Mostrando postagens com marcador Existencialismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Existencialismo. Mostrar todas as postagens

03 janeiro 2022

As FACES PARADOXAIS do DEUS ‘JANUS’ (Janeiro)

 



As duas Faces do Deus ‘Janus’ 


A história do homem se repete porque ela é cíclica dentro do tempo infinito das eras. “O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo o mesmo e eterno circuito". (Eclesiastes 1:6).

Na mitologia romana, a porta que o Deus dos INÍCIOS, ‘JANUS’(Janeiro) abre, é ao mesmo tempo, entrada e saída. No CARROSSEL do TEMPO, suas duas FACES (uma oposta a outra) simbolizam a metáfora mais autêntica de que o PASSADO, PRESENTE e FUTURO se intercalam ao sabor das circunstâncias.

As guerras de hoje, no fundo, têm a mesma força destruidora das de outrora. O ódio que as move vem do mesmo núcleo estrutural. Mudaram os personagens, mas a natureza humana continua a mesma. No lugar de armas toscas como lanças e espadas bíblicas usadas contra os inimigos de antigamente, temos hoje armas muito mais sofisticadas, como é o caso do arsenal mortífero em mãos das redes sociais. Pasmem, é em nome de Deus que executam com precisão a disseminação de notícias falsas com o intuito de desinformar e confundir a incauta população.

As desculpas e razões para explicar a intolerância entre as gentes continuam sendo as mesmas dos primórdios. Enfim, nada mudou debaixo do sol, como bem disse o autor de Eclesiastes. A incessante busca dos prazeres que consomem a maior parte da vida do homem é a mesma dos tempos remotos. Ela tem a mesma seiva de milênios de anos atrás. Os canais por onde deságua a agressividade latente que está em cada um de nós, em nada diferem daquela dos tempos passados. Mudam-se as formas externas, porém, na essência tudo continua igual.

Apesar de renovarmos nossas apostas por um ANO com menos dissabores, no campo da POLÍTICA, por exemplo, muda-se apenas a cobertura, e o BOLO permanece com os mesmos sabores e ingredientes dos que foram feitos em JANEIROS que já se foram.

Será que a hipocrisia que Cristo tanto combateu entre as lideranças de seu povo, não é a mesma de hoje?


O longo capítulo de Mateus 23 (Ai de vós hipócritas!) proferido por um Cristo indignado contra os Fariseus e Escribas de sua época, por acaso, não ressoa hoje com a mesma intensidade da proferida naquele longínquo passado? Será que atuais dirigentes e líderes dos povos sedentos de justiça não estão a reeditar os fatos do passado? Se a história é cíclica, ela se repete. Ficando claro e evidente que os fariseus e escribas, de hoje, continuam agindo e semeando a discórdia como faziam nossos antigos ‘líderes’. Todas as tiranias (as atuais e as de ontem) fazem parte da história de alguns indivíduos, ou grupos no poder, que se servem de violentos recursos para, inconscientemente, exteriorizar os seus sentimentos mais animalescos.


Raciocinando bem, o tempo não passa; nós é que passamos por ele. O que vemos hoje como novidade, já o foi no passado, como disse sabiamente o autor do livro de Eclesiastes (1:9): o que foi, isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há de novo debaixo do sol.”


Entra ano e sai ano, mas a caminhada implacável do tempo sempre é a mesma. O que notamos exteriormente em nós, de mudança, são apenas as marcas visíveis e indeléveis que o
TEMPO vai deixando em nossos corpos, à medida que passamos por ele. Em todo o tempo as virtudes, as vicissitudes e aflições são as nossas companheiras indissociáveis. Se nos despirmos dos trajes das representações no grande teatro de nossa vida de relacionamentos, e mergulharmos em nós mesmos, é que poderemos perceber os instintos mais rudes que estão escondidos lá no mais profundo do nosso ser o tenebroso e escuro oceano chamado pelo pai da psicanálise “inconsciente”. O apóstolo Paulo num dos seus profundos mergulhos em si mesmo, reconheceu que nele não habitava bem algum (Rom. 7:18), para logo depois, exclamar: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”(Rom. 7:24)


O homem criou fórmulas para encaixotar o tempo em calendários astronômicos e lunares uma tentativa de dar forma a mudança dos dias rigorosamente iguais. No girar constante do tempo a que denominamos semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios, nada mais fazemos senão transubstanciar o vazio do ‘NADA’, dando-lhe “carne e ossos” para chamá-lo de “tempo”.



