12 maio 2012

A CASA VAZIA, Ou “Eu Acho Que Vim Cedo Demais”





A casa que me viu de calças curtas com uma pelota de borracha à tiracolo, caminhando pela rua de barro batido, a fim de jogar as “peladas” que sempre aconteciam ao entardecer, está vazia. A sala está vazia de gente e do som, vazia das modinhas que durante todos os dias ouvia pelo rádio da marca “Pyonner”.

A cadeira-poltrona de balanço toda em madeira de lei já não mais existe. Nela, balançando-me para lá e para cá, embalava os meus pensamentos e sonhos de 50 anos atrás, ouvindo os famosos cartões sonoros em que os ouvintes das emissoras de rádio pediam velhas canções de Núbia Lafayette, Maysa, Altemar Dutra, Anísio Silva, Orlando Dias e Nelson Gonçalves, entre outros.

Mês de maio, mês das mães, lembro-me bem, os meus ouvidos eram encharcados pela dolente música dedicada as mães, na voz de Ângela Maria, que falava de um “avental todo sujo de ovo”.

Muitos acontecimentos fantásticos daquele pedaço de tempo esquecido, hoje, afloram a minha cabeça. A casa que aos domingos se enchia de odores vindo da cozinha onde as inseparáveis Bazinha e Bia pilotavam com esmero e carinho, caçarolas cheias de iguarias em um fogão de quatro bocas, deu lugar ao silêncio. Silêncio tamanho que, da sala, permite ouvir o rumor dos ventos a roçar as folhas de uma velha goiabeira lá no fundo do quintal.

Visitei a casa vazia, faz quinze dias. Apesar de estar fechada, sem a presença de sua dona, senti no ar, ainda o suave perfume de antigamente exalando dos móveis e das toalhas antigas estendidas sobre a mesa, alinhadas em curvaturas impensáveis de tão perfeitas, ansiando tocar macias nossos rostos... ―, farrapos de lembranças que evocam o repasto farto em que eu e a minha faminta família devorávamos com apetite incomum:  as saborosas galinhas caipiras, e as inigualáveis pamonhas e canjicas de milho verde, com uma condescendente alegria para com a mãe de todos que se encontrava ali. Bazinha, a grande matriarca, alimentava-se mais dos desejos dos filhos que se postavam à mesa do que dos sabores e eflúvios exalantes dos alimentos que com ardor incomum preparava, numa espécie de prazer antropofágico e estranho, a devorar os próprios filhos...

Nos domingos que a visitávamos, os colóquios se estendiam até noite alta, quando, como crianças sapecas em algazarra, éramos postos a correr contrariados da casa: “Vão todos para suas casas, já é muito tarde. Já se divertiram muito” ― gritava, Bazinha, cerrando portas e janelas que rangiam seus queixumes a nos despedir para fora de suas entranhas. No entanto, com a teima das picardias infantes, demorávamos na calçada da casa, a expandir as últimas tagarelas e surdas gargalhadas sob lufadas de um vento noturno mais ameno.

Com o olhar vago para uma bucólica praça da cidadezinha de nome peculiarmente indígena, Cuitegia velha Bazinha, aos 86 anos de idade, hoje, mora com a filha. Está agora sob o cuidado dos filhos, mas longe da casa vazia que não lhe sai da cabeça.

Semanalmente, filhos, genros e noras a visitam no seu novo ninho. Com a saúde muito abalada, vive passivamente e meio tristonha olhando o tempo passar pela janela. Já não podendo mais nos servir como antes o fazia, apenas dirige-nos seu olhar de desassossego, o qual vem sempre acompanhado da já gasta frase: “É, eu acho que vim cedo demais”.

Quem, como eu, viveu sua meninice e juventude na casa n° 1242 da rua João Pessoa – Alagoa Grandenão pode deixar de sentir um frio nas vértebras, quando adentra a casa que um dia foi tão cheia de alegria e de histórias, e hoje, se encontra como um patrimônio desolado, sem seus antigos inquilinos.
Amanhã é o primeiro domingo, dia das mães, em que na casa vazia de emoções não haverá regozijo nem vozes apaixonadas a dialogar e a contar suas peripécias; não se terá aquele clima de inflamadas discussões familiares.

