29 novembro 2012

O HÁBITO DA EXCLUSÃO




Nada há mais emblemático para representar o “desejo humano de exclusão” do que a alegoria do Livro de Gênesis, em que um Deus resolve excluir de seu séquito àquilo ou àquele que mais o aborrecia.

Ficamos desconcertados quando àquilo que tentamos expulsar de nós o vemos escancaradamente no outro. Não gostamos quando o outro se despe e mostra nele a nossa vergonha. A expulsão do casal primevo do paraíso no mito da Criação relatada no Gênesis tem um significado metafórico: evidencia a exclusão ou desejo de expulsar algo intrínseco ou indissociável da natureza humana para tentar projetá-lo no outro. Querendo ver–se livre do “mal” que habita em si, o homem esconde dos outros, algo doloroso que lhe é inerente. Esse ato não deixa de ser, no imaginário psíquico, uma forma de exclusão.

O desejo de exclusão no alegórico relato do Gênesis também quer mostrar a repressão dos desejos considerados “profanos” ou inconfessáveis. O tempo todo, o homem procura se defender dele mesmo. O homem é um ser reativo e, na reação esboçada exerce uma espécie de auto-exclusão dos afetos que ele considera inadequados. Na reação ou ato humano de excluir há, no fundo, um desejo de esconder uma parte de si aos olhos dos outros.

Já dizia o filósofo Paul Valèry: “Os homens se diferenciam pelo que mostram e se parecem pelo que esconde.”

Mas será que o “hábito da exclusão” é coisa só do passado? Politicamente falando, passamos pelo período “negro” da ditadura militar, em que esse “hábito” foi exercido de forma escancarada, com toda sua força.

Mas depois da ditadura veio a “democracia” que, aparentemente, não deveria rimar com exclusão. Muita gente do meu tempo, acredito, deve ter ainda na memória o primeiro teste da democracia pós-ditadura, em 1985, quando só se falava em pluralismo. Exatamente quando renascia das cinzas a democracia, eis que o ranço do velho “hábito da exclusão” se fez presente, gerando uma grande polêmica: o Rock in Rio serviu de desaguadouro para esse afeto que nos é muito particular. Os patrulheiros ideológicos de dentro da intelectualidade democrática brasileira entraram em um efervescente atrito: uns diziam que o Rock in Rio era uma invasão indevida à terra do samba. Só depois é que entenderam que o hábito da exclusão deveria ter uma nova leitura: nem o rock acabou com o samba, nem o samba acabou com o rock.

O desejo de exclusão que muitos pensam ser um atributo da ditadura renasce através do velho mecanismo de censura até mesmo em regime que se diz democrático. A Nova República, só para começar, estreou enganando a todos: excluíram a verdade dos boletins médicos sobre a doença grave que levou Tancredo à morte.

Aí, muito depois, veio o PT com um discurso de moralização: “Nós não somos iguais a eles”. O grande comandante da nave do partido dos trabalhadores veio com o discurso de transparência total em contraposição aos malfeitos realizados pelos que o antecederam. O lema era: “O PT não rouba, nem deixa roubar”. E aí a história todo mundo já sabe de cor e salteado: o hábito da exclusão sob a forma de se esconder o ilícito foi, como nunca, exercido em toda sua plenitude, até que um de lá de dentro, se sentindo “excluído” da elite do “politicamente correto”, resolveu entregar de bandeja ao Ministério Público todo um sistema criminoso de dilapidação dos bens públicos.

No desejo de purificação da política brasileira pelo antes, sagrado PT, estava embutido um pacto no reino do toma-lá-dá-cá. Os parceiros desse grupo, pela via dolorosa do hábito da exclusão, em secreto, queriam um pódio para se eternizar no poder.

