11 abril 2012

O “Jardim da Infância” do Brasil — Ou o “Eterno Retorno”.




Esta semana dediquei-me a leitura de um livro espetacular de Eduardo Bueno — “A Coroa, a Cruz e a Espada” — que trata da chegada do nosso primeiro governador Geral às terras do “Pau Brasil”. A narrativa agradável saída da pena desse finíssimo escritor, me fez mergulhar no “jardim da infância” da nossa nação de 450 anos atrás.

Durante a leitura dessa obra, às vezes, tinha a nítida sensação de estar lendo a revista Veja ou a Folha de São Paulo com suas manchetes chamativas sobre  nepotismo, clientelismo e corrupção generalizada em todos os setores de nossa vida pública atual.

Mas vamos voltar no tempo, o tempo da nomeação do nosso primeiro governador Geral, pelo rei de Portugal — D. João III.

Mas não é que o nobre Tomé de Souza, só aceitou o cargo de Governador Geral da Colônia oferecido por dom João III, quando embolsou dozes meses de salários adiantados (400 mil reais). Tomé de Souza, em meados do século XVI, era lembrado na corte pelas suas coleções de frase célebres, publicadas no livro, “Ditos Portugueses Dignos de Memória”. “Todo Homem é Fraco e Ladrão”, é uma das frases célebres registradas por ele nesse livro.

Em 1549 uma trupe de corruptos e degredados zarpou de Portugal rumo às nossas terras: autoridades fiscais, ministros da fazenda, desembargadores, juízes, ouvidores, escrivães, almoxarifes, burocratas e o primeiro bispo do Brasil — Pero Fernandes Sardinha, que mais tarde provocaria uma onda de indignação na colônia ao perdoar os pecados dos fiéis em troca de dinheiro.
Eduardo Bueno, que pesquisou mais de 300 obras históricas, narra em detalhes,  a infância do nosso país, nascido em um “berço esplêndido” de corrupção e malversação do tesouro público.

Qualquer leitor desavisado que abrir esse livro a partir da página 64, com certeza, pensará que ele está descrevendo as bandalheiras que ocorrem nos tempos atuais na Capital da República. Passados quase quinhentos anos,  o que se vê no império petista, infelizmente, nada mais são que reprises de fatos como estes, que o autor brilhantemente, aqui, expõe em seu emblemático livro:

Pero Borges que foi nomeado ouvidor-geral pelo rei de Portugal, cargo que pode ser comparado, hoje, ao de ministro da justiça não tinha a ficha limpa, mas mesmo assim, foi promovido a desembargador, como prêmio para ajeitar a Colônia que vivia um caos com suas Capitanias hereditárias.  Em 1543, Borges, quando ocupava o cargo de corregedor da justiça em Elvas, no Alentejo, próximo a fronteira com a Espanha foi encarregado pelo monarca para supervisionar a construção de um aqueduto. As verbas se esgotaram sem que a obra estivesse pronta[...]. [...]Ante o clamor do povo, D. João III autorizou a abertura de um inquérito. As investigações comprovaram que Pero Borges desviara 114.064 reais — o equivalente a um ano de seu salário, como corregedor”.

Depois de quase meio século da chegada do primeiro governador geral, o nosso país tornou-se “adulto” (ou adúltero?). Hoje é a sexta economia do mundo e tem o maior programa eleitoral de distribuição de renda aos pobres e marginalizados — o bolsa família, criado pela turma do PT que ainda planeja se eternizar no poder, assaltando os cofres públicos com métodos cada vez mais sofisticados.

Olhando para trás, para a tenra infância desse “gigante adormecido”, não há como deixar de perceber que a figura do velho Pero Borges, parceiro do D. João III, se multiplicou e sobreviveu até os dias de hoje.

Os parceiros do Rei da atualidade, como nos velhos tempos, não dormitam; estão em plena atividade para reaver os seus poderes. Ávidos por verbas e enriquecimento ilícito, eles, com o beneplácito do Rei Lulla, tramam à la Pero Borges, se saírem de forma heróica e gloriosa do que denominam de perseguição  das elites pela imprensa. O Rei já saiu em defesa dos seus mensaleiros dizendo em alto e bom som: “Esse tal de mensalão nunca existiu”.

