05 agosto 2016

Dez Anos do Blog “Ensaios & Prosas” ― Um Breve Histórico





O desejo que os seres humanos têm de, lá no íntimo, narrar a história de suas vidas e ideias (as mais extravagantes possíveis) encontrou na Blogosfera um canal gratuito, ou uma oportunidade ímpar de ser realizado ou descarregado. Na época, confiávamos que tudo que fosse postado seria guardado em arquivos invioláveis. Os casos mais marcantes de nossas vidas, nossos inconformismos e recalques, pendores artísticos, culturais, científicos, literários, nossos sucessos/decepções, nossas dores, conquistas e competições, sem a necessidade de gastar dinheiro e tempo excessivo, passaram a ser depositados em arquivos “secretos” de uma conta no Google. Fui um dos primeiros a me associar a UBE (União dos Blogueiros Evangélicos)”, fundada em 2005, que hoje agrega mais de 20.000 blogs. 

Em 21 de maio de 2006, duas semanas antes de criar o blog “Ensaios & Prosas” (esse título talvez tenha sido influência do caderno cultural “Prosa & Verso” do Jornal “O Globo” editado aos sábados, que lia religiosamente), um artigo do jornalista Carlos Castilho sobre a Blogosfera publicado no site do Jornal Observatório da Imprensa já noticiava tramas visando a adoção de um código de conduta, na tentativa de evitar excessos verbais, xingamentos, sectarismos e radicalismos entre os blogueiros de língua mais ferina. Dizia ele no início de seu artigo: “O deslumbramento da descoberta de uma nova ferramenta de comunicação passa agora a ter que conviver com temores, explosões de raiva, catarses, ressentimentos e tentativas de se tomar o controle sobre o que é publicado”.

Mas o certo é que a blogosfera, entre os anos 2004 e 2006 começou a virar o mundo de cabeça para baixo. No jornalismo e nas faculdades, os alunos mais rápidos no entendimento da linguagem cibernética, através de cursos relâmpagos de Internet, passaram a ensinar seus professores sobre a tal sigla “html”. “Faça Seu Blog Gratuito Aqui” era uma das frases mais repetidas nos sites de busca. Os blogueiros mais criativos mudavam o modelo de seus blogs quase de ano em ano. Lembro que ao tentar mudar o modelo (Gadget) da página principal do “Ensaios & Prosas”, cheguei quase a perder todo conteúdo que tinha até então arquivado. Não me aventurei mais a mexer no blog. Deixei-o ate hoje com o mesmo formato de quando foi criado em 06 de agosto de 2006.

Recordo que em dezembro de 2012, com a minha mania de escrever textos ácidos, terminei arranjando sarna pra me coçar. A paródia “O Salmo da Era Digitalque fiz, baseado no Salmo Bíblico de número 23 (O Senhor é o Meu Pastor) me rendeu bastante dor de cabeça, pela polêmica que provocou no meio religioso. Dois dias depois de ter publicado essa paródia, alguns blogueiros das igrejas mais fundamentalistas, não entendendo que se tratava de uma crítica ao evangelho da prosperidade econômica importado do Mercado Gospel dos EUA, sentaram o sarrafo, excomungando-me. Manchete tipo Site Compara Google com Deus e Gera Polêmica foram replicadas na blogosfera gospel, inscrevendo-me no rol dos hereges da blogosfera cristã.

Parafraseando o prólogo do evangelho de São João, em mais uma “heresia”, devo dizer que o famoso Blogger importado dos EUA se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória anunciada em todos os sites de procura (entre eles o velho Yahoo) ensinando a maneira mais fácil e rápida de criar um blog particular ou individual para a salvar memórias por toda a eternidade. Uma vez criado o blog, como acontece com o “livro da vida” do qual o evangelista João fala em seu livro Apocalipse, o nome do internauta não seria mais riscado da Nova Jerusalém do Mundo Cibernético.

Refletindo bem, a máxima de Michel de Montaigne (15331592) ― “As palavras pertencem metade a quem fala e metade a quem ouve” ― tem muito a ver com os lados conservador e liberal dos blogueiros em suas postagens. Traduzindo o bordão desse famoso filósofo, poderíamos intuir que o texto postado pelo blogueiro pertence metade a quem o edita e metade a quem o lê, comenta e critica. Foi  assim pensando que o criador do famoso Blogger, para fazer crescer rapidamente seu número de adeptos, abriu no topo da página inicial dos blogs um espaço para que os editores pudessem expor as carinhas dos seus cativos seguidores. Para incrementar o movimento comunicacional nesse serviço do Google dois recursos foram de fundamental importância: o de divulgar os artigos editados pelos blogueiros no mundo virtual e o de expor num recanto de suas páginas os produtos comerciais que tivessem alguma relação com os temas postados. O blogueiro que editasse postagens que causassem maiorres acessos no mundo virtual seriam recompensados com maior número de seguidores. O apelo chamativo como fazer mais amigos sem o menor esforço que alguns competidores ou caçadores de amigos detonavam na Web na mesma época que construí o meu recanto no Google, hoje não mais aparece tanto quanto naquela época em que a acirrada competição era estimulada ao máximo, com a finalidade de induzir uma maior visibilidade dos editores de blogs mais sucedidos.

