29 maio 2012

A Quem Interessa a Fragilização do STF?!




Gilmar Mendes diz ser alvo de 'intrigas' por parte de Lula
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FELIPE SELIGMAN
DE BRASÍLIA
Atualizado às 19h19.
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes afirmou nesta terça-feira que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seria a "central de divulgação" de intrigas contra ele e que a tentativa de envolver seu nome no esquema do empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, tem como objetivo "constranger o tribunal" para "melar o julgamento do mensalão".
"O objetivo [de ligar seu nome ao de Cachoeira] era melar o julgamento do mensalão. Dizer que o Judiciário está envolvido em uma rede de corrupção. Era isso. Tentaram fazer isso com o Gurgel e estão tentando fazer isso agora", afirmou o ministro, fazendo referência às críticas recebidas pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, por ter segurado investigação, em 2009, sobre a relação entre Cachoeira e o senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO).
Mendes diz que, durante um encontro com Lula no escritório do advogado Nelson Jobim, o ex-presidente teria insistido em argumentar que o mensalão não deveria acontecer neste ano. Após ouvir do ministro do Supremo que o julgamento deve, de fato, ser realizado em breve, Lula teria então começado a fazer ilações sobre a possibilidade de Mendes ser investigado na CPI do Cachoeira.
A assessoria de Lula afirma que ele não vai comentar as declarações de Mendes feitas hoje. Ontem, o ex-presidente divulgou nota dizendo estar "indignado" com a versão, que foi relatada pela revista "Veja" e não é corroborada por Jobim.
Nesta terça-feira, Gilmar Mendes diz que desde sempre defendeu a realização do julgamento do mensalão ainda este semestre. "Não era para efeito de condenação. Todos vocês conhecem as minhas posições em matéria penal. Eu tenho combatido aqui o populismo judicial e o populismo penal".
Daniel Marenco/Marcelo Camargo/Folhapress
O ministro Gilmar Mendes (dir.), do Supremo, acusa Lula de comandar 'central de divulgação' de intrigas
"Mas por que eu defendo o julgamento? Porque nós vamos ficar desmoralizados se não o fizermos. Vão sair dois experientes juízes, que participaram do julgamento anterior, virão dois novos, que virão contaminados por uma onda de suspicácia. Por isso, o tribunal tem que julgar neste semestre e por isso essa pressão para que o tribunal não julgue", completou.
Visivelmente irritado e com o tom de voz alterado, Mendes diz que foi alvo de "gângsteres", "chantagistas" e "bandidos", que estavam "vazando" informações sobre um encontro que teve com Demóstenes, em Berlim, e que a viagem teria acontecido após Cachoeira disponibilizar um avião ao senador.
"Não viajei em jatinho coisa nenhuma. Vamos parar com fofoca. A gente está lidando com gângsters. Vamos deixar claro: estamos lidando com bandidos que ficam plantando essas informações", disse o ministro, que apresentou notas e cópias de suas passagens aéreas emitidas na TAM pelo Supremo Tribunal Federal.
Questionado se o ex-presidente Lula estaria entre os tais bandidos e gângsters, Mendes apenas respondeu que ele está "sobreonerado" com a tarefa de adiar o julgamento do mensalão. "Estão exigindo dele uma tarefa de Sísifo [trabalho que se renova incessantemente]", disse. Ele não disse quem seriam "eles" a exigir a tarefa.
Mendes afirmou ter dito a Lula que vai a Berlim como o ex-presidente vai a São Bernardo, que frequenta a cidade europeia desde 1979 e que possui atualmente uma filha que vive lá.
Segundo o ministro, ele não precisa de "fundo sindical, nem dinheiro de empresa" para viajar. Mendes citou que apenas um livro seu, o "Curso de Direito Constitucional", vendeu mais de 80 mil cópias desde 2007 e que com o dinheiro poderia dar "algumas voltas ao mundo".
"Vamos parar de futrica. Não preciso ficar extorquindo van para obter dinheiro. O que é isso. Um pouco mais de respeito", afirmou.
O ministro, então, relatou que entre 2010 e 2011 viajou duas vezes para Goiânia em aviões cedidos por Demóstenes Torres, mas que tais fatos são públicos. Segundo Gilmar Mendes, mesmo se, na ocasião de Berlim, o senador goiano tivesse oferecido uma carona, isso não seria um problema.
"Eu poderia aceitar tranquilamente. Estava me relacionando com o senador que tinha o mais alto conceito na República. Até pouco tempo nós discutíamos com ele todos os projetos".