O tempo passa e, com sua cortina de espessa fumaça, dissipa tudo, menos o sentimento nostálgico que em momentos como estes á maneira de um forte vendaval desarma-nos, fazendo investir em nosso peito toda sua força descomunal.


Feliz dia das Mães


Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de maio de 2012


FOTO: O Editor do blog com a esposa, a Nora, e a Mãe  (Bazinha) com a  primeira neta nos braços

10 comentários:

Guiomar Barba disse...

Você quase me fez chorar. De toda saudade que fica, a maior saudade é da D. Bazinha (nome pelo qual mami me chamava carinhosamente. Ela sim, guarda no oceano do coração cada pedacinho da vida e desfia dia a dia estas lembranças, com a certeza que não verá se repetir nem mesmo na vida dos seus rebentos, alguns fios. Esta foi a história que é bem dela.

Desfrute-a, até que a natureza baixe a cortina para ela.
Beijo pra você e feliz dia das madres para todos os seus.

Mariani Lima disse...

Nossa, que coisa Levi!Essa nostalgia eu sinto quando vou á casa que foi da minha avó. Linda a sua narrativa, adentrei essa casa vazia contigo.
Um grande abraço e Feliz dia das mães para as mães de tua vida.
Fica com Deus

Eduardo Medeiros disse...

O melhor texto que li este ano vindo desse teu talento extraordinário, grande escriba!

Você me deixou cheio de saudades de um tempo que eu pareço ter sido vivido somente em sonhos, pois foi assim que senti o que você escreveu: um sonho distante mas que ainda provoca tantos eflúvios de emoções.


p.s. adoro a palavra "eflúvios"..rsssss

Levi Bronzeado disse...

Pois é, Guiomar, Edu e Mariani

O grande problema que nós os filhos de D. Bazinha estamos enfrentando, é que ela, a nossa mãe, não consegue esquecer um só momento a casa vazia, cheia de tantas boas e sofridas recordações que ficaram para trás.

A sua vontade de voltar para lá é extremamente forte, mas o corpo já não obedece a vontade do espírito. Continua sonhando todas as noites com o seu ninho antigo.

Amanhã, seu dia, farei de tudo aqui na minha casa (Guarabira) para tentar aplacar a sua obsessão pelo lugar antigo, palco dos maiores momentos e das maiores emoções por ela vividas.

Nos meus devaneios chego até pensar que a casa antiga que agora está fechada foi talhada da mesma substância das suas histórias.

Nós, os poetas chorões que tanto falamos no sentimento re-ligare compreendemos muito bem a razão, o motivo ou o “por quê” desses "eflúvios", desse ETERNO RETORNO a invadir o nosso imaginário, solapando as nossas frágeis resistências psíquicas.

Tenham vocês, também, um dia das mães de gratas recordações.

Eduardo Medeiros disse...

E então, Levi, como ficou o coração da matriarca?

Levi Bronzeado disse...

A matriarca Bazinha teve um dia das mês na santa paz, Edu.

Não falou um só momento na casa vazia que tanta falta lhe faz. (rsrs)

Carol Bronzeado disse...

Nossa Tio... Essa realmente deu vontade de chorar... e muita saudade.. Conseguistes escrever a saudade e a dor dela por não ficar mais em sua casa... Minha querida vó...
Muitas saudades!

Beijos
Carolline Bronzeado
Cuiabá

Levi Bronzeado disse...

Carol

A velha Bazinha, sua avó, teve um alegre dia das mães aqui em Guarabira, junto aos filhos.

Me parece que ela, aos poucos, está se adaptando ao novo ninho, apesar de sempre que me encontra ir logo perguntando: Quando é que você vai a Alagoa Grande? (rsrs)

Levi Bronzeado disse...

Carol

A velha Bazinha, sua avó, teve um alegre dia das mães aqui em Guarabira, junto aos filhos.

Me parece que ela, aos poucos, está se adaptando ao novo ninho, apesar de sempre que me encontra ir logo perguntando: Quando é que você vai a Alagoa Grande? (rsrs)

Anônimo disse...

Boa Tarde, Meu nome é Renato Levi Bronziado, sou filho do SrºLevi Bronziado aqui do Rio de Janeiro. Por não ter nenhum contato com os familiares da localidade de vocês, peço a gentileza , e com a máxima urgência, que o Dr. Levi Bronziado, faça contato conosco aqui no Rio de Janeiro .
pelos tels. 21-7890-0364/9804-1492.