Não nego que cheguei a colecionar alguns selos de premiação, na época em que ainda não tinha sido ex-comungado do rol dos politicamente e religiosamente corretos. Alguns títulos colocados pelos editores em seus blogs eram tão estrambóticos que não dava para resistir ao impulso de rir. Entre os selos de premiação que recebi, merece destaque um que me incluía entre os cinco “Melhores Blogs da Cristandade”, oferecido pelo blogueiro Teóphilo Noturno, cujo blog tinha em seu cabeçalho o título apocalíptico em letras garrafais flamejantes Este Mundo Jaz no Maligno”, possivelmente simbolizando a figura mítica do Inferno.

Com o blogueiro Leonardo Gonçalves, amigo de longos datas, ainda hoje editor do blog Púlpito Cristão(na época, acessado diariamente por dezenas de milhares de fiéis do meio Protestante), fiz uma parceria. Cheguei a lhe enviar textos para postagem sobre vários temas proibitivos ou intocáveis do meio religioso, ensaios de cunho satírico sobre o evangelismo gospel comercial que, ainda hoje, faz sucesso em vários canais na rede aberta de Televisão. Pois não é que o afoito Leonardo Gonçalves que não levava desaforo para casa, com ousadia incomum, acabou por divulgar em seu blog, o “O Pai Nosso: Modelo Empresarial Gospel(Vide link). Tratava-se de uma paródia que fiz com o “Pai Nosso” do Novo Testamento. O texto bombou na blogosfera de uma maneira tal, que em questão de poucos dias foi reproduzido em 28 blogs. A ousadia custou-me caro, pois, boa parte dos comentários que recebi de líderes evangélicos fundamentalistas consideraram a paródia uma blasfêmia contra Deus. Alguns alertaram-me que não brincasse com as coisas sagradas, enfatizando as histórias de maldições contidas no Velho Testamento.

No Genizah (hoje, o mais acessado blog de Humor Cristão do país), do autor Danilo Fernandes, fui parceiro nas postagens de textos hilários baseados nos sermões da turma do evangeliquês gospel da prosperidade econômica. Ainda está bem viva em minha memória a repercussão de um texto exótico sobre exploração da fé. Tratava-se de um testemunho/entrevista sui generis veiculado em um programa televiso dedicado a curas e milagres. Assisti perplexo todo o desenrolar do trágico e cômico "milagre", em uma noite de insônia, quando já passava da meia noite (mês de julho de 2009). Ouvi atentamente a história e não resisti postá-la no “Ensaios & Prosas” com o título: Exploração da Fé Até que Ponto?” (publicado em 03 de julho de 2009). Esse excêntrico milagre, mexeu com os nervos de Danilo Fernandes que, provavelmente para causar maior impacto na blogosfera cristã, trocou o título da postagem original redigida no “Ensaios & Prosas”, pela extravagante manchete: “RR Soares viaja na maionese e libera a unção da Madonna: Like a virginfor the very first time…”. Dizem que em 2011 o site do Danilo chegou a ter mais de 600.000 acessos diários.

Como a curiosidade acaba sempre por se tornar a chave da liberdade, eis que muitos que em seus ambientes não tinham a condição de falar ou tocar em determinados temas ou assuntos considerados tabus, de uma hora para outra, passaram a ter na internet um recanto só seu para descarregar tudo que até então, nos meios conservadores, não era permitido ser ventilado. De início, gozávamos do privilégio de produzir textos a respeito de nós mesmos (as auto-biografias).

Alguns blogueiros de mente mais egocêntrica chegavam a dizer: “Escrevo só para mim”. Achava pura meninice esse tipo de racionalização. Se pensássemos mais profundamente chegaríamos à conclusão de que o blogueiro é, sim, um narcisista (no bom sentido da palavra). É preciso entender que a escrita é uma marca narcísica, tal qual uma cicatriz que carregamos por toda a vida. Esse desejo intenso de escrever pode ser, sim, considerado uma compulsão narcísica que tanto pode trazer frustração quanto prazer ou gratificação. E quem não a tem ou teve atire a primeira pedra.