Por Levi Bronzeado

Guarabira, 1° de Janeiro de 2022


19 dezembro 2021

Um CONTO a SER EXPLORADO antes do FINAL do ANO

 



Logo na semana natalina, quando a maioria das pessoas está assoberbada de tarefas para resolver em um exíguo espaço de tempo, o convite posto acima corre o risco, sim, de ser refutado como coisa chata ou fora de propósito. Logo agora, que doidice é essa, cara!?” ─ alguém poderá ARGUMENTAR.

Como filhos da LINGUAGEM, somos atraídos pelo PRAZER que as narrativas nos confere, especialmente na forma tradicional de LIVRO. Mas convenhamos, mesmo que seja uma boa história, em uma época especial como essa, fica evidente que muitos não podem dispor de ‘horas mortas’ para se transportar a esse encantado e idolatrado mundo da LEITURA. Contudo, mesmo diante da ansiedade natural reinante nesses frenéticos dias, deixo a critério do leitor ou leitora conferir ou não a envolvente historieta. Sei que o insólito e metafórico conto de três páginas e meia ─ 'IDEIAS do CANÁRIO' ─, de Machado de Assis, o bruxo de Cosme Velho(RJ), seria devorado em questão de mais ou menos 15 minutos.(rsrs)

UMA DEIXA: no conto/ficção machadiano, o estranho e sábio pássaro é quem dá as cartas, superando até seu próprio mestre. O canário entende os mundos a partir dele mesmo, contrariando o confuso ornitólogo. O professor estudioso dos pássaros, em seu mundo de ilusória racionalidade, tateia e patina diante de um passarinho bem mais ágil que ele. O canário surpreende o ornitólogo no entendimento das nuances evolutivas existenciais de um MUNDO centrado, de forma mecânica, no idealismo cego de uma elite supostamente científica e poderosa que costuma se apresentar como dona de todo o SABER.

A quem interessar a leitura, segue, abaixo, o atraente opúsculo que, apesar de ter sido publicado no longínquo 1889, parece ter sido profeticamente escrito para os intranquilos dias atuais (rsrs): 


                                         Ideias do Canário - de Machado de Assis

Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração. 

No princípio do mês passado, — disse ele, — indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de urna loja de belchior. Nem o estrépito do cavalo e do veículo, nem a minha entrada fez levantar o dono do negócio, que cochilava ao fundo, sentado numa cadeira de abrir. Era um frangalho de homem, barba cor de palha suja, a cabeça enfiada em um gorro esfarrapado, que provavelmente não achara comprador. Não se adivinhava nele nenhuma história, como podiam Ter alguns dos objetos que vendia, nem se lhe sentia a tristeza austera e desenganada das vidas que foram vidas. A loja era escura, atualhada das cousas velhas, tortas, rotas, enxovalhadas, enferrujadas que de ordinário se acham em tais casas, tudo naquela meia desordem própria do negócio. Essa mistura, posto que banal, era interessante. Panelas sem tampa, tampas sem panela, botões, sapatos, fechaduras, uma saia preta, chapéus de palha e de pêlo, caixilhos, binóculos, meias casacas, um florete, um cão empalhado, um par de chinelas, luvas, vasos sem nome, dragonas, uma bolsa de veludo, dous cabides, um bodoque, um termômetro, cadeiras, um retrato litografado pelo finado Sisson, um gamão, duas máscaras de arame para o carnaval que há de vir, tudo isso e o mais que não vi ou não me ficou de memória, enchia a loja nas imediações da porta, encostado, pendurado ou exposto em caixas de vidro, igualmente velhas. Lá para dentro, havia outras cousas mais e muitas, e do mesmo aspecto, dominando os objetos grandes, cômodas, cadeiras, camas, uns por cima dos outros, perdidos na escuridão. Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Tão velha como o resto, para ter o mesmo aspecto da desolação geral, faltava-lhe estar vazia. Não estava vazia. Dentro pulava um canário. A cor, a animação e a graça do passarinho davam àquele amontoado de destroços uma nota de vida e de mocidade. Era o último passageiro de algum naufrágio, que ali foi parar íntegro e alegre como dantes. Logo que olhei para ele, entrou a saltar mais abaixo e acima, de poleiro em poleiro, como se quisesse dizer que no meio daquele cemitério brincava um raio de sol. Não atribuo essa imagem ao canário, senão porque falo a gente retórica; em verdade, ele não pensou em cemitério nem sol, segundo me disse depois. Eu, de envolta com o prazer que me trouxe aquela vista, senti-me indignado do destino do pássaro, e murmurei baixinho palavras de azedume. — Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis? Ou que mão indiferente, não querendo guardar esse companheiro de dono defunto, o deu de graça a algum pequeno, que o vendeu para ir jogar uma quiniela? E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:

— Quem quer que sejas tu, certamente não estás em teu juízo. Não tive dono execrável, nem fui dado a nenhum menino que me vendesse. São imaginações de pessoa doente; vai-te curar, amigo...

— Como — interrompi eu, sem ter tempo de ficar espantado. Então o teu dono não te vendeu a esta casa? Não foi a miséria ou a ociosidade que te trouxe a este cemitério, como um raio de sol?

— Não sei que seja sol nem cemitério. Se os canários que tens visto usam do primeiro desses nomes, tanto melhor, porque é bonito, mas estou que confundes.

— Perdão, mas tu não vieste para aqui à toa, sem ninguém, salvo se o teu dono foi sempre aquele homem que ali está sentado.

— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados. Em verdade, se o mundo é propriedade dos canários, seria extravagante que eles pagassem o que está no mundo. Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as ideias. A linguagem, posto me entrasse pelo ouvido como de gente, saía do bicho em trilos engraçados. Olhei em volta de mim, para verificar se estava acordado; a rua era a mesma, a loja era a mesma loja escura, triste e úmida. O canário, movendo a um lado e outro, esperava que eu lhe falasse. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito...

— Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito? 

— Mas, perdão, que pensas deste mundo? 

— Que cousa é o mundo?

— O mundo, redargüiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira. Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim, que o comprara a um barbeiro, acompanhado de uma coleção de navalhas.

— As navalhas estão em muito bom uso, concluiu ele.

— Quero só o canário. Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola vasta, circular, de madeira e arame, pintada de branco, e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, donde o passarinho podia ver o jardim, o repuxo e um pouco do céu azul. Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta. Comecei por alfabeto a língua do canário, por estudar-lhe a estrutura, as relações com a música, os sentimentos estéticos do bicho, as suas idéias e reminiscências. Feita essa análise filológica e psicológica, entrei propriamente na história dos canários, na origem deles, primeiros séculos, geologia e flora das ilhas Canárias, se ele tinha conhecimento da navegação, etc. Conversávamos longas horas, eu escrevendo as notas, ele esperando, saltando, trilando. Não tendo mais família que dous criados, ordenava-lhes que não me interrompessem, ainda por motivo de alguma carta ou telegrama urgente, ou visita de importância. Sabendo ambos das minhas ocupações científicas, acharam natural a ordem, e não suspeitaram que o canário e eu nos entendíamos. Não é mister dizer que dormia pouco, acordava duas e três vezes por noite, passeava à toa, sentia-me com febre. Afinal tornava ao trabalho, para reler, acrescentar, emendar. Retifiquei mais de uma observação, — ou por havê-la entendido mal, ou porque ele não a tivesse expresso claramente. A definição do mundo foi uma delas. Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.

— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira. Também a linguagem sofreu algumas retificações, e certas conclusões, que me tinham parecido simples, vi que eram temerárias. Não podia ainda escrever a memória que havia de mandar ao Museu Nacional, ao Instituto Histórico e às universidades alemãs, não porque faltasse matéria, mas para acumular primeiro todas as observações e ratificá-las. Nos últimos dias, não saía de casa, não respondia a cartas, não quis saber de amigos nem parentes. Todo eu era canário. De manhã, um dos criados tinha a seu cargo limpar a gaiola e pôr-lhe água e comida. O passarinho não lhe dizia nada, como se soubesse que a esse homem faltava qualquer preparo científico. Também o serviço era o mais sumário do mundo; o criado não era amador de pássaros. Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso; era excesso de estudo, não devia ler nem pensar, não devia saber sequer o que se passava na cidade e no mundo. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola. O meu primeiro gesto foi para esganar o criado; a indignação sufocou-me, caí na cadeira, sem voz, tonto. O culpado defendeu-se, jurou que tivera cuidado, o passarinho é que fugira por astuto...

— Mas não o procuraram?

— Procuramos, sim, senhor; a princípio trepou ao telhado, trepei também, ele fugiu, foi para uma árvore, depois escondeu-se não sei onde. Tenho indagado desde ontem, perguntei aos vizinhos, aos chacareitos, ninguém sabe nada. Padeci muito; felizmente, a fadiga estava passada, e com algumas horas pude sair à varanda e ao jardim. Nem sombra de canário. Indaguei, corri, anunciei, e nada. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:

— Viva, Sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu? Era o canário; estava no galho de uma árvore. Imaginem como fiquei, e o que lhe disse. O meu amigo cuidou que eu estivesse doido; mas que me importavam cuidados de amigos? Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular…

— Que jardim? Que repuxo?

— O mundo, meu querido.

—Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima. Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de Belchior...

— De Belchior? — trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de Belchior?

                                                        FIM

FONTE do CONTO: https://docplayer.com.br/188183228-Exercicio-1-leitura-o-texto-a-seguir-e-um-conto-escrito-por-machado-de-assis-ideias-do-canario.html



Por Levi B. Santos  

Guarabira,19 de dezembro de 2021                                                

31 agosto 2019

DA ANGÚSTIA DO JUIZ EM TEMPOS DE POLARIZAÇÕES




“A primeira lição que podemos extrair dos escritos de Sartre diz respeito à natureza existencialmente desafiadora do juiz. Ele é constantemente chamado a fazer escolhas que podem alterar radicalmente o curso de uma partida. [...]Segundo Sartre, o sentimento de contingência permeia a experiência humana da escolha. Por mais certeza que tenhamos sobre uma determinada decisão, temos consciência, não obstante, de que outra alternativa seria possível. Uma vez que cada caminho está cheio de possibilidades, parece que não podemos deixar de aceitar a responsabilidade sobre nossas escolhas. Sartre argumenta que esse sentimento de responsabilidade inescapável tende a provocar angústia”.

O Trecho acima entre aspas - sob o título - A Solidão do Juiz - é de Jonathan Crowe – replicado da Revista Piauí nº 50 (Novembro de 2010), e trata do dilema do juiz de futebol que, mesmo diante de um lance duvidoso, é obrigado a punir o time que ele supõe ter sido desleal.

Penso que o artigo - “A Solidão do Juiz” - pode ser aplicado aos momentos atuais de nossa frágil república. Ao fim e ao cabo, o veredicto cabe aos magistrados da mais alta instância jurídica. “Rigorosos/lenientes - intransigentes/complacentes” são adjetivos que retratam as características dúbias das almas dos dois grupos políticos que se digladiam para que suas argumentações, racionalizações ou manobras sejam acatadas pelos doutos ministros. 

Sobre o resultado imprevisível do jogo, Jonathan Crowe, assim se expressou:

"O bandeirinha pode sinalizar, os jogadores podem reclamar e a multidão pode rugir, mas em última análise tudo depende do juiz. Este é o momento da decisão, quando o destino do jogo pousa sobre os ombros do árbitro. 

