29 julho 2012

O Mensalão em Charges de Chico Caruso





Francisco Paulo Hespanha Caruso, o popular Chico Caruso, nascido em 1949 na cidade de São Paulo, é cartunista, chargista e caricaturista de mão cheia. Desde os idos de 1960 vem produzindo seus humorados desenhos, retratos do cotidiano da vida política brasileira. Em sua trajetória já passou por diversos periódicos nacionais, como: Folha da Tarde, Opinião, Movimento, Gazeta Mercantil, Isto É, Veja, Jornal do Brasil e O Globo do Rio. Nesse último periódico, em sua primeira capa vem, nos últimos anos, publicando suas sensacionais e risíveis charges.

Como todos sabem, na próxima quinta feira (02 de agosto) se inicia o que a imprensa considera  o  "Julgamento do Século" ―, o Mensalão

O Jornal O Globo desse domingo (29 de julho), resolveu, às vésperas do julgamento dos mensaleiros pelo STF, escolher, entre muitas, 21 charges publicadas por Chico de 2005 até o presente, no intuito de relembrar cenas da política brasileira do governo petista, repercutidas na imprensa como o esquema de corrupção jamais visto na história recente do país. 


Para reavivar a nossa memória, não custa nada expor o que disse o presidente Lula em rede nacional de televisão em meados de agosto de 2005: "Eu me sinto traído por práticas inaceitáveis. Indignado pelas revelações que chocam o país, e sobre as quais eu não tinha nenhum conhecimento. Não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos de pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas!".


Replico aqui algumas das 21 charges que foram, em primeira mão, publicadas no blog do Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo:



08 de junho de 2005: - É tudo invenção - diz Delúbio. - Ah bom! -  replicou Lula



24 de outubro de 2006



16 de março de 2006: O publicitário é um túmulo



Novembro de 2006



22 de dezembro de 2011



2012


Guarabira, 29 de julho de 2012

20 julho 2012

PELADA DE RUA (Memórias)





     Quase todo o fim de tarde, a meninada juntava-se em frente a minha casa, um “bangalô” antigo da rua Treze de Maio em Alagoa Grande – Pb,  para as irrecusáveis peladas.

Quem vai, quem vai jogar pelada hoje?  Quem vai? ― Gritavam os peladeiros.

  O campo de jogo era a nossa própria rua, de chão de barro batido, cheio de pedregulhos, que vez ou outra arrancava unhas e pedaços de “couros” de nossos pés ao chutarmos a bola de mau jeito. No final dessa rua, descambando para a Lagoa, ficava a padaria de seu Abdias, onde sempre àquela hora, exalava um cheiro de pão assando, que nos estimulava o olfato.

  Na parte intermediária da rua, ficava a “venda” de seu João Batista, e no outro extremo a venda de seu Zé Rufino. Seu João era um homem bruto e muito rigoroso que sempre implicava com a gente quando conseguíamos convencer os seus filhos - Tota e Pedro Buchudo, a completar o time pela ausência dos titulares. Estes, eram grossos, e faziam muitas faltas com os seus pesões de número quarenta e dois.

  Dois tijolos, distante um do outro cerca de dois metros formavam as traves. Vez ou outra, quando faltavam goleiros, diminuíamos a distância para mais ou menos oitenta centímetros – era  a  “barra oca”. Os capitães, que tiravam a sorte no par ou ímpar para a escolha dos jogadores, eram Eu e Milton de Tia Olívia. Assim eram formadas as equipes com quatro ou cinco para cada lado. Lembro-me bem de alguns astros de pelada, como: Luiz de Mila, Galego de Seu Tininho, Adolfo de Dona Nevinha, Cristóvão do Zumbi, Antonio da Burra, Novinho, e meu irmão Davi apelidado de Galo de Raça por Tia Olívia, devido as suas constantes brigas com o seu filho Milton. É que este último saía sempre com os olhos marejados de lágrimas para casa, abandonando a pelada devido à grossura de Davi, no trato da bola. Era quando a minha Tia aparecia à janela de sua casa, que ficava a dois metros da lateral do campo, gritando:  
                                                                                                                 
