02 setembro 2015

O Teólogo e o Analista ― Ou “No Início era O Desejo”







Ao abordar o tema dos Desejos Humanos, o Teólogo e o Analista constroem, enfim, uma ponte sobre o vazio instalado entre a Psicologia e a Teologia. Agora, sempre que tiram férias na mesma época do ano, reservam alguns dias para atualizar suas conversações. Como filhos de pais religiosos fundamentalistas, beberam da mesma fonte, da mesma tradição. Jamais seus pais e avós poderiam admitir uma aproximação entre a Teologia e a Psicanálise. Seus preceptores consideravam que o diálogo entre essas duas instâncias era coisa do Diabo. Acreditavam que o psiquiatra ou analista da alma ao sondar as profundezas do devoto, estava lhe roubando o que denominavam Pai que está nos céus”.

Nesse encontro, o Analista e o Teólogo debruçam-se sobre o tema “Desejos”. Tomados por um reencantamento, se religam e fazem uma releitura para além da fixidez pétrea e literal dos signos bíblicos que o fundamentalismo religioso tanto prega e defende.

Teólogo:

Você, em suas argumentações, sempre reforça que a função do Analista se concentra na ausculta da pessoa, não no sentido de atender todos seus desejos, mas para esclarecê-los, deslocá-los do contexto da narrativa ouvida. Gostaria de saber mais sobre sua Ciência e sua relação com os desejos humanos.

Analista:

Primeiramente quero salientar que o campo de batalha em que trabalhamos é o mesmo da Teologia: a alma humana com suas idiossincrasias. Ou seja, por caminhos diferentes mas não excludentes, tratamos da incompletude do Desejo humano. Temos em comum o fato de ter por objeto a palavra trocada entre dois indivíduos.

Teólogo:

Entendo, entendo: trabalhamos com o mesmo material a palavra, o verbo. Em meus sermões adoro abordar o prólogo do evangelho de João. Vejo que ele diz muito da experiência advinda da mão dupla da palavra. Não sei se este prólogo tem alguma coisa a ver com a relação entre o analista e o analisando.

Analista:

Sobre o fenomenal prólogo grego a que você frisou, eu diria que, primeiro, veio o desejo para depois surgir a palavra. O “Verbo” do prólogo joanino alude ao desejo que, na análise psíquica moderna, Lacan conceituou “Desejo do Grande-Outro”. Desejo que nos fundou lá no início do nosso desenvolvimento e continua a agir nos encontros nossos de cada dia.

Teólogo:

Deixa eu refletir com os meus botões. Quer dizer que na sua concepção o prólogo ficaria assim: “No princípio era o Desejo, e o Desejo estava com Deus, e o Desejo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. […] E o Desejo se fez carne e habitou entre nós”. É, o desejo como centro de tudo, faz sentido. Como você explicaria a dinâmica do Desejo na figura de Cristo retratada nos evangelhos, uma vez que Ele como Filho, abdica de seu próprio desejo para se submeter ao desejo do Pai?

Analista:

De certa forma, o filho é objeto do desejo dos Pais. Ou seja, o filho é moldado e programado pelos seus pais, antes de tomar qualquer iniciativa como ser vivente. Antes de ter desejos, o filho, ainda em vida intrauterina, já é objeto de preocupação dos pais. Enfim, são eles que dão nome aos filhos para chamá-los de “seu”. A submissão ao desejo de um pai-poderoso que nomeia seus rebentos constitui a tônica nos processos iniciais do desenvolvimento humano. Esse Arquétipo Patriarcal (Deus da religião, o “Grande Outro” de Lacan, o Pai da Horda de Freud, o Numinoso e Transcendente de Jung), em nível inconsciente, nunca deixará de emitir suas ressonâncias na idade adulta do indivíduo. As entrelinhas da narrativa dos Evangelhos mostram um Messias, em seus últimos momentos, irremediavelmente separado do Pai. Pai que interdita o desejo da completude impossível presente no Filho. Mesmo no tormento de sua carne a caminho do Gólgota, esse Filho aspirava reencontrar em glória o corpo do Pai-Simbólico.

Teólogo:

Pelo que acabo de ouvir de sua parte, o signo “Pai-Poderoso” de que trata a religião, sob uma nova roupagem, aparece também em seu trabalho de ausculta do outro. Não é isso?

