06 março 2013

Sondadores de Arquivos




Não é preciso ir muito fundo para se constatar que a psicanálise se estrutura como um saber arqueológico. A arqueologia é a ciência que procura desvendar o passado daquilo que se tem ou que se vê como ruínas. Da mesma forma, a psicanálise escavaca o chão daquilo que se tem como a realidade do momento, à procura de um arquivo que está enterrado num longínquo passado.

Esta longa viagem que vai da superfície à profundidade do solo é realizada tanto pelo arqueólogo quanto pelo analista. O arqueólogo busca um passado, partindo das ruínas ao encontro de uma construção real que está soterrada, e o Psicanalista procura, pela fala e ausculta do sujeito, um passado ou arquivo inconsciente, que foi recalcado nos primórdios da história do sujeito. As ruínas, como partícula de algo maior em oculto, nos dois casos, formam a realidade imaginada por aqueles que vivem na superfície.

Para mostrar a intrínseca relação entre a Arqueologia e a sua nova ciência denominada Psicanálise, Freud, reporta-se ao romance “Gradiva (aquela que avança) do Alemão Wilhelm Jensen (1837 ―1911), no qual o personagem, “Hanold”, se detém diante de uma imagem em gesso de uma moça que foi soterrada pelo vulcão em Pompéia. O arqueólogo procura decifrar a imagem dessa encantadora jovem levantando os pés do chão, como estivesse a reviver a impressão do outro, nele mesmo.

Jacques Derrida, no último capítulo de seu livro ― “Mal de Arquivo” (Editora Relume Dumará), recorreu a uma interessante parábola que Freud fez, correlacionando os métodos e objetivos em tudo semelhantes às duas instâncias científicas (a Psicanálise e a Arqueologia), que passo a transcrever:

“Imaginemos que um pesquisador em viagem chegasse a uma região pouco conhecida, na qual um campo de ruínas com restos de muros, fragmentos de colunas, tabletes com signos gráficos apagados e ilegíveis, despertasse seu interesse. Ele poderia se contentar em olhar o que está exposto à luz do dia, depois inquirir os habitantes, talvez semi-bárbaros, moradores das redondezas sobre o que a tradição lhes permitiu saber da história e da significação destes restos de monumentos; em seguida registrar as informações e continuar viagem. Mas poderia também proceder de outra maneira; poderia ter trazido consigo picaretas, pás e enxadas e determinar aos habitantes que trabalhassem com estas ferramentas no campo de ruínas, removendo o cascalho e, a partir dos restos visíveis, pôr a descoberto o que estava soterrado. Se o sucesso recompensar seu trabalho, os achados se comentarão por si sós; os restos de muros pertencem aos muros de um palácio ou de uma tesouraria; a partir dos restos de colunas, um templo se completa; as inscrições encontradas em grande números, bilíngues, em alguns casos felizes, revelam um alfabeto e uma língua, e a decifração e a tradução destes, dão esclarecimentos insuspeitados sobre os acontecimentos das primeiras eras em memória das quais os monumentos foram edificados”.

Como se sabe, Freud foi um artista em tomar fatos da literatura para empreender suas fascinantes analogias psicanalíticas. No romance “Gradiva”, o soterramento de Pompeia serve de metáfora para explicar os recalques soterrados, mas ainda vivos, no porão do inconsciente; a escavação do sítio das ruínas seria a análise empreendida pelo analista.

No romance de Jensen, o personagem Hanold é alvo de persistentes sonhos delirantes com o espectro da enigmática Gradiva e seus passos ondulantes sempre para frente. Numa de suas alucinações o arqueólogo se viu em plena Pompeia do vulcão Vesúvio:

“Era curioso constatar como tudo que havia sido outrora a vila de Pompeia tomava um outro aspecto, ao mesmo tempo em que se operava o êxodo. Não era certamente uma cidade viva, mas nesse momento parecia se petrificar em uma rigidez cadavérica. No entanto, daí emanava qualquer coisa que dava a impressão de que a morte se punha a falar, embora não de uma maneira perceptível aos ouvidos humanos. É verdade que aqui e ali ressoava uma espécie de murmúrio, que parecia sair das pedras...” (Gradiva ― Uma Fantasia Pompeiana – página 41)

A proposta de Freud, em sua escavação arqueológica da psique, é deixar os fantasmas do sujeito falar até chegar o momento de exorcizá-los. Quando “as pedras falam” é sinal de que o longo processo de escavação tornou mais ou menos transparente o que estava soterrado. Quando não se chega ao chão que havia antes, a escavação ou análise pode se tornar interminável: são os ossos do ofício de quem promete abrir arquivos enferrujados e profundamente enterrados.

De tudo, fica evidente que o arquivo primitivo procurado incessantemente pelo arqueólogo e o analista estão escondidos nas profundezas do próprio arquivista. Seria o desejo irreprimível de retorno à origem, uma dor da pátria, uma saudade de casa, uma nostalgia do retorno ao lugar mais arcaico do começo absoluto? ― pergunta o pensador, Jacques Derrida, insinuando que todos sofrem do “Mal de Arquivo” ― que em suma pode ser traduzido como “a impaciência absoluta de um desejo de memória”.

