23 maio 2015

UM MOSQUITO BEM BRASILEIRO




Um mosquito, originário do Egito (África) tem, desde os primórdios, feito do Brasil a sua morada predileta. Muito bem conhecido dos habitantes do Brasil Colonial e Republicano, o “Aedes Aegypti” adaptou-se definitivamente ao nosso clima e nosso sangue. Segundo cientistas do Instituto Oswaldo Cruz – Rio de Janeiro, esse mosquitinho de pernas listradas aportou em nossas terras no século XVII, trazido por navegadores e seus navios negreiros. Na sua primeira versão, em 1906, o pequenino inseto foi o transmissor da febre amarela, que tanta celeuma causou na capital da recente república.

O sanitarista Oswaldo Cruz, não conseguiu banir o mosquito das terras de Dom João VI, mas teve o grande mérito de descobrir e administrar nos colonos a vacina contra a febre que grassava de forma epidêmica fazendo muitas vítimas. Enfim, esse incansável médico bacteriologista, enfrentou e venceu a resistência da população que porfiava contra a sua fatal vacina. Querendo ou não querendo foram todos imunizados, inclusive, com o uso da Força Policial. Ficamos, dessa forma, livre de Febre Amarela.

Até 1980 não se conhecia casos de Dengue no Brasil, tanto é, que nas Faculdades de Medicina essa doença não fazia parte da grade curricular de estudos por parte de professores e estudantes.
A OMS em 1958 chegou a afirmar que o Brasil estava livre do Aedes Aegypti. Em um país com dimensão continental como o nosso, não seria muita ousadia ou temeridade afirmar que o fatídico mosquito teria sido exterminado por completo?

Para surpresa nossa, em 1981, foi confirmado a presença de uma muriçoca de pernas listadas no norte do país, precisamente, em Roraima. Lá estava o mosquitinho tão conhecido e estudado por Oswaldo Cruz hibernando na maior floresta do mundo, a amazônica. E aí, foi fácil descobrir que a febre epidêmica que fazia muitas vítimas, a partir do Pará, estava sendo transmitida pelo inarredável pernilongo de bandeira “verde-amarelo-anil”, transmissor da extinta Febre Amarela.

Quem diria que, hoje, apesar dos vastos recursos tecnológicos e científicos existentes, esse mosquitinho de pernas alvi-negras (corinthiano ?, santista?) iria atormentar os paulistanos? Plagiando a letra da canção “Teresinha” de Chico Buarque, o Aedes chegou sorrateiro e se instalou feito um posseiro dentro dos lares . Após infectar todo o norte e nordeste, o Aedes se enfastiou da região árida e quente, mudando a sua Central de atuação para a “cidade-coração” do país São Paulo (quarta maior metrópole do mundo). Por enquanto, o mosquito bem abrasileirado vai repassando para o homem quatro tipos de Dengue, um deles fatal: o hemorrágico. Como na antológica canção paulista, “SAMPA”, de Caetano Veloso, o mosquito vive cruzando diariamente a Ypiranga e a avenida São João com a maior naturalidade. Plagiando o começo de umas das estrofes de “Sampa”, o sem-vergonha do mosquito que se naturou brasileiro, ataca, sem dó e sem piedade, o povo oprimido nas filas, vilas e favelas.

O rei Salomão, que a Bíblia considera o ícone da sabedoria, já dizia: “nada há nada de novo debaixo do sol”. O mosquitinho que resolveu fazer seu ninho no Brasil, obrigando Oswaldo Cruz a pedir auxílio das forças policiais para combater a Febre Amarela nos idos de 1907 é o mesmo que, hoje, tem as Forças do Exército no seu encalço. Há cerca de quinze dias, a Secretaria Municipal de São Paulo reconheceu que vive uma epidemia de Dengue, pedindo urgentemente ajuda das Forças Armadas Federais.

Pelos parâmetros da OMS o índice de 300 casos por 100.000 habitantes configura uma epidemia. A taxa de incidência de Dengue na capital Paulista, chegou neste início de maio a 340 casos por 100.000 habitantes.

Para embananar mais a cabeça dos infectologistas, o Aedes acaba de fazer uma parceria com o vírus, Chikungunya, originário de Angola e Tanzânia. Por enquanto esse tipo de infecção viral, com sintomas parecidos com os da Dengue, porém menos intensos, grassa no nordeste do país.

O arrocho fiscal recentemente promovido pelo governo federal, com cortes de verbas nos já combalidos serviços de saúde, com certeza, deixará o “mosquito bem brasileiro” leve e solto. Sem ser incomodado, em pouco tempo, poderá reinar absoluto do Oiapoque ao Chuí.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 23 de maio de 2015

Link da Imagem: Blognapilha.wordpress,com

5 comentários:

eduardo medeiros disse...

Afinal de contas, por onde andou o tal mosquito até 81? E agora, em pleno século 21 padecemos de epidemias de dengue, o que é um absurdo. Este ano o mosquito deu uma pequena trégua aqui no Rio, e não tivemos epidemia, mas os casos ainda são altos.

É, Levi, parece que o mosquito se naturalizou mesmo.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Olá, amigos. Não sou da área de saúde, mas, tendo em vista que os problemas da dengue parecem não ter fim, será que essa doença já não poderia ser considerada hoje como uma endemia ao invés de epidemia?

Levi Bronzeado disse...

Dando uma olhada na bibliografia médica sobre o aedes aegypit, podemos constatar que a Organização Pan-americana de saúde e a OMS juntas coordenavam um eficiente programa de erradicação do mosquito em toda os países das Américas, no tempo em que as equipes de agentes federais da SUCAM faziam uma varredura pra valer na zona rural, controlando com mão de ferro e uma vigilância nunca vista, os focos do mosquito responsável pela transmissão da F. Amarela, assim como do mosquito Anopheles Gambiae, transmissor da malária. Foi a partir de 1980 - 81, que o governo central relaxou a vigilância sanitária nas regiões suscetíveis à proliferação desses tipos de mosquitos.

Agora, Eduardo, com o sucateamento dos Serviços de Prevenção das Doenças Infecto-contagiosas, a coisa degringolou, a tal ponto, que a Hanseníase e a Tuberculose que eram rigidamente controladas, inclusive com um organograma de visitas domiciliares de profissionais da saúde pública, supervisionados regularmente por infectologistas do Ministério da Saúde, estão atingido índices nunca vistos. A estadualização e a municipalização da saúde, que tiveram início na década de noventa, deixaram a área de saúde pública preventiva completamente abandonada.

Enquanto os responsáveis pelo “faz-de-conta” da ex-área de Saúde Pública continuarem brincando de medicina, o mosquito da Dengue continuará a reinar incólume em nossas terras. Infelizmente, esta é a realidade nua e crua.

Levi Bronzeado disse...

Quanto ao seu questionamento, Rodrigão

Não sou especialista em Saúde Pública. Mesmo assim vou dar o meu pitaco. (rsrs)

Entendo que a epidemia tanto pode ocorrer no nível municipal (atingindo todos os bairros) como em nivel estadual(atingindo muitas cidades) e inter-estadual. A epidemia leva em consideração a quantidade de casos por cem mil habitantes de uma determinada área. Já a endemia, não tem a ver com a quantidade de casos diagnosticados em determinado local e sim com a persistência de casos da doença em determinada região. Exemplo: há locais na região amazônica em que a dengue é endêmica.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Obrigado pelo esclarecimento, Levi.

Pior de tudo é sabermos que, no nosso Brasil, a corrupção continua endêmica.

Ótimo final de semana!