Analista:

É evidente que Ele aparece sob a forma de um arquétipo na realidade psíquica de meus pacientes!. Na minha opinião, o cristianismo é a religião que mais acentua o impacto da função paterna sobre o ser humano. A primeira identificação do filho é com o pai. Como o pai tem sua face amorosa e sua face aterrorizante, o filho vai herdar a ambivalência paterna (amor e ódio). Na verdade quando o filho se revolta, não é contra o pai, é sim contra sua face autoritária, que o infunde medo. Em suma, o que o filho quer, é não ser contrariado em seus anseios.

Teólogo:

Refletindo bem, não há como negar que o desejo do Filho (Cristo) na agonia da morte, não se coadunava com o desejo do Pai, a que você denomina de Arquétipo Patriarcal. Quer dizer, então, que Cristo abdicou de seu desejo, por um Desejo imperativo que jorrava de uma instância que vocês denominam, Psique, que tem para nós o significado de sede da alma?

Analista:

Desejos e contra-desejos são polos que fundamentam a ambivalência humana. Quanto a esse fenômeno, Cristo não foi diferente de nós. A Religião e suas có-irmãs, Filosofia e a Psicologia falam dos atributos da alma, cada instância com o seu modo peculiar de percepção. A alma vem de ânimus, que no latim e em todas as línguas que dela derivam tem o mesmo significado: “Aquilo que anima”. E o que anima o homem, por acaso, não é o desejo?

Teólogo:

Essa sua fala foi a senha para trazer à minha mente uma frase de Publius Ovídius Naso (43 a C.): “Teu destino é mortal mas não é mortal o que desejas”. Achei esta metáfora bem de acordo com a sua versão do prólogo atribuído ao apóstolo João: àquilo que nunca morre no sujeito é o “desejo que se faz carne para habitar entre nós”

Analista:

Em um de seus seminários, Jacques Lacan, que fez a releitura das obras de Freud, toma emprestado da religião a expressão O Nome do Pai para, diferentemente de Freud, sondar os conceitos teológicos da religião cristã aproximando-os do campo psicanalítico. Na figura paterna, que tem o poder de nomear, reside a força da Lei. É esta força que impede o sujeito de morrer de uma overdose de desejos. É permitido a ele apenas sonhar com o “desejo de ser completo”. Só o Desejo, que no início fundou a criatura humana, pode dizer: “Eu sou o que sou!”.

Teólogo:

Um desejo que fundou a criatura humana...”, aparentemente parece não fazer sentido. Gostaria de ouvir mais sobre esse desejo que não vem de nós.

Analista:

Toda a criatura é atravessada por um desejo materializado no corpo humano, e intermediado pela palavra. A Psicanálise corrobora com a essência do prólogo grego de João, na medida em que admite a existência de um desejo se sobrepondo à nossa vontade. Um desejo que se fez gerado em nossa carne mesmo antes de termos consciência.

Teólogo:

Se há um desejo paterno que nos condiciona, não podemos dizer que somos livres. Seria o caso de concluir que o ser humano está sempre vivenciando uma forma de escravidão?

Analista:

Liberdade no sentido absoluto do termo é uma ilusão. Quando meus analisandos, no calor das descobertas sobre si mesmo, dizem “eu tomei a livre decisão sobre determinado problema”, eu os levo a reflexão, fazendo a seguinte objeção: “Quando acreditamos que tomamos decisões livres, algo nos aconteceu que as orientou antes de agirmos”.

Teólogo:

A sua fala, dessa vez, fez evocar em mim uma expressão que sempre ouvia nos acalorados debates sobre a liberdade do homem, quando fazia Teologia. Acho que era “Servo-arbítrio”, uma obra de Lutero datada de 1525, onde refutava violentamente o livro “Sobre o Livre-Arbítrio”, de Erasmo de Roterdam. Discutia-se muito se somos “senhores do desejo” ou “servos do desejo”.

Analista:

E aí, a Dialética entre “o Senhor e o Escravo” de Hegel, levado para o campo das metáforas, interessa tanto a psicanálise quanto à Teologia, e cairia bem como tema de nosso próximo encontro.

Teólogo:

Ótimo! Sem dúvida, será um bom tema para nossas próximas férias.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de setembro de 2015

Site da Imagem: apsicologiaonline.com.br

3 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Muito bom seu artigo, Levi. Parabéns!

