27 agosto 2011

HORÁRIO NOBRE NA TV: O Nosso “Coliseu”

Diz a História que o calendário romano tinha 175 feriados. Era por ocasião desses dias especiais que as multidões do meio cultural Greco-Romano dirigiam-se ávidas de sangue ao grande anfiteatro romano – o Coliseu —, onde numa arena real se entretinham com os violentos espetáculos patrocinados pelos imperadores de Roma. Era uma maneira de provocar catarse na populaça, além de desviar a sua atenção dos reais e sérios problemas da polis.

Dando um pulo na História e olhando para o Brasil de hoje, veremos que as ressonâncias das carnificinas romanas ainda reverberam, não mais em anfiteatros públicos, mas dentro de nossas próprias casas, nos horários ditos “nobres”, em que as famílias encontram-se reunidas após o almoço e após o jantar a frente da telinha (ou telona) de TV.

Quem não se lembra de um dos espetáculos por nós assistido — a tragédia de Santo André —, história de um assassinato premeditado, em que Lindemberg é levado pela mídia a assassinar a sua namorada – Eloá, numa transmissão impecável do ponto de vista tecnológico, faturado nos mínimos detalhes pela imprensa televisiva. Poucos foram os que atentaram para as raras manchetes que saíram dizendo a verdade, após o encerramento da sessão macabra desse espetáculo em horário nobre: “a mídia exacerbou a psicopatia e a megalomania que estavam em jogo”.

Antes de praticar o crime, e sabendo da existência do grande aparato tecnológico na transmissão televisiva, Lindemberg, resolveu sair de sua impotência, criando uma autoimagem megalomaníaca para a mídia, ao dizer: “eu sou o cara!”, o que em miúdos, quer dizer: “eu sou o príncipe do gueto, o personagem principal da teatralização”. O ato tresloucado em Santo André, guiado pelos imperadores do coliseu televisivo prendeu a atenção de milhões de telespectadores.

Na verdade, o Coliseu televisivo sempre alcança uma audiência extraordinária em nossos lares, por que cada um de nós é, inconscientemente, um torcedor desse tipo de entretenimento.

Em sua obra, “O Mal Estar na Civilização”, Freud, fez uma emblemática observação que corrobora com tudo que escrevi até agora. Senão vejamos:

“A verdade é que o homem não é uma criatura terna e necessitada de afeto, mas um ser entre cujas disposições deve-se contar uma boa dose de agressividade. Por isso, o próximo não representa para ele somente um colaborador e um objeto sexual, mas também uma ocasião para satisfazer a sua agressividade, para explorar a sua capacidade de trabalho sem a retribuir, para se aproveitar dele sem o seu consentimento, apoderar-se dos seus bens, martirizá-lo e matá-lo”.

Se a força e a violência são dimensões constitutivas das relações humanas; se os heróis e artistas não reconhecem o paradoxo de que também são bandidos e vilões, como definir no grande coliseu em que estamos inseridos, os limites seguros para a reprodução da ordem social de respeito e paz entre os seres humanos?

Na genial tragédia descrita por Sófocles, Édipo, sem saber (ou sem querer), mata o pai e casa-se com a mãe. Na arena do “nosso coliseu” agimos, inconscientemente, vivenciando a contradição dos nossos afetos internos ao nos identificar com os personagens opostos dos trágicos espetáculos midiáticos. Na imagem do bandido preso ou morto ficam satisfeitos os nossos desejos de vingança; sobre as heroínas e os heróis sacrificados ficam as projeções do nosso choro e da nossa compaixão.

E assim, cotidianamente, esse cenário do coliseu de nosso horário nobre vem nos delineando com traços macabros e cruéis, que transformam o corpo do outro em um fetiche para a realização do festival canibalístico das nossas individualidades.

Freud explica...