Há quem ache extremamente perigoso mexer em arquivos soterrados (esquecidos) na mente humana. Na ânsia de remover entulhos profundamente enterrados, o risco de cortar os fios condutores que transmitem os sonhos e animam o artista em sua arte, é muito grande.

Na cibernética, quando um arquivo deixa de funcionar, diz-se que ele foi contaminado por um vírus. Nesse campo da ciência já existe “ante-vírus” para evitar que arquivos guardados há muito tempo travem ou fiquem sem responder.

A ciência está evoluindo assustadoramente. Talvez um dia, o grande computador humano (o cérebro) possa ter os arquivos da memória primeira do ser humano restaurados na íntegra. Mas aí ninguém pode prever se o indivíduo depois de devassado em suas entranhas será o mesmo de antes.

Dando asas à imaginação:

Será que os futuros arqueólogos, um dia, retirarão o sopro de mistério que embala a nossa vida, ao desarquivar aquilo que deveria sempre permanecer intocável, como era o propósito sagrado na fábula do fruto proibido da árvore do Éden de que fala o livro de Gênesis? Como ficará a vida, se os sondadores de arquivos anularem a capacidade de sonhar, sentir saudades, fantasiar e brincar de Deus?  

Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de março de 2013  

  Site da Imagem: boasnoticias.clix.pt

5 comentários:

Gabriel Correia disse...

Levi, excelente explanação. Porem a psicanalise descreve um outro aspecto do funcionamento de nossa psique o qual seria, o aspecto econômico, que por força da minha inquietação, mais me intriga. A pouco busquei abordar um tema em meu blog que se refere ao altos índices de homicídios, que nos coloca entre os países com mais assassinatos no mundo. Como explicar essa, a principio incompatível, mistura de alegria e covardia? Existira um mecanismo econômico de compensação por trás desse paradoxal fenômeno.

Levi Bronzeado disse...

Caro Gabriel

A agressividade faz parte da natureza humana. Ao escavar a história do homem iremos perceber que esse instinto está presente, por exemplo, em um bebê que morde o mamilo da mãe de forma agressiva quando não se sente satisfeito.

O instinto de agressividade é importante como elemento estruturante da psique e não pode ser considerado negativo, desde que seja canalizado para a construção e criatividade e não para destruição. Mas como fazer isso em uma cultura que prima obsessivamente pela violência do Princípio do Prazer a todo custo, para justificar o gozo narcísico do indivíduo?

Em nossa cultura o que mais se ver é gente ressentida. No ressentimento está embutida uma acusação moral contra o outro que goza os prazeres que o masoquista não se permite. O desejo de vingança e de eliminação do outro está presente, de forma sutil, quando o ressentido se queixa, constantemente, que está sendo prejudicado ― uma modalidade disfarçada de culpar o outro pelo seu fracasso.

Parece um paradoxo, mas o ressentido é aquele que tenta evitar confrontar-se com o seu EU em si. Ele sente gozo ao culpar o outro pelos prejuízos inerentes à sua própria covardia.

Eduardo Medeiros disse...

Levi, belo artigo!!

Sua pergunta ao final nos faz pensar. Acabei de ler um romance interessante ("Delírio") que narra uma sociedade americana futurista onde os cientistas descobrem que o grande mal da humanidade é o amor. Então, criou-se uma técnica de intervenção cirúrgica no cérebro para que o sentimento do amor fosse de vez expurgado das pessoas. A operação era obrigatório quando o jovem fazia 18 anos.

As pessoas "consertadas" viviam então em estado de quase marasmo sentimental; jamais amavam a ninguém; as relações humanas se tornaram frias, mas ao mesmo tempo "seguras"; os índices de criminalidade caíram vertiginosamente; a sociedade americana enfim, encontrou a paz. Mas será que encontrou mesmo?

Levi Bronzeado disse...

É, Edu

O que nos romances e no cinema, é ficção hoje, pode ser a realidade de amanhã, onde cérebros com implantes de chips regularão as nossas reações interações. Aí você programa suas emoções, seus medos e seus sentimentos saudosos e religiosos a hora que bem entender.

Mas isto não é coisa, nem para nossa geração, nem para a dos nossos filhos e netos. (rsrs)

Guiomar Barba disse...

"Há quem ache extremamente perigoso mexer em arquivos soterrados (esquecidos) na mente humana. Na ânsia de remover entulhos profundamente enterrados, o risco de cortar os fios condutores que transmitem os sonhos e animam o artista em sua arte, é muito grande."

Parabenizo esta cautela. A interpretação de quem ouve quase sempre é mesclada com os seus próprios fantasmas, e é ai que reside o grande perigo de tentar curar a si mesmo ao analisar o outro.