27 fevereiro 2015

Reminiscências do Rio de Janeiro — Nos Seus 450 anos




Domingo próximo (01 de Março) o Rio de Janeiro estará comemorando seus 450 anos de fundação. Foi na cidade maravilhosa que passei todo o ano de 1972, realizando Residência Médica (pós graduação em Ginecologia) no maior Hospital da América Latina —, o Souza Aguiar, privilegiadamente situado de frente para a bucólica Praça da República (Centro do Rio). Tempos bons àqueles, que não se ouvia falar em violência, drogas, tráfico, etc.

Diferentemente de hoje, a paz era coisa muito habitual na cidade cartão postal do Brasil. Quase todo final de semana saía do Hospital caminhando à pé por mais ou menos uns três quilômetros, para assistir a última sessão dos filmes mais badalados — nas espetaculares salas de cinemas da famosa e bela Cinelândia. Lembro que um dos filmes chegou a fazer uma fila de mais ou menos cem metros: foi o “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola. Após conferir as sessões de cinema, voltava tranquilamente caminhando pelas calçadas do Largo da Carioca, entrando na avenida Mem de Sá, passando pela Tiradentes, Quartel do Corpo de Bombeiros, e  o restaurante Português " O Lisboeta". Lembro que chegava ao quarto andar do Hospital (destinado a residência dos médicos-estagiários) já no início da madrugada, sem medo de ser abordado por transeuntes que cruzavam o meu caminho. Parece incrível, mas, durante toda minha estada nessa cidade nunca presenciei um assalto, briga, ou qualquer outro tipo de violência.

Recordo que nunca perdia os clássicos do meu time (Fluminense) com os rivais, Flamengo, Botafogo e Vasco. As partidas entre esses grandes clubes ocorriam sempre às tardes de domingo. Vestido com a camisa tricolor, com um radinho de pilha ao ouvido, lá estava eu no meio da galera do velho Maracanã, sob uma nuvem intensa de pó de arroz, aplaudindo, eufórico, os craques do Clube das Laranjeiras (Félix, Jair Pereira, Gerson canhotinha de ouro, Denilson e Lula, entre outros).

A FOTO que repliquei no topo do texto é do Hospital Estadual Souza Aguiar. Na rua, defronte a sua entrada, o Cordão do Bola Preta, em sua estréia no Carnaval, fazia  percurso obrigatório, com uma parada de vinte minutos para a alegria de funcionários e doentes que se espremiam nos janelões dos seis andares do enorme nosocômio, a fim de assistir a Folia em sua homenagem, oferecida pelo tradicional bloco carnavalesco. Naquele tempo, os desfiles de escolas de samba eram realizados na Av. Presidente Vargas, há poucos metros do Hospital. As arquibancadas de madeira eram instaladas quatro ou cinco dias antes do sábado de carnaval.

A Escola de Samba campeã naquele ano (1972) foi a Império Serrano, com o belíssimo e esfuziante samba, “Alô Alô, Taí Carmen Miranda”.

Para conferir esse memorável samba, é só clicar no vídeo abaixo:



Por Levi B. Santos. - Guarabira, 27 de fevereiro de 2015

08 fevereiro 2015

Ambivalência do Homem e de Seu “Deus”



Pelo que me consta, a palavra, ambivalência, foi usada pela primeira vez por Eugen Bleuler, psiquiatra suíço (1857 —1939), e tinha a ver com atitudes e comportamentos contraditórios ou dúbios presentes na psique dos indivíduos. Esse termo, posteriormente, foi redefinido por Freud, como afetos contraditórios, tipo amor/ódio, projetados pela pessoa em um mesmo objeto. Freud observou em suas longas e profundas análises que, primitivamente, os impulsos amorosos e hostis foram dirigidos ao pai natural no período da tenra infância do sujeito.

O menino Sigmund, filho de Jacob (grande conhecedor da Torah) nutria pelo pai um respeito comovente e ao mesmo tempo uma espécie de frustração, ao vê-lo incompetente e imprevidente em seus negócios. Poderíamos, por esse ângulo, concluir que ele possuía afetos ambivalentes de amor e ódio com relação a seu pai. Esses sentimentos ambíguos presentes em Freud no tempo de sua meninice, dentro de seu imaginário de fundo religioso passaram a ser projetados no Deus todo poderoso dos Judeus. Na tradição judaica não havia como o homem pensar em Deus sem transferir a ambivalência (percepção de afetos opostos) para uma entidade paterna adorada, temida e impronunciável, como as Escrituras Sagradas fazem ver na epopéia do líder político-religioso e suposto fundador do Estado Hebraico, Moisés. O homem que conta a história de Javeh, inconscientemente (ou em linguagem mítica), transfere sua ambivalência (características dúbias) para seu Deus, ambivalência esta que, no mito, é representada pelo “poder de criar o bem e o mal, a partir de Si”.