É bom não esquecer do que, aqui, Sartre inferiu: "nenhum juiz está livre do sentimento de contigência"A contigência, que tem como fundamento a incerteza, quer se queira ou não, é produtora de angústia.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 31 de agosto de 2019


12 janeiro 2019

Sobre a Metáfora “Espinho na Carne”




E foi me dado um Espinho na Carne” (Saulo de Tarso)



É consoante em psicanálise que a metáfora “Espinho na Carne”, usada pelo apóstolo Paulo em uma de suas cartas, tem a ver com algo de natureza inconsciente que amarra o sujeito nos momentos em que o intrometido “Eu” costuma aparecer como se fosse senhor absoluto de todo o saber. O espinho, de tão íntimo e arraigado ao indivíduo, acaba por se tornar irremovível. É uma espécie de vínculo afetivo incrustado no passado da memória, sede de angústias e intensas dores morais, quando despertado ou tocado.

Na busca de um estado utópico de perfeição, dizemos que renunciamos a algo sombrio e íntimo de nossa personalidade (afetos que no passado nos garantiam um certo grau de satisfação egocêntrica). Como não somos senhores de nós mesmos, aquilo que percebíamos como afetos extirpados (simbolizados pela figura de um incômodo espinho na carne), independentemente de nossa vontade, retornam a nós, de uma maneira muito sutil e em momentos jamais imaginados. É em decorrência do choque entre afetos paradoxais de nossa natureza dual (Se quer, mas não se pode) que surgem a angústia e o mal estar psíquico. Usando outros termos, poderíamos asseverar que ninguém pode se considerar salvo desse tipo de sofrimento existencial.

Devem existir aspectos de nossa vida que até podemos dar um jeito, menos o ato de tirar o espinho da carne. Toda vez que pensamos ter eliminado o espinho de nossa carne, lá estamos a projetá-lo no outro. Por esse mecanismo de defesa, o espinhoso passaria a ser o outro, nosso “bode expiatório”, a quem julgamos. Ledo engano, o espinho na carne não se retira. Ele é um elemento necessário para equilíbrio do sujeito em suas ambivalências existenciais pela vida afora, além de um formidável antídoto para que ninguém possa se gloriar.

A compreensão “constrangedora” de que por mais que nos esforcemos, cativando uma imagem melhor e mais simpática para nós mesmos, continuará lá nas profundidades psíquicas do nosso ser, resíduos afetivos que muito almejaríamos jogar no mar do esquecimento, a saber: impulsos, inclinações, pensamentos e imagens destoantes daquilo que construímos como máscara virtuosa em nossa vida de relação.

Zygmunt Bauman, em “O Retorno do Pêndulo”, demostra que o armistício, na guerra entre os desejos ambíguos da alma humana, é sempre temporário, até o próximo confronto. O famoso sociólogo, assim como Paulo em suas relações com os romanos, faz uso da metáfora do espinho na carne, como indicativo ou reflexo da dualidade intrínseca da alma e da condição humana:

...Um espinho cravado no corpo das relações entre o indivíduo e a sociedade. [...]significa enfrentar situações nas quais a balança se inclina contra fazer o que se quer e a favor de fazer algo que se gostaria de evitar”. (Zygmunt Bauman)
Foi em um contexto análogo que, numa espécie de insight, o apóstolo Paulo diante dos altivos romanos fez desaguar do seu obscuro oceano interno afetos contraditórios, até então escondidos: “Pois o que quero isso não faço, mas o que não quero isso faço” (Romanos 7:15)

Em “A Gaia Ciência”, vejamos o que Friedrich Nietzsche escreveu em analogia à metáfora Paulina espinho na carne”:

Examinem a vida dos melhores e mais fecundos homens e povos e perguntem a si mesmos se uma árvore que deve crescer orgulhosamente no ar poderia dispensar o mau tempo e os temporais; se o desfavor e a resistência externa, se alguma espécie de ódio, ciúme, teimosia, suspeita, dureza, avareza e violência não faz parte das circunstâncias favoráveis sem as quais não é possível um grande crescimento, mesmo na virtude? O veneno que faz morrer a natureza frágil é um fortificante para o forte e ele nem o chama de veneno”.

