07 janeiro 2016

Festa de Reis e Outras Reminiscências de Alagoa Grande (PB)

Teatro Santa Ignês – Alagoa Grande - Pb



No meu tempo de menino, em Alagoa Grande – Pb (emancipada em 1865) o dia de Reis (06 de janeiro) era muito comemorado. O meu torrão natal era um centro adiantado em indústrias de beneficiamento do sisal, do algodão e possuidor de um comércio pujante. Para lá convergiam gentes de todas cidades das redondezas, inclusive de Campina Grande (hoje, o segundo maior centro populacional da Paraíba). Nos dias de festa, como o da Folia de Reis, a cidade se engalanava e o colorido festivo tomava conta de todos os recantos de suas ruas, vielas e ladeiras.

Não tínhamos hotéis, mas tínhamos pensões para acomodar os visitantes que vinham passear de “teco-teco” (aviões rústicos, para duas pessoas) que alçavam voos de um campo de pouso ao lado da lagoa do Paó (centro de cidade) A lagoa, na parte de contato com o centro da cidade, era murada e ponteada por luminárias de estilo barroco. Barcos à motor, nos finais de semana, singravam sobre águas tranquilas. Cada barco levava quatro ou seis passageiros para um breve passeio. Pais e mães com suas crianças se esbaldavam nos famosos parques de diversões. Vagões de trem de primeira classe(os mais luxuosos) e de segunda classe, traziam turistas das cidades de João Pessoa, Sapé, Bananeiras, Santa Rita, até do Recife e do Rio Grande Norte. Tínhamos hipódromo e uma bolsa de aposta para os que acertassem no cavalo/cavaleiro campeão. O rei do forró, Luiz Gonzaga era presença obrigatória nesses festejos. O Rei do Baião, em um caminhão improvisado de palanque, também participava de comícios dos partidários do PSD e da UDN, nas campanhas para prefeito municipal. E por falar em política, não me sai da lembrança o grandioso comício do candidato à presidência da República pelo PSD, Juscelino Kubitscheck, realizado em 1955 na praça D. Adauto (centro da cidade). O Alagoagrandense Jackson do Pandeiro, não cheguei a conhecer pessoalmente. É que nessa época, ele já tinha debandado para fazer sucesso no Rio de Janeiro. De suas mais de duzentas composições musicais, o Canto da Ema, e Sebastiana são as mais cantadas entre a nossa gente.

Lembro que o prefeito Telésforo Onofre (o popular Seu Telécio), como a maior autoridade da cidade, era reverenciado como se fosse um rei. Quer nas ruas, nas feiras ou em solenidades, lá estava com seu chapéu da marca Prada, portando sempre um impecável terno de linho branco importado e gravata de seda autêntica. Sua residência era a maior e mais bela da cidade, e tinha toda a extensão de sua frente revestida de azulejo português, como se conserva ainda hoje.

O dia de Reis (ontem), trouxe-me algumas reminiscências culturais. Como deixar passar batido, as retretas da Filarmônica Municipal, nas noites de sábado no famoso coreto, vizinho ao prédio dos Correios, onde sobre a relva da praça me deleitava ouvindo os dobrados, as polcas, valsas e boleros que, vez ou outra, sob a forma de assovios, extravasa dos arquivos meio entravados de minha memória? Como deixar de ressaltar, nessa hora, o famoso Teatro Santa Ignês, palco de peças que estavam em evidência internacional nessa época. Conta o historiador José Avelar Freire no seu livro “Alagoa Grande Sua História” [Ideia Editora - edição 1998], que em 1905 uma companhia tetral francesa, veio fazer três apresentações no Brasil (Pelotas-RS, São Luis – MA e Rio de Janeiro), ocasião em que o deputado federal Apolônio Zenaide, radicado em A. Grande, num feito extraordinário, acabou por trazer o  grupo teatral francês para uma apresentação no  Teatro Santa Ignês de apenas poucos meses de inaugurado.

A história da professora de piano do Conservatório Musical Antenor Navarro – João Pessoa, Júlia Nóbrega, que aqui erradicou-se aos 4 anos de idade, confunde-se com a história cultural de Alagoa Grande (Vide Link). Foi no colégio das irmãs Doroteias que ela aprendeu a arte de se expressar no piano. O gosto por esse instrumento inebriou os corações dos primeiros intelectuais a aportarem em nossa terra. Tanto é que no meu tempo de estudante ginasino, o piano importado da Europa era exibido nos principais salões das residências de famílias tradicionais, como os Montenegros, os Nóbregas, os Zenaide de Albuquerque.

Para matar a saudade recorri ao Youtube. Na ânsia de encontrar algo interessante da velha Alagoa Grande do Paó, deparei-me com uma pérola de gravação, onde o historiador da cidade, José Avelar Freire, desfia o novelo de recordações do tempo de minha meninice, em que eu era feliz e não sabia. Com os devidos créditos à TV Itararé de Campina Grande (Programa Diversidade), replico o vídeo, aqui, no meu recanto do Google:





Por Levi B. Santos
Guarabira, 07 de janeiro de 2016

Site da Imagem: jornaldaparaíba.com.br

2 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Boa tarde, Levi.

Sem dúvida são tradições que não podem ser apagadas da memória e precisam ser cultivadas. Aliás, se naqueles tempos já trazia um turismo para a cidade, mesmo sem haver pousadas, imagine na atualidade em que muitos milhares de estrangeiros desembarcam anualmente no Nordeste brasileiro?!

Aqui no Sudeste, essa tradição anda bem enfraquecida. Eu mesmo, quando criança, só aprendi sobre a Folia de Reis nos livros estudantis. Jamais cheguei a assistir uma!

Levi Bronzeado disse...


Quando criança, Rodrigão, não carregava tantos fardos pesados impostos pela religião. Extasiáva-me com a Folia de Reis, com o Carnaval, e as festas juninas sem sentimento de culpa, apesar de meus pais pentecostais, naquele tempo, considerarem estes folguedos coisa do capeta (rsrs)