Incrível, como o passado longínquo da velha colônia portuguesa está tão perto de nós! — é o eterno retorno de que fala Nietzsche, senão vejamos o que diz o escritor Eduardo Bueno nesse parágrafo, sobre a infância de nossa "pátria mãe gentil”, nos idos de 1550:

“A Instituição, ainda assim, mantinha uma estrutura bastante simples: era composta apenas por um presidente, seis desembargadores, um porteiro, sete escrivães e um tesoureiro. Todas as sextas-feiras à tarde esses homens se reuniam com o Rei para discutir a formulação e a correção das leis, a designação de novos magistrados e condição política e legal do reino. Os encontros se davam  na Casa de Despacho dos Desembargadores do Paço, logo chamada de “casinha”.

“Nada mudou no Quartel d’Abrantes”, ou seja, pouca coisa mudou: o congresso brasileiro não funciona nas sestas-feiras.  Só até as quintas-feiras é que a trupe pode se reunir.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 11 de abril de 2012


Site da imagem:  joelbueno.blog.uol.com.br

11 comentários:

Guiomar Barba disse...

Levi, só quem acredita em espíritos purificados pelo carma são os inocentes espíritas.

Depois de "milhas" de anos, os homens continuam "Fracos e Ladrões". Qual a esperança para um Brasil deitado em berço esplendido? Qual a esperança de que "Fulguras, ó Brasil, florão da América,ILUMINANDO AO SOL DO NOVO MUNDO?

Novo céu, nova pátria, só em Cristo. Beijo.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Ao que me parece, o rei de Portugal precisava de gente sem caráter da sua coorte para fazer o seu trabalho sujo: criar o governo exploratório da colônia.

O problema é que acostumamos durante séculos a sermos colonizados e explorados e até hoje ainda consentimos que as pessoas usem o poder com seus interesses pessoais ou corporativistas. E daí aquele dito de que fulano "rouba mas faz".

Mas será que nada mudou?

Acho que hoje estamos mais conscientes do que há 435 anos atrás. Felizmente vivemos numa democracia conquistada com o sangue daqueles que enfrentaram o regime militar e as coisas erradas aparecem com maior facilidade. E esta exposição parece-me boa.

Enfim, acredito que, através da EDUCAÇÃO, poderemos construir uma nova pátria sob este mesmo céu de estrelas fazendo com que, finalmente, o Brasil deixe de ser um projeto sonhado pelos pais da nossa independência.

Abraços.

Edson Moura disse...

Vivemos numa democracia sim, mas representativa, o que queira ou não queira, deixa o povo de fora das decisões. Ou vão me dizer que queremos (eles, o povo, porque eu não sou povo, rss) dar pitacos na política do País? Queremos nada. Queremos mesmo é ficar de boa, deixando que administrem a máquina pública por por nós. garantam nosso renda mínima, nosso bolsa família, e tá tudo certo, até deixamos que eles "levem algum" nessa brincadeira.

O povo merece o político que tem. Se deixou ser dominado séculos atrás, e agora, com evento "democracia", tem até o privilégio de escolher os seus "senhores".

Abraços

Eduardo Medeiros disse...

Levi,

estou com esse livro do Bueno na estante esperando para ser lido; você já me abriu o apetite..rsss

O Eduardo(o Bueno) é uma grande figura; gostava muito de ouvi-lo falar sobre a história deste nosso país tão abençoado por Deus e tão amaldiçoado pelo Diabo.

Levi,

o que me deixa desanimado, é ver as novas denúncias de corrupção envolvendo os partidos de oposição ao PT; de fato, é tudo farinha do mesmo saco.

Levi, Levi, diga aqui para este otimista doentio se este nosso Brasil varonil vai um dia entrar nos eixos!

Levi Bronzeado disse...

