31 março 2012

Por Que Esse “Cale-se” (ou cálice)?!


Por Levi B. Santos


“Quem vê o Filho vê o Pai” ―  quantas vezes ouvi essa frase!
Tu eras forte, e eu brincando, te imitava em tudo.
A nossa intimidade era tanta, 
A ponto de na tua poltrona bela e aconchegante
 Sentir-me como uma extensão de ti.
De uma lúgubre noite, lembro-me bem,
Em que choraminguei bastante
Quando me disseste, que a dureza da vida, teria de enfrentar
Sozinho, cambaleando sem o auxílio de tuas mãos.
Hoje, precisava estar tão perto de ti.
Mas pareces nem notar a minha aflição.
Estou confuso. Da última vez que quis fraquejar,
Tremi diante de tua sentença:
“Você não é mais criança, faça o que bem entender!”
Nenhuma palavra de ânimo, nenhuma ajuda.
Deixaste-me face a face com o meu fardo.
Fizeste silêncio quando mais te queria ouvir
Ah, já sei!.  Um raio de lucidez aportou em mim:
Seria penoso demais para ti, olhar o meu mísero estado.
Seria demais para um pai poderoso
Ter que humilhar-se na pele de um filho escarnecido.
Será por isso que te escondes de mim?
Nunca me senti tão fraco, tão esvaziado e deprimido.
De ti não esperava o agora.
E como uma criança frágil e desamparada,
Temendo que a luz se apague,
Caminho sem nunca chegar ao ponto de onde parti.
Meus projetos e sonhos como bolhas, explodiram no ar.
Por que fui abandonado? Por quê?
És implacável e forte! Tua vontade sempre prevalece
Ao não ter que me dar respostas.


 “Enquanto ele clamava  para que o Pai não o abandonasse, a Mãe estava aos seus pés”  (Mariani Lima)





28 março 2012

Sem Millôr, Meu Mundo Ficou Menor




Morreu hoje, Millôr Fernandes, o patrono dos cartunistas brasileiros que fazia a minha alegria e a de muitos na década de cinqüenta.

Era um meninote iniciante na arte da leitura. Com 13 anos de idade freqüentava a casa de uns amigos, cujos pais tinham melhores condições financeiras que os meus, para me deleitar com a leitura das seções da revista O Cruzeiro” ― o único semanário a circular por todo o país,  nessa época (anos 50), inclusive aqui nos cafundós do brejo da Paraíba.

As seções dessa revista que despertavam mais a minha curiosidade eram a do “Amigo da Onça” – de Péricles, a “Reportagem Que não Foi Escrita ― de Mario Mascarenhas, a “Última Página “ ― de Rachel de Queiroz e o “Pif Paf” ― de Millor Fernandes.

No teatro ele foi um exímio na arte de divertir. Em1972, ano em que fazia residência médica no Rio de Janeiro, tive a oportunidade de assistir a uma de suas peças mais aplaudidas pelo público ― “Computa, Computador, Computa”.

Nas minhas andanças pelas livrarias e sebos sempre gostava de entrar em contato com as pérolas de seu vasto repertório humorístico. Recentemente tive o prazer de reler algumas obras clássicas de Molière e Shakespeare, popularizadas em edições de bolso, em que ele foi o tradutor.

Essa foi a segunda grande perda, em menos de uma semana, de monstros sagrados que fizeram a alegria do país no campo da comédia e do humor.


Guarabira, 27 de março de 2012
Site da imagem: veja.abril.com.br

23 março 2012

Chico Se Foi ― O País Ficou Mais Triste



 Morreu hoje à tarde o maior humorista do Brasil, Chico Anysio, prestes a completar 81 anos de idade.

No ano de 1972, eu fazia residência médica no Hospital Souza Aguiar – Rio de Janeiro – Estado da Guanabara e, lembro-me bem, costumava não perder os seus sensacionais programas: Chico City” e “Chico Anysio Show”.

Os brasileiros estão órfãos do famoso criador de mais de duzentos personagens que nos fez rir por cerca de quarenta anos.

Já bastante debilitado, há alguns meses, conseguiu reunir forças para participar daquele que seria seu último programa. Essa apresentação na TV ocorreu em abril de 2011, quando com voz rouca e embargada, reeditou a velha Salomé, entrevistando a presidente Dilma por telefone.

O vídeo imperdível de sua última aparição na TV, encarnando a SALOMÉ, o internauta e amigo(a) pode conferir, abaixo:




Guarabira, 23 de março de 2012

Site da imagem:  uol.com.br

12 março 2012

NO TEMPO DAS SERESTAS






 Casas fechadas, ruas desertas
La vem  o seresteiro dolente
Sempre nas noites de sábado
Sob um céu de lua reluzente
A dedilhar o seu saudoso pinho
Remexendo o coração da gente


Da modinha melancólica
Guardo doce recordação
Dentre as muitas cantigas
Uma chamava a atenção
A ‘Casinha Pequenina’
Que a ouvia com emoção.


Nas serestas imaginárias
Hoje eu escuto essa canção
Na voz inconfundível e doce
Da saudosa Nara Leão
Que há setenta nos deixou
Órfãos do seu vozeirão.


