Mostrando postagens com marcador Humor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Humor. Mostrar todas as postagens

18 junho 2020

A FUGA DO HOSPÍCIO






No tempo em que exercia sua função de cronista no Diário do Rio de Janeiro (1860) e na Gazeta de Notícias (1900), Machado de Assis publicava, diariamente, seus folhetins. Durante 40 anos, quando a Imprensa Brasileira gozava um período importante de consolidação, ironizou, como ninguém, o dia a dia da política e suas ideias prontas.

As cenas do Homem, dito civilizado, em seus folhetins, carregados de metáforas tinham um sabor de comédia e de insensatez, como esse que trago, com os devidos créditos, à baila em momentos trágicos e risíveis de nossa república das bananas.

“A fuga do Hospício é mais grave do que pode parecer à primeira vista. Não me envergonho de confessar que aprendi algo com ela, assim como que perdi uma das escoras de minha alma. Este resto de frase é obscuro, mas eu não estou agora para emendar frases nem palavras. O que for saindo saiu, e tanto melhor se entrar na cabeça do leitor.
Ou confiança nas leis, ou confiança nos homens, era convicção minha de que se podia viver tranquilo fora do Hospício dos Alienados. No bond, na sala, na rua, onde quer que se me deparasse pessoa disposta a dizer histórias extravagantes e opiniões extraordinárias, era meu costume ouvi-la quieto. Uma ou outra vez sucedia-me arregalar os olhos involuntariamente, e o interlocutor, supondo que era admiração, arregalava também os seus, e aumentava o desconcerto do discurso. Nunca me passou pela cabeça que fosse um demente. Quando o interlocutor, para melhor incutir uma ideia ou um fato, me apertava muito o braço ou puxava com força pela gola, longe de atribuir o gesto a simples loucura transitória, acreditava que era um modo particular de orar ou expor. O mais que fazia, era persuadir-me depressa dos fatos e das opiniões, não só por ter os braços mui sensíveis, como porque não é com dois vinténs que um homem se veste neste tempo.

Assim vivia, e não vivia mal. A prova de que andava certo, é que não me sucedia o menor desastre, salvo a perda da paciência; mas a paciência elabora-se com facilidade; ─ perde-se de manhã, já de noite se pode sair com dose nova.

O mais corria naturalmente. Agora, porém, que fugiram doidos do Hospício e que outros tentaram fazê-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi aquela antiga confiança que me fazia ouvir tranquilamente
discurso e notícias. É o que acima chamei uma das escoras de minha alma. Caiu por terra o forte apoio. Uma vez que se foge do Hospício dos alienados(e não acuso por isso a administração) onde acharei método para distinguir um louco de um homem de juízo? De ora avante, quando alguém vier dizer-me as coisas mais simples do mundo, ainda que não arranque os botões, fico incerto se é pessoa que se governa, ou se apenas está num daqueles intervalos lúcidos que permitem ligar as pontas da demência às da razão. Não posso deixar de desconfiar de todos.

A própria pessoa ─ ou para dar mais claro exemplo, ─ o próprio leitor
deve desconfiar de si. Certo que o tenho em boa conta, sei que é ilustrado, benévolo e paciente, mas depois dos sucessos desta semana, quem lhe afirma que não saiu ontem do Hospício?”.

(A segunda parte dessa Crônica de Machado de Assis publicarei posteriormente).


Levi B. Santos
Guarabira, 18 de junho de 2020

21 novembro 2019

REVISITANDO O PROFESSOR DE JAVANÊS




Ontem (20), dia da Consciência Negra, o ministro Toffoli trouxe ao pleno do STF o “escritor negro que nunca esqueceu a sua classe” ― Lima Barreto ─, autor do risível “O Homem Que Sabia Javanês”.

No conto, o personagem Castelo criado por Lima Barreto “era um diplomata que chefiava um consulado, mas não sabia a língua exótica que um dia se propôs ensinar”. Em conversa com seu amigo Castro numa Confeitaria exibia orgulhoso as peças que pregava no seu ambiente de trabalho...
Bem, vou parar por aqui. Deixo a cargo do leitor, a leitura ou (releitura) da fenomenal obra desse venerado escritor. E que venham boas gargalhadas.

O voto de Toffoli, que não disse coisa com coisa por mais de quatro horas (no caso COAF), com certeza, será lembrado pelas futuras gerações como um dos maiores fiascos da História do STF.

Mas foi o indefectível Luís Roberto Barroso que, já saindo do plenário, após o truncado julgamento, sapecou a frase que evocou Lima Barreto:

“Tem que trazer um professor de Javanês!!!”