O hábito de esconder dos outros as partes ou sentimentos ruins, não é de hoje. Essa é uma realidade psíquica que choca. O homem se choca diante de seus afetos destrutivos. No dizer de Chesterton, esse choque “é comparável ao indivíduo que acaba de descobrir um quarto interno no recesso mais íntimo de sua própria casa, de cuja existência nunca se suspeitara”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 29 de novembro de 2012

Site da Imagem: edsonmelosintonia.blogspot.com

22 novembro 2012

O Conflito Israelense – Palestino em Gaza e a “Palavra do Rabino”


 


Notícias de guerras e escaramuças entre Israelenses e Palestinos da faixa de Gaza, já se tornaram algo tão previsível ou comum, que quase ninguém se debruça mais para comentá-las. Manchetes, fotos, vídeos de escombros e cadáveres despedaçados, misturados a fogo e fumaça já não despertam tanta curiosidade.

Vagando pela internet, eis que me deparei com o discurso do Rabino Yehudah Ben Yaakov, pronunciado em julho de 2006, por ocasião de uma das reedições desse eterno conflito pela “terra que mana leite e mel”; terra que na visão do grande patriarca, Abraão, um dia, Javé prometeu tomar dos Cananeus e seus descendentes para  entregá-la a sua descendência, via Isaque.

Enquanto lia a preleção do rabino, voei na imaginação à saga bíblica de um povo em busca da Terra Prometida ― terra que Canaã, o amaldiçoado por Noé (ou Javé), fez brotar tudo de bom, sendo por isso, fonte de toda inveja.  Canaã compreendia Gaza ao sul e Hamã ao norte, margeando a costa oriental do mediterrâneo. (Gênesis 10:15-19).

No livro de Gênesis, o patriarca Abraão, em seu imaginário, percebe um Deus a lhe mostrar uma vastidão de terras que se perdiam no horizonte. Javé lhe aparece dizendo: “É a tua posteridade que eu darei essa terra” (Gênesis 12: 7).

Ao mesmo tempo em que fazia uma reflexão sobre o texto do rabino Yehudah, lembrei-me da história que os evangelhos contam de um Judeu, a quem chamaram de Filho do Homem, mas precisamente àquela parte, parecidíssima com a visão que teve o patriarca Abraão. Uma autoridade aparece a Jesus, lhe prometendo uma imensidão de terra já habitada com uma condição, em tudo semelhante a do visionário maior dos israelitas: “Olha, tudo isso será teu, se me adorares” (Lucas 4:7). 

O lendário anseio Abraâmico projetado em um Deus conduziu-me ao episódio descrito pelos evangelistas, como a “Tentação do Deserto”. O mito aqui reaparece com outra roupagem, ou pelo lado avesso da promessa javélica primitiva: o “messias” Yeshua rechaça de imediato o desejo de riqueza e de poder político ― promessa tentadora vinda da contra-parte de Javé. Alguns trechos dos evangelhos demonstram que o “Filho do Homem” entendia que o inimigo maior estava no próprio homem e que era no interior dele que se originava todo o conflito, exteriorizado naquilo que Hegel denominou de relação “Senhor e Escravo”.

Chesterton, falando sobre “Deuses e Demônios”, em seu livro “O Homem Eterno” (página 149 ― Editora Mundo Cristão), disse algo profundo que tem muito a ver com as guerras e conflitos insolúveis, como esse do oriente médio: “Qualquer que seja o desencadeador bélico específico, o alimento das guerras é alguma coisa na alma”.

Mas o israelense, de um lado, e o palestino do outro lado, talvez não saibam que dentro deles existe um arquétipo patriarcal defendendo-se de sua contraparte. Talvez não saibam que entranhado em seu emaranhado psíquico estão os velhos afetos antagônicos que permeiam o “inconsciente religioso coletivo” a que se referiu Jung em suas intermináveis análises psicoteológicas. Talvez não compreendam que a história mítica do Filho do Homem representa o Arquétipo da Alteridade, que está a convocar um encontro democrático entre polaridades opostas, pelo desapego a unilateralidade que impede de se aceitar as diferenças existentes entre filhos de um mesmo Pai.

O certo é que uma briga em nome de Deus, o poder político comprou para si. O rabino Yehudah Ben Yaakov, altaneiro, chega assim, a se expressar sobre o exclusivismo de seu Deus: “Cremos que Israel é a nação sacerdotal que D-us estabeleceu dentre todas as nações, para operar em nós”.
Não há nada mais poderosamente inflamável que uma afirmação dessa natureza, ainda mais, quando se sabe que o outro lado se apresenta também com um imaginário General a frente de seu exército.