A Casinha Pequenina ― modinha de 1906, de autor desconhecido, era uma das mais cantadas por trovadores nas noites nostálgicas de minha adolescência. Foi gravada, originariamente, pelo grande intérprete e seresteiro carioca, Sílvio Caldas.

Nara Leão (1942 ― 1989) estaria completando setenta anos de idade nesse começo de ano. A Musa da Bossa Nova, como era chamada por amigos e fãs fieis possuía também uma alma seresteira. No vídeo abaixo, a sua voz meiga e serena, acompanhada de um plangente violão, nos traz de volta a magia encantadora dos saudosos Tempos das Serestas.



Por Levi B.Santos
Guarabira, 12 de março de 2012


08 março 2012

Confissões de um Bibliófilo



Esta semana conferi o curta-metragem que recebeu o Oscar 2012 de animação ― “Os Fantásticos Livros Voadores do Sr.Morris Lessmore”. Trata-se de uma aventura silenciosa ― um libelo ao livro impresso, em que um solitário e triste homem se vê, repentinamente, envolvido num turbilhão de livros voando ao seu redor. As folhas e letras dos livros são arrancadas pela força avassaladora do furacão —, uma crítica ao mundo da leitura digital. Entre os livros há um que não consegue alçar voo, e volta sempre à mão do seu dono. Tudo, acompanhado por uma bela e envolvente trilha sonora.

O filme animado teve o condão de evocar os velhos tempos em que o transtorno obsessivo por livros se apossou de mim. E lá se vão 49 anos, quando dentro de um banco de feira em que minha mãe comercializava confecções, fazia as minhas primeiras incursões pelo mundo da leitura. Lia com júbilo incomum artigos de Raquel de Queiroz, David Nasser e Mário de Moraes que eram publicados nos semanários “O Cruzeiro”, e “Manchete”. As folhas das revistas que iriam servir de papel de embrulho para as confecções que eram vendidas no meio da Feira, antes de ser usadas para essa finalidade, eu, cuidadosamente, recortava todos os ensaios que achava atraentes, para guardá-los num caixote secreto em casa, naquilo que se tornou a minha primeira biblioteca.

Lembro-me, também, dos dois primeiros livros que li com sofreguidão na minha adolescência: “A Ilha do Tesouro” de R. L. Stevenson, e “Os Miseráveis” de Vitor Hugo. De lá para cá, não tenho passado um mês sequer sem a companhia desse amigo silencioso — o Livro.

Tinha e ainda tenho a mania de cheirar as folhas macias dos livros novos, à medida que devoro com os olhos o conteúdo literário. Foi por isso que recebi dos meus colegas de ginásio o apelido de “cheira-cheira”. Aliás, duvido muito que exista algum bibliófilo que não tenha esse vício. O meu filho mais velho tem a mesma mania de gostar do aroma que exala das páginas de um livro novo.

Lembro-me de quando o dinheiro era pouco eu corria aos sebos para adquirir livros usados. Ficava meio triste porque eles não me permitiam o prazer das cheiradas que dava nos livros saídos do prelo com suas folhas estalando de novinhas. Sabe como é, os livros usados, além do visual feio de suas páginas ásperas e encardidas, exalam odor de mofo, tendo que se ler de longe, a fim de evitar espirros e irritação nas narinas.

Grande parte do meu tempo, o monstruoso mundo digital tem me tomado, sem que consiga fazer-me substituir o livro real pelo virtual (os e-books). Se depender de mim as livrarias continuarão, por muito tempo, como salões templários da magia e do poder cativante dos livros.

A leitura através da telinha de um computador, ou de um Tablet, até agora, não tem me dado o mesmo prazer de um bom livro lido em uma rede ou espreguiçadeira. Sou blogueiro há cinco anos e não consegui ainda ler um livro on line ―, provoca-me náuseas. Para mim, a leitura virtual é como uma comida sem tempero, insípida e inodora.

Para deleite dos portadores de Transtorno Obsessivo Crônico (TOC) por livros, que não se renderam aos e-books, trago o vídeo de imperdíveis 15 minutos do ganhador do Oscar de animação 2012 — Os Fantásticos Livros Voadores do Sr. Morris Lessmore:





   Por Levi B. Santos
Guarabira, 08 de março de 2012

02 março 2012

Jerusalém Virou a Disney de Jesus




Estamos às vésperas da semana santa. As empresas de turismo religioso carregam nos seus marketings: “reserve hoje, como sem falta, sua passagem para Israel. Decida-se rápido”. Como diz a letra proselitista do hino cristão pentecostal: “...não deixe para amanhã, hoje Cristo te quer libertar”.

As agências de viagem do comércio gospel anunciam freneticamente: “Visite os lugares sagrados e volte de lá revigorado”. Em outras palavras, vá ao paraíso para depois voltar ao inferno que é o batente cotidiano pela sobrevivência aqui nas terras de dom João VI, Lula, Dilma e Sarney. (rsrs)

E por falar no eletrizante frenesi de gente de todas as nações do mundo que vão tomar literalmente as ruas de Jerusalém na época da páscoa, não poderia deixar de lado um ensaio emblemático (janeiro de 2010), de Luiz Felipe Pondé, psicanalista, filósofo da PUC e Colunista da Folha de São Paulo. Como ele retrata de maneira leve e bem humorada as procissões idólatras das “terras sagradas”.