──   Vem galo de raça.... Vem p’ra aqui, p’ra ver se tu não toma o bonde errado. Eu não sou como tua mãe não. Eu não aliso, “branco sarará”!   Tu sabe bem como eu sou!   
                                                                                                   
Davi respondia fazendo gestos provocantes, arremedos e caretas. Não levava desaforo para casa. Rara era a pelada que não terminava em briga e palavrões sempre envolvendo o Milton, que tinha o “pavio curto”. Galego, o menor de todos e o mais tímido (talvez por isso, era sempre escolhido para goleiro), ao levar o primeiro, o segundo e o terceiro gols, era expulso de campo pelo capitão Milton com intenso bombardeio de palavras de baixo calão: 
        
  Tira esta rapariga da trave, essa puta veia não pega nada! “Pia” mesmo, uma bola desta, bem fraquinha, o infeliz deixa passar. Frangueiro, frangueiro! ― Deixa a barra ôca  mesmo − completava, vermelho de raiva.

Sempre que o Galego engolia frangos, eu e meus companheiros de time tentávamos contornar a briga, implorando ao Milton para que fosse mais condescendente com o goleiro. Argumentávamos assim: “Olha rapaz, não foi culpa do Galego. Não deixaram ninguém lá atrás para marcar. Olha, que a gente não joga desse jeito. A bola vai de pé em pé, não somos fominha quanto vocês”. 

       Lá vai o Milton marcar o Davi, que mais franzino e mais rápido não driblava, mas ficava ciscando com a bola entre as pernas, terminando sempre por levar uma rasteira. Sempre que ele derrubava um adversário, uma onda de gritos de gritos surgia: “foi falta..., foi falta.! Pára...., pára!”. Era quando Milton, a sua maneira, replicava furiosamente:      
                                                                                                                                    
     ― Falta não! Não aceito! Esse “bosta” aqui, só porque o time dele está ganhando, quer segurar a bola sem sair do canto. Não quer jogar, dá lugar a outro. E assim, terminava mais uma dramática partida de fim de tarde.

            Em outros momentos éramos muito solidários , quando após um daqueles tortos chutões, a bola entrava pelas janelas das casas, quebrando alguns utensílios, fugíamos juntos em poucos segundos, ficando a rua deserta.

 Em uma dessas ocasiões, após um “bicudo”, a bola entrou pela janela da casa da beata Dona Santa, quebrando o seu quadro do Coração de Jesus, que estava pregado em local bem visível na parede da sala. Ainda guardo na memória a nossa carreira desabalada, e a rapidez com que nos escondemos, sob uma saraivada de lamentos, e “pragas” impublicáveis. Encolhidos, atrás de um muro cheio de trepadeiras, de longe, ficamos a ouvir os gritos da devota, totalmente fora de si:

        Ave meu Senhor do Bonfim, quebraram o meu Coração de Jesus! E agora que vou fazer?  Na certa, foram aqueles molestados jogando bola!

Por uma brecha da parede, podíamos ver a velha de óculos na ponta do nariz, saindo para a calçada, caminhado na rua de um lado para outro, praguejando:

          Eles vão me pagar, nem que seja nos quintos do inferno!  

     Esse grave incidente foi o bastante para encerrar de forma triste mais uma pelada. Nesse dia Dona Santa junto com suas amigas que lhe foram prestar solidariedade saíram para se queixar das mães dos jogadores. Lembro que, Davi (meu irmão) e Eu, apanhamos “surras”, com “peia” de dar em jumento. Depois da sova veio a sentença: uma semana sem jogar bola.

      Como éramos fanáticos por bola, esquecíamos rápido, a surra da véspera. Tanto é, que no dia seguinte já estávamos de novo em outra rua jogando pelada. Noutra ocasião, fomos mais felizes com o incidente: a bola, mal chutada, entrou por uma das seis portas da “venda” de Seu José Rufino. Sob intensa correria, ouvíamos só o tilintar de vidros estilhaçados pela pelota. Achávamos o José Rufino um cara muito legal, pois não nos prejudicava, nem reclamava os malfeitos às nossas mães.