Para uma reflexão apurada dos amigos leitores e debatedores, passo, sem mais delongas, ao texto emblemático do Rabino messiânico (de julho de 2006, mas bem atual) que colhi na internet, pelo famoso Google:


“A Palavra do Rabino”

A Sinagoga SHEAR YAAKOV, como congregação judaico-messiânica observante e praticante da Torah à luz da revelação de Yeshua HaMashiach, declara publicamente seu apoio incondicional ao Estado de Israel. O SHEAR YAAKOV está incondicionalmente compromissado com o Estado de Israel, apoiando, defendendo e abençoando-o em todas as áreas.
Israel está, uma vez mais, sendo atacado por aqueles que se prestam aos propósitos satânicos de tentar nos matar, roubar e destruir. Recomendamos a todos os que pautam suas vidas pelas Sagradas Escrituras:

1 – Vigilância

Precisamos estar atentos para não sermos confundidos pela mídia tendenciosa. Busquemos a verdade, tanto para compreender a situação de Israel e dos seus inimigos dentro do contexto da História, quanto para entender detalhes importantes dos acontecimentos destes dias. A mentira aprisiona e engana, mas a Verdade liberta. Leia os artigos Argumentos em defesa de Israel e A atuação da mídia no Oriente Médio e compreenda um pouco mais sobre o que se passa em Eretz Israel. Procuremos nos manter bem informados, acessando as notícias de fontes judaicas (veja em Links). Tenhamos senso crítico ao ler as declarações de alguns líderes mundiais (ONU, países europeus, governos latinos, papa, etc.) que mal conseguem disfarçar o velho ranço de anti-semitismo em suas declarações contra Israel e a favor dos nossos inimigos.

2 – Tefilah

Cremos que Israel é a nação sacerdotal que D-us estabeleceu dentre todas as nações, para operar em nós e através de nós. É importante que cada um assuma sua responsabilidade de estar intercedendo por Israel. Sabemos que o Estado de Israel não buscou a guerra, mas depois de ter sido atacado em seu próprio território, agora exerce seu legítimo direito de auto-defesa. Oremos para que Israel vença todas suas batalhas, e alcance seus objetivos militares da forma mais rápida e eficiente possível. Oremos para que ADOSHEM TZEVAOT esteja à frente das Forças de Defesa de Israel, capacitando nossos combatentes com destreza e habilidade, e protegendo-os em Seu Nome. Oremos também por nossos irmãos em Eretz que não estão no front, para que suas vidas sejam preservadas e cada um deles possa contribuir fazendo sua parte para a vitória de Israel. Oremos pelos soldados judeus seqüestrados, para que suas vidas sejam preservadas e possam voltar vivos para suas casas. Oremos pelas suas famílias e pelas famílias daqueles que perderam seus parentes e agora estão em luto. AQUELE que ressuscita os mortos também há de enxugar todas as nossas lágrimas e confortar todos os enlutados de Israel.

Oremos também por aqueles que se colocam como nossos
inimigos, para que sejam libertos do jugo satânico que os faz atentarem não apenas contra nós, mas também contra suas próprias vidas ao se colocarem contra o D-us Vivo, o D-us de Israel. Oremos pelos árabes que não querem viver como terroristas nem desejam lutar contra Israel, mas que muitas vezes lhes faltam a força necessária para reagir aos apelos do Islã. Há alguns casos de ex-inimigos de Israel, que depois de terem experimentado a revelação de Yeshua HaMashiach tiveram suas vidas transformadas, e se arrependeram a tal ponto que hoje são sionistas fervorosos (Walid Shoebat).

Oremos também por todo o Israel que está na Galut, para que HASHEM nos ajude a ajudar nossos irmãos em Eretz de modo efetivo, e que não sejamos enredados pela inércia, omissão ou
contendas internas.