É certo que, hoje, não mais existe inconciliabilidade entre a Teologia e a Psicanálise. O Judeu Sigmund Freud, por exemplo, foi um incansável leitor e intérprete das inúmeras figuras de linguagem presentes na Bíblia e bebeu a vida toda dessa insaciável fonte. Ela muito o auxiliou na construção dos conceitos linguísticos e científicos que serviram de base para a nascente Psicanálise, no final do século XIX. Tanto é assim, que o influente teólogo alemão Paul Tillich, no capítulo 8 (Significado Teológico do Existencialismo e da Psicanálise) de sua fenomenal obra “Teologia da Cultura” assim se definiu, a respeito: Certamente, o desenvolvimento da psicanálise tem sido de infinito valor para a Teologia. [...]As duas disciplinas não andam em caminhos separados, mas se interpenetram”

Voltando à metáfora Espinho na Carne criada pelo apóstolo Paulo: Freud, através de suas esmiuçadas observações, incansáveis análises e longos estudos da psique humana, chegou à conclusão de que não há indivíduos “sem espinhos”. Disse o fundador da Psicanálise: “Existe em todo ser humano uma instância especial na psique onde é mantida imagens, desejos e sentimentos considerados inaceitáveis, adquiridos em nosso desenvolvimento biossocial e psicológico afetos que gostaríamos de nos ver livres deles para sempre”.

A esse lado espinhoso da personalidade, que percebemos como indesejável, Carl G. Jung denominou Sombra”. Torcemos o nariz para esse nosso lado sombrio, e isso não passa de uma atitude defensiva ou reativa, pois, indubitavelmente, não temos o poder de anulá-lo ou destruí-lo através de nossa frágil vontade.

Foi em um conflito com esse lado medonho e obscuro, latente em si mesmo, que o próprio Paulo foi incitado a fazer essa crucial exclamação: “Miserável homem que sou. Quem me livrará do corpo dessa morte!”(Romanos 7: 24)

Para que eu não ficasse orgulhoso, recebi o dom de um obstáculo(espinho), que me mantém em contato com minhas limitações. Sem chance que eu ande de nariz empinado e orgulhoso! No princípio, eu não pensava nele(no espinho) como um dom. […]Agora enfrento com alegria essas limitações, como tudo o que me torna pequeno – abusos, acidentes, oposição, problemas.” (Palavras de Paulo Versão contemporânea da II Epístola aos Coríntios 12: 7-12).

Não poderia deixar de trazer a metáfora do espinho na carne para os tempos atuais, empregando-a no contexto do frenético mundo cibernético que, progressivamente, vem tomando conta de nossas vidas. O Facebook e o WhatsApp são exemplos de nossos novos objetos de desejo. O arguto espinho digital, apesar de está bem encravado em nosso ser, nunca esteve tão visível. O renomado sociólogo brasileiro, Jessé Sousa, em seu livro recentemente lançado pela Editora Estação Brasil ― “A Classe Média no Espelho Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade”(página 262), diz algo emblemático sobre esse novo espinho irremovível, a cujos efeitos sedutores cedemos, por não termos mais o livre-arbítrio em empreender sua  extirpação:

Todo o mecanismo precisamente concebido para atender aos desejos e necessidades de cada um, é produzido por nós mesmos. E tudo sob a aparência ingênua e confiável da troca de informações com amigos e familiares. Ninguém mais precisa invadir de modo ilegal nossa privacidade: agora nós a disponibilizamos, de graça (e não pela Graça – grifo meu), para que as empresas lucrem. (Jessé Sousa – Sobre nossa relação com as redes sociais)

Chegamos ao ponto de nos afligirmos em meio ao trabalho, lazer ou até em momentos devocionais, quando damos pela falta do smartphone. Na realidade, não podemos negar que as curtidas nos provocam uma ligeira anestesia ou sensação de bem-estar. Enquanto isso, o espinho na carne, responsável pela  dor existencial, sob a forma de um vazio impreenchível, continua inapelavelmente a reverberar as angústias de uma alma profundamente ferida em seu narcisismo.

Partes de mim se rebelam em segredo, e, quando menos espero, elas assumem o controle” (Epístola de Paulo aos Romanos 7: 23 Traduzida em Linguagem Contemporânea por Eugene H. Peterson)



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de janeiro de 2019

Site da Imagem: desistirnunca.com.br/nao-somos-apenas-o-que-pensamos-ser-freud/