Por Levi B. Santos

Guarabira, 26 de agosto de 2011

Site da imagem 1: vidanet.org.br

Site da imagem 2: revistanaweb.blogspot.com

22 agosto 2011

NAS GARRAS DO PODEROSO “LEÃO”



É impossível que o homem possa um dia viver isolado. A metáfora bíblica — “Não é bom que o homem esteja só” — por si só, já explica que o OUTRO é imprescindível ou obrigatório para a demanda de nossa satisfação. Lacan, que fez a releitura das obras de Freud, já dizia que, “o individuo por ser incompleto necessita da presença do OUTRO para se constituir como sujeito”.

É em face do PODER que o indivíduo se ordena e se desordena seguidamente para a produção de sua singularidade” —, citou também, Joel Birman, psicanalista, filósofo e professor da USP, em seu livro "Psicanálise Ciência e Cultura" (página 111).

Parece-me que ali, onde está o aglomerado humano, sempre haverá uma espécie de “exército da salvação”, para impor no inconsciente dos prosélitos um modelo a se seguir.

A busca inconsciente pelo poder rege-nos em todos os aspectos de nossa vida. Trabalhamos, e ao recebermos o nosso salário, o que vem logo a nossa cabeça é o desejo de vestir o nu do nosso corpo com roupas de “griffe”. Ora, a palavra “griffe”, significa garra - “é o leão que deixa na presa morta a marca do seu poder —, diz o filósofo e psicanalista Renato Mezan, no artigo “Grifes Vistosas, Prazeres Secretos”, publicado no caderno “Mais” da Folha de São Paulo (14/11/2007). Diz ele, ainda, no seu lúcido artigo:

“Como os poderosos são em pequeno número, usar um objeto de marca prestigiosa é também sugerir que pertencemos ao conjunto seleto dos que “podem” e “mandam”. Eis por que, além de servir a fantasias de exibição fálica, a roupa, a caneta, o carro e o relógio (rolex) se tornaram ícones identificatórios, indicando que seu portador faz parte de um grupo valorizado do qual a maioria está excluída. Neste sentido, cumprem a mesma função que as marcas tribais, a circuncisão, os símbolos religiosos e políticos, etc. [...] Na sua vasta porção inconsciente, não nos basta ser amigos do rei: somos o próprio rei, o herói, o caubói – e o nosso cavalo nem precisa falar inglês.”

A vontade de potência é função inerente da psique humana. A demonstração de poder é um anseio comum em todas as civilizações, e, está presente desde os primórdios. A prática dos faraós do antigo Egito, que mandavam apagar dos monumentos o nome de quem os havia construído, e substituí-lo pelo seu, é um emblemático exemplo.

Na cultura judaica, o espaço delineado entre a força e o símbolo que funda o DIFERENTE, está presente na “Estrela de Davi”. A Estrela de Davi, foi cunhada para representar já uma amostra do poderio de um povo, ao associar no inconsciente judaico, o futuro ao passado no qual os judeus tinham o seu próprio país, e não havia, por enquanto, perseguições religiosas.

É provável que o vistoso escudo de Davi incutisse em que o usava, um sentimento de orgulho, pois aludia a uma figura da maior importância no Velho Testamento. No cristianismo, até a cruz maldita se tornou símbolo de um poder que envaidece. Na concepção do crente, ela é um distintivo representativo de um povo salvo e santo (portanto poderoso) que foi resgatado do meio de um povo imundo e perdido (impotente e fraco).

A tragicidade de um “cordeiro imolado” (Cristo) que é ao mesmo tempo “O poderoso Leão de Judá”, deu a Freud a senha para explorar os elementos paradoxais da psique humana, e assim ver, que a relação do sujeito com o poder é marcada pela contradição, pois o homem tende a perder a sua marca distintiva em face dos OUTROS que estão inseridos no seu mundo cultural.

Nos tempos atuais, a atuação sutil das garras do Leão, no sentido de obter a adesão do outro através da persuasão é uma marca registrada tanto na publicidade, quanto na política, no meio religioso, nas redes virtuais, enfim, nas diversas áreas de nossa sociedade.

Por enquanto, fica aqui a pergunta:

É ingenuidade continuar sonhando com o poder ideal —, aquele que não necessita ser exibido?