FONTE:   FOLHA. Com



Pronunciamento do Senador Álvaro Dias no Congresso, Sobre a Gravíssima Tentativa de Desestabilização do STF às Vésperas do Julgamento do Mensalão



17 maio 2012

O Magnetismo das Catedrais e dos Cinemas de Outrora





 Joseph Campbell, em “O Poder do Mito”, faz uma alusão emblemática ao Templo, como lugar sagrado onde revivescências ou experiências primitivas são revisitadas. Chegou assim a dizer: “Um Templo é uma paisagem da alma. Ao entrar numa catedral, você penetra num mundo de imagens espirituais. A mensagem das cavernas (entre o tempo e os poderes eternos) de algum modo deve ser experimentada ali”. 
Como adentrar a uma Catedral, observar atentamente e em silêncio suas bem talhadas colunas, suas abóbadas com pinturas a exalar mistérios, seus vitrais multicoloridos, e não sentir nada?

Não sei, mas esse sentimento que Boff denominou “oceânico” me invadia o peito sempre que adentrava o espaço sagrado das salas de cinemas da velha Cinelândia – Rio de Janeiro, nos idos de 1972. Cada sala, com sua peculiar arquitetura, devassavam o meu velho porão de afetos, de um modo particular. O cinéfilo sabe muito bem o “por quê” de se chegar minutos antes do início da sessão de um filme.

O cinéfilo dos tempos do rádio e da vitrola apreende, mas não sabe transpor em palavras a aura que o envolvia quando diante de luzes acesas das naves dos antigos cinemas deleitava-se com a formosura dos traçados bem trabalhados das paredes interiores, com a sensacional cortina escarlate sanfonada e seus contornos de reluzentes cordões na cor amarelo-ouro a desenhar um intricado das mais variadas formas geométricas. Diria Campbell que, o nobre sentimento de se religar a algo que perdemos na nossa origem ― o “Eterno Retorno” nietzschiano ― estaria, tanto no espaço sagrado das catedrais quanto no espaço mágico de uma sala de cinema.

Há quem não suporte assistir filmes numa telinha de LCD, em casa. Para esses, e aí eu me incluo, o barulho dos automóveis na rua, o murmúrio das pessoas por perto, o toque do celular e outros ruídos, impedem que se perceba o magnetismo que o “sagrado” espaço das antigas salas de cinema nos oferecia. O interior da Catedral, e a sala de Cinema exerciam fascínio idêntico sobre o homem. O expectador em sua poltrona na sala de cinema alimenta-se subjetivamente dos mesmos ingredientes. Ali, na sala de cinema, o silêncio, a escuridão que lembra o útero materno, o quadrado mágico das quatro paredes suntuosas funcionam como um espelho, a refletir o escondido e o recalcado que há no homem.

Jean−Louis Baudry, em sua obra, “O Aparelho”, vê semelhanças entre o mito da Caverna de Platão e a projeção cinematográfica.

“O cinema, para Baudry, constitui a realização material aproximada de um objetivo inconsciente, talvez, inerente a psique humana: o desejo regressivo de retornar a um estágio anterior de desenvolvimento, um estado de relativo narcisismo no qual o desejo podia ser satisfeito por uma realidade simulada e envolvente... [...].” ―  diz Roberto Stam, em seu livro “Introdução a Teoria do Cinema” (página 186 – Editora Papirus).

Em uma anônima poltrona da sala de cinema é que o expectador se transforma em protagonista. Ali, cada um, reage e raciocina de acordo com sua estrutura temperamental. Uns sob o impacto da emoção chegam até desmaiar, outros dão vazão a seus instintos de anarquistas, outros descarregam sobre os personagens da tela, sua carga de recalques e, aparentemente, saem da sala aliviados, até o próximo filme; ou como um crente, até o próximo culto.

