31 outubro 2012

...PORQUE HOJE É DIA DE DRUMMOND




Hoje é dia de Drummond de Andrade (nascido em 31 de outubro de 1902).
Como homenagem justa, nada melhor que trazer a atriz Fernanda Torres para declamar uma das maravilhosas poesias desse fenomenal poeta mineiro de Itabira que tanto encantou e ainda encanta o Brasil: “Necrológio dos Desiludidos do Amor”




NECROLÓGIO DOS
DESILUDIDOS DO AMOR


Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Visceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia…

Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.

Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
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 Guarabira, 31 de outubro de 2012


Site da Imagem: erudicao.wordpress.com

25 outubro 2012

O Retrato e Seu Negativo



Era assim no tempo de minha meninice: quando necessitávamos de fotos três por quatro para serem postas em documentos, recorríamos aos fotógrafos das praças da cidade, conhecidos vulgarmente como “os lambe-lambes”.

As máquinas fotográficas eram enormes caixotes artesanais sustentados por um tripé, tendo, em uma de suas extremidades, uma espécie de pano vermelho semelhante a um fole de sanfona por onde o fotógrafo enfiava a cabeça para captar a nossa imagem.

 Após o filme ser mergulhado em produtos químicos, como o nitrato de prata, obtinha-se a imagem em negativo em que aparecíamos irreconhecíveis como fantasmas. Mais tarde (cerca de uma ou duas horas) os filmes eram enfim passados para um brilhoso papel-cartolina — com a nossa imagem real em preto e branco.

 Os negativos das fotos nos eram entregues junto com o seu positivo (os retratos). Nunca usávamos os negativos (o não revelado) das fotos, com nossas faces monstruosamente feias, para confeccionar novas fotos. Mas não sei por que teimávamos em guardá-los.

 A história do negativo e do positivo da foto me fez viajar.  Olhando bem, nós — os humanos — temos dois corpos: um para ser mostrado — o público, e outro, que guardamos só para nós — o privado. Um corpo “revelado” que, cotidianamente exibimos às pessoas do nosso convívio, e outro horroroso e “particular”, escondido num baú velho de nossa psique.

Assim como antigamente, ainda vestimos a nossa melhor roupa a fim de posar para as fotos. Hoje, quase não percebemos, mas o negativo das fotos que tiramos, com seu aspecto fantasmagórico, fica retido ou escondido em algum recato de nossa mente, a rir da nossa representação; a rir da nossa indumentária perfeccionista no positivo da foto.

Às vezes, os espectros ou “sombras” dos negativos guardados se movem querendo ganhar poder. É perigoso deixá-las se expandirem. Jogá-las fora, não seria a solução, pois incorreríamos na perturbação do eco-sistema que nos dá equilíbrio e nos mantém de pé. Por mais que desejemos escondê-las, como fazemos com o nosso “nu”, continuarão a existir, cobertas pela roupagem social.

Quem sabe se o “mal estar” da pós-modernidade não seja fruto de ressonâncias de algo negativo por nós guardado que, como um corpo privado, se agita por trás do positivo tão cuidadosamente vestido?

Verdade, é que nas fotos modernas, os atributos de nossas funções públicas continuam a ser mais importantes do que os traços feios de nossa porção negativa — àquela fantasmagórica que não queremos rever nem mostrar, apenas tê-las conosco. Para que torná-las públicas, se os outros não vão reconhecê-las como nossas?

Um retrato que apresenta só o positivo, aos meus olhos é coisa ruim. Não é bom esquecer de que para formatar o positivo nasceu primeiro o negativo. Talvez esteja aí a razão pela qual desconfio do sujeito que quer por que quer convencer-me de que o seu corpo que sai nas fotos é inteiramente público e privado.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 25 de outubro de 2012


20 outubro 2012

Concordar ou Não Concordar — Eis a Questão!




As comunidades virtuais que caracterizam o mundo cibernético guardam o sentimento de uma forte ligação entre seus membros. O sentimento de que têm algo em comum, se faz necessário, como condição essencial para o grupo sobreviver por muito tempo. Via de regra, o motor que mantém a durabilidade de uma confraria ou comunidade são as afinidades, alianças de pontos de vista entre seus membros contra uma minoria invasora que faz o contraponto às suas idéias.

Cada indivíduo, isso é uma realidade, tem essa tendência — a de querer controlar, impor, julgando-se portador de todo saber. Isto, inconscientemente, não deixa de lhe conferir um tipo de poder sutil que é exercido sobre o outro. Aí é onde entra o mecanismo do que é certo e do que é errado, com suas conseqüências de se ter que concordar ou não concordar com a opinião daquele que diz que deseja o melhor para o grupo.

