo romano, Horácio “Valemos menos que nossos pais, e nossos filhos valerão menos que nós” hoje, não há mais razão de ser.

Parece mesmo que estamos vivendo uma nova ordem em meio ao que os conservadores chamam de “desordem familiar”, onde o pai, à semelhança do Deus Patriarcal Judaico cansado de guerras, decidiu, de uma vez por todas, desnudar-se de todo poder para se reinvestir da horizontalidade do amor fraternal, em que todos do lar comungam de um mesmo sentimento, sem frescuras.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 10 de Agosto de 2011

11 comentários:

Evaldo Wolkers disse...

Levi,

Como sempre, seus textos são mais realistas que a própria realidade.

Me ponho de joelhos diante de tuas afirmações que são mais que verdadeiras.

Me vi no teu texto.

No início de tudo eu disse para minha esposa "não quero ser o pai destes carinhas", "quero ser amigo".

Porque sabia que, quando atingissem a adolescência iniciariam uma empreitada de descobertas sobre o "pai".

Não me olhariam mais como o super-homem.
Não teriam vontade de me chamar para sair.
Inverteriam tudo que eu tivesse ensinado alegando que os tempos são outros.
Teriam vergonha de mim diante dos colegas.

Mas sendo amigo deles, sempre terei eles do meu lado e renovarei meus conceitos com a ajuda deles.

Eles não sentem de mim a vergonha que eu sentia quando meus pais iam ao meu colégio por exemplo.

O papel do pai autoritário a quem devemos temer (Jeová) sendo substituído pelo papel do "amigo" (Jesus), conselheiro, amigo, ouvinte...

Seja decretada a morte do "pai primitivo" para o nascimento do "amigo".

Abraços,

Evaldo Wolkers.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Caro Levi,

Realmente as relações entre pais e filhos têm mudado. Às vezes para melhor e em outras para pior.

Olhando hoje para a sociedade, percebo o quanto existem pais ausentes que se abstêm de usarem tanto o diálogo quanto a "vara da correção", coisa que o livro de Provérbios menciona expressamente.

Penso que castigar sem diálogos de pouco adianta, pois só instiga a revolta nos olhos do filho. Principalmente se, após ser castigado, o filho não encontra no pai um exemplo de dignidade.

A Bíblia nos diz que o pai deve transmitir aos filhos os mandamentos de Deus, o que supõe o uso do diálogo e a prática de ações éticas.

Quanto ao Deus de Israel, eu não O vejo da mesma maneira que você. Ele é compassivo e misericordioso e, por gerações estendeu suas mãos a um povo rebelde que lhe virou as costas no deserto voltando ao Egito em seus corações. Israel violou sua aliança, voltou-se para os deuses, imolou suas crianças a Moloque e, finalmente foi levada cativa ao exílio, mas a misericórdia do Eterno foi maior do que a infidelidade de seus filhos.

Contudo, o bom pai é misericordioso e justo. Pois, se um pai vê que seus filhos tratam indignamente os pobres, os cegos, os órfãos, as viúvas e os estrangeiros, ele também precisa agir com juízo afim de fazer justiça aos clamores dos desamparados. E aí as intervenções divinas registradas nas Escrituras hebraicas são para mim justas e verdadeiras. Necessárias para por fim à tirania dos homens maus e trazer o povo de Israel de volta ao caminho da Torá.

Penso que o Deus de Israel é um Pai que sempre desejou ter mais intimidade com seus filhos, levar-nos para a cozinha para juntos prepararmos uma grande festa pra família e nos dar vida. Porém, como diz a Torá, quando o povo ouviu Deus falar, pediram que Moisés subisse a Montanha do Sinai, o que me dá a entender que aquela geração de israelitas que saiu do Egito recusava-se ao confronto terapêutico proposto pelo Criador.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Em tempo!

Pondo de lado eventuais divergências teológicas ou ideológicas, quero parabenizá-lo pelo dia dos pais e também pelos cinco anos de blogue.

Abração!

Levi Bronzeado disse...

Evaldo

Seu comentário é de um pai, que como eu, prefere a “mutilação”, do que a arrogância de quem só almeja ser tratado como rei absoluto, senhor de si e dos filhos.

Esse pai autoritário, burocratizado e estereotipado cujo desejo é o de impor a sua vontade no grito sem admitir reação, ficou como uma lembrança, um símbolo do passado, nas mentes dos filhos de hoje.

Aquele filho autômato que era escravo do desejo paterno, agora aprende mais com a “fraqueza divina”, do que com a imagem “heróica-guerreira-insensível” do velho “Pai divino” — fogo consumidor.

Abraços,

Levi Bronzeado disse...

Rodrigo


Quero agradecer as suas felicitações por ocasião do quinto aniversario do blog “Ensaios & Prosas”. Quanto ao dia dos Pais, preferia que esse dia fosse denominado “Dia dos Amigos”.

