29 dezembro 2013

2014 ― O Ano Que Encolherá




Quando temos muitos afazeres e lazeres por dias ou meses seguidos, não percebemos o tempo passar, e dizemos comumente: “Como o tempo voa!” ou “Como o ano passou rápido!”

Preparem-se cidadãos brasileiros, pois, nas redes sociais já estão a propagar que o ano de 2014 não vai existir. Bem, não é nenhuma previsão catastrófica que se quer aqui anunciar. Trata-se de um ano inusitado, pela quantidade enorme de eventos programados. Ano de muitos feriados e pontos facultativos em que pouco se trabalhará e muito se folgará.

Como todos sabem, no Brasil, tudo só começa a funcionar depois do carnaval, mas só por pouco tempo, pois logo vem a Semana Santa. Só que depois da Páscoa, além do São João, vem a Copa do Mundo, que vai tomar todo o mês de junho e um pedaço de julho. Depois da refrega da Copa, com ou sem manifestações por Hospitais padrão FIFA, o país poderia começar a funcionar, mas aí vem o fuzuê pré-eleitoral, com as barulhentas e modorrentas campanhas para Presidente da República, Governador, Deputados Federais e Estaduais. Depois das eleições, vem o período de comemorações dos eleitos e as contestações de ilicitudes nos pleitos desembocando no STE. Com pouco mais de trinta dias estaremos novamente nas comemorações Natalinas, e o ano evaporou-se.

Sabendo que a mistura fantástica de “política” e futebol são a carne e o sangue do brasileiro, já se pode imaginar que nada de sério se produzirá no país do carnaval nesse ano que se aproxima. É de se esperar que dados fictícios de crescimento do país sejam expostos na imprensa, para acalmar o mercado. Com certeza, 2014 será o ano da ociosidade, e a ressaca de todo o mega-espetáculo ficará para 2015. E seja o que “Deus” quiser!

E se o Brasil for Campeão do Mundo? Claro que o PT e a Dilma faturarão para si o resultado. Caso isso aconteça, a multidão vestida com as cores nacionais não vai dar a mínima bola para, taxa de crescimento abaixo de zero, desvio de dinheiro público, estouro da bolha, crise de petróleo, subida do dólar, inflação, etc. Os fanáticos por futebol não vão tremer diante de manchetes jornalísticas arrasadoras, tipo: “Os gastos com a Copa do Mundo no Brasil foram maiores que a soma do que foi aplicado nas três últimas edições (no Japão, Coreia, Alemanha e África do Sul)”. Já pensou o presidente da FIFA queixando-se ao ministro dos esportes, sobre o exagero no superfaturamento nas obras executadas nos estádios?

Caso o Brasil venha perder a Copa, talvez surja o tal do “pacto democrático” em torno da volta de Lulla, para evitar perigos maiores.

A razão está a me dizer que a Alemanha ganhará fácil essa Copa. E se assim acontecer, vamos passar o resto do ano sofrendo do “Transtorno Pós-Traumático” ― uma espécie de reedição do que aconteceu na copa de 1950 contra o Uruguai, aqui mesmo no Maracanã.

Como há soluções mágicas para tudo no governo do PT, quem sabe se algo como uma “Bolsa anti-stress” ― a cargo do ministro da saúde, não irá amenizar o sofrimento e trazer um pouco de paz, aos torcedores fanáticos, no final de um ano em que nada de importante se construirá ou se executará na república das bananas, que ainda vive dos feitos do mito – Pelé - grande ídolo do futebol de eras passadas?


P.S.:

É bom ter em mente que se o Brasil for Hexacampeão do Mundo, continuará na amarga 73ª posição no ranking mundial do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)

Por Levi B. Santos

Guarabira, 29 de dezembro de 2013


Site da Imagem: Blog da Mary

22 dezembro 2013

NATAL: É Tempo de Rever "Nossos Anjos"


A história dos anjos se confunde com a história humana, estando, ao mesmo tempo, relacionada ao nosso lado profano e ao nosso lado divino. A presença dos anjos no universo se confunde com o universo de nossos sentimentos, ambições, virtudes e falhas. Uma história igualmente repleta de contradições. E isso pode ser verdadeiro, desde que se faça uma abordagem desses seres angelicais sob o pano de fundo da psicanálise.

Quem não se lembra de Erich Von Daniken, autor do best-seller. “Eram os Deuses Astronautas?”, que nos anos 70 promulgava que os anjos eram seres reais, porém, com origem extraterrestre, que interferiam em nossa evolução de uma forma ou de outra?!