Marcos Palácio, em seu livro “O Medo do Vazio” revela, em uma pequena e emblemática frase, o que está no centro de toda comunidade. Diz ele: “o sentimento de pertencimento é o elemento fundamental para a definição de comunidade”. Isso, não quer dizer que inexista preconceito entre os membros de uma comunidade que se dispõe a ser inclusiva.

João Baptista Cintra Ribas (antropólogo da USP), no seu ensaio, “O OLHAR”, diz algo interessante: “Quando evitamos o encontro com culturas diferentes, corremos o risco de nos aprisionar a preconceitos adquiridos na nossa. Por sermos humanos, temos preconceito (isto é, um conceito ou opinião formado antecipadamente, sem ponderação ou conhecimento dos fatos). O problema não é ter preconceito, mas aprender a lidar com ele para que não se transforme em julgamento sem levar em conta o fato que o conteste”.

Não raramente, nas comunidades virtuais, surge um membro contando de modo eufórico a sua experiência no sentido inconsciente de convencer o outro a ser um como ele. Para esse, a fé ideológica é que dar sustento a sua maneira de experenciar o mundo. Se ele percebe a sua identidade ou realidade como a única, a correta, a dos demais membros, por conseguinte é falsa. Se a experiência de um for supervalorizada pelos demais, pode se tornar um problema para o grupo comunitário, pois ela sendo abstrata e subjetiva diz mais respeito ao sujeito elaborador do discurso.

Quem não se lembra do tempo da adolescência, quando o que nos seduzia era ter uma experiência diferente, maior ou melhor que a do outro? É justamente esse anseio instintivo de competição, que reprimido ou guardado no porão do inconsciente, ainda hoje, emite suas ressonâncias dentro dos grupos ou redes sociais.

Esse jogo de campos subjetivos parece manter a chama do pré-conceito no âmago de uma comunidade, Se não vejamos:

Quanto mais as pessoas concordam, tanto mais a coesão de seu grupo pede a exclusão dos que discordam. Se concordo estou reforçando a convicção do outro. Se discordo, posso estar para meu conforto, fortalecendo as minhas próprias idéias. Se não concordo ou discordo, o outro diz que estou em cima do muro.

Como fugir do corpo desse dilema?

Quanto mais lemos e nos aprofundamos na área do saber, mais solitários ficamos, solitário da cultura de massa. Paradoxo: essa cultura, ao mesmo tempo, individualista, considera a capacidade de nos relacionarmos com os outros, uma virtude suprema.

Alguém ai se lembra de uma forma de viver em sociedade que não leve em consideração o outro — aquele que nos desestabiliza com sua maneira peculiar/estranha de ver o mundo?

Não é necessário concordar com o outro. Não concordar, provocar, também é uma forma de participar. Concordam? (rsrs)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de outubro de 2012


15 outubro 2012

OUTUBRO ― Mês Especial




No meu tempo de criança, outubro era um dos meses mais chatos do ano, porque todo dia era dia de escola. Era conhecido, apenas como o mês das eleições, as quais eram realizadas de quatro em quatro anos, num domingo. Não me lembro de algum tipo de comemoração, tipo, “dia da criança”, até os meus 18 anos de idade.

Mas a Wikipédia, sempre ela, está aqui a dizer na telinha do meu computador: “o dia da criança foi criado por um político brasileiro — o presidente Arthur Bernardes por meio do decreto n° 4867 de 5 de novembro de 1924”.

Fico confuso, e me pergunto: Por que nunca, nos cafundós da Paraíba, onde resido, essa data, no meu tempo de menino, foi alvo de festividades?

Adiantando-me nas pesquisas Googlianas, lá encontrei a resposta: “Para aumentar as suas vendas, as empresas decidiram criar a Semana da Criança. Os fabricantes de brinquedos, encabeçados pela Fábrica de Brinquedos Estrela, só em 1960, é que decidiram escolher um único dia para a promoção e venda de suas bugigangas infantis, fazendo ressurgir o antigo decreto presidencial até então em desuso”. 
Quanto aos brinquedos da marca “Estrela”, lembro-me bem, só os recebia uma vez por ano, entre os 10 ou 12 anos de idade — por ocasião da engalanada noite de Natal (25 de Dezembro). 

Mas o 12 de Outubro, na minha meninice era conhecido, tão somente, como o dia do Descobrimento da América, e não era feriado. Com o estabelecimento do “Dia da Criança”, o mês que era magrinho em matéria de datas comemorativas, começou a engordar. Mais tarde, esse mesmo dia viria a se empanturrar com o acréscimo de mais uma solenidade — a do dia da padroeira do Brasil (N. S. Aparecida), criada por um decreto em 1980.

Sabedor de que o Dia da Criança foi instituído por interesse puramente mercantil, resolvi de novo recorrer a Wikipédia: lá pude compreender porque os outubros tão tranqüilos de minha infância, hoje, estão congestionados de “feriados”. É que outubro, no nosso calendário, é o mês da entressafra (espremido entre o mês de São João/São Pedro e o mês do Menino Jesus).