Ainda bem que Barroso, um apreciador da boa literatura, chamou-nos a atenção para o memorável conto de nosso corajoso escritor negro - Lima Barreto - na noite do Dia da Consciência Negra.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de novembro de 2019

31 outubro 2019

AS EXÉQUIAS DO EXCÊNTRICO BIOANALISTA

  

O laboratório era sua segunda casa. A bem dizer, quase todos habitantes da pequenina cidade já tinham passado por suas mãos. Respeitavam-no, pois era a quem recorriam; a quem entregavam seu sangue, seus excrementos sólidos e líquidos a ser examinados minuciosamente.

Na tarde cinzenta e fria de seu sepultamento ninguém ousou dizer uma palavra sequer. O sacerdote esperava que alguém se pronunciasse, antes do féretro descer à cova, mas nenhum tomou essa iniciativa. Aliás, nada podiam fazer, pois estavam perplexos, como que atacados por uma sisudez mórbida, como se uma aura paralisante tivesse caído abruptamente sobre seus nervos e músculos. Uma mistura de perplexidade e tristeza transparecia em todos os olhares.

O silêncio que reinou minutos antes do corpo do cientista descer à sepultura, talvez fosse resultado do clima de extrema religiosidade da população a colidir com a personalidade paradoxal do douto senhor. Talvez, os seus defeitos estivessem a anular as suas virtudes, impedindo os discursos fúnebres, que geralmente se nutrem do lado “bom” do sujeito. O certo é que um clima de temor caiu sobre os que estavam ao pé de sua cova. Uns temiam que surgisse algum antipático a falar, ali, sobre as fraquezas e as excentricidades do defunto; outros receavam que as palavras de elogios ao morto, pudessem desaguar em um sonoro “não é verdade!”.

Não é que deu para ouvir o que uma das garotas, ali presente, balbuciou ao ouvido da outra?! É que o falecido tinha encontrado tantas variedades de vermes nas fezes dela que, ao apresentar-lhe o resultado, chamou-a de “verminosa” ― termo compreendido pela examinada como um xingamento.

Enfim, o doutor era o paradoxo em pessoa ― o que não é novidade nenhuma, pois é exatamente a contradição que caracteriza o humano. Por vezes, pessoas que compareciam a seu laboratório para lhe fazer perguntas sobre resultados de exames, recebiam como resposta, o silêncio, ou, quando muito, o lembrete: “Não abra o envelope, seu médico é quem vai informar o que você tem.” Denotando todo seu modo ambivalente de ser, às vezes, quando inquirido insistentemente sobre o que tinha dado nos exames, disparava: “Huuuuumm! Parece uma infecção aguda!”.

Não encontrando fórmulas para dizer a verdade, em toda sua plenitude, naquele cair de tarde, a maneira melhor, mais simples e sincera que encontraram foi não emitir opiniões sobre o incrível homem de branco. Na falta de expressões que abarcassem toda a verdade sobre o falecido, resolveram aproveitar o silêncio ou o vazio de palavras do momento para recordar fatos pitorescos e engraçados da vida do doutor ― homem que conhecia muito bem o que estava oculto no sangue e nos excrementos de todos que o acompanhavam em sua derradeira viagem.

As últimas palavras do sacerdote confirmaram o que preconizam os filósofos e estudiosos da alma humana: “Não existe olhar neutro ― ele está sempre carregado de subjetividades nas relações que construímos uns com os outros”.

O enunciado bíblico “... e as suas obras o sigam” ― recitado pelo pároco no final do ritual fúnebre ―, mudara instantaneamente o ar dos velhos amigos de infância do analista a caminho de sua última morada. A estranheza denunciada pelo olhar deles, talvez se devesse a palavra “obra”. Este termo parece ter sido a senha para que viessem à tona fatos longínquos de suas vidas. É de se pensar que chegaram instantaneamente às suas mentes, lembranças reprimidas do tempo em que depositavam as latinhas com os dejetos dos filhos e netos sobre o balcão de madeira do velho laboratório a serem analisados.
“Eu vim trazer a obra de meu menino para o senhor examinar”  ― era assim que os ex-colegas de infância, com o olhar cabisbaixo e carregado de vergonha, se dirigiam a esse homem sisudo de avental branco, que passava a maior parte de seu tempo cercado de tubos de ensaios, tendo bem ao centro de uma grande mesa de madeira de lei o inseparável e velho microscópio cheirando a clorofórmio. 

Depois do enterro de um ente querido, comumente, há sempre pessoas que têm o dom de contagiar o ambiente com suas traquinices, como que para quebrar a monotonia de fundo melancólico instaurada em ocasiões como essa. O certo é que ao descerem a ladeira do cemitério, rumo às suas casas, riram muito a respeito do paralelismo lingüístico entre “fezes” e “obras”(*). Até confidenciaram entre si que o falecido poderia (por que não?) ter sua função re-exercida na eternidade.