3 – Engajamento

Precisamos ter atitudes práticas que nos levem da preocupação contemplativa às ações pragmáticas. É importante que nos engajemos, de todas as formas possíveis, em ações efetivas a favor de nossos irmãos que estão em Eretz Israel. Se você quer fazer algo mais por Israel, visite http://www.yeshuachai.org

Acima de tudo, é importante estarmos conscientes de que a luta que travamos não é apenas material, não se limita a uma guerra entre homens e homens, mas transcende as interpretações políticas, históricas e ideológicas, pois é uma luta principalmente espiritual. Israel é o testemunho vivo, a evidência material, verificável até por ateus e agnósticos ao lerem seus jornais, da existência e da ação de D-us em nossos dias. Se Israel não existisse, as Escrituras poderiam ser contestadas como não sendo verossímeis, e a própria existência do D-us de Israel poderia ser negada. Mas nós judeus somos a prova viva e incontestável da veracidade de D-us e das Escrituras. Não ignoramos o ódio e as motivações satânicas dos que almejam a destruição de Israel. Essa guerra é espiritual, e nós, como sacerdotes em Yeshua HaMashiach, somos chamados à ação. Também sabemos, as Escrituras nos ensinam, que HASHEM usa situações como esta em que os inimigos nos afrontam, para tratar com Israel, levando-nos a fazer um auto-exame da nossa vida espiritual coletiva e individualmente, para que possamos ver onde erramos, nos arrepender dos nossos pecados, sermos purificados e nos consertar perante ELE. É tempo de jejuns, de muita tefilah, de muito estudo de Torah, de teshuvah, de buscarmos a face do nosso D-us, o D-us de nossos pais, Avraham, Yitzchak e Yaakov. ELE certamente nos sustentará na batalha e nos dará a vitória, e mais uma vez toda a terra saberá que há D-us em Israel.

Em Yeshua,
chessed v’shalom,
Rabi Yehudah Ben Yaakov



P.S.: 
E o rabino Yehudah Ben Yaakov termina a sua fala colocando mais lenha na “fogueira santa”, ao revisitar os velhos tempos do guerreiro “Deus dos Exércitos”- através da citação da parte final de I Samuel 17:46: “...e toda a terra saberá que há Deus em Israel”.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de novembro de 2012





16 novembro 2012

O MINISTRO SE COMPADECE DOS PRESOS

Ministro da Justiça – Eduardo Cardozo



Anteontem (dia 14), o ministro da justiça, Eduardo Cardozo, em uma palestra a empresários de São Paulo, compadeceu-se dos presos. Diante do injusto e falido sistema penitenciário brasileiro, o ministro de nossa justiça, ao que parece, movido de íntima compaixão, extravasou toda sua indignação com relação à situação dos presos que cumprem pena em depósitos infectos, que em nada lembram as prisões dos EUA.


A declaração bombástica do ministro da justiça do partido que há mais de oito anos toma conta do sistema carcerário do país e não conseguiu melhorá-lo, fez-me lembrar de uma emblemática declaração efetuada por um dos nossos presidentes no tempo da ditadura militar. Acho que as pessoas do meu tempo devem ter na memória a famosa reação insensata de João Batista Figueiredo (aquele que não suportava o cheiro do povo) quando, também em cadeia televisiva, no alto de sua "sapiência", respondeu a um menino que o interpelara sobre o que ele faria se tivesse que sobreviver com o salário mínimo da época. “Eu daria um tiro no ouvido!” ― foi dessa forma grosseira que se expressou, demonstrando completa inaptidão para o alto cargo em que estava investido.

No primeiro caso ― o do ministro da Justiça em sua fala ―, transparece a exteriorização de sua dor ante a situação vexaminosa de seus companheiros (os mensaleiros), os quais, segundo a cúpula do PT, foram condenados injustamente por um tribunal de exceção, ao regime fechado de prisão. Contudo, o ministro não se ateve ao mérito do processo condenatório em fase terminal no STF, mas sim ao sistema carcerário nacional.

Quanto à situação de penúria dos nossos presídios, não sei a razão pela qual o ministro da justiça, que sabe de cor e salteado os artigos e decretos promulgados pelo Congresso, não se referiu a Lei Complementar n° 79, de 7 de janeiro de 1994, que instituiu um Fundo com a finalidade de proporcionar recursos e meios para financiar e apoiar as atividades e programas de modernização e aprimoramento do Sistema Penitenciário Brasileiro.