Um pouquinho de provocação: “Tudo é utopia” (rsrs)

Nova Pátria, Novo Céu ― através de Cristo (Guiomar)

Novo Brasil ― através da Educação (Rodrigo) (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

“Queremos mesmo é ficar de boa, deixando que administrem a máquina pública por nós. Garantam nosso renda mínima, nosso bolsa família...” (Edson)

Esse desejo de ter tudo sem esforço, vem lá de nossas origens, quando, “onipotentes”, nos sentíamos como uma extensão do corpo da própria mãe. (vide Freud)

Esse desejo (eterno retorno) não nos larga (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

Taí, Edu


Esse ditado: "farinha do mesmo saco" daria um bom ensaio, pelo que tem de significado em nosso dia a dia (rsrs)

Mariani Lima disse...

Guio, os espíritas são tão inocentes como os evangélicos que dizem que Jesus está voltando há mais 2012, pense bem!rsrs...

Levi, O negócio já veio feio do início. Li o 1800 do Laurentino Gomes e tive a mesma impressão.
Nada mudou. rs..

Guiomar Barba disse...

Mari querida, sabemos que Jesus prometeu voltar e nos levar para Si. Assim como cremos em outros ensinamentos dEle e desejamos que sejam seguidos, muitos também acreditam no novo céu e nova terra. Com certeza, uma promessa partindo de Jesus,jamais deixará de ser cumprida.

Falo sobre a utopia do carma, porque na verdade, você há de convir comigo, que os homens em nada têm nos dado esperança de uma nova mentalidade. Portanto, não vejo espíritos purificados e sim cada vez mais lameados, com muito poucas exceções.

Beijo.

Guiomar Barba disse...

Levi, como você ainda esta com este ensaio aqui, trouxe para você o e-mail que me mandaram:


"Ninguém Crê na Honestidade
dos Homens Públicos"



A falta de leitura leva aos erros.
A falta de memória leva aos mesmos erros.
EÇA DE QUEIROZ

Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte, o país está perdido!

Eça de Queirós escreveu isto em 1871: há 135 anos.
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Essas palavras continuam valendo para os dias de atuais? Alguma coisa mudou. Mas a corrupção, a fome, a dissolução dos costumes, a desconfiança nos homens públicos, a agiotagem oficializada, os impostos cada vez mais elevados - Esse quadro não mudou.
Beijo.

Levi Bronzeado disse...

Guiomar


Olha só a paródia do hino nacional que eu peguei na internet, cujo link segue abaixo:

http://www.joaodefreitas.com.br/hino-racional.htm

“Ouviram, no final de um plano trágico,
De um povo pobre o brado retumbante,
E só disparidade, em saltos súbitos,
Sufoca esse povo a todo instante.
Se a pior desigualdade
Conseguimos suportar de sul a norte,
Eu receio a sociedade
Venha a ter no seu salário mais um corte.
Está tramada
Outra arrancada.
Salve-se! Salve-se!

E assim o sonho intenso e o raio vívido
De amor e de esperança desvanece,
E o poderoso vem risonho e cínico,
Distorce o direito e prevalece.
Gritante pela própria natureza,
Perverso é o golpe sobre esse povo,
Que no futuro espera mais pobreza.
Perda agravada
Entre outras mil,
E outro ardil
está tramado.
O salário neste solo
Está tão vil!
E os preços,
A mil.

Se lá no parlamento é um berço esplêndido,
Aqui o pobre só vai para o fundo,
E agruras sofre o pobre e mais miséria,
Desanimado, só, num poço imundo.
Do que inferno mais ardido
Os tristonhos fins de planos têm mais dores,
Cada choque traz mais perdas,
E dessas perdas vem receio e mais horrores.
Está tramada
Outra arrancada.
Salve-se! Salve-se!

E assim o engodo eterno segue um ritmo
De medidas que sustentam o outro lado,
E diga-se que o dolo desses fâmulos
Faz no futuro um mundo atrasado.
Se o germe da injustiça está bem forte,
Verá que, se você não for à luta,
É alguém que espera agora a própria sorte.
Perda agravada
Entre outras mil,
E outro ardil
está tramado.
O salário neste solo
Está tão vil!
E os preços,
A mil.”


(kkkkkkkkkkkk)