12 janeiro 2016

O Poder do Mestre em Xeque






O que seria do Mestre ou Sábio se de repente perdesse sua plateia?

Clamaria ele num deserto, como fez o personagem bíblico, João BatistaSe bem que a voz do profeta em pauta ecoava em um deserto metafórico representado pelos ouvintes incrédulos que não davam valor devido à sua curta e insistente mensagem. Segundo os evangelistas o próprio João Batista, a quem o Messias se referiu que entre os nascidos de mulher tinha sido o maior, não se considerava digno de desatar as sandálias Daquele que viria após ele. Por denunciar a perversão de Herodes Antipas (filho de Herodes, o Grande), o profeta-mensageiro que se alimentava de gafanhoto e mel silvestre, foi degolado. Nem mesmo o filho de José, o carpinteiro da Judeia, cognominado de Redentor, teve a ousadia de se considerar mestre, porque o mestre primevo é sempre o pai simbólico, aquele que ordena e é portador da função estruturante do sujeito. Diante de um adepto que o chamava de "Bom Mestre" o filho de José respondeu: “Ninguém é Bom senão meu Pai que está nos céus”. Recorramos aqui, a linguagem psicanalítica que define “ceus” como arquétipo universal —, representação maior do conteúdo inconsciente da psique do religioso.

O sábio ou o mestre, em seus discursos, é aquele que está sempre na posição de dominante em relação a seus discípulos. Aquilo que o “mestre”, sujeito portador de um suposto saber anuncia, tem o poder simbólico de um mandamento sobre o interlocutor que embevecido lhe assiste. Reconhecemos que a razão do mestre existir se deve ao outro(ou os outros), ou o “universitário”, como fez ver Lacan, em O Avesso da Psicanálise”. O que já acontecia na dialética hegeliana “O Senhor e o Escravo”: o discípulo, no entender de Hegel, substitui o “escravo” que serve a seu Senhor. Entretanto, aquele que está na posição de dominado ou dependente nunca deixa de sonhar com o dia em que também poderá ser igual ou melhor que seu superior e protetor.

Mas essa dialética entre dominante e dominado é dinâmica. O que anda acontecendo na pós modernidade mostra o mestre com seu poder em xeque onde um poderoso(pai) se torna um patriarca mutilado, na medida em que é desafiado em seu “todo poder”, por um ex-dependente (filho) que sabe que não sabe, mas pode um dia saber mais do que o pai. Para ressaltar o ocaso da autoridade paterna (e consequentemente do Mestre), a historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, radicada na França, em seu livro, “A Família em Desordem” (Jorge Zahar Editor – página 104)) sobre o enfraquecimento do poder patriarcal, cita algo emblemático: “Em 1970, com a supressão 'chefe de família' a própria noção de poder paterno é definitivamente eliminada da lei. Doravante o pai divide com a mãe o poder sobre o filho, e suas antigas prerrogativas já fortemente abaladas nas décadas recentes, ficam praticamente reduzidas a nada”.

O desenvolvimento científico, hoje, dá ao filho (ou discípulo) condições de naturalmente superar o pai ou o mestre, com uma grande e negativa diferença, ou “um porém”: o filho é impedido do gozo de que se servia o patriarca antes todo poderoso. O discípulo, na verdade, não se emancipa, antes continua sendo objeto de gozo, agora, de um Mercado Científico substituto do antigo Senhor. Como diria Lacan, o discípulo não se safa, ele continua como um sujeito barrado no gozo do todo poder.

A procura incessante do Saber, que confere poder, hoje, tem sido fonte de rebelião contra tudo que é fixo e normativo nas instituições paternalistas autoritárias. Sobre o tempo da onipotência paterna autoritária, Simone de Beauvoir faz uma oportuna menção em seu livro, “Todos os Homens são Mortais” (página 204): “Eu tinha um filho… escolheu morrer porque eu não lhe deixara outro modo de viver. Tinha uma mulher, e, porque lhe dei tudo, morreu viva.”

Antes, o desejo do discípulo (ou escravo em Hegel) era direcionado para ser apenas objeto de gozo do seu Senhor. Agora, o Sábio não tem poder absoluto sobre aquilo que ensina. O Neoliberalismo, em parte responsável pelas mutações sociais da contemporaneidade, reforça o discurso de rebeldia da juventude, que teve na Revolução Francesa, seu núcleo paradigmático. É o que Lacan parece fazer ver em seu seminário, “O Avesso da Psicanálise”. No dizer do filósofo e psicanalista de linha lacaniana, Vladimir Safatle, em seu recente livro, “O Circuito dos Afetos” (página 194): “no estágio atual do capitalismo, temos um deslocamento dos regimes disciplinares e de controle que pode ser esclarecido se nos atentarmos à forma peculiar como identidades subjetivas são hoje produzidas.” A queda do discurso do mestre com sua coerência pétrea, no liberalismo, deu lugar a um individualismo possessivo. No apagamento psíquico do pai simbólico presente na pessoa do antigo mestre, o discurso universitário passou a absorver conteúdos de natureza mercantil corpos não mais para pensar, mas para servir a um ideal empresarial de sociedade. Safatle, repercute o pensamento de Jacques Lacan, quando diz que estamos vivendo uma época de “racionalização empresarial do desejo”.

