06 maio 2017

Os Tempos Estão Mudados




Estamos vivendo tempos difíceis. Quando muitos estão a dizer que o certo virou errado e o errado virou certo é sinal de que estamos vivenciando tempos realmente sombrios. Tempos em que os poderosos da república das bananas lavam suas roupas sujas ao vivo em cores pela televisão, sem o mínimo de parcimônia, pudor e respeito. Na telinha, para serem vistos, discursam, discutem, gesticulam e falam baboseiras em pleno horário nobre ― exalando o odor pútrido de suas próprias vísceras. Que tempos são esses, meu Deus, em que a verdade vem sendo sacrificada sem hesitação para dar lugar a mentiras tão bem elaboradas que fazem vibrar até os menos incautos?

Tudo ficou tão banal, que a nudez do Rei já não provoca mais reações. Tempos sombrios esses, em que o Rei, com sua comitiva real, já não se importa em desfilar nu pelas ruas e praças das cidades. Os súditos, em sua estupidez, por sua vez, fingem não ver a nudez do Rei, e o aplaudem calorosamente. É certo que exceções existem: alguns gatos pingados fogem do trivial, gritando: “Os Tempos estão Mudados!”.

Nos idos de 1964, quando o movimento dos negros ganhou uma intensidade nunca vista nos EUA, Bob Dylan, poeta, cantor e compositor norte-americano, descendente de judeus russos, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2016, imortalizou seu idealismo edênico na soberba canção “Os Tempos Estão Mudando”.

Pulando para 2017, podemos constatar nas terras do Tio Sam, de Bob Dylan e com mais intensidade nas terras de Dom João VI, os próprios guardiões que mais deviam zelar pelas leis do país, legislando abertamente em causa própria; no nosso caso, pleiteiam a anistia de suas práticas sociais, politicas e econômicas de natureza imoral e perversa.

Pondo mais pimenta na letra magistral da canção “chicobuarquiana”, “Vai Passar”, os escolhidos para entabular as atuais reformas em nossa republiqueta, pasmem, são os mesmos que abertamente estão a dilapidar a nossa pátria mãe. O pior é que, hoje, todos sabem em detalhes como se locupletam o Rei e sua trupe, diferentemente do tempo, que no dizer de Chico, o povão não tinha essa percepção, como mostra a letra do seu emblemático samba-protesto (1984), que se referia “a uma pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

A poesia de Bob Dylan, pelo avesso, talvez traduza de forma melancólica os Tempos Sombrios da Nossa Geração, como bem revela a expressão poética: “Pois a roda ainda gira/E não há como saber quem ela vai nomear”. Nada como uma boa dose de reflexão para entender que o pragmatismo insano atual vem pondo em xeque a utopia que varria o mundo de 1964 lá nos EUA e aqui no Brasil, seu quintal. O “beco sem saída” em que nos metemos, ou a vergonhosa agonia tropical que, por ora, nos deixa tristes e céticos ―, é uma amostra de que os “Tempos Estão Mudados”, ou mais precisamente, transmudaram-se em Tempos Sombrios.

A metáfora das duas faces do deus Janus, da mitologia romana — representação simbólica de que o passado e o presente sempre se confundem ―, está mais viva do que nunca.

O mar putrefato que ora invade as nossas instituições, traz à memória a figura de Rui Barbosa. Decepcionado com o mar de lama que corria solto entre os poderes da república do seu tempo, esse destemido jurista, no palco do Senado Federal em 1914, proferiu um antológico discurso. De tão atual, sua veemente declamação continua a reverberar nas cordas de nossos corações, principalmente esse emblemático trecho que, de tão lido e relido, é recitado de cor pela maioria dos estudantes: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver se agigantarem os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Corria o ano de 1964. Tinha dezoito anos de idade, quando o ardor utópico por um mundo melhor e mais justo, tal qual um vento impetuoso, varria o globo anunciando a chegada de novos tempos. Como Bob Dylan, eu também acreditava, mas foi tudo um sonho.


Os Tempos Estão Mudando” (Bob Dylan)


Vem pra cá, pessoal!
Por onde quer que vocês andem
Em volta de vocês subiram
E aceitem que logo
Vão estar encharcados até os ossos
Se vocês acham que vale a pena salvar o seu tempo
Então é melhor começar a nadar pra não afundar como pedra
Porque os tempos, eles estão mudando.


Venham, autores e críticos
Que profetizam com a pena
E fiquem de olhos abertos
A chance não vai voltar
E não falem cedo demais
Pois a roda ainda gira
E não há como saber quem ela vai nomear
Pois o perdedor agora vai depois vencer
Porque os tempos, eles estão mudando.


Venham, senadores, deputados
Por favor ouçam o chamado
Não fiquem parados na porta
Não travem o corredor
Pois quem foi ferido
Será quem tiver demorado
Há uma luta lá fora que está enfurecida
Ela logo vai sacudir as janelas e balançar as paredes
Porque os tempos, eles estão mudando.


Venham, mães e pais
De todo o país
E não critiquem
O que vocês não entendem
Seus filhos e filhas
Não vão mais obedecer
Sua velha estrada envelhece veloz
Por favor saiam da nova se não conseguem dar a mão
Porque os tempos, eles estão mudando.


A linha está traçada
A praga está rogada
A lenta, agora
Será mais tarde acelerada
Enquanto o presente agora
Depois será passado
A ordem está se apagando rápida
E o primeiro agora vai depois ser último
Porque os tempos, eles estão mudando.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de maio de 2017
Link da Imagem: www.esquerdadiario.com.br/spip.php?