No caso do maior mandatário da nação (General João Batista Figueiredo), não me consta que o menino atendeu ao seu conselho de acabar com a vida a ter que sobreviver com um salário mínimo. No que tange ao salário mínimo, podemos até considerar que, hoje, houve uma substanciosa recuperação do seu poder de compra!

O ministro da Justiça, em uma situação análoga a do presidente acima citado, falou em “acabar com a vida”, a ter que se ressocializar em um sistema prisional, que se está apodrecido, é por pura inércia dos que legislam e governam.

No momento doloroso em que pessoas do alto escalão do governo irão passar pelo constrangimento de cumprir penas em ambientes não adequados à sua condição social, ao invés de ficarmos de braços cruzados apelando para o pior (a morte), bem que poderíamos, senhor Ministro, melhorar sobremodo o sistema prisional brasileiro, pondo em prática o que já está estabelecido em lei há pelo menos 18 anos.

Há fundo, há verba amparada em leis para oferecer condições dignas para recuperação do preso, seja ele pobre ou de colarinho branco. O que parece não haver é vontade política. E quando isso ocorre, medidas extremas como aconselhar tirar a vida é de uma sordidez extrema.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de novembro de 2012 

Site da Imagem: msrecord.com.br

09 novembro 2012

Nietzsche e a Universidade – Por Luiz Pondé





Sou um leitor assíduo dos ensaios que Luiz Felipe Pondé escreve toda Segunda Feira no caderno de cultura ―ILUSTRADA ―, da Folha de São Paulo.
O Pernambucano Pondé, para quem ainda não conhece, é escritor, filósofo, psicanalista, ensaísta e professor da PUC – SP e da USP. 

Suas duas últimas obras publicadas pela Editora LeYa. “Contra Um Mundo Melhor” e o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” são uma coletânea de primorosos ensaios que levam o leitor a refletir de forma profunda sobre a condição humana na pós-modernidade.

O ensaio por ele escrito na Folha de São Paulo, nessa última segunda feira (dia 05), faz uma ponte entre o mal estar que extravasa dos escritos de Nietzsche e o pasteurizado ensino universitário da atualidade.  “O Filósofo do Martelo na Academia”, é o titulo desse maravilhoso texto de Pondé, inspirado em um fragmento reflexivo de Nietzsche.  Com os devidos créditos, nesse meu recanto do Google, republico-o para degustação dos leitores amigos e amantes da boa literatura.

O Filósofo do Martelo na Academia

“Eu lamento agora que naqueles dias eu ainda não tinha coragem (ou imodéstia?) para permitir a mim mesmo, de todas as formas, minha própria língua individual...”

“Estas palavras são de Friedrich Nietzsche (1844-1900), em tradução livre, do seu "Tentativa de Autocrítica", opúsculo escrito por ele como autocrítica, em 1886, ao seu livro "Nascimento da Tragédia" (primeira edição em 1872). A edição de 1886 ganhou como acréscimo ao título o subtítulo "Helenismo e Pessimismo".

Nietzsche foi minha primeira paixão na faculdade de filosofia da USP. Na época, recém-saído da medicina e em formação para ser psicanalista, o que nunca aconteceu, eu colocava em diálogo Nietzsche e Freud.

O filósofo do martelo me é inesquecível e continuo pensando com o martelo até hoje. Vocação é destino. Este trecho específico carrega em si muito do que Nietzsche significa para um filósofo profissional como eu, em constante mal-estar com o que a vida universitária se transformou, em épocas de produtividade industrial do ensino superior.

A fala de Nietzsche vai de encontro ao modo como somos formados, não sem razão, nas boas faculdades de filosofia: somos formados para não sermos originais. Hoje, entendo que qualquer originalidade possível em filosofia é algo conquistado a duras penas, assim como a santidade ou os movimentos precisos de uma dança --metáfora cara ao filósofo do martelo.