O internauta que resolveu não fazer esse tipo de turismo religioso na semana santa, pelo amor de Deus, não deixe de conferir esse imperdível ensaio tirado da pena cômico-satírica do fenomenal Luiz Felipe Pondé:

A Disneylândia de JESUS

"O mundo acabou. Não viaje. Assista a filmes em casa ou vá para cidades sem graça no interior. O mundo foi tomado por um tipo de praga que não tem solução: os gafanhotos de sucesso da indústria do turismo.

O horror começa nos aeroportos, que, graças ao terrorismo fundamentalista islâmico, ficaram ainda piores com seus sistemas de seguranças infernais. Esse mesmo terrorismo fundamentalista que faz as “cheeleaders” dos movimentos sociais sentirem “frisson” de prazer na espinha.

Uma grande figura do mercado de análise do comportamento me disse que, em poucos anos, só os pobres (de espírito?) viajarão.
Tenho mais certeza disso do que da aritmética de 2 + 2 = 4.

Aeroportos serão o último lugar onde você vai querer ser visto. Gostar de viajar pode ser um forte indício de que você não tem muita imaginação ou opção de vida.

Veja, por exemplo, o que aconteceu com os lugares sagrados de Jerusalém. Aquilo virou uma DISNEYLÂNDIA de JESUS. Imagino que, dentro de alguns anos, teremos atores fracassados do terceiro mundo vestidos de Judas-patetas, Maria-Branca de Neve, Tio Pôncio-Patinhas, Pedro-Duck, e claro, Mickey-Jesus-Mouse.

Locais religiosos sempre atraíram todo tipo de histeria. A proximidade com ela pode fazer você duvidar da existência de Deus.
Ateus são fichinha em comparação à histeria religiosa como argumento contra a viabilidade de um Deus bom e generoso. Nesse caso, a náusea faz de você um ateu.

Às vezes, tristemente, a diferença entre visitas belas a locais sagrados parece ser apenas o número maior ou menor de nossos semelhantes crentes em Deus.
Ou, dito de outra forma, o inferno é o lugar onde tem muita gente em surto místico.

Jesus deve ter uma paciência de Jó, com seus fiéis cheios de máquinas digitais e filmadoras chinesas querendo devassar a intimidade de sua mãe e de seus discípulos mortos já há tantos séculos.
Aliás, estou seguro de que, em breve JESUS será “made in China”. Se assim acontecer terão razão aqueles que afirmavam ter sido ele um messias “fake”?

Pessoalmente, torço para que Jesus sobreviva a essa nova “paixão”, por obra da qual ressuscitar deverá ser algo como um show de efeitos especiais feito por computação gráfica barata. Os fiéis pós-modernos deram um novo significado à expressão nietzschiana “Deus está morto”. Nesse caso Deus virou batata chips de free shop.

No início dos anos noventa, ainda era possível ir à Catedral de Córdoba, na Espanha, e experimentar sua beleza moura. Já em meados do ano 2000, ela era um terreno baldio para as invasões de gafanhotos.
Hoje estive (escrevo dias antes de você ler esta coluna) na Igreja da Agonia, em Jerusalém, conhecida também como igreja de Gethsêmani, local onde Jesus teria suado sangue antes de ser preso. Um belíssimo local.

Em seguida, alguns passos descendo a ladeira do monte das Oliveiras, fui a outro local maravilhoso que não vou dizer qual é porque espero que ninguém fique sabendo; assim, quem sabe, esse lugar ainda durará algum tempo, antes de virar mais um Hopi Hari de Jesus com seu ruído de famílias de classe média em excursões místicas.

É importante dizer que já fui a esses locais inúmeras vezes e que, portanto, tive o desprazer de ver Jerusalém virar uma cidade devastada pela horda de tarados com máquinas digitais e filmadoras chinesas. Além de suas camisetas com slogans pela paz mundial.

Depois da destruição de Jerusalém pelos romanos por volta do ano 70 d.C., vemos agora a infestação da cidade santa pelos histéricos pentecostais e seus berros em nome do Espírito Santo.

Além, é claro, dos judeus ortodoxos obsessivos mal-educados e dos muçulmanos fanáticos, com seu grito bárbaro “Allah Akbar” (Deus é grande). A população secular de Jerusalém é cada vez mais oprimida pelos homens de preto da ortodoxia judaica.

Alguns desses são mesmo contra o Estado de Israel, porque só o Messias pode reconstruir o “verdadeiro Estado judeu”. Acho que deveriam ser todos despachados para o Irã. Enfim, um filme de horror estrelado por fanáticos, batatas e patetas.

Aeroportos, aviões, hotéis e museus parecem liquidações de lojas".

(Luiz Felipe Pondé ― via Paulopes.com.br)

Guarabira, 02 de março de 2012


Site da imagem: Paulopes.com.br