    Certa vez, perguntamos a Laerte um dos filhos de Seu José que algumas vezes jogava conosco  —, sobre os objetos quebrados pela pelota na venda de seu pai, naquele dia fatídico A sua reposta nos deu um enorme alívio: Naquele dia, vocês quebraram uns “cascos” de refrigerantes (guaraná Dore, Sanhauá, Crush e Grapette), que por não valerem quase nada, papai nem chegou a se ligar.

    Depois soubemos que Zé Rufino era doido por futebol. Não perdia um jogo do seu time, o Tabajaras Futebol Clube, nas tardes de domingo. Enfim, tínhamos encontrado a razão pela qual ele não reclamava das bolas que involuntariamente eram disparadas contra sua mercearia. Já com as donas de casa, a conversa era outra: com facas bem amoladas e com ar zombeteiro, cortavam a bola em duas metades, jogando-as bem no nosso nariz.  O careca Zé Rufino não tinha este descabimento. Gostando de futebol como ele, seria um enorme pecado não devolver a pelota intacta, mesmo quando a danada se encontrava suja de lama do esgoto da rua, que descia beirando as calçadas. Só penso que o danado do Zé, era bondoso conosco, porque em sua imaginação, devia ver nos peladeiros de rua, os futuros craques do seu idolatrado Tabajara. E não é que um dos seus filhos, o Carlinhos, veio a ser, anos depois, um dos mais afamados atacantes do seu Time de coração , safra das nossas tão saudosas peladas?!


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de fevereiro de 2006


Site da Imagem: reblogando.com

13 julho 2012

Nossa Vida é Uma “Sonata”




Em uma entrevista o Alemão, Fritz Buchtger (1903 – 1978), afirmou: “Eu acho que a música é o reflexo de um mundo interior de essência espiritual, no qual cada pessoa vive nas profundezas do seu inconsciente. O inconsciente, mansão de muitas moradas, não é uma única sinfonia. É antes, um tocador de CDs os mais variados. Muitos são tristes, como a sonata ‘Marcha Fúnebre’ de Chopin”.

Mas o que tem a ver uma sonata de Chopin, de Beethoven ou de Mozart, com o nosso mundo psíquico?

Os estudiosos já chegaram a uma conclusão inequívoca: existe uma relação íntima entre os afetos humanos e a música.

Alain Didier, psiquiatra e amigo de Lacan, disse: “Diremos, por hora, que o impacto da música não é rememorar, e sim comemorar o tempo mítico desse começo absoluto pelo qual um ‘real’, tendo se submetido ao significante, adveio como essa primeira coisa humana, no nível da qual, aquilo que era absolutamente exterior ― a música da voz materna ― encontrou o lugar onde as notas poderão dançar.”

Quem poderá negar o óbvio, de que em nossa vida de adulto estão a reverberar ou se repetir movimentos relacionados a fatos de um tempo que se encontra insepulto na aurora do nosso entendimento, que apesar de não termos dele lembrança, o sentimos lá no nosso mais íntimo recanto?

A sonata é tão demasiadamente humana, que os movimentos registrados em sua partitura são expressos por signos que revelam a intensidade dos afetos humanos. Entre outros, citemos: andante (como o andar humano); allegro (alegre e ligeiro); adágio (terno e patético); allegro ma non tropo (alegre, mas não muito); presto (veloz e animado); grave (divagar e solene); mesto (triste).

Na consecução dessa sublime música, o compositor cria variações ou movimentos sinfônicos, em tudo, idênticos ao desenrolar de nossa vida afetiva. Geralmente, os temas que aparecem no seu começo são repetidos no final. É como se a música estivesse a nos dizer: “Eu sou o Alpha e o Ômega”.

Assim é a nossa vida: todos os temas ou movimentos de nosso relacionamento que foram gravados lá nas nossas origens, aparecem ou se repetem de forma saudosa, quando evocados no ocaso de nosso périplo por este mundo. As variações que experimentamos pela vida afora, são, na verdade, recapitulações dos nossos primeiros passos, de nossas primeiras reações ante um mundo tremendo e fascinantemente belo. Tanto em nossa vida quanto nesse tipo de execução sinfônica caminha uma coletânea de fragmentos indivisíveis e unidos, à guisa de desvelar a verdade oculta e fugidia, desafiadora das nossas convenções banais.