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 22 de agosto de 2011

Imagem: http://ciadosblogueiros.blogspot.com/2011_06_01_archive.htm

16 agosto 2011

A Volta (e a revolta) das Algemas



Tudo começou com a frase pronunciada pelo vice-presidente da República, Michel Temer, de que havia ficado chocado com as algemas colocadas em um ex-deputado do seu partido, na ocasião em que foi preso pela Polícia Federal. Um nobre foi algemado junto com mais 36 pessoas lotadas no Ministério do Turismo, pelo crime de desvios de cerca de 30 milhões de reais, segundo reportagem da revista Veja, sob o título: “Turismo na Lama” (edição 2230).

Mas olhando bem, o nobre vice-presidente nada fez de temerário. Ele simplesmente agiu em consonância com a nossa herança cultural. Para ver se tenho ou não razão, recordemos um pouco de nossa colonização em um trecho retirado do artigo − “O STF e o Símbolo das Algemas” — originalmente publicado pelo editor do blog “Ensaios & Prosas” —, no dia 23 de agosto de 2008:

“Qualquer estudante do primeiro grau ao ler ou ouvir a palavra ‘algema’, irá associar esse instrumento repressor ao tempo da escravidão, onde os pesados grilhões de ferro que limitavam a liberdade do indivíduo eram destinados aos escravos e não aos seus senhores. As algemas combinavam perfeitamente com os pulsos musculosos e nus dos escravos, e não com os antebraços cobertos pela indumentária de puro linho branco reservada aos barões”.

“As algemas colocadas em um “joão-ninguém” não gritam e nem criam tanta celeuma quanto os grilhões atados às mãos de um nobre parceiro da República. Pelo contrário, a insensibilidade ao se algemar um desvalido, por fazer parte intrínseca de nossa triste história, já não suscita nas autoridades as mesmas reações de constrangimento”.

O exemplo de Pero Vaz de Caminha, é uma prova inequívoca de que o procedimento de lotear e pilhar as riquezas da nação brasileira vem de muito longe. José Júlio Senna, em seu sensacional livro – “Os Parceiros do Rei” − Editora Topbooks (página 170), conta que o “primeiro cronista” da descoberta do “Gigante adormecido em berço esplêndido” (Brasil), no trecho final de sua carta à D. Manuel (rei de Portugal) relatando o novo mundo descoberto, não se esqueceu de, secretamente, pedir uma graça especial: enviar de Portugal o seu genro, Jorge de Osório, para se locupletar nas terras ricas e belas de Santa Cruz.

Não importa que estejam em época de bonança ou em tempos de crise, os senhores da nossa república sempre foram pródigos em distribuir benesses a custa do tesouro público. Laurentino Gomes, em seu best seller, 1808 (página 189) faz uma referência de como nos tempos de João VI se executavam os ataques aos cofres do império: “O historiador Luiz Felipe Alencastro conta que, além da família real, 276 fidalgos e dignatários régios recebiam verba anual de custeio e representação paga em moedas de ouro e prata retiradas do tesouro real do Rio de Janeiro. Acrescenta ainda, o autor, que mais de 2.000 funcionários reais exerciam funções relacionadas à Coroa. Um dos padres, recebia o equivalente hoje a 14.000 reais só para confessar a rainha. Em 1808, enquanto a sede do governo dos Estados Unidos em Washington tinha 1.000 funcionários, a comitiva de D. João VI tinha 15.000 portugueses, ou seja, a corte portuguesa no Brasil era 15 vezes mais gorda do que a máquina burocrática americana. Fique claro que, para fugir da censura, o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense, junto a seu editor, foi despachado para a Inglaterra para não incomodar o príncipe regente, João VI.