O olhar dos críticos de cinema, hoje, talvez não seja o mesmo do anônimo solitário que em sua poltrona, outrora, interagia com a história filmada.

Há casos inesquecíveis, como o clássico “Memórias” de Woody Allen, que tanta celeuma provocou no meio acadêmico do cinema: o seu autor, na época, foi condenado como “rancoroso” e “mesquinho” porque o filme irônico, de forma sarcástica, atacava indiretamente os próprios críticos cinematográficos.

Alguns filmes geram prazer, enquanto outros geram desprazer (subtendendo-se aqui, o gozo masoquista). A sala de cinema (não sei hoje, mas ontem), representava o espaço onde, por alguns minutos, se rompia com a solidão existencial. Agradava-me os filmes de terror, que tanto atraíam a meninada do meu tempo, o expectador tomava o lugar da vítima ou do monstro, num processo de identificação em que sentíamos medo, mas de forma que não temíamos a nossa própria segurança.

Infelizmente, a pós-modernidade esterilizante dos sentimentos, tem mostrado o seu lado negativo, vinculado mais a princípios mecânicos. O vertiginoso avanço tecnológico que fez criar novas necessidades a serem satisfeitas pelo homem, roubou-lhe o pouco tempo que tinha para dar ouvido aos reclames da alma, deixando como única opção, para ser visto como ser da era cibernética, a rendição aos ditames midiáticos que preconiza: “viva em conformidade com o “status” de uma civilização cada vez mais utilitarista, e o resto é besteira”.

 P.S.:

Sou um velho anacrônico, em cujo peito moram ressonâncias saudosas dos espaços místicos-sagrados-mágicos dos antigos cinemas, como o Rex e o Plaza em João Pessoa – Pb; o Odeon, o Palácio, o Metro-BoaVista, o Pathé e o Império, na velha Cinelândia do Rio de Janeiro da década de 1970.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 17 de maio de 2012

 Imagem 1:  Foto do Cine Odeon – Cinelândia - Rio de Janeiro
 Imagem 2:  Nave da Catedral de Granada                    

12 maio 2012

A CASA VAZIA, Ou “Eu Acho Que Vim Cedo Demais”





A casa que me viu de calças curtas com uma pelota de borracha à tiracolo, caminhando pela rua de barro batido, a fim de jogar as “peladas” que sempre aconteciam ao entardecer, está vazia. A sala está vazia de gente e do som, vazia das modinhas que durante todos os dias ouvia pelo rádio da marca “Pyonner”.

A cadeira-poltrona de balanço toda em madeira de lei já não mais existe. Nela, balançando-me para lá e para cá, embalava os meus pensamentos e sonhos de 50 anos atrás, ouvindo os famosos cartões sonoros em que os ouvintes das emissoras de rádio pediam velhas canções de Núbia Lafayette, Maysa, Altemar Dutra, Anísio Silva, Orlando Dias e Nelson Gonçalves, entre outros.

Mês de maio, mês das mães, lembro-me bem, os meus ouvidos eram encharcados pela dolente música dedicada as mães, na voz de Ângela Maria, que falava de um “avental todo sujo de ovo”.

Muitos acontecimentos fantásticos daquele pedaço de tempo esquecido, hoje, afloram a minha cabeça. A casa que aos domingos se enchia de odores vindo da cozinha onde as inseparáveis Bazinha e Bia pilotavam com esmero e carinho, caçarolas cheias de iguarias em um fogão de quatro bocas, deu lugar ao silêncio. Silêncio tamanho que, da sala, permite ouvir o rumor dos ventos a roçar as folhas de uma velha goiabeira lá no fundo do quintal.

Visitei a casa vazia, faz quinze dias. Apesar de estar fechada, sem a presença de sua dona, senti no ar, ainda o suave perfume de antigamente exalando dos móveis e das toalhas antigas estendidas sobre a mesa, alinhadas em curvaturas impensáveis de tão perfeitas, ansiando tocar macias nossos rostos... ―, farrapos de lembranças que evocam o repasto farto em que eu e a minha faminta família devorávamos com apetite incomum:  as saborosas galinhas caipiras, e as inigualáveis pamonhas e canjicas de milho verde, com uma condescendente alegria para com a mãe de todos que se encontrava ali. Bazinha, a grande matriarca, alimentava-se mais dos desejos dos filhos que se postavam à mesa do que dos sabores e eflúvios exalantes dos alimentos que com ardor incomum preparava, numa espécie de prazer antropofágico e estranho, a devorar os próprios filhos...