(*) Há na simbologia mítica uma relação intrínseca entre os significantes “fezes” e “obras”. No Dicionário Psicanalítico de Símbolos, as fezes representam a primeira manifestação criativa e concreta do poder individual; na Alquimia esses excrementos são considerados a matéria prima que acaba se transformando em ouro.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de outubro de 2013

Link da Imagem:

30 março 2019

Mais Uma Reprise de “Os Deuses de Casaca”





Parece que na vida de nosso país, apelidado de republiqueta das bananas, a comicidade e a falta de seriedade no trato da coisa pública nunca se revestiram de tão degradantes aspectos como os que acontecem nos dias atuais.

A comédia machadiana ―“Os Deuses de Casaca” ―, escrita em 1886 (há mais de 150 anos) cai como uma luva para retratar a bagunça que está o país nesses últimos dias, onde peças de péssima qualidade e óperas bufas são encenadas no grande teatro dos três poderes situado no planalto central, que deram o nome de Brasília ― fantasioso palco onde os mais variados idealistas de ocasião exibem suas maquiavélicas e caricatas incongruências, cada vez mais escalofobéticas.

Os afetos da natureza humana são ambíguos, como ambíguas são também as almas dos que lá no panteão dos poderes exercitam seus neurônios. Entretanto, a turbulência de seus inflamados egos não permite que enxerguem o óbvio: a da necessidade de um mínimo de consenso diante de suas facções rendidas à intolerância e ao ódio. Será que os meliantes de nossas “sagradas casas”, não percebem que tudo se inicia no vácuo da falta de vigilância, uma vez que o estar sempre alerta no domínio de nossas feras interiores, afastaria o narcisismo doentio e infantil responsável pela insana autofagia ― processo esse que, ao fim e ao cabo, não deixará ninguém de pé?

Mas o que fazer quando se teima em proceder como o escorpião da fábula, que não resistiu ao instinto de injetar seu letal veneno no elefante que gentilmente o conduzia a salvo, de um lado do rio para o outro. “Desculpe, é a minha natureza” ― foi a alegação do egoísta animal peçonhento, antes de afundar no caudaloso rio, levando consigo o generoso animal que tinha resolvido salvá-lo.

Se o(a) leitor(a) tiver paciência de conferir o terceiro ato da peça ― “Os Deuses de Casaca” ― vai notar que tudo o que Machado escreveu, há mais de 150 anos, retrata, em fortes cores, os conflitos intermináveis em uma Babel de línguas estranhas, onde ninguém mais se entende.

Já estamos por demais cansados de, no horário considerado nobre pela sociedade, assistir a bate-bocas ou quebra paus que, a custa de nossos suados impostos, os Jornais da TV aberta e fechada, veiculam de forma sensacionalista. Com certeza, Machado de Assis, nosso maior escritor e dramaturgo, retirou muito material do lamacento e ignominioso mar dos “deuses de casaca” de seu tempo, para relatar, com seu humor inconfundível, os dramas e comédias da velha república que já nasceu viciada, na histórica Rio de Janeiro, hoje, infelizmente saqueada e falida.

Replicarei, abaixo, alguns trechos do diálogo entre Júpiter (o Grande Pai e Rei dos deuses menores de Roma), seu filho Marte (Deus da Guerra), e Apolo(Deus do Sol e da profecia) A similitude dos personagens da comédia machadiana, com os atores das comédias sem pé nem cabeça que estamos a assistir, ultimamente, chega até a nos surpreender. Personagens essas encomendadas exatamente para retratar as cenas burlescas dos sombrios dias atuais , a partir do Olimpo de Brasília.

Irei me deter no terceiro ato dessa insuperável peça de Machado de Assis, pelo fato de estar eivada de termos, hoje, usados e abusados nas divinas comédias do horário nobre nos canais de TV, em nossas glebas. No diálogo republicano machadiano as falas esdrúxulas usadas pelos atores são as que ainda hoje estão sendo brandidas pelos poderosos comediantes da pós modernidade. Expressões como: “congresso geral”, “artifício da diplomacia”, “traidores”, reforma, “uma horrível Babel, onde a honra é de papel”.

Sem mais delongas, passemos aos trechos emblemáticos que aqui prometi replicá-los, do interessantíssimo diálogo entre ― Marte, Júpiter e Apolo ― pinçados da peça "Os Deuses de Casaca" (de Machado de Assis):


MARTE:

― Desgraçado daquele que assim foge às lutas e à conquista!

JÚPITER:

― Que tens feito?