Mas já se fala hoje, no meio republicano, em medidas para controlar o ímpeto da imprensa. Que essa mordaça nunca venha a ser empreendida, pois, se assim acontecesse ficaríamos sem um meio de expor a nossa indignação, e, cartas como essa abaixo, publicada pelo jornal “O GLOBO” (1° caderno – pág. 08) – de 12 de agosto, sobre os "Parceiros do Rei" instalados no Ministério do Turismo reagindo a atuação da Polícia Federal, jamais chegariam ao conhecimento do país de ponta a ponta:

“Milhões de reais são desviados dos cofres públicos, num escândalo que envolve vários altos funcionários do governo, e o que se discute é se a Polícia Federal abusou no uso de algemas! Que falta de vergonha na cara.” (Roberto Schweitzer – Florianópolis, SC)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 16 de agosto de 2011

Imagem: cloviscunha.blogspot.com

10 agosto 2011

Do Pai Arcaico ao Pai Moderno

O que os filhos fizeram do pai (editor desse blog)



Parece que aquele pai arcaico e guerreiro, à semelhança do Deus judaico, senhor dos exércitos e das famílias, cedeu o seu trono em troca de uma relação de cumplicidade com os filhos, para desempenhar funções jamais imaginadas em eras passadas. O pai de hoje já não consegue ser mais aquele que toma posse do filho para reger o seu destino.

Um exemplo de como eram as relações entre filhos e pais antiquados estão presentes na “Carta ao Pai”, que o escritor checo, Kafka (1883 – 1924), redigiu e nunca teve coragem de enviar ao seu destinatário. Na carta do autor de “Metamorfose”, que só veio a público após a morte de seu pai, encontramos essa emblemática declaração:

“Da tua poltrona, tu regias o mundo.

Tua opinião era a certa,

qualquer outra era disparatada,

extravagante, anormal”.

Hoje, as descrições da antropologia definem o pai da pós-modernidade como o “Pai Mutilado” que, ao fundar ou permitir uma moderna desordem no seio da família, abalou os velhos costumes centrados no poder coercitivo patriarcal.

Esse pai pós-moderno, já não vê mais o filho como um objeto inteiramente submisso a sua vontade. Por outro lado, o filho moderno também deixou de ser uma coisa para se tornar um sujeito integral.

O fato é que o que antigamente era totalmente imprevisível, hoje, se tornou corriqueiro: pai e filhos, no final de semana, passam horas na cozinha da casa fazendo barbeiragem nos fogões, ou jogando conversa fora após o almoço, trocando impressões de forma divertida sobre assuntos diversos do cotidiano familiar. Foi-se o temor do filho ser repreendido por discordar do pai. Aliás, não são poucos os filhos, que hoje, têm se tornados verdadeiros conselheiros dos pais, antes deles tomarem qualquer decisão importante. A seriedade da família antiga que, exigia uma postura sacra na hora solene das refeições, deu lugar aos incontroláveis momentos de humor, onde a descontração é o que conta, ante um pai espontâneo, rindo dele mesmo, em meio às histórias engraçadas contadas pelos filhos sobre as hilariantes peripécias do seu dia a dia.

A relação “Senhor-Servo” (patriarcal) deu lugar a um vínculo permeado de intensa cumplicidade, onde o pai é mais amigo do filho do que mentor, em que pese a sua condição de provedor. Os laços afetivos são tão estreitos, com visões de mundo tão alinhadas que os próprios pais chegam a aceitar de bom grado que os filhos posterguem ao máximo a sua saída definitiva da casa paterna.

Pais sendo contestados, desafiados e recebendo conselhos dos filhos?! Quem, em santa consciência do tempo dos nossos avós, poderia pensar que fosse um dia acontecer?!

Não sei bem como será a família do futuro após o desmoronamento dos muros rígidos que separavam o terreno da autoridade paterna do que era a área do filho.

Quem diria que o pai-patrão, um dia, viria a ser um exímio trocador de fraldas, fato que por si só, é um indicativo de que os tempos são outros, tempos de servir aos filhos sem pensar em interesses pecuniários, como era comum no passado dos pais que diziam com fervor: “Estou investindo nos filhos, para no futuro ser bem recompensado por eles”.

O terrível julgamento que proibia os filhos de superarem os pais, presente na evocação da famosa frase do poeta e filósofo romano, Horácio “Valemos menos que nossos pais, e nossos filhos valerão menos que nós” hoje, não há mais razão de ser.