O autor de “Anjos — A Historia” (David Albert Jones) diz que os anjos retratam a nossa ambivalência: “Anjos vivem entre dois mundos: entre o céu e a terra, entre a vida e a morte. Os anjos, assim como os adolescentes vivem em um espaço intermediário entre a infância e a idade adulta”.

Hoje, na era do cientificismo, se sabe que “anjos” nada mais são que representações simbólicas de nosso inconsciente. Apesar de não serem homens nem deuses, dizem muito de nossa natureza humana.

Joad Raymond, especialista na obra de John Milton (autor do best-seller - Paraíso Perdido), sobre anjos, assim fala: “Os anjos continuam sendo um meio útil pelo qual pensamos nosso mundo, uma maneira de dar significado à nossa existência e às nossas atitudes do dia a dia”.

Procurar padrões e figuras para unir ou diferenciar os seus afetos mais profundos, foi sempre uma preocupação do ser humano, e nessa inquietação atávica ele procura dar ordem ao caos, pois esse mundo impenetrável lhe produz assombros. Os “anjos-mensageiros” como complexos do “inconsciente/divino” estão sempre a revelar mensagens originadas no nosso lado obscuro. Nos moldes de nossa cultura e do nosso tempo, eles se apresentam como “imago-expressão” de nossas verdades e anseios primitivos.

Santo Tomás de Aquino (1225 – 1274) estudou os seres angelicais com mais profundidade, chegando à conclusão de que eles eram seres puramente espirituais, aproximando-os, dessa forma, dos conceitos de pensamentos e estados psíquicos.

Na modernidade, o psicanalista Carl Gustav Jung, com a descoberta dos “arquétipos”, conseguiu analisar a função religiosa da psique, transpondo o abismo entre ciência e religião. Compreendeu, enfim, que as afirmações, revelações e dogmas são padrões ordenados do que ele denominou “Inconsciente Coletivo”.

Segundo Gregório — o Taumaturgo, o anjo Gabriel conversa com a virgem Maria, para que a serpente (anjo mau) não possa mais conversar com a mulher. Jung, vê nisso, o estabelecimento de um vínculo psicológico entre duas imagens, tanto por contraste como por similaridade. A obediência de Eva a serpente e a obediência de Maria ao anjo da Anunciação são eventos paralelos ou opostos, constitutivos de nossa psique.

O amor de Deus e a ira de Deus, sua luz gloriosa e seu fogo ardente pertencem inseparavelmente um ao outro e são a razão de nossa ambigüidade. Esses pólos aparentemente opostos aparecem no nosso imaginário como anjos de luz e anjos da escuridão, em consonância com o que está escrito em Isaias 45, 7: “Eu crio a Luz e crio a Escuridão. Eu, o Senhor, faço todas as coisas.”

O Natal — é a época propícia na qual a figura dos anjos é usada exaustivamente nos diversos meios de comunicação. Há “anjos de luz” portadores de mensagens que simbolizam a mais elevada espiritualidade, no sentido de oferecer consolo e paz, e há “anjos das trevas”, que aparecem como seres inspiradores do reino daqui de baixo, impulsionadores das vendas estratosféricas de presentes a serem trocados entre os familiares. Esses últimos, são anjos que atiçam o nosso instinto de consumismo desenfreado, responsável por um coroamento recorde de vendas, a cada Natal que passa. O estribilho de sua música preferida é esse: “muito dinheiro no bolso, saúde pra ‘dar’ e vender”.

E por falar em anjos, não poderia deixar de registrar aqui, “A Hora do Angelus (anjo em grego) ou Toque da Ave-Maria”, que é executada às 18:00 horas, na passagem da luz do dia para a escuridão das trevas, e traduz no dogma cristão, o momento da Anunciação — feita pelo anjo Gabriel a Maria — da concepção de Jesus Cristo. Gabriel, em psicanálise, significa a síntese entre os nossos “anjos de luz” e os nossos “anjos da escuridão”. Nele estão representados os nossos afetos ambivalentes. Ele sintetiza a nossa sombra acolhedora e paradoxal; simboliza, ao mesmo tempo, os nossos sentimentos de esperança e de nostalgia em épocas de mudanças ou crises existenciais.

Toda vez que ouço a prece musicada desse anjo simbólico, invade-me um misto de melancolia e paz. Trata-se da “Ave Maria de Schubert”, que eu ouvia emocionado todo cair da tarde, pelos alto-falantes colocados em pontos estratégicos de minha cidade, nos meus tempos de menino.