O dilema insolúvel continua, deixando os alunos sem saber em qual dos galhos se agarrar sem sofrer sérias consequências: Há escolas em que o aluno é estimulado a repetir o que o seu mestre recomenda, como há escolas em que os alunos consideram esses mestres retrógrados. No último caso, como ovelhas desgarradas, tentam se emancipar mas são inapelavelmente envolvidos e dominados pelos conceitos sutis de satisfação hedonista da sociedade de consumo. Vivemos então esses dois extremos de uma ambivalência destrutiva. Perdemos o referencial simbólico paterno para nos tornar aquilo que Vladimir Safatle tão bem denomina de “empresários de si mesmo”.

O temor de perder o status social e ser punido por não se adaptar ao racionalismo econômico, fez do cérebro humano um mero receptáculo para guarda de uma infinidade de informações. Com o psiquismo congestionado pelo que se pode mensurar comercialmente, o aprendiz sucumbe em um mar de competições absurdas, sem que tenha tempo de refletir sobre o destino de seu corpo, exposto como uma coisa ou objeto em prateleiras e vitrines.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de janeiro de 2016   


11 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia Levi,

Em seu ensaio, O poder do Mestre em xeque onde está escrito: (Segundo os evangelistas o próprio Cristo, não se considerava digno de desatar as sandálias do Grande João Batista, que por denunciar a perversão de Herodes). Não seria o contrário? João é que não se considerava digno de desatar as sandálias de Jesus.

Mateus 3-11 Eu os batizo com água para mostrar que vocês se arrependeram dos seus pecados, mas aquele que virá depois de mim os batizará com o Espírito Santo e fogo. Ele é mais importante do que eu, e não mereço a honra de carregar as sandálias dele.

Marcos 1-7 Ele dizia ao povo: – Depois de mim vem alguém que é mais importante do que eu, e eu não mereço a honra de me abaixar e desamarrar as correias das sandálias dele.

Lucas 3-16 Mas João disse a todos: – Eu batizo vocês com água, mas está chegando alguém que é mais importante do que eu, e não mereço a honra de desamarrar as correias das sandálias dele. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo.

João 1- 26 e 27 João respondeu: – Eu batizo com água, mas no meio de vocês está alguém que vocês não conhecem.
27 Ele vem depois de mim, mas eu não mereço a honra de desamarrar as correias das sandálias dele.

Um fraternal abraço,
Abismael
abismael@ema.mar.com.br

Levi Bronzeado disse...

Caríssimo primo e amigo, Abismael

Antes de qualquer coisa quero desejar a você e família um 2016 melhor que 2015.

Sua intervenção foi providencial. Um crente de fé, diria: “Foi Deus!” (rsrs)

“Troquei as bolas” — Como popularmente se diz aqui por nossas áridas terras.

O certo seria ter escrito: Apesar de Cristo ter dito que entre os nascidos de mulher não
tinha aparecido alguém maior que João Batista
(Mateus 11:11), o profeta que comia gafanhoto com mel silvestre, não aceitou ser maior do que aquele a quem anunciava, quando assim se referiu: “não sou digno de desatar Suas sandálias”(Mateus 03:11).

Farei, de imediato, a devida correção no texto, graças a sua preciosa e oportuna intervenção. (rsrs)

Espero que apareça mais vezes aqui nesse recanto, para evitar que eu troque alhos por bugalhos em minhas divagações, principalmente a respeito de citações bíblicas que não domino muito bem. (rsrs)

Mas voltando ao escopo do ensaio, o que é que você tem a dizer sobre o ocaso do poder dos pais da pós-modernidade, e por tabela, do declínio dos mestres diante de alunos atraídos por uma avassaladora mídia mercantilista.

Um grande abraço.

Anônimo disse...