Nos domingos que a visitávamos, os colóquios se estendiam até noite alta, quando, como crianças sapecas em algazarra, éramos postos a correr contrariados da casa: “Vão todos para suas casas, já é muito tarde. Já se divertiram muito” ― gritava, Bazinha, cerrando portas e janelas que rangiam seus queixumes a nos despedir para fora de suas entranhas. No entanto, com a teima das picardias infantes, demorávamos na calçada da casa, a expandir as últimas tagarelas e surdas gargalhadas sob lufadas de um vento noturno mais ameno.

Com o olhar vago para uma bucólica praça da cidadezinha de nome peculiarmente indígena, Cuitegia velha Bazinha, aos 86 anos de idade, hoje, mora com a filha. Está agora sob o cuidado dos filhos, mas longe da casa vazia que não lhe sai da cabeça.

Semanalmente, filhos, genros e noras a visitam no seu novo ninho. Com a saúde muito abalada, vive passivamente e meio tristonha olhando o tempo passar pela janela. Já não podendo mais nos servir como antes o fazia, apenas dirige-nos seu olhar de desassossego, o qual vem sempre acompanhado da já gasta frase: “É, eu acho que vim cedo demais”.

Quem, como eu, viveu sua meninice e juventude na casa n° 1242 da rua João Pessoa – Alagoa Grandenão pode deixar de sentir um frio nas vértebras, quando adentra a casa que um dia foi tão cheia de alegria e de histórias, e hoje, se encontra como um patrimônio desolado, sem seus antigos inquilinos.
Amanhã é o primeiro domingo, dia das mães, em que na casa vazia de emoções não haverá regozijo nem vozes apaixonadas a dialogar e a contar suas peripécias; não se terá aquele clima de inflamadas discussões familiares.

O tempo passa e, com sua cortina de espessa fumaça, dissipa tudo, menos o sentimento nostálgico que em momentos como estes á maneira de um forte vendaval desarma-nos, fazendo investir em nosso peito toda sua força descomunal.


Feliz dia das Mães


Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de maio de 2012


FOTO: O Editor do blog com a esposa, a Nora, e a Mãe  (Bazinha) com a  primeira neta nos braços

07 maio 2012

Os Estudiosos da Religião Segundo PONDÉ




Luiz Felipe Pondé ― filósofo, professor de ciências da religião e polêmico ensaísta da Folha de São Paulo ―, em um artigo publicado no dia 30 de fevereiro deste ano (Por Que Estudar Religião?) faz uma ácida pergunta, para logo em seguida elencar uma série de hipóteses em que o estudioso e amante da religião poderia se enquadrar. Diz ele:

Você estuda religião? Aposto que, se sua resposta for SIM, a causa é uma das hipóteses abaixo. ‘Somos previsíveis como ratos de laboratório’

Ele, depois de uma série de considerações, em que divaga sobre preconceito, neutralidade, fé religiosa e ciência, elenca as suas hipotéticas situações, no intuito de que o leitor, estudioso da religião, faça a sua opção sobre o "por quê" de escolher esse campo do saber. Ri de mim mesmo, ao procurar o item (ou itens) em que melhor me enquadraria.

Proponho as seguintes hipóteses, diz ele:

1. Pessoas buscam a universidade ou instituições afins para estudar religião porque têm inquietações "espirituais", mas se acham "cultas e bem (in)formadas" e estão um tanto de saco cheio das "igrejas" (no sentido de religiões institucionais) que existem no mercado. Ou mesmo porque sentem vergonha de serem religiosas "oficialmente" e, por isso, preferem estudar religião a praticar religião.

2. Porque odeiam religião por conta de traumas infantis familiares ou escolares ou por algum grande sofrimento que gerou algum tipo de "revolta contra Deus". Normalmente essas pessoas querem acabar com a religião.