De fato, se pensarmos bem, a Teologia nada mais é do que uma linguagem e que se encontra tão relacionada com a Psicanálise da mesma maneira que a Matemática e o Português. Mas na atualidade, todas as ciências precisam buscar palavras comuns para que haja uma produtiva comunicação com boas trocas de conhecimento, sendo certo que cada qual diz a mesma coisa com palavras diferentes...

Mas vamos ao desejo, o qual, na sua essência podemos considerar como incorruptível. Só que, em razão do contra-desejo e das limitações externas, nossas ações acabam sendo corrompidas. Aí as interferências das influências dos pais sobre os filhos podem mesmo viciar o exercício da vontade. Esta, porém, vai sendo aos poucos descoberta quando fazemos uma auto-avaliação consciente.

Penso ser preciso distinguirmos a vontade dos nossos pais/tutores/educadores do que podemos chamar de "vontade divina". Esta seria o ideal, aquilo que é melhor para nós e para a nossa vida em comunidade. Considero-a como a harmonia e o equilíbrio. Não chegamos a alcançar, mas precisamos dela nos aproximar para sermos mais livres e cada vez menos escravos.

Sendo um pouco mais prático, acho que a pergunta sobre o que de fato queremos pode servir de grande ajuda para melhor nos direcionarmos nesse diálogo com nossa alma ou psiquê. Afinal, por trás de cada decisão ou ação involuntária existe o desejo por algo assim com o os objetos também seriam coisas representativas do que na verdade desejamos. Daí nunca a matéria ser capaz de nos satisfazer já que lá no fundo desejamos o imaterial.

Levi Bronzeado disse...

Do seu significativo comentário, Rodrigo, me chamou especial atenção a sua colocação, replicada abaixo:

“Penso ser preciso distinguirmos a vontade dos nossos pais/tutores/educadores do que podemos chamar de vontade divina. Esta seria o ideal...”

Mas é sobre o imaginário “Pai Ideal” que tanto a Psicanálise quanto a Teologia se debruça, cada instância falando a seu modo desse arquétipo que o Teólogo, e Analista, Jung, dizia ser universal, pois existia em todas as religiões.

Muito antes de Jung definir esse “Arquétipo Paterno” presente no inconsciente coletivo, Espinosa, já falava de Deus como a Substância Universal. Sem saber, estava dizendo o mesmo que Ernest Jung, mais tarde, iria enunciar nos profundos estudos que realizou da Psique. Dizia Espinosa

“Somos apenas modos (desejos) desse ser, infinito, necessário e absoluto” A palavra desejos, entre parêntesis, é grifo meu. (rsrs)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Bom dia, Levi.

Como se vê essa necessidade do homem quanto ao que chamou de "Pai Ideal" seria um forte indício da existência de Deus descoberto por um ramo da ciência que é a Psicanálise.

Acredito que qualquer estudo pelo qual o homem se inicia, ele pode elevar-se até seu Criador. As Sagradas Escrituras da humanidade não podem jamais se restringir ao limitado cânon bíblico de uma religião, ainda que encontremos na Bíblia um verdadeiro manancial de sabedoria e conhecimento espiritual. Todavia, Deus também "fala" quando estudamos outras literaturas, a natureza, a mente humana, nossa história, a sociedade, os pensamentos dos sábios, etc.

Seja como for, há sempre que distinguir as vozes dos homens da de Deus. Mesmo na Bíblia Sagrada há inúmeros valores que são meramente culturais coexistindo com o divino, sendo que não se alcança a compreensão espiritual das coisas apenas pela teologização. Há que se exercitar a reflexão pessoal, o auto-conhecimento e uma busca reverente pela sabedoria que desce do alto.

O homem, mesmo tendo domínio sobre os animais, sente-se limitado para compreender o Universo e se conduzir nos caminhos da vida. A realidade é, sem dúvida, muito maior do que nós. Por isso temos a necessidade de buscar o conselho de uma Inteligência Superior - Deus. E como ainda continuamos a nos meter em encrencas, necessitamos da instrução e da orientação do Senhor.

"E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que te ordeno hoje para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os dias na terra que o Senhor teu Deus te dá para todo o sempre." (Deuteronômio 4:40)

Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir. (Deuteronômio 30:16)

Ótimo feriado!