28 janeiro 2012

FUGITIVO DE SI MESMO





A civilização tem procurado lapidar o homem através de um sistema de representações, numa tentativa de poder abraçar a sua interioridade subjetiva.

O homem, esse ser dinâmico, não se conforma em viver numa gaiola, onde seu dono lhe dá tudo, sem que necessite de voar para obter comida em lugares inóspitos que metem medo. O sistema o livra da realidade do “lá fora”, para que ele se quede mais seguro de si. Então o seu dono lhe diz: “Tudo já foi feito para que você não se arvore a pensar fora do script”. O sistema organizacional oferece lugares acolhedores cuja função é estabelecer coerência naquilo que se pratica em seu meio.

Nesse palco, mágicos com seus lenços fantasiosos camuflam a realidade do ser em si com maravilhas ilusórias cotidianas, para com isso, evitar que se caia na tentação de fugir para se alimentar lá fora ―, no que já se convencionou como “o mundano”.

Quem poderá resistir à tamanha oferenda de proteção contra os perigos que rondam lá fora? O preço é alto: sob o manto da proteção de abdicar do pensar, o homem não desenvolve, não evolui. Continuará, ele, no processo castrador de reprimir a sua alma que deseja transcender, sabendo que transcender é transgredir, é VOAR para além das fronteiras do trivial? Mas ele resiste o bastante, para que se faça ouvir uma voz, a dizer: “Aceite como real o que seu grupo deseja postular como verdade. Seja um convicto, pois a dúvida é diabólica”.

Mas a FUGA que eu quero tratar aqui, é uma FUGA interna ou interior —, essa engrenagem poderosíssima a que nos submetemos para evitar situações que nos podem gerar frustrações. Eis aí o mais sedutor e inteligente artifício que o sistema de dominação psicológica, cultural e espiritual já inventou. O seu lema é: “Não explore terrenos desconhecidos porque você pode se perder”. E aí vem uma infinidade de proibições que caminham no sentido contrário ao da dialética.

Assim, se processa o mecanismo denominado fuga: quando dizemos fuja rápido dessa heresia, senão você vai se contaminar, estamos,  na verdade, falando para nós mesmos e, inconscientemente, repelindo idéias ou pensamentos que poderiam solapar nossas convicções, nos deixando em situação embaraçosa.

O mecanismo de FUGA nos faz sempre projetar a metáfora inferno naquele que ameaça expor os nossos recalques, entendendo por recalque, tudo aquilo que lá no fundo desejamos e reprimimos por medo de perder a proteção trocada por uma submissão irrestrita.

 Há poucos dias, estava eu lendo um ensaio, “Teologias do Inferno”, em que o autor fazia a defesa dos seus princípios. Dizia ele, logo no começo do seu texto: “Pois a verdade é que há muitas instituições ditas evangélicas de ensino teológico, cujos desensinos têm me arrepiado todo. Por mais que seja uma construção em termos, parecem teologias do inferno”. Bem no final do seu ensaio, o autor faz um alerta a seus fiéis, alerta esse, que na verdade é mais uma reação contra o que há em si mesmo. Durante o desenvolver do seu raciocínio, o autor citou oito vezes a palavra “FUJA”. Em todas as FUGAS por ele apontadas estão implícitos os “ISMOS PERIGOSOS” —, modismos conceituais reacionários que, a seu ver, ameaçam a frágil estrutura eclesiástica de dominação.

A psicanálise faz ver que, o perigo que pensamos está do outro lado, é o nosso inferno particular. O bode expiatório é aquele estranho que leva sobre si as nossas mazelas, em suma, ele é o espelho que reflete o nosso avesso, que não queremos mostrar, e, por isso, deve ser quebrado. C.C. Jung, psicólogo suíço chegou, certa vez, a dizer: “A Sombra é a pessoa que preferiríamos não ser”.

Ao invés de negar nossa sombra, o que precisamos é reconhecê-la. De nada adianta fugir dela. Para onde formos lá estará ela conosco. O que nos resta é abraçar essa escuridão que existe dentro de nós, para entendê-la e, consequentemente, transcendê-la. É impossível dela fugir, quando muito a projetamos no outro (diferente), naquilo que se tornou a frase célebre de Sartre: “O Inferno São os Outros”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de janeiro de 2012

Site da imagem:  vilamulher.terra.com.br

14 comentários:

Franklin Rosa disse...

Pois é Levi, o cara diz no comentário pra mim que ele tem convicção no crê.

Típico caso de quem no fundo ainda é assombrado por dúvidas mas que insiste em negá-las através do artífício da auto-afirmação.

Gostaria que ele viesse aqui para ver os debates...

Levi Bronzeado disse...

Franklin

Vou republicar um comentário que fiz ao texto do EDU, lá no seu blog "CAMINHOS", e que acho que explica a resistência do Fundamentalista quanto a tudo que é NOVO:

A Psicoteologia vem, com sucesso, de há muito, fazendo a abordagem bíblica de maneira que possamos entender a ambivalência dos nossos afetos paradoxais visando não a guerra e destruição de um dos pólos, mas a integração dos mesmos.

