12 fevereiro 2012

O Amargo Triunfo Teológico−Político





Quando em junho de 1967 todos os judeus se emocionavam com a reconquista da velha Jerusalém, naquele histórico conflito a que se deu o nome “Guerra dos Seis Dias”, um rabino de nome Zalman Schachter, resolveu enviar uma carta a Ben Gurion. Ele fazia um alerta ao primeiro ministro de Israel, afirmando que aquele momento se revestia de uma grandeza histórica. Mas o interessante é que seu pensamento não estava em consonância com os gritos dos vitoriosos, os quais, como eufóricos vencedores do conflito, diziam: Jerusalém agora é nossa!.

O rabino, na contramão dos acontecimentos, fazia ali um pedido chocante: “exortava a Ben Gurion que declarasse imediatamente Jerusalém como um monumento internacional e que permitisse à cidade, justamente em sua reconquista pelos judeus, a realização de seu projeto histórico ― não o triunfo, mas a paz”.

Na carta, o rabino faz ver que “na própria história dos judeus o triunfo dos assírios, gregos, romanos, bizantinos, cruzados e otomanos era um metáfora de que o vencedor de hoje é o derrotado de amanhã. Quem vence produz um vencido. O triunfo representa a mais efêmera das seguranças e se coloca na cadeia sucessiva e interminável da violência”.

Nilton Bonder, atual presidente da Congregação Israelita do Brasil, em seu livro, “Judaísmo Para o Século XXI”, aproveita os argumentos interessantes do rabino, para uma reflexão sobre o outro lado do grande “triunfo” israelita sobre os seus países vizinhos, naquela memorável guerra.  Ele incita os judeus a uma auto-análise não só política como teológica.

Para Nilton Bonder, esse desejo de triunfo teológico foi o epicentro das guerras entre judeus, cristãos e muçulmanos. “Uma derrota dessa expectativa de triunfo de todos, seria a única esperança da paz”— conclui o líder Israelita.

Na visão de Bernardo Sorj, professor de História da Universidade de Haifa, Israel, PhD e em sociologia pela Universidade de Manchester (Inglaterra), o Estado de Israel “normatizado” de hoje paga um preço muito alto por renegar, esquecer as muitas correntes dos judeus da diáspora que não aceitaram se voltar para um passado extremista de defender a exclusividade JUDAICA sobre Jerusalém. O sionismo ao considerar “anormal” a heterogeneidade das correntes da diáspora, triunfou politicamente, mas foi derrotado pelo maniqueísmo retrógrado da percepção de um eterno conflito entre esquerda e direita, ou entre as categorias de judeus “ortodoxos” e judeus “hereges”.

O utilitarista religioso ocidental é aquele que continua eternamente na frente do espelho a perguntar: “Há alguém de quem você goste mais, meu Deus?”. E de acordo com o que o fiel deseja em seu inconsciente, a imago paterna lhe responde: “NÃO”. Na psique do fiel intolerante, revela-se, por conseguinte, um Deus intolerante que ordena a destruição ou o não reconhecimento do outro.

Spinoza, em seu “Tratado Teológico Político” – Editora Martins Fontes (página 45), sobre esse Deus que se revela segundo a própria imaginação humana, diz o seguinte: “Conta-se que Moisés pediu a Deus que o deixasse vê-Lo; mas como Moisés não tinha nenhuma imagem de Deus formada no cérebro, e dado que Deus, não se revela aos profetas senão em conformidade com a sua imaginação, não lhe apareceu sob nenhuma imagem”.

 “Jerusalém se transformou em símbolo do triunfo, e se há algo que a paz não é... é ser fruto do triunfo”.

O sonho que orientou um sionismo triunfante, é que tem balizado e incentivado em nossas terras o grande mercado de almas. Não é à-toa que o Marketing da Salvação é um dos mais poderosos aqui entre nós. Seu lema é sempre vitória, e nunca derrota, nem nunca convivência pacífica entre os de identidades diferentes.

Hoje, mais do que nunca, se faz necessário refletir sobre o que move o marketing da salvação: se ele passa, necessariamente, pelo “triunfo” imaginário da fé de um grupo e na praga da conversão do outro, todos estarão perdidos.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de fevereiro de 2012


Site da imagem: exame.abril.com.br

5 comentários:

Conexão da Graça disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Conexão da Graça disse...

1° Nobre Mago Levi, embora fora do foco central do texto, não seria a sarça ardente uma "IMAGEM DIVINA" construída por Moisés?

2° A espinha dorsal do marketing religioso, é o produto de exclusividade que ela oferece. Acabe com essa oferta, e quase todos os malefícios resultantes desse exclusivismo serão sobrepujados pelo diálogo que promove a evolução da vida.

Levi Bronzeado disse...

Franklin,

Sobre a simbologia do FOGO (sarça ardente):

A “sarça ardente” era uma espécie de acácia, que tinha o poder de cegar, e suas sementes quando ingeridas levavam a morte. No imaginário dos antigos era uma planta a ser temida, que traduzido do mito mosaico, correspondia a um “deus que deve ser temido”.

Quanto às chamas, devem simbolizar o SOL, numa relação estreita com o monoteísmo egípcio de Akhenaton que estabeleceu o deus Aton (SOL) como a única divindade a ser cultuada.
Provavelmente, Moisés em sua estada no Egito tomou consciência dessa religião, de cujas imagens ficaram gravadas em seu inconsciente.

Moisés por sentir a natureza de Deus, mas não a sua forma, estabeleceu que o seu povo, consequentemente, não deveria fazer imagem Dele.

Quanto ao marketing da salvação”, ele não sobrevive sem o combustível do poder, da vitória, do milagre, da glória e da soberba.
Ops, ía esquecendo do principal: “A GRANA e os PARAÍSOS fiscais” (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

Franklin

Este assunto deve render mais, lá na "Confraria Teológica Logos e Mithos".

Como é a minha vez de postar, peço licença ao Capitão Edu, para transferir o texto em discussão aqui para a sua nobre sala herética, que é muito mais espaçosa. (rsrs)

Franklin Rosa disse...

Nobre Mago Levi, com sua devida permissão (e sem permissão mesmo rsrsrs) e, fazendo menção dos créditos devidos, irei AFANAR alguns textos teus para postar no conexão em seu devido tempo.