P.S.:
Só poderia ser mesmo um "anjo", o autor da magnífica sinfonia erudita (do vídeo abaixo), que nas cordas de um plangente violino conseguiu realizar um dos maiores milagres cósmicos: “tocar o lado divino da alma humana”.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de dezembro de 2010

09 dezembro 2013

A Neurociência, O Eleitor e Os Candidatos



Uma reportagem da revista Veja desta semana deixou-me de cabelo em pé. “O Cérebro Vai à Urna” ― é o titulo do artigo do jornalista, Kalleo Coura.

Jamais poderia imaginar que houvesse um laboratório de neurociência no Estado vizinho ao meu (em Pernambuco), para avaliar impulsos e desejos inconscientes dos eleitores. Pois foi o que pude comprovar lendo esse emblemático artigo. No ano de 2010, na campanha para governador, Eduardo Campos (PSB), usou os serviços de neuromarketing na disputa contra, nada mais nada menos, que o poderoso e carismático, Jarbas Vasconcelos.

Testes neurocientíficos realizados na Universidade de Michigan evidenciaram que apenas 3,5% dos eleitores americanos decidiam seus votos baseados em questões ideológicas. O redator de VEJA trouxe à baila uma fala do professor de Neurociência, Pedro Cabalez, confirmando o que já se sabe através da “Psicologia de Massas”: “Não somos tão racionais como gostamos de nos imaginar. Boa parte das decisões que pensamos ser racionais é tomada de maneira inconsciente”.

O Eduardo Campos é mesmo um danado em neuromarketing político. Em 2010, de posse do veredicto neurocientífico, viu que a emoção, e não o lado ideológico, era o afeto que nos fazia tomar decisões em eleições. Campos, com 83% dos votos válidos, foi eleito governador de Pernambuco.

Para as próximas eleições há dois laboratórios de neuromarketing atuando em três estados (Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo). Segundo a reportagem, “o laboratório Neurolab vai atuar na campanha presidencial de Campos, usando uma touca de eletroencefalografia para captar ondas cerebrais vindas do profundo da psique dos eleitores, no sentido de identificar tanto a atenção quanto a emoção diante de um discurso”.

Grosso modo, o que diria Freud, vivo fosse, sobre essa tão almejada conquista tecnológica do inconsciente para fins eleitoreiros?

Não é que me lembrei, agora, da descrição de uma atribulada viagem de navio que o pai da psicanálise e seu discípulo Jung, empreenderam da Europa para os EUA. Contam os biógrafos que o velho barbudo, fumador de charutos, decepcionou-se sobremodo com seus colegas americanos.

No livro ― “Freud – O Lado Oculto do Visionário”, de Louis Breger (pag. 252), há uma menção ao espírito dos cientistas americanos ― que desagradou enormemente ao ilustre visitante. É que eles queriam converter a psicanálise em capital. O autor fala em um desprezo do fundador da psicanálise pelos EUA, que se manifestou por essa época, durando até o fim de sua vida.  “Os EUA são gigantescos, é verdade, mas um erro gigantesco; a América não serve mais para nada a não ser para trazer dinheiro” desabafou, Freud. 

De fato, foram lá nos EUA, que surgiram as primeiras grandes empresas do ramo de vendas, a tirar proveito dos estudos da neurociência. Os neuromarqueteiros de posse do conhecimento sobre o comportamento, impulsos e desejos dos consumidores explodiram as vendas de seus produtos, quase sempre exibidos com apelos chamativos nas vitrines dos shoppings. O Dr. Zaltman, professor em Harvard, desde o final dos anos 90, vem empregando os fundamentos da psicanálise, da neurobiologia e da lingüística para investigar a preferência dos consumidores. Conseguiu descobrir, com relativo êxito, um vínculo emocional entre uma marca ou um produto e o consumidor.

Pelo andar da carruagem, a profissão de neuromarqueteiro no Brasil terá de ser regulamentada com a exigência de no mínimo um diploma em neurociência. Que os certificados, de preferência, venham com o timbre da Universidade de Harvard.

A reportagem da maior revista da editora “Abril”, que saiu às bancas recentemente, traz um dado que vai dar muita dor de cabeça aos candidatos de oposição ao governo Dilma. O inglês Duncan Smith, diretor do laboratório Mindlab, fez uma descoberta que agradou em cheio aos governistas. Afirmou ele: “De maneira inconsciente, os eleitores identificam o próprio político que faz os ataques às qualidades negativas que ele atribui ao adversário”.

