25 dezembro 2012

O Natal de João Brandão (Ou o Nosso Natal)





O grande poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), na década de 1970 escrevia crônicas no Jornal do Brasil do Rio de Janeiro. O seu livro ― “Os Caminhos de João Brandão” ― reúne várias crônicas que foram publicadas nesse jornal do Rio que, na época,  era um dos periódicos de maior tiragem no país.

Dentre as crônicas desse livro, uma me despertou muito a atenção. Trata-se do conto: “Neste Natal”.  Achei a sua narrativa tão atual com o momento porque passa o Brasil, que não resisti ao ímpeto de trazê-la à tona neste fim de Noite de Natal:

Este Natal

Carlos Drummond de Andrade


— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­-os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.
E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo.

Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
(14-12-1966)

FONTE:
"Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.

Site da Imagem: sebomeusebinho.com

2 comentários:

Eduardo Medeiros disse...

Levi, eu tinha um ano de idade quando o nosso poeta maior escreveu essa crônica e ela continua tão atual!!! que coisa mais incrível, não?

Mas hoje a coisa está bem pior. Minha sogra, que não é boba, experiente que é nessas armações tão antigas dos "mãos leves" sempre diz: "Cuidado, que no Natal tá cheio de ladrão na rua!!"

O conselho do poeta talvez devesse ser levado a sério.

Levi Bronzeado disse...

É mesmo, Edu, hoje a coisa está preta.

No ano em que fiz residência médica no Hospital Souza Aguiar, em 1972, ia muito ao Maracanã assistir os jogos do Flu; duas vezes por semana saia à pé da praça da República até a Cinelândia para ir ao cinema, na época do Poderoso Chefão I, assim como não perdia os principais concertos no Teatro Municipal.

Pode crer. Em minhas andanças nunca cheguei a ver assaltos ou outros tipos de violência. Nesse tempo, o Rio podia se chamar, realmente, Cidade Maravilhosa ou Canaã celestial.

Para narrar um Natal tão surreal, o Drummond deve ter viajado no futuro ou sonhado com o Brasil de hoje. (kkkkk)