3. Razões ideológicas: religião aliena (marxistas), oprime mulheres e gays, condena o sexo. Ou seja: querem um mundo sem religião ou com religiões simpáticas a suas ideologias.

4. Para abrir uma igreja, ganhar dinheiro ou poder político.

5. Para tornar sua vivência religiosa mais "culta e bem informada" e "modernizar" sua vida religiosa cotidiana, como em questões relacionadas à ciência ou à ética.

6. Por diletantismo sofisticado movido por inquietações existenciais e/ou filosóficas.

7. Porque pertenceram ao clero de alguma religião e só sabem ganhar a vida com temas relacionados à religião.

8. Para usar o conhecimento em recursos humanos nas empresas.

9. Geopolítica internacional: fundamentalismos, multiculturalismos, comércio exterior.

10. Porque é professor e o ensino religioso é um mercado em expansão, além de que, se for egresso de classes sociais inferiores (o que é muito comum), títulos acadêmicos costumam ser uma ferramenta razoável de status e aumento na renda.

Resumo da ópera: dinheiro, status, angústia existencial, fé, política, opção profissional à mão ou simplesmente falta de opção.


NOTA:  Bem, como o acintoso Pondé não é tão onisciente assim, o leitor tem toda liberdade de discordar de suas hipotéticas situações acima citadas,  acrescentando  a sua opinião a respeito.


Site da Foto: tudoeespanto.blogspot.com


Guarabira, 07 de maio de 2012

02 maio 2012

O “Politicamente (in)Correto” Sobre Religião





Vivemos, como nunca, a época do “politicamente correto”, que como uma onda varre a cultura do nosso país de ponta a ponta. O “politicamente correto” aparece transvestido de guardião da justiça e salvador do mundo, a bradar aos quatro cantos que se tem que premiar aqueles que tiveram seus direitos historicamente desrespeitados, esmerando-se por criar fórmulas as mais bizarras em benefício de uma sociedade mais justa e igualitária.

Comecei a leitura do mais recente livro de Luis Pondé (*) ― “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” (lançado essa semana pela editora LeYa) ― com seus 26 ensaios densos e até certo ponto  ácidos, mas necessário para compreender o “status” em que estamos inseridos.  O autor, logo na contracapa do livro diz bem a que veio, com sua língua ferina.

 Escreveu ele:

“Este não é um livro de história da Filosofia, mas sim um ensaio de filosofia do cotidiano, mais especificamente um ensaio  de ironia filosófica, movido por uma intenção específica: ser desagradável para um tipo específico de pessoa ― você ou alguém que você conhece.”

Dentre os seus humorados ensaios, um me chamou a atenção, talvez por falar de um tema tão cantado e decantado nos blogues: a Religião.

O titulo do ensaio é “Fundamentalismo e Budismo Light”, do qual passo a reproduzir alguns trechos emblemáticos nesta sala, com os devidos créditos ao autor e a editora:

“Deus deve estar profundamente deprimido com o mercado religioso. E não só ele, mas também Buda e similares.
Falar mal do cristianismo e do judaísmo é esperado numa pessoa politicamente correta, porque essas religiões são “opressoras”, além, é claro, de ser provavelmente a religião dos pais deles, e por isso eles querem ser “críticos”. Desconfio muito de gente “crítica”. Normalmente as pessoas “críticas” posam para seus amigos “menos cultos” sua parca inteligência feita de generalidades. O maior inimigo de Deus são seus crentes fervorosos. Como dizia o filósofo alemão Heine no século 19: ‘Só se é traído pelos seus’. Refiro-me aos novos fundamentalistas, dos pentecostais que incorporam o Espírito Santo na periferia das grandes cidades do Brasil e do mundo, aos muçulmanos chatos que querem matar todo mundo toda hora [...]. [...] Grande parte dos muçulmanos não é gente que acredita em paz, amor e diferenças, ao contrário do que os intelectuais mal informados pensam. Costumo dizer que a náusea que esse tipo de crente me causa poderia fazer de mim um ATEU mais facilmente do que os ATEUS que se julgam brilhantes porque são ATEUS. Até golfinhos conseguem ser ateus, porque o ateísmo é a visão de mundo mais fácil de ter: ‘a vida é fruto do acaso, e não tem sentido além dos pequenos sentidos que “inventamos”[...].