Não sei se isso é um caso de narcisismo clássico:

Quanto a minha dificuldade de ordem gramatical e ortográfica, um dia, ouvi algo que me deixou muito animado. No lançamento do segundo livro de George Bronzeado de Andrade, “Retalhos da Memória” na Academia Paraibana de Letras em 2015, em conversa particular com o jornalista e escritor Hélder Moura, autor do livro O Incrível Testamento de Dom Agápito, de repercussão na Alemanha, Itália e França, assim ele se referiu sobre os escorregos que geralmente damos em nossa linga mãe: “Ainda hoje, nas releituras que faço do livro que lancei em 2012, encontro algumas incorreções. Toda vez que passo a vista em suas páginas encontro algo que necessita de ajuste. É um negócio sem fim”.

Oito anos atrás, em um o ensaio postado nesse recanto do Google que tinha por título Vivo Por Isso Escrevo, assim me expressei sobre esse prazer de escrever que nasceu bem cedo em minha vida: “...aquele mesmo impulsivo desejo de adolescente, agora, vendo-me entrar nos umbrais da velhice, me anima a ESCREVER LER ESCREVER LER, sem parar, com avidez ainda maior que nos tempos de outrora”.

Foi no dia 06 de agosto de 2006 que juntei os artigos escritos em rascunhos e arquivados em uma pasta do computador nos três primeiros meses de 2006 (três poesias, um verso de cordel e duas crônicas) e, em menos de duas horas, transferi tudo para o blog, nessa ordem: “Contos EscondidosAmigo Tardes de Domingo Poema de uma Avó para Uma Neta Dia de Mãe” e Um Nostálgico Fim de Tarde. Pronto, estava inaugurado o “Ensaios & Prosas”.

Bendita blogosfera que trocou minha caneta da marca Compactor por um silencioso e macio teclado, e minha folha de papel almaço pela tela deslumbrante do Word ―, dádivas maravilhosas que nos meus anos de colegial sequer podia imaginar que um dia a tecnologia viria oferecer.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 05 de agosto de 2016

2 comentários:

RODRIGO PHANARDZIS ANCORA DA LUZ disse...

Caro Levi,

Primeiramente parabéns pelos seus 10 anos de blogosfera. E agora tá explicado por que por muitas vezes achava em minha mente que o seu site se chamasse "Versos e Prosas"... (rsrsrs)

De fato, o Blogger e outros sites semelhantes que foram surgindo vieram para democratizar esse partilhar dos internautas. O que antes as pessoas deixavam guardado num caderninho de memórias, sedo legado, no máximo, a alguns descendentes, agora pode ser exposto pela tecnologia para toda a a humanidade ler, comentar e divulgar.

Por outro lado, vejo que o excesso de informações invadiu a rede, o que dificulta um pouco aos interessados achar algum trigo no meio de tanto joio bem como restar uma sobra de tempo.

Tempos atrás a blogosfera brasileira se auto-divulgava. Nos últimos anos, porém, o Facebook arrebatou muitos internautas e agora esse WhatsApp esvazia as redes sociais pela formação de grupos menores em que a oralidade dos áudios toma o lugar da escrita. Só que, por se tratar de um ambiente virtual impróprio para longas leituras, acho que os blogues terão a chance de renascer. Só que com uma menor interatividade nos comentários.

Quanto ao seu blogue, o que mais se referencia pra mim são os seus textos de conteúdo mais psicanalítico embora bem sei que escreve poesia e também sobre cultura. Muitos de seus artigos despertam o interesse do leitor por analisar o inconsciente das pessoas e de si próprios buscando um outro tipo de leitura para os comportamentos.

Três anos mais novo que o seu blogue, comecei a blogar no final de 2009. Desde 2006, quando pretendia vir candidato a vereador em 2008, uma pessoa me orientava a criar um blogue. Demorei a aceitar a ideia dela até que comecei meus primeiros textos em ocasionalmente. Quando foi no ano seguinte, todo mês postava alguma coisa.

Não tive outro blogue pessoal. Acho que basta um. Fiz e continuo fazendo parte de três de postagens coletiva. Além das confrarias dos fora da gaiola e de teologia (Logos e Mythos), também administro um blogue sobre propostas para o município onde moro. Isto achei mais conveniente tratar de algumas questões locais mais específicas em um ambiente direcionado do que expor coisas no meu blogue pessoal acessado por internautas de vários lugares do Brasil e até do estrangeiro.

Mas é isso aí. Mais uma vez o parabenizo e fico feliz que essa emblemática comemoração esteja coincidindo com a abertura dos jogos olímpicos do Rio.

Um abraço.

Danilo Fernandes disse...

Felicitações e mais 10 anos, querido Levi!