Pelos conceitos do neurocientista do Mindlab, quem falar mal do seu opositor na campanha presidencial que se aproxima, perderá eleitores.

E agora, Eduardo, Marina e Aécio? Como sair dessa?

Onde encontrar neurocientistas que possam desprogramar cérebros infantilizados por um paizão e um mãezona que lhes afagam o tempo todo com bolsas e outros apetrechos adquiridos com os nossos suados impostos?


Por Levi B. Santos
Guarabira, 09 de dezembro de 2013
Site da Imagem: neuropedagogianasaladeaula.blogspot.com

05 dezembro 2013

Entre o Opaco e o Transparente



Como nunca, a nossa complexa sociedade vem persistindo em transformar àquilo que para ela é: opaco ou obscuro em algo transparente. E, como sempre, seguindo a lógica física, se quer encontrar a causa da tal opacidade.

A normatividade elegeu a transparência como ideal a ser alcançado. O chavão ― “primo por uma forma de vida transparente” ― na pós-modernidade passou a ser banalizado. Está todo mundo desejando se enquadrar nesse perfil. 

Vladimir Safatle, psicanalista, professor de filosofia da PUC e colunista da Folha de São Paulo, em seu livro, “Cinismo e Falência da Crítica”, diz algo emblemático sobre essa tão sonhada “forma de vida não opaca”: “Chamamos ‘forma de vida’ um conjunto socialmente partilhado de sistemas de ordenamento e justificação da conduta nos campos do trabalho, desejo e da linguagem. Tais sistemas não são simplesmente resultados de imposições coercitivas, mas da aceitação advinda da crença de eles operarem a partir de padrões desejados de racionalidade”.

Mas a razão não suporta o paradoxo: Como ser transparente se temos em nossa psique conteúdo mentais fora do acesso da consciência? Como ser transparente se “a verdadeira relação intersubjetiva ocorre primeiro entre o sujeito e a sua estrutura peculiar e não entre o sujeito e o outro”.

Na psicanálise Lacaniana, o verdadeiro objeto não está no homem, e sim na estrutura social onde ele está inserido. Vladimir Safatle, em seu livro “Lacan” (pág 42), editado pela “PubliFolha”, diz o seguinte: “o homem não seria agente, mas apenas suporte de estruturas que agem em seu lugar. Como se, por exemplo, os sujeitos não falassem, mas fossem falados pela linguagem, como se não agissem mas fossem agidos pelas estruturas sociais” ― ideia essa, muito comum no estruturalismo de Levi-Strauss, que assim preconizava: “não pretendemos demonstrar como os homens pensam nos mitos (ou através das estruturas, o que neste contexto, dá no mesmo), mas como os mitos pensam nos homens”. Na ótica lacaniana, “se trata de afirmar que as estruturas sociais são autônomas e inconscientes em relação à vontade individual”.

“O ser humano receia descobrir em si características que rejeita em outro ser humano” ― disse o padre Beto (um sacerdote que recentemente questionou a moral católica), no livro, “Verdades Proibidas”, lançado recentemente no mercado. E o que dizer da célebre frase tão usada e abusada ― “minha vida é um livro aberto”? O intento desta assertiva seria o de  mostrar que o sujeito está a dizer toda a verdade do seu ser-em-si? 

Luiz Alfredo Garcia-Roza, no seu livro, Palavra e Verdade, chegou a uma sábia conclusão: “A verdade jamais é dada.[...] A verdade que o filósofo procura é uma verdade que ele previamente colocou lá; como a cartola do mágico: dela só retiramos o coelho que previamente colocamos ali”.

Volto a Vladimir Safatle, estudioso de Lacan, para encerrar esse opúsculo:

“É a partir do outro que eu oriento o meu desejo e minha relação com o mundo social. O homem só encontra em seu meio, imagens das coisas que ele próprio projetou; é sempre em volta da sombra errante do seu próprio ‘eu’ que se estruturarão todos os objetos do seu mundo, assim como sua percepção dos outros indivíduos.”

A tal “verdade transparente” talvez esteja presente quando o sujeito comete um ato falho ― situação em que ele revela o oculto que não queria dizer. O indivíduo concebe o ato falho como um “tropeço”, dizendo que não queria dizer àquilo. Que ele jamais venha esquecer essa célebre frase de Lacan:

“Nossos atos falhos são atos que são bem sucedidos. Palavras que tropeçam, são palavras que confessam.”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 05 de dezembro de 2013

Site da Imagem: sobreorisco.blogspot