Lembro-me de uma das primeiras aulas em que um dos grandes professores que tive nos disse algo assim: "Você não está aqui para achar nada, antes de achar algo estude, e descobrirá que muita gente já pensou o que você pensa, e muito melhor do que você, antes de você."

Esta dureza acaba por fazer de nós pessoas menos opinativas e mais rigorosas, e isso é sem dúvida fundamental. Esta é a diferença entre pensar filosoficamente e pensar como senso comum. Vale lembrar que do ponto de vista da filosofia, as ciências humanas em geral são senso comum.

Rigor nada tem a ver com o que a academia se tornou com o passar dos anos: um antro de política lobista e de burocracia da produtividade a serviço da morte do pensamento. A universidade está morta e só não sente o cheiro do cadáver quem tem vocação para se alimentar de lixo. Fosse Kafka vivo e escrevesse um conto sobre nós, acadêmicos, nos colocaria com cara de ratos.

Imaginem Nietzsche preenchendo o currículo Lattes, uma plataforma informática que supostamente democratiza o acesso à produtividade da comunidade acadêmica, ao mesmo tempo em que normatiza e quantifica esta produtividade. Na prática, o Lattes serve para nos tomar tempo (sempre dá pau) e acumular platitudes e repetições que visam a quantificação de um quase nada de valor.

Agora imaginem Nietzsche às voltas com relatórios anuais da Capes, que junto com o Lattes, institucionaliza e quantifica esta mesma produtividade de um quase nada de valor.
Não existiria filosofia se nossos patriarcas, de Platão a Nietzsche (para citar dois grandes), tivessem que preencher o Lattes, fazer relatórios Capes ou serem "produtivos". Todos seriam o que, aos poucos, nos transformamos: burocratas mudos da própria irrelevância. Analfabetos do pensamento.

Uma das formas de sobreviver a este processo de produtividade de massa é obrigar nossos alunos a pesquisar aquilo que não querem, de uma forma que não querem, a fim de garantir verbas institucionais de pesquisa em grande escala. Esmagamos a criatividade e as intenções dos alunos fazendo deles uma infantaria estatística. A universidade mente: quer formar rebanhos dizendo que defende a liberdade de pensamento.

Lutamos dia a dia para conseguirmos sobreviver aos montes de formulários e demandas do mundo dos ratos. A universidade aos poucos sucumbe aos efeitos colaterais de um mundo que, como diria Nietzsche, vomita "ideias modernas". Os processos de democratização do saber, como suspeitava nosso filósofo, são processos de produção de nulidades em grandes quantidades.

Mais do que nunca é urgente sermos corajosos e imodestos para acharmos nossa própria língua individual”.

Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

Guarabira, 09 de novembro de 2012
Site da Imagem: museudaciencia.org

04 novembro 2012

Obama, Romney, Furacão Sandy e o Fundamentalismo Religioso




Pesquisa recentemente realizada para Presidente dos EUA (as eleições ocorrerão no próximo dia 06), dá conta de que os católicos (46%) pendem para o lado de Obama, e os protestantes (50%) apóiam o candidato mormon, Romney. Junte-se Obama + Romney + o Furacão Sandy + Fundamentalismo religioso e se terá um quadro profético imaginário semelhante às narrativas apocalípticas descritas na Bíblia. Como não poderia deixar de acontecer, o país de berço gospel crê que os acontecimentos do momento são recados “divinos” para os seus afiliados.

A superstição, como sempre, no meio fundamentalista, é responsável por um caldo de poderoso veneno, ao juntar eleições com catástrofes para as mais estapafúrdias previsões. Prova disso é que o Estado Americano de OHIO está sendo considerado como os "olhos" e a "boca" de Deus ― quem ganhar lá, leva.

A revista Veja desta semana diz que o vencedor em OHIO tem 100% de chances de ser o novo presidente. É que, nas últimas 29 eleições presidenciais, Ohio acertou no vitorioso em 27.  E aí, para dourar a pílula, entram: estatística, matemática, superstição e o dedo de Deus.