O Mito evidencia que para funcionar o plano divino de um Deus ambivalente, necessário se fazia criar a figura do Diabo.  Mas aí é que surge o grande problema: na mente do crente, uma barreira intransponível se interpõe, pois, segundo Jung, “...Javé, moralmente ambíguo, tornou-se um Deus exclusivamente bom, e, contrapondo-se a ele, o demônio reunia todo o mal em si.  Jung, na verdade, percebia que o homem religioso ocidental,   recalcava defensivamente para as profundezas de seu inconsciente o que em si o perturbava, sem perceber que nessa idealização estava dividindo sua divindade moral em duas. Como meio de evitar o desprazer, reprimia ou projetava no OUTRO seu próprio lado diabólico.

O insaciável desejo humano de expulsar de si àquilo que mais repudia ou de romper com o pólo obscuro da ambivalência está bem simbolizado na história mítica do Gênesis bíblico, quando Javeh expulsa de Si ou do seu séquito o rebelde Lúcifer (e seus numerosos anjos), que Lhe fazia oposição dentro de sua morada celestial.

Mais de duzentos anos antes do aparecimento do conceito psicanalítico “ambivalência dos afetos humanos” refletida em um Deus, Baruch de Espinosa no seu denso “Tratado Teológico-Político”, publicado em 1670 (página 27), já falava da ambiguidade presente nos sentimentos dos hebreus projetados na figura de Javé: “...a Escritura costuma descrever Deus à semelhança do homem, atribuindo-lhe mente, vontade, paixões, até mesmo um corpo e um hálito, assim também utiliza muitas vezes espírito de Deus por mente. [...] a própria revelação de Deus variava de profeta para profeta, conforme o seu temperamento, a sua imaginação, e suas opiniões. Se o profeta estava alegre revelavam-se-lhe as vitórias; se pelo contrário, ele era macambúzio, revelavam-se-lhe guerras, suplícios e todos os males.”

O pensamento de Espinosa a respeito do Deus dos Judeus, transportado para os dias atuais, seria explicito, mais ou menos, dessa forma: a “imago-dei” percebida pelo fiel em sua psique resulta do estado emocional em que se encontra, ou seja, o que ele  percebe como um ser sobrenatural extra-corpóreo (que premia e também castiga) pode tanto lhe fornecer uma sensação de completude beatífica, como um sentimento de culpa, de derrota ou frustração.

Jung, por sua vez, afirmava: “...esse duplo aspecto da imagem do pai é característico do arquétipo em geral: é capaz de efeitos diametralmente opostos e atua na consciência como Deus se comporta para com , isto é, de modo ambivalente.” De certa forma, essa ambivalência, em ricos elementos metafóricos, está bem demonstrada no Mito da Criação, quando um Deus coloca no meio do seu jardim, a árvore do mal e do bem. Em seu livro, “Resposta a Jó”, Jung faz ver que a divindade (monoteísta?) é ambivalente, pois em si, contém tanto o lado diabólico (o lado escuro ou de sombra) quanto o reluzente ou benéfico. 

Sabemos o quanto é difícil, senão impossível, o homem descrever a história de um Deus (atuante em si) sem projetar Nele seus afetos ambivalentes ou contraditórios. Às vezes, para não ser esmagado pelo peso da ambivalência, o homem projeta o seu lado mal, obscuro ou de sombra, no outro (até nos amigos ou familiares), ou até mesmo em si, quando, de boa fé, diz: “Que diabo tomou conta de mim para fazer tal coisa?”

A ambivalência dos afetos em Saulo de Tarso, apóstolo fundador do cristianismo, era percebida como uma espécie de luta no ar entre potestades diabólicas e divinas. O conflito interno que ocorria dentro do seu palco mental, era compreendido (de forma mítica) como forças externas personificadas do mal e do bem a se confrontarem nos lugares celestiais. Com a descoberta do inconsciente tornou-se evidente que as características ou afetos que julgamos inaceitáveis em nós, por um mecanismo de defesa psíquico, são projetados em figuras tidas inferiores, como bodes, capetas, cobras, diabo, hereges, etc.

Zigmunt Baumann, em “Vida em Fragmentos: Sobre ética pós moderna”, para mostrar que a ambivalência faz parte da condição humana, alude a cena primordial da ambivalência experimentada lá atrás, nos primórdios de nossa existência e sua correlação com o nosso comportamento de adulto, hoje. No dizer desse escritor, “o projeto moderno postula um mundo de ambivalência moral". Para esse polêmico sociólogo, a Moral é contingente e ambivalente, pois flui da incerteza dos desejos humanos. Em O Mal-Estar da Pós Modernidade” (página 90), Zigmunt faz uma afirmação emblemática com relação à constante ambivalência humana que perpassa o nosso universo, e que na mente do religioso adentra o âmbito dos deuses: “...tudo a ganhar, nada a perder por se ter o conhecimento da endêmica e incurável ambivalência, e por se abster de uma cruzada antiambivalência (afinal, suicida).”

Ao invés da luta inglória que tenta santificar e demonizar os afetos que compõem a nossa ambivalência, seria bem mais produtivo, se usássemos a Parábola relatada nos evangelhos sobre o “Joio e o Trigo” para compreender e admitir que em nossas atitudes e racionalizações ora somos “trigo”, ora somos “joio”.



Por Levi B. Santos

Guarabira, 08 de fevereiro de 2015

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