06 maio 2016

A República de Volta ao Éden



Numa época de grave crise moral, política, ética e econômica em que sentimentos, os mais diversos, inflamam corações, não custa nada recorrermos a um pouco de humor para amenizar a febre que, de forma pendular, nos faz passear para lá e pra cá revisitando os polos de nossa natureza contraditória ou paradoxal, sem se fixar em nenhum deles.

Em um momento grave como este que estamos passando, nada melhor que fazer uma releitura da velha história de “Adão e Eva”, referência religiosa e mítica de nossos afetos ambivalentes. Os polos antagônicos representativos das dualidades amizade e traição, amor e ódio, vingança(ressentimento) e misericórdia, “verdade” e mentira, tais quais ondas em um mar agitado se batem sem dó nem piedade contra perigosos rochedos litorâneos.

O Colunista e escritor, Ruy Castro, na Folha de São Paulo de hoje (dia 06)nos brinda com um artigo que vem bem a calhar com os hilários e últimos acontecimentos de Nossa Republiqueta. O autor em “A História da Maçã” evoca os arquétipos antagônicos internalizados nos personagens Adão e Eva, que de forma risível mas também simbólica, estão imortalizados nas letras das marchinhas dos antigos carnavais.


A História da Maçã [Por Ruy Castro]


"Eva querida/ Quero ser o teu Adão/ Dar-te-ei o meu amor e a minha vida/ Em troca do teu coração// Hei de conquistar/ O teu amor se Deus quiser/ Custe o que custar/ Haja o que houver/ Serei capaz de qualquer prejuízo/ Mas te darei o Paraíso"– "Eva Querida", de Benedito Lacerda e Luiz Vassalo, com Mario Reis, Carnaval de 1935.

"Adão/ Meu querido Adão/ Todo mundo sabe/ Que perdeste o juízo/ Por causa da serpente tentadora/ O nosso Mestre/ Te expulsou do Paraíso// Mas, em compensação/ No teu pobre coração/ Que era muito pobre/ Pobre, pobre de amor/ Cresceu e se eternizou/ Meu Adão/ O teu pecado encantador"– "Querido Adão", de Benedito Lacerda e Oswaldo Santiago, com Carmen Miranda, Carnaval de 1936.

"Papai Adão/ Papai Adão/ Papai Adão já foi o tal / Hoje é Eva / Quem manobra/ E a culpada foi a cobra// Uma folha de parreira/ Uma Eva sem juízo/ Uma cobra traiçoeira/ Lá se foi o Paraíso!" – "Papai Adão", de Armando Cavalcanti e Klecius Caldas, com Blecaute, Carnaval de 1951.

"Eva, me leva/ Pro Paraíso agora/ Se estou com muita roupa/ Eu jogo a roupa fora// Você vive bem/ Em pleno verão/ Você vai ao baile/ Até de calção/ Queria também/ Usar pouca roupa/ Mas é que a polícia/ Daqui não dá sopa" – "Eva", de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, com Marlene, Carnaval de 1952.

"A história da maçã/ É pura fantasia/ Maçã igual àquela o papai também comia/ Eu li no almanaque que um dia, de manhã/ Adão tava com fome e comeu a tal maçã/ Comeu com casca e tudo/ Não deixando nem semente/ Depois botou a culpa/ Na pobre da serpente" – "História da Maçã", idem Haroldo e Milton, com Jorge Veiga, Carnaval de 1954.

São teses que reuni para um eventual debate sobre Darwin com o bispo Marcos Pereira, provável ministro da Ciência e Tecnologia do governo Temer.  [Ruy Castro]


4 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Talvez muitos procurariam em algum passado histórico o próprio Éden. Há quem considere a prosperidade da era Lula, outros a estabilidade financeira do Plano Real de FHC, enquanto recentemente cresceram os saudosistas da segurança do regime militar e ainda resistem o monarquistas. Cada qual mitifica a época que sua mente quer por algum motivo se identificar.

Levi Bronzeado disse...

Cada qual mitifica a época que sua mente quer por algum motivo se identificar. (Rodrigo)

Do ponto de vista psicológico achei perfeita a sua colocação acima replicada. Na verdade, as contradições e os conflitos do mundo atual são reflexos de nossa indissociável ambivalência. Repelimos de forma defensiva ou inconsciente as partes do “eu” que não gostamos. E isto se constitui a base de toda apaixonada ideologia. Quando falamos que as nossas instituições estão uma loucura, isto significa, no nível individual, que não queremos nos identificar com as partes obscuras represadas em nossa psique, como a Nave metafórica que o poeta George Herbert descreveu no verso abaixo:

“Uma Nave ao léu/ Batendo contra tudo[…]/ Meu Deus sou eu mesmo”.

Uma prova de tudo isso, como você fez ver tão bem em seu comentário, é que nos governos Lula, FHC, e até na Ditadura militar nos identificávamos com o pólo que achávamos ideal e justo presente em cada um deles.
Até hoje os funcionários públicos relembram um fato que não quer calar: o índice de aumento salarial anual dos poderes legislativo, judiciário e executivo durante o regime militar era um só para todo mundo. Hoje aqueles que estão no cume da pirâmide são aquinhoados com índices de aumentos muito além daqueles concedidos aos funcionários do quarto escalão.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Exato! E nunca um governo conseguirá agradar a todos. Se, por exemplo, um presidente prioriza ou dá mais atenção a programas sociais, isso importará no aumento de impostos que, por sua vez, desagradara as classes mais avantajadas como os grandes empresários e os remediados já que falta justiça tributária no país (só agora que o PT ficou isolado foi que seu ministro falou em aumentar a tributação sobre heranças acima de 5 milhões e doações superiores a 1 milhão).

Sobre os aumentos do funcionalismo, parece que as desigualdades começaram com FHC quando houve uma reforma administrativa que pôs fim a vários direitos. Para tanto, tiveram que dar um tratamento privilegiado ao Judiciário, bem como às Forças Armadas, Receita e Polícia, tipo manterem a estabilidade dos seus servidores. Do contrário, imagine quantas ações contra a União não seriam julgadas procedentes por serem consideradas inconstitucionais as mudanças? E como tais grupos não iriam retribuir aos governantes e legisladores de outras maneiras já que muitas ações tramitam contra eles?

Penso que o mais difícil seja alguém identificar-me com o novo pela falta de referenciais. Quando se propõe mudanças, as pessoas precisam se basear em algo que já existe ou existiu para elas concordarem a respeito. Do contrário, elas não aderem.

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Dentro do exemplo que deu sobre o funcionalismo, veja que interessante. Não precisamos de governo militar para que voltemos a ter igualdade nos reajustes salariais. Só que o cidadão menos esclarecido ou não capacitado a pensar livremente acaba se deixando manipular por quem defende coisas bizarras tipo "intervenção militar constitucional".