Em suas campanhas, cada um dos candidatos está se comportando de maneira fidedigna ao seu Deus. Depois da devastação provocada pelo furacão Sandy, Obama recebeu e atendeu ao recado “divino” no sentido de parar com o ritmo frenético de sua campanha, pois mantê-la a todo vapor seria uma mostra de insensibilidade ante à tragédia que destruiu lares e provocou cerca de 100 mortes. Quanto a Mitt Romney, seus profetas receberam, também, um insight divino: manter a agenda no ritmo esfuziante, com um detalhe: trocar urgentemente os seus comícios por campanhas de arrecadação de mantimentos para as famílias atingidas pelo furacão.

Na próxima terça-feira (dia 06), é que saberemos qual o "deus" que faturou mais alto.

Não será novidade nenhuma se os dois candidatos, Obama e Romney, em analogia ao Apocalipse de João, profetizarem para os eleitores de Nova Iorque e de Nova Jersey que eles verão surgir dos locais onde tudo foi devastado, uma Nova Jerusalém.

Por enquanto, os dois candidatos dizem que suas palavras são fiéis e verdadeiras.

“...Próximo está o tempo” (Apocalipse 22: 10)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 04 de novembro de 2012
Imagem: brasileirovivendonoseua.blogspot.com

02 novembro 2012

Vem Ver a Lua



O dia 17 de Novembro, que se aproxima, marca o 53° aniversário da morte de Heitor Villa Lobos (1887 – 1959) ―, insuperável compositor e maestro que elevou a música brasileira a um patamar de destaque no mundo inteiro.

Eu era um rapazote, nos idos de 1962, quando pela difusora local de minha cidade (Alagoa Grande – Pb), sempre ao anoitecer, deixava-me inundar por um estranho sentimento, provocado pelas tristes melodias desse magistral poeta e músico.

Naquele tempo, lembro-me bem, não perdia, por hipótese alguma, as retretas da filarmônica realizadas nos sábados à noite no coreto da praça central de minha cidade. Lá, sentado sobre a grama de um jardim, deliciava-me com os belíssimos dobrados, valsas, chorinhos e boleros executados pelos 21 músicos que formavam a nossa querida banda musical. Vibrava quando a bandinha tocava, com muito esforço, alguma composição do saudoso Villa.

Tirando a “Ave Maria” de Gounod, nada me tocava tão profundamente quanto as sinfonias melancolicamente envolventes de duas épicas composições desse maestro internacionalmente consagrado, que eram difundidas pelos “alto falantes” em meu torrão natal quase todo final do dia: a “Bachiana n° 5” e a “Melodia Sentimental”.

A emocionante e antológica “Melodia Sentimental” fazia parte do poema sinfônico ― “A Floresta Amazônica” ―, obra musical que Villa Lobos compôs, orquestrou e regeu, pouco antes de falecer.

Nesta semana nostálgica, em que a maioria das famílias reverencia os seus mortos queridos, trago, para apreciação dos amigos internautas, o belo fragmento intensamente sentimental desse ícone da música brasileira que me extasiava nos tempos de menino. Verdade é que essa saudosa ária ainda faz gemer as cordas dolentes de um coração já gasto pelo tempo.

A letra da meiga modinha que, recentemente, fez parte da trilha musical do filme, “Deus é Brasileiro”, é da poetisa e embaixatriz brasileira em Nova York, Dora Vasconcelos, falecida em 1973, aos 62 anos de idade.

Já interpretaram essa belíssima sinfonia, renomados cantores, como: Djavan, João Bosco, Zizi Possi, Maria Betânia, Caetano Veloso, Olivia Byington, Elizete Cardoso, entre outros.

Em minha opinião, dentre todos os cantores nacionais, quem mais profundamente e de forma incomum interpretou essa canção foi Ney Matogrosso, que o/a leitor(a) pode conferir no vídeo abaixo:

Melodia Sentimental:
Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura.
Clara chama silente
Ardendo o meu sonhar.

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada desperta
Vem dar teu calor ao luar.

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor.

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir meu amor e sonhar.
(de Villa Lobos e Dora Vasconcelos)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de novembro de 2012


Site da Imagem 1: daquidepitangui.blogspot.com
Site da Imagem 2: papagaiomudo.blogspot.com