A RESISTÊNCIA INTERNA contra o “novo”, a percebemos como uma ameaça à tradição, que não deseja a desconstrução dos nossos conceitos aparentemente imutáveis.

Veja o que diz, brilhantemente, Karin Wondracek, uma das fundadoras do C.P.P.C. ( Centro de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos), sobre uma passagem do N. Testamento, em que os discípulos ficaram admiradíssimos com a ousadia de Jesus em se aproximar e entabular conversa com uma mulher, junto a um poço.

O que a psicanálise extrai do fato acima citado?

Karin, dá a reposta:

O nosso lado “discípulo”, mais tradicional, talvez se assuste com o rumo dos acontecimentos. Situações incomuns provocam ansiedade, pois não se encaixam nos moldes que fazem a separação entre assuntos puros e impuros, assim como a cultura da época, que separava mulheres e homens, samaritanos e judeus. Nosso lado mais zeloso, muitas vezes tenta impedir o contato do nosso lado perdido e impuro com a graça de Deus.
Assim como os discípulos tentaram impedir que as crianças se aproximassem de Jesus, da mesma forma, a psicanálise mostra que a resistência e a repressão tentam impedir a pulsão de trazer à tona o que é precioso.


Abraços,

Elídia :) disse...

esse texto (maravilhoso) vem ao encontro de algumas situações q estão mudando o leme da minha existencia, e agradeço Levi, por lê-lo.
"Não explore terrenos desconhecidos porque você pode se perder”
As consequencias sçao temerarias, n sei como vai ser, mas se ficar, acho q as perdas serão maiores. Quando um homem se ve diante de um dilema, depois de pensar, n há mais volta: é correr,e tentar, ou voltar, e morrer. Espetacular. Toamara q haja mais comentários....

Eduardo Medeiros disse...

Levi, como sempre, conciso e profundo.

O que você diz e o que a psicanálise ensina, qualquer um pode, se for sincero, ver no seu mundo interior; essas duas forças pulsando, uma querendo matar a outra. Mas eis que surge a solução:

"Ao invés de negar nossa sombra, o que precisamos é reconhecê-la. De nada adianta fugir dela. Para onde formos lá estará ela conosco. O que nos resta é abraçar essa escuridão que existe dentro de nós, para entendê-la e, consequentemente, transcendê-la.

O discurso do "foge disso" é o padrão no meio cristão evangélico, exatamente por que creem que devem matar a natureza carnal(a sombra) para que o espírito domine(luz). Mas todos nós sabemos como isso pode ser frustante.

Ontem mesmo conversava com um irmão fundamentalista que deixava transparecer esse recalque, esse medo interior de sair de suas cercas protetoras da ortodoxia.

Dizia-me ele para "ter cuidado" com algumas leituras que poderiam ir contra o que para ele está estabelecido como verdade. Disse-lhe que eu não temia pular a cerca...melhor dizendo, não gostava mesmo é de estar dentro de qualquer cerca que seja.

Isso o levou à conclusão que duvidava da minha condição de cristão...rssss

Levei muito tempo para entender que somente a conciliação entre sombra e luz pode ser eficaz para o transcender a sombra e deixar a luz brilhar. (você me ajudou muito a entender esse mecanismo)

Sem trevas, não há luz e onde há luz, há sombras. Logo, luz e trevas não devem ser entidades rigidamente separadas, num dualismo dogmático; luz e sombra formam a unidade do que somos.

Mariani Lima disse...

Levi,
O pior é que parece que fujimos e combatemos ainda mais aquelas idéias que de alguma forma nos atraem. Lembro que alguns questionamentos que eu tinha eram os tais que eu mais combatia e aqueles que buscava respaldos bíblicos para confrontar rs... é ameaçador quando a idéia já está morando em nós.
Abraços!

Levi Bronzeado disse...

Edu, Lídia e Mariani

O fundamentalista é rígido em suas convicções. Jamais ele irá permitir uma passagem dialética, por que o diálogo pressupõe duvidar de uma convicção, e isso ele não suporta, pelo medo de perder o “céu”, ou pelo medo de ofender a um Deus, que é fogo consumidor.

Fica difícil conversar com o fundamentalista, quando ele se fecha sobre si, exercendo o mecanismo de defesa – a FUGA. Fuga esta (como já falei no artigo postado), que se constitui no velho recurso psicológico de negação da própria sombra encoberta. Pensar diferente ou repensar conceitos seria para ele uma blasfêmia que o deixaria imensamente culpado perante Javé.

Repasso um emblemático comentário do autor do texto “Teologias do Inferno”em sua sala, cuja essência não é mais novidade para nós, pois sabemos que os argumentos frágeis expostos abaixo, se constituem numa projeção inconsciente do "impuro" que há em si, no OUTRO.

Eis aí uma contundente defesa da "doutrina de "Cristo?": (rsrs):

Sigamos com os alicerces firmados na Rocha. Fundamentalistas, ortodoxos e conservadores. Porém cristãos.
Os liberais? Que Deus tenha misericórdia de suas almas.


(rsrs)

Levi Bronzeado disse...

Que é isso, cara confrade, Elídia!

Explorar terrenos desconhecidos, sem medo de perder a salvação?