Prezado Levi,

Que Deus o ilumine em 2016 com a esperança de dias melhores, momentos especiais junto a família e ensaios brilhantes nesse blog. Com relação a sua pergunta, penso que às vezes parece que o mundo está de pernas para o ar. Creio que a educação recebida dos pais e das escolas, os valores como ética, moral e caráter, a religião, a solidez do casamento e da família, estão perdendo espaço para novas formas de comportamento regidas pelas leis do mercado, do consumo e do espetáculo. Vive-se numa época de grande egoísmo, de muita maldade e de pouca solidariedade. Vivemos tempos de alta competitividade guiados pela lógica da acumulação de bens e das aparências. Os indivíduos se permitem agir passando por cima de valores que sequer chegaram a formar. O que importa é ser reconhecido, ser admirado, ter acesso a uma infinidade de produtos e serviços e usufruir o máximo do prazer. E para isso, tudo é válido. Mas afinal, que tempos são esses em que as pessoas passam umas por cima das outras, sem qualquer constrangimento ou culpa, em busca de dinheiro e poder? Será que é possível encontrar uma luz no fim do túnel e ter esperança nesse cenário? Nesse cenário creio que não, mas no livro de Hebreus 6-17,18 e 19 diz: 17 Deus quis deixar bem claro aos que iam receber o que ele havia prometido que jamais mudaria a sua decisão. Por isso, junto com a promessa, fez o juramento.
18 Portanto, há duas coisas que não podem ser mudadas, e a respeito delas Deus não pode mentir. E assim nós, que encontramos segurança nele, nos sentimos muito encorajados a nos manter firmes na esperança que nos foi dada.
19 Essa esperança mantém segura e firme a nossa vida, assim como a âncora mantém seguro o barco. Ela passa pela cortina do templo do céu e entra no Lugar Santíssimo celestial.

Um fraternal abraço,

Abismael

Levi Bronzeado disse...


Caro Abismael

Meus sinceros agradecimentos pelos votos de esperança de dias melhores em 2016, apesar da guerra de EGOS no mundo dos poderes, e da intenção da Operação Lava-jato, que a mim parece, é a de não deixar ninguém em pé, lá por cima, em Brasília (rsrs)

Mas, voltando ao texto postado, cujo título é provocador, na medida em que apresenta o declínio da função do Mestre, como portador de um suposto saber, imaginado como “só seu”. O “Ato Falho”, segundo Freud, como produto do INCONSCIENTE tem seu significado, mas prefiro dizer que ele me traiu ao colocar nos pés de João Batista as sandálias de Jesus.(rsrs).
Mas veja onde eu queria chegar ao me referir ao título “Bom mestre” endereçado ao Messias e por ele recusado de forma veemente.

Eu me baseei no Messias descrito nos evangelhos. De certa forma, Ele recusou o título de Bom Mestre oferecido à moda da sociedade judaica daquele tempo. E a minha argumentação foi nesse sentido: o de mostrar que o filho, de hoje, inserido em um mundo globalizado pode até se considerar “mestre” na sociedade do senhor-mercado, mas não na acepção psicanalítica e religiosa do termo. Como bem assinalou Vladimir Safatle no trecho do ensaio que abaixo replico:

”Perdemos o referencial simbólico paterno para nos tornar “empresários de si mesmo”.

Contudo, o pai à antiga, apesar do declínio proclamado pela sociedade do TER e não do SER, continuará emitindo suas ressonâncias, exteriorizadas sob a forma de um mal estar civilizacional em todas as nações, agora, globalizadas em torno do “Deus Mercado”.

O Messias dá uma sábia resposta, em tudo semelhante ao pensamento da Psicanálise contemporânea: Ele se refere ao Pai, como o verdadeiro mestre. Tudo emana desse pai simbólico internalizado em nosso inconsciente.




eduardo medeiros disse...

Não vou nem entrar na polêmica dos estudos sobre o Jesus Histórico de que essa exaltação toda do Batista ao seu primo é coisa das primeiras comunidades cristãs....rs

Levi Bronzeado disse...


Na falta da narrativa de um Jesus histórico,Eduardo, vai aqui, replicado, um trecho da postagem, "O Filho de José" que publiquei no "Ensaios&Prosas" em maio de 2010:

"De há muito, o futuro messias vinha notando que só o seu amigo Mateus falava com tanta convicção, enfatizando “Tua mãe e teu pai”. Dessa vez Jesus tomado de coragem, resolveu perguntar se ele acreditava que José era seu pai mesmo.

─ Mateus, me diga sinceramente: Tu acreditas que José é meu pai de verdade?

─ É claro meu camarada. Como é que tu não és filho de José, se tens uma cara igualzinha a dele. Faz aí um sorriso para Lucas ver! ─ disse Mateus em tom zombeteiro, pois o jeito de rir do futuro messias era inconfundivelmente semelhante ao do pai.