Os sentimentos que nos perpassam em nossos relacionamentos de adultos, em analogia ao que acontece na sonata, estão incessantemente repetindo alguns aspectos de nossa vida primitiva. Toda empatia que demonstramos em nosso meio relacional, hoje, foi pela primeira vez experimentada junto aos nossos pais, avós e mestres. Tudo que ocorre do Éden Humano para frente, não passa de variações de um tema previamente gravado.

 Na grande teia da partitura constituída pela família e a sociedade, o “modo particular de ser” de cada indivíduo, inconscientemente, é trazido para as mais diversas interações que cotidianamente fluem. E nessa interação, os reflexos de nossa história de desejos, decepções, medos e alegrias infantis se repetem e se reciclam com outras nuances ou tonalidades, como na sinfonia clássica. Então, de uma forma metafórica, podemos dizer que nossa vida é uma SONATA.

Não custa nada lembrar o que, cientificamente, já foi comprovado: a música tem o poder de equilibrar o psiquismo em níveis profundos, apaziguando os “monstros” e os “anjos” que o compõem.


P.S.:
Convido agora o caro leitor, a uma viagem interior através do relaxante tesouro melódico a sonata “Ao Luar” de Beethoven , executada pelo nosso renomado pianista, Nelson Freire:





Imagem: lord-blog.com
Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de julho de 2012

09 julho 2012

O “Habeas Pinho” de Ronaldo (In Memoriam)




Aos 76 anos de idade, faleceu anteontem (dia sete), Ronaldo Cunha Lima, natural de Guarabira - Pb. Como político, foi governador da Paraíba entre 1991 à 1994; senador da república (1995 e 2002); deputado federal (2003 e 2007). Em paralelo com a política nunca deixou de exercitar a sua verve poética, chegando a publicar cerca de quinze livros de poesias.

Em Campina Grande, cidade onde passou a maior parte de sua vida, conta-se que numa madrugada de 1955, um grupo de boêmios fazia serenata ao som plangente de um violão. Por perturbar a ordem pública, os seresteiros foram intimados a passar o restante da noite na cadeia. No dia seguinte, foram liberados, mas o pinho ficou retido.

Ronaldo, poeta e freqüentador dos bares de Campina Grande, nessa época, era um advogado em início de carreira. Os boêmios foram então lhe pedir ajuda a fim de que o Juiz da Cidade pudesse liberar o instrumento apreendido.

Usando uma fórmula, até então inédita, o poeta Campinense fez uma petição em versos ao Juiz da Comarca, solicitando a devolução do instrumento musical, no que ficou conhecido em todo o país, como o “Habeas Pinho”, que passo a reproduzir na íntegra:

Senhor Juiz Roberto Pessoa de Souza.

O instrumento do “crime” que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revolver ou pistola,
Simplesmente doutor, é um violão.

Um, violão, doutor, que em verdade
Não feriu nem matou um cidadão.
Feriu, sim, mas a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade.
O crime a ele nunca se mistura,
Entre ambos não existe afinidades.

O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida,
Que cantam mágoas que povoam a vida
E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música, e é canção,
É sentimento, é vida, é alegria,
É pureza, é néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso é transitório
Mas seu destino não, se perpetua;
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, doutor, que é suave lenitivo
Para alma da noite em solidão,
Não se adapta, jamais, em um arquivo
Sem gemer sua prima e seu bordão.

Mande entregá-lo pelo amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, doutor Juiz!
Em nome da justiça e do direito
É crime, porventura, o infeliz
Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado,
Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia,
A consciência assim nos insinua.
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite, para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos
Na certeza de seu acolhimento.
Juntada desta, aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.


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No mesmo tom poético popular do requerente, o meritíssimo despachou sua sentença:


Recebo a petição escrita em verso
E, despanchando-a sem autuação
Verbero o ato vil, rude e perverso,
Que prende no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão
Nos confins de um arquivo em sombra imerso
É desumana e vil destruição
De tudo que há belo no Universo.

Que seja o sol, ainda que a desoras,
E volte à rua, em vida, transviada,
Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,
Noite de lua, plena madrugada,
Venha tocar à porta do Juiz.




Guarabira, 09 de julho de 2012

Site da imagem: marciomelo.com