Depois conta em um artigo, lá na C.P.F.G., como conseguiu essa Vitória. (rsrs)

Abraços,

Eduardo Medeiros disse...

Levi, você atiçou minha curiosidade e fui lá deixar um comentário na sala do citado denunciante das teologias do infeno.

Eu sei que é difícil um fundamentalista se abrir ao diálogo com quem pensa diferente dele, haja vista, essa emblemática frase dele que você destacou.

Será que ele estaria disposto a fazer parte da nossa confraria herética??

Eu defendo o direito de cada um viver no sistema de crenças, teologias, moralidade que achar melhor pra si, mesmo que não perceba que está tentando matar o seu lado herege que lhe pertuba o íntimo.

O "bom fundamentalista" é aquele que se abre ao diálogo, ainda que não revoque um til daquilo que crê ser verdade absoluta. O bom fundamentalista é capaz de perceber verdades em outros sistemas de pensamento que não o seu.

Quantos bons fundamentalistas devem existir por aí?

Eduardo Medeiros disse...

Levi,

veja como o fideísmo é capaz de mistificar o que não deveria ser mistificado. o autor desse blog(que parece ser um bom conhecedor das línguas bíblicas) http://biblistas.blogspot.com/, escrevendo sobre a importância das línguas originais da Bíblia no estudo teológico, ele cita concordando com um pensamento de Martinho Lutero:


"A língua hebraica é chamada sagrada. E S. Paulo, em Romanos 1, chama-a “as santas escrituras”, certamente levando em conta a santa palavra de Deus a qual é aqui compreendida. Similarmente, a língua Grega também pode ser chamada sagrada, porque ela foi escolhida sobre todas as outras como a língua na qual o Novo Testamento foi escrito, e porque por isso outras línguas também tem sido santificadas como se o Grego estendesse sua santidade a elas como uma fonte em meio a tradução."

Vejam só, a língua grega, que teceu a filosofia, criou os grandes mitos e forjou o deus supremo Zeus, foi santificada por Javé pois nela foi escrito o NT.

o que Freud tem a dizer sobre isso?

Guiomar Barba disse...

Levi o que eu tenho percebido no meio do povo evangélico é que a maioria dele pouco está se preocupando em FUGIR do que lhe convém,embora sejam ensinados e pressionados a fazê-lo. Eles fogem mesmo, de livre e espontânea vontade de tudo que os chama ao raciocínio, ao entendimento e abraçam tudo que lhes faz promessas utópicas.

Lindo texto.

Levi Bronzeado disse...

Edu

Esta é a solução encontrada pelo fundamentalista para negar a sua SOMBRA. Ao considerar a língua grega sagrada, ele está exercendo o mecanismo de defesa —, a negação do “profano” que há dentro de si. O “sagrado” necessita do “profano” e vice-versa.

Não sabe ele, que o tiro está saindo pela culatra (rsrs). A língua grega sendo sagrada, os seus deuses seriam as várias faces de Javé, e por tabela, o cristianismo seria um politeísmo disfarçado. (rsrs)

Eduardo Medeiros disse...

Levi,

o que você acha da ideia de que o mal é a ausência do bem? Que o bem é absoluto?

Levi Bronzeado disse...

Edu


O “Eu Javé, crio o bem e crio o mal” ― tem o seu correspondente em psicanálise, pois é na instância doInconsciente que residem as imagens do sagrado e do profano.

Bem e Mal não são absolutos. Eu diria que eles guardam relação um com o outro. São os pólos de nossa ambivalência. Diz a psicologia jungueana: “não há nenhum bem que não possa causar mal, e mal algum que não possa causar bem”.

Veja bem, como é difícil o diálogo entre o liberal e o fundamentalista, que é o escopo do texto postado aqui. O que pra mim é bem, para o outro é mal. O CEU daqui da Confraria “herética” é INFERNO lá no blog do Zágary (rsrs)

Mas o diálogo entre Deus(bem) e o Diabo(mal), no livro de Jó foi a bom termo, pois culminou com a realização da síntese entre os dois pólos ambivalentes da psique, simbolizados pelo apoteótico encontro em que Jó intercede pelos que haviam lhe feito mal
(Jó 42:7-11)

Amém

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Ótimo texto, Levi.

Ruim é quando nenhuma instituição nos atemoriza sobre o inferno e nós o criamos dentro de nós, talvez por esta necessidade de segurança psíquica.

É algo que tem a ver com os limites colocados pelos nossos pais para que a criança não vá além daqui ou dali.

Lembro um pouco de minha infância quando eu tinha que conviver com certas proibições na cidade do Rio de Janeiro. Brincar com a criança do morro ou ir em certos locais "infernais" da cidade significavam transgredir limites. Para chegar em certos bairros, só se fosse em determinadas linhas de ônibus, convivendo com gente do meu meio social.

Porém, sempre fui um menino curioso e que ansiava por quebrar limites. Desejava subir do alto dos montes, ir a pé de um bairro a outro cruzando favelas, descobrir novos caminhos, novas praias e romper fronteiras.

Assim tenho caminhado e não me arrependo.

Abraços.