Parece mesmo que estamos vivendo uma nova ordem em meio ao que os conservadores chamam de “desordem familiar”, onde o pai, à semelhança do Deus Patriarcal Judaico cansado de guerras, decidiu, de uma vez por todas, desnudar-se de todo poder para se reinvestir da horizontalidade do amor fraternal, em que todos do lar comungam de um mesmo sentimento, sem frescuras.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 10 de Agosto de 2011

05 agosto 2011

O Velho Violão

O blog “Ensaios & Prosas” está completando neste mês de agosto 5 anos de atividade. Para rememorar o tempo em que me iniciava na arte de blogar, decidi republicar uma das primeiras crônicas que postei (agosto de 2006).
Trata-se da narrativa do triste destino que, sem a minha autorização, deram a um velho violão de braço e bojo quebrados - velho amigo e confidente de minhas antigas farras, que por um triz não foi parar no caminhão do lixo. Por sinal, ele ainda se encontra bem guardado no canto de um quartinho no fundo do quintal de minha casa.


O VELHO VIOLÃO


Ao chegar à minha casa, vindo do trabalho, surpreendi-me ao te encontrar, meu antigo companheiro de grandes aventuras, combalido, de braço quebrado e cordas enferrujadas em desalinho, com o teu bojo a despregar lascas de madeira, ainda de pé, encostado a uma pilastra do grande portão da garagem, esperando o Caminhão do lixo que te levaria a um triste destino.

Entre os objetos lá do quartinho, no fundo do quintal, foste o único sentenciado e condenado a ser enviado para o “Lixão”. Certamente julgado por alguém, que te considerou um estorvo entre as relíquias acumuladas ao teu redor, as quais foram consideradas de mais valia.

Quem sabe, se antes de chegares a tua ingrata morada, outras mãos te pegariam, te apalpariam, e após uma complicada reforma, voltarias a alegrar ambientes de um outro dono. Uma coisa eu sei: a tua história por estes trinta e dois anos em que viveste ao meu lado, o teu novo patrão jamais saberia.

Nos desvãos de minha vida, por todo esse tempo, arranquei de ti muitas canções alegres, e algumas tristes. Tal qual uma esposa me acompanhaste na tristeza e na alegria. O teu som se fazia ouvir entre aplausos. Eras cobiçado pela tua postura e beleza. Os que te ouviam admirados, diziam ao te ver de pertinho: É um majestoso instrumento, um “Di Giórgio”. A tua superfície brilhava e refletia tudo ao teu redor, como se fosse um espelho. Tinha um cuidado especial para não seres arranhado em tua tez macia.

Não...! Não posso te dar tão infame destino! Por duas vezes colei as tuas partes quebradas e voltaste a alegrar a minha casa, pelas mãos dos meus três filhos, que cresceram na arte da música, dedilhando as tuas cordas.

Viajaste por tantos recantos do meu Estado, que eu perdi a conta. Em clubes, igrejas, praias e residências de amigos. Em festas de aniversários e outras comemorações, desde os idos de 1974, quando iniciava a minha vida de médico. Lembro-me ainda, no silêncio das minhas noites de insônia, quando a tua voz ficava mais pungente e suave, e, como um bálsamo, fazia-me flutuar em devaneios de um tempo que não volta mais.

O menor tributo que eu poderia te prestar, o fiz imediatamente, ordenando:

Recolham o que resta deste violão ao quartinho! Algum dia haverá conserto para ele.

Dei-te as costas, e saí, na esperança de que futuramente pudesse extrair de tuas cordas sons dolentes. Sons que me acalmavam o espírito nas noites enluaradas e frias de outono, que me inspiravam a tocar as velhas e nostálgicas canções, que nos meus quinze anos, ouvia ao lado de meu pai em sua vitrola antiga, de discos de setenta e oito rotações.


Crônica por Levi B. Santos.

Guarabira, 17 de julho de 2006

“Nossa memória é um mundo mais perfeito que o universo: ela devolve a vida àquilo que não existe mais” (Guy de Maupassant)