Aqui, o autor abre um parêntese para umas palavrinhas sobre os fundamentalistas islâmicos:

“Recentemente (em 2011) o mundo árabe passou pelo que os cheerleaders da esquerda (os intelectuais que babam em cima de tudo que lhes parece anti-americano) gostam de chamar Primavera Árabe’. Elas, as cheerleaders, não conhecem muito bem o mundo árabe (aliás não conhecem nada muito bem, porque normalmente não leem muito nem gostam de estudar, por isso no tempo da faculdade ficavam no centro acadêmico sonhando com Cuba) e logo pensaram que lá estavam estudantes franceses dizendo que é ‘proibido proibir’, como na revolução francesa de 1968.
O primeiro país da primavera árabe foi a Tunísia, e ela foi a primeira a fazer uma ‘eleição democrática’ por votos, mas indícios claros foram dados de que o Corão seriam referências importantes mesmo na Tunísia. O partido vitorioso foi um dos Islâmicos [...].  [...] O mesmo quadro se revelou no Egito, que chegou a eleições um pouco depois e também deu vitória a dos partidos islâmicos [...]

O autor, agora aproveita os ventos de liberdade recente do mundo árabe, para voltar a nossa República:

“O que você acharia se no Brasil o governo dissesse que a partir de hoje todas as leis levariam em conta o Velho Testamento? Mas o ponto aqui é que aqueles mesmos que criticam a proibição do aborto no Brasil, por exemplo, por ser coisa de ‘católico’, não criticariam abertamente a Tunísia ou o Egito por assumirem o Corão como limite de toda lei e de ter um partido islâmico no poder. E por quê? Porque é politicamente incorreto criticar o Islamismo[...]. [...] Elites se modernizaram deixando o ‘povo’ à margem, com fome e ignorância. O resultado é que neles (os revolucionários)   a religião (cultura) não deixou de ser referência prática cotidiana. É fácil de ver isso nas imagens da ‘Primavera Árabe’ de 2011, quando os ‘revolucionários da liberdade’ paravam em meio a tudo para bater cabeça em direção a Meca”.

Umas alfinetadas de Felipe Pondé sobre o que ele comumente denomina  turma do budismo light:

“Esse tipo de Budismo que se relaciona com a Nova Era (salada de conceitos religiosos de várias tradições mal cozidos, para consumo da classe média semiletrada e com alta opinião sobre si mesma), é normalmente típico de gente bem egoísta e dissimulada. Dizer que se é budista (ninguém deixa de ser católico ou judeu e vira budista em três semanas num workshop em Angra dos Reis ou num centro budista nas Perdizes em São Paulo), pega bem em jantares inteligentes, porque dá a entender que você não é um materialista grosseiro, mas sim um espiritualista sustentável. Basicamente uma religião sustentável não precisa sustentar nada a não ser uma dieta balanceada, uma bike importada e duas ou três latas de lixo de design em casa, para reciclagem do lixo. Esse ‘budista’, normalmente é gente com grana, preguiçosa, que nunca quis arrumar quarto quando era adolescente e, com o budismo light, descobriu que esse é um direito dela, porque no budismo não existe pecado, logo você pode ser preguiçoso com bênçãos cósmicas”.

Nos ensaios de Luiz Felipe Pondé misturam-se, literatura, mística, psicanálise, teologia e filosofia. Há exageros por parte do escritor?
 SIM, há. Mas o que não podemos negar é que através de sua faca cortante na dissecação da VACUIDADE humana, enxergamos mais o nu e o cru do humanismo ridículo e do niilismo revolucionário do “Politicamente Correto” de nossa cultura.


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(*) Luiz Felipe Pondé, é doutor em Filosofia pela USP/Universidade de Paris. Pós doutor pela Universidade de Tel Aviv ― Israel. Professor da PUC e colunista da Folha de São Paulo.
Além de acompanhar os seus artigos semanais na Folha, dele, já li, “Contra Um Mundo Melhor” – editora LeYa,  “Catolicismo Hoje” ― Editora Benvirá, além do recente livro que deu origem a esta postagem: “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” 



Guarabira, 02 de maio de 2011