Desejaria que todos os pais revissem esse fenomenal filme, que trata de um tempo em que os filhos não podiam ter desejos, que não fosse o do Pai. Trata-se do filme ”Pai Patrão” de ( de Paolo e Vittorio Taviani (1977)), cuja sinopse trago à tona, retirada desse link: “ http://www.telacritica.org/letraP.htm#ras “

“Baseado numa história real, este contundente drama mostra a trajetória de Gavino, um menino que é obrigado pelo pai, interpretado por Omero Antonutti, a abandonar os estudos para trabalhar no campo, cuidando das ovelhas na Sardenha, sul da Itália.
Todas as suas tentativas de mudar de vida são frustradas pela ignorância e pela violência do patriarca. Com o tempo, o jovem Gavino, interpretado por Fabrizio Forte, descobre sua única saída: estudar. Ter a arma que seu pai não possui: a cultura. Drama contundente que retrata a forma primitiva de estranhamento e opressão milenar: a do patriarca, senhor da Vida e da Morte no seio da família, instituição primordial da sociedade humana.
No caso, o pai oprime o filho, buscando nele força de trabalho servil na atividade de pastoreio. Por isso, castra toas as possibilidades de desenvolvimento humano de Gavino. O estranhamento é imposto pelo próprio pai, assumindo caráter ancestral, quase-natural, ligado a formas tradicionais de opressão social. Os Irmãos Taviani expõem o conflito entre disposições ancestrais primitivas, quase da Natureza inculta, em plena época da modernidade do capital.
É através da reapropiação da cultura que Gavino irá buscar uma saída para seu estranhamento primordial.


Abraços

Conexão da Graça disse...

Show de bola o visual e o texto Levi, vc é uma figura rsrsrs.

Eduardo Medeiros disse...

levi, análise perfeita!

eu só observaria que houve uma ruptura muito brusca que levou à deposição do pai soberano para o pai servo dos filhos soberanos...houve uma geração que desconstruiu tanto a figura do pai que os filhos acabaram herdando a função de pai. o filho manda, e o pai que já não é pai, obedece.

mas ao que parece, já teve início uma relação mais equilibrada onde o pai já não é aquele soberano, mandão, senhor de todos e nem abdica do seu papel em nome de uma ideologia familiar do "é proibido proibir", pois tal filosofia acabaram criando verdadeiros filhos-monstros, sem educação, sem valores de respeito pelos mais velhos, etc.

estamos chegando ao equilíbrio, que é essa figura de pai que você expõe no seu texto.

eu mesmo, sou um exímio trocador de fraldas...kkkkkkkkkkkk

e ainda mais: sou eu que cuido do eduardinho enquanto a mãe trabalha. isso é ou não é uma revolução?

também como o evaldo, quero ser sim amigo do meu filho, mas espero saber dosar também a autoridade que encaminha, que mostra o melhor caminho, que orienta, mas sem autoritarismo.

então, doutor, o que você acha? estou errado em minha análise?

Guiomar Barba disse...

Olha eu aqui Levizão.

Tua expectativa sobre o futuro está na resposta do Edu.

"eu só observaria que houve uma ruptura muito brusca que levou à deposição do pai soberano para o pai servo dos filhos soberanos...houve uma geração que desconstruiu tanto a figura do pai que os filhos acabaram herdando a função de pai. o filho manda, e o pai que já não é pai, obedece."

Sabe Levi, para mim Deus não é o que REGE, e sim o que nos dirige para não sofremos consequências desastrosas, nem sempre sabemos o que é melhor para nós. Ele é tão amigo...

Beijo querido.

Levi Bronzeado disse...

“também como o evaldo, quero ser sim amigo do meu filho, mas espero saber dosar também a autoridade que encaminha, que mostra o melhor caminho, que orienta, mas sem autoritarismo” (Edu)

A própria evolução da humanidade homologou o declínio da função paterna. Fazemos parte, hoje, de uma geração de “pais mutilados”, ou seja, de pais que já não podem impor a sua vontade aos filhos. A rebeldia do filho(no bom sentido) agora é entendida como um fator de aprendizado para os pais, e isso se deve ao fato de o pai da sociedade contemporânea, hoje, compreender que dentro dele mesmo existe uma criança recalcada.

O fato de o pai ser um exímio trocador de fralda e pilotar fogões na cozinha, por si só indica, que a antiga onipotência do pai se esvaiu, fazendo com que ele passasse a ser um suporte na função materna estabelecendo um equilíbrio entre os pólos materno e paterno. No mito cristão é um filho que deixa o pai para conquistar o lado materno, representado pela (igreja).

Então podemos dizer que o cristianismo já apontava para o simbolismo de um pai “mutilado”, ante a rebeldia de um filho, que anuncia a morte do Javé, Todo-poderoso. Não se trata aqui do gozo masoquista de um filho, mas da adesão dele a um pai não-poderoso, que com o filho ficam calados diante da violência e maldade humana.

A cumplicidade de pai e filho(Cristo) em um nível inconsciente está simbolizada nessa frase: “Pai, entrego em tuas mãos o meu espírito”

Levi Bronzeado disse...

“Sabe Levi, para mim Deus não é o que REGE, e sim o que nos dirige para não sofrermos consequências desastrosas, nem sempre sabemos o que é melhor para nós. Ele é tão amigo...” ( Guiomar)

Mas você há de convir que o nosso irmão em Cristo, Edir Macedo, prega que não devemos ser “cauda”.
Ele gosta tanto de REGER, que afirma sempre em seus sermões: “ Temos que determinar! Temos que exigir de Deus”.
No fundo, no fundo, ele direciona Deus para onde ele quer. (rsrs)

Guiomar Barba disse...

Levi, quando falar de crentes, esqueça os mercenários. Aquele sinhô sabe la nada de Deus, ele entende de cifras amigo.

Beijo.