Mesmo que o relato acima (com um Jesus ambivalente e bem biologicamente humano) estivesse presente nos evangelhos apócrifos, teria ficado esquecido na poeira do tempo. Pois, como vingar uma descrição de tal quilate, sem os dogmas do nascimento virginal e da ressurreição que sustentam o cristianismo até hoje? (rsrs)

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Bom dia, Levi.

Lembrando um pouco do saudoso Paulo Freire e deixando de lado os vícios desse capitalismo, a boa tendência é que o "mestre" também se disponha a aprender com o "discípulo". Não concorda?

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Acho que o novo pai da atualidade tende a virar um amigo do filho. Nos tempos de Jesus, o pai era uma figura distante que, diferentemente do pai do pródigo (da parábola), não era capaz de beijar ou de abraçar o filho. Hoje, o pai inteligente prefere deixar sua antiga posição para se por mais próximo dos demais entes da casa sabendo que a vida é curta e ele não quer perder os benefícios da boa convivência. Claro que nem todos pensam assim. Há os que fazem do filho uma propriedade...

Adenilde Andrade disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Levi Bronzeado disse...


Caro Rodrigão


Primeiramente, quero lhe desejar um venturoso 2016, mesmo com os “deuses subterrâneos” de Brasília, tramando contra. (rsrs)

Voltemos, agora, ao tema postado.

Os netos de hoje, com apenas dois anos de idade, já sabem mexer no smartphone. Há um ponto positivo nisso e um negativo. O positivo é que ele tem, ainda imaturo, acesso a um mundo de informação sem limites e se prendem muito ao mundo midiático das imagens.

O ponto negativo é que estão ficando adultos sem passar pela fase juvenil. A ambição juvenil, de certa forma, antecipa o sofrimento existencial que deveria vir mais tarde.
No fundo, no fundo, os filhos, como mostrei no ensaio postado, nunca deixarão de ser os ramos. Os pais, pelo menos em nível simbólico, permanecerão como o Tronco da árvore, que representa os fundamentos primeiros que estão na base de tudo que é objeto do mundo da pós-modernidade.

No final de tudo, como na história de Joshua, o filho se rende à vontade de um pai simbólico, nem que seja no plano inconsciente. O pai, assim como os nossos antigos mestres, serão sempre a matriz básica de onde tudo emana. A coisa é tão sutil que, na maioria das vezes, não percebemos, mas como fez ver Lacan e Safatle: em nossas reações, nossos relacionamentos, nossas argumentações, desejos e paixões, enfim, em nosso CIRCUITO dos AFETOS há muitas ressonâncias ou ecos dos nossos pais. Estamos, como filhos, sempre reinterpretando alguns conceitos presentes nos discursos de nossos mestres e pais. Há sempre uma força motriz inconsciente a nos influenciar.

Os jovens de hoje são consumidos por um desejo de algo novo. E, como eu disse no ensaio “Virtualmente Livres”, em fevereiro de 2011 nesse blog:

No entanto, terminamos por ceder a um “senhor mais forte”, que nos oferece o antigo fio em que nos quedamos escravos. Nossas autobiografias, caso retrocedessem a nossos  ancestrais, poderiam nos fazer ver de que forma eles foram escravizados, e até que ponto nos libertamos dessa herança. Veríamos que não somos nós que falamos; dentro de nós há muitas vidas. Muito de nossa ancestralidade grita através de nossa garganta. Caminhamos em um círculo, onde tudo que vemos e que racionalizamos como novidade, já foi passado.

Em linguagem psicanalítica, o trecho abaixo, que pincei do artigo ora postado, corrobora com o que acima tentei evidenciar:

 “O discípulo, na verdade, não se emancipa, antes continua sendo objeto de gozo, agora, de um Mercado Científico substituto do antigo Senhor. Como diria Lacan, o discípulo não se safa, ele continua como um sujeito barrado no gozo do todo poder”.

Estudiosos dizem que Platão, filósofo de capital importância do mundo antigo, ainda está sendo redescoberto, ou seja, novos campos de significações com a marca do antigo mestre ou pai primevo estão a fluir, vindo dos mais profundos recantos de nossa psique.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Sem dúvida a influência paterna e dos mestres sobre os filhos / discípulos é grande. Pode ser boa ou má, mais ou menos consciente. Havendo pais / mestres que dialogam, deixarão raízes profundas capazes de gerar até nações. Os grandes mestres da humanidade são verdadeiros abraoes. E hoje, Platão, por exemplo, inspira nações ao redor do mundo.

Por sua vez, o discípulo será bem aventurado se souber ouvir o tutor, pai ou mestre. Quanto mais sensível às vozes ancestrais, mais chance de êxito terá. Afinal, não seria está a lógica do quinto mandamento?

Aproveitando a oportunidade, desejo ao amigo um feliz 2016.