O embriagador estímulo pelas comemorações, que não são de graça, foi longe. O leitor pode constatar, abaixo, como ficou o mês de outubro, numa tabela bem atualizada que encontrei no Google:

01/10 — Dia Internacional da Terceira Idade
01/10 — Dia do Vendedor
01/10 — Dia Nacional do Vereador
03/10 — Dia Mundial do Dentista
03/10 — Dia do Petróleo Brasileiro
03/10 — Dia da Natureza
04/10 — Dia das Abelhas
04/10 — Dia do Cão
04/10 — Dia do Poeta
04/10 — Dia do Barman
04/10 — Dia Mundial dos Animais
04/10 — Dia de São Francisco de Assis
05/10 — Dia das Aves
07/10 — Dia do Compositor
08/10 — Dia do Nordestino
09/10 — Dia do Açougueiro
10/10 — Dia da Ciência e Tecnologia
11/10 — Dia do Teatro Municipal
11/10 — Dia do Deficiente Físico
12/10 — Dia da Criança
12/10 — Dia do Descobrimento da América
12/10 — Dia de N. S. Aparecida
12/10 — Dia do Engenheiro Agrônomo
12/10 — Dia do Atletismo
12/10 — Dia do Corretor de Seguros
13/10 — Dia do Terapeuta Ocupacional
13/10 — Dia do Fisioterapeuta
14/10 — Dia Nacional da Pecuária
15/10 — Dia do Comerciário
15/10 — Dia do Professor
16/10 — Dia Mundial da Alimentação
16/10 — Dia do Anestesiologista
17/10 — Dia da Indústria Aeronáutica
17/10 — Dia do Eletricista
18/10 — Dia do Médico
18/10 — Dia do Pintor
18/10 — Dia do Estivador
19/10 — Dia do Profissional de Informática
20/10 — Dia do Controlador de Tráfego Aéreo
20/10 — Dia do Arquivista
21/10 — Dia do Contato
21/10 — Dia do Economista Doméstico
22/10 — Dia do Aviador e da FAB
24/10 — Dia da ONU
25/10 — Dia da Democracia
25/10 — Dia do Dentista
25/10 — Dia do Sapateiro
28/10 — Dia de São Judas Tadeu
28/10 — Dia do Funcionário Público
29/10 — Dia Nacional do Livro
30/10 — Dia do Balconista
30/10 — Dia do Comerciário
30/10 — Dia do Fisiculturista
 30/10 — Dia do Ginecologista
31/10 — Dia do Comissário de Voo
31/10 — Dia das Bruxas
31/10 — Dia da Reforma Luterana


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de outubro de 2012

Site da Imagem: maniadeguria.com.br

09 outubro 2012

Arco-íris Histórico em Brasília





Hoje, enquanto saía a condenação do núcleo político do mensalão, o céu escureceu na capital do Brasil. Houve um começo de trevas, mas sem trovões. Um arco-íris, de repente se formou nos céus de Brasília. Um fotógrafo fazendo de sua máquina um meio artístico, cuidadosamente, disparou o flash, captando a escultura, “A justiça” ― estátua em granito de cerca de três metros de altura, situada em frente ao edifício do STF, tendo ao fundo, um belíssimo arco colorido, como que impedindo a aproximação de nuvens negras sobre o local. 

 A escultura saudada hoje em Brasília por um “arco íris”, representa a deusa grega Thémis, filha de Urano e Gaia considerada a guardiã dos juramentos dos homens. A faixa cobrindo os seus olhos significa a imparcialidade: para não ver diferença entre ricos e pobres, entre poderosos e humildes, entre grandes e pequenos ― Tudo de acordo com o espírito do histórico julgamento em pauta.

Que grande coincidência, o aparecimento desse majestoso arco-íris, justamente quando se selava o maior julgamento do século,  considerado por muitos como o divisor de águas, ao separar o antes do depois, no que diz respeito a impunidade quanto ao crime do colarinho branco. Bem, o significado dessa belíssima foto, só o amanhã dirá.

E por falar em arco-iris, não custa nada lembrar que sua origem deriva da deusa Íris. Íris, na mitologia grega, era a divindade feminina que trazia a mensagem dos deuses para os seres humanos.

Para os que acreditam em sinais nos céus, resta aguardar o que  Íris irá, no futuro, aprontar na Terra-Brasilis; terra que o nosso ancestral Dom João VI, um diaquando ainda não existia a deusa Thémis por essas bandas, saqueou para irrigar os cofres do além-mar.


Por Levi B.Santos
Guarabira,09 de outubro de 2012

Imagem:  Veja.abril.com