MARTE:

― Oh! Por mim, ando na pista de um Congresso geral. Quero, como fogo e arte, mostrar que sou aquele antigo Marte – que as guerras inspirou de Aquiles e de Heitor. Mas por agora nada! É desanimador o estado desse mundo. A guerra, o meu ofício, é o último caso, antes vem o artifício. Diplomacia é o nome; a coisa é o mútuo engano. Matam-se, mas depois de um labutar insano. Discutem, gastam o tempo, cuidado e talento, O talento e o cuidado é ter astúcia e tento. […] A tolice no caso é falar claro e franco.

JÚPITER

―Tens razão, filho tens!

MARTE:

― Que acontece daqui? É que nesta Babel reina em todos e em tudo uma coisa – o papel. É esta a base o meio e o fim. O grande rei é o papel. Não há outra força, outra lei. A fortuna o que é? Papel ao portador.
A honra é de papel; é de papel o amor. O valor já não é aquele ardor aceso, tem duas divisões – é de almaço ou de peso.
Enfim, por completar esta horrível Babel, a moral de papel faz guerra de papel.

APOLO:

― Sinto que o nosso esforço é baldado e imagino que não bateu a hora do destino. Que dizes Marte?

MARTE:

― A Reforma há de vir quando o Olimpo, outra vez, em nossas mãos cair. Espera!


Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de março de 2019

24 novembro 2018

“A MOÇA DO SONHO” E A “DEMOCRACIA BANGUELA”



Clique na Figura para ver melhor




A canção “A Moça do Sonho” ─ de Chico e Edu Lobo ─, foi esboçada para o show Cambaio em 2001. Em uma nova e magistral interpretação - foi incluída no recente Show e CD “CARAVANAS” de Chico Buarque.

Foi lá no magnífico Teatro Pedra do Reino – João Pessoa (15 de setembro de 2018 – pouco mais de duas semanas antes do primeiro turno da eleição para presidente da república), que tive a oportunidade de ver um Chico de pé (com sinais na face, denunciando seus setenta e quatro anos de idade). Impassível, só as mãos meio trêmulas acompanhavam, sob a forma de sentidos gestos, sua voz melancólica. Teatro lotado. Na plateia nenhum pio se ouvia, e as estrofes da dolente canção “A Moça do Sonho” extravasavam de sua boca, agitando e vibrando as cordas dos corações daqueles que estáticos o ouviam sentados em aconchegantes poltronas.


“Arrisquei perguntar: Quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó.

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: Quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu.” (Primeira parte de “A Moça do Sonho”)

O poeta é o rei das metáforas.

“É impossível pensar em qualquer sonho sem que uma motivação original não tenha passado pela mente: quer seja um desejo, anseio ou impulso. O Sonho simplesmente é produto de uma elaboração dramática que parte dos fragmentos históricos pré existentes no subsolo de nosso aparelho psíquico”. (Já dizia Freud, em “A interpretação dos Sonhos” – página 86)

E Chico, o poeta maior da MPB, por fim, como um exímio artista em “A Moça do Sonho”, exibia seus próprios desejos, seus próprios sonhos, sua utopia, sua esperança/desesperada, seu anseio em retornar ao “Jardim do Éden”, seu gozo imaginário por um venturoso “Milênio de Paz e Justiça” de que trata a religião cristã no livro do Apocalipse Bíblico.
Como metáfora para os dias atuais, por que não traduzir a “Moça do Sonho”, como a Democracia sonhada por muitos, principalmente, em tempos sombrios de mudança de governo?

Sou da época de Chico Buarque, e aprendi nos livros de História que a Democracia (ou sonho democrático) nasceu na Grécia de Péricles e Aristóteles - 500 Anos a.C.. Mas a coitada, creio eu, foi tão maltratada que já chegou ao Novo Mundo desdentada.

A título de realce, não poderia deixar de repetir, aqui, o que escreveu o pai de Chico (o Historiador Sérgio Buarque de Holanda) sobre nossa suposta cordialidade democrática ─ no antológico clássico ─ “Raízes do Brasil”:

“A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. […] Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante o decurso de nossa evolução política vieram quase de surpresa; a grande massa do povo recebeu-as com displicência ou hostilidade”.

E por falar em “sonho democrático”, não é que o cartunista, André Dahmer, da Folha de São Paulo (no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2018) publicou um humorado quadrinho (Vide Figura no Topo do texto) que, muito bem, poderia ter esse título: “Você Beijaria a Democracia Banguela?”

Bem, pelo menos em sonhos (utopia), o poeta maior da MPB deixa implícito na pungente canção, o desejo (que também é o nosso) de um dia encontrar essa “Moça”, e não voltar jamais (que fique claro: com todos os dentes e não banguela)


“Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a Vida não…


Um lugar deve existir
Uma espécie de Bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre as escadas que fogem dos pés
E relógios que andam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava jamais”. (final da letra de “A Moça do Sonho”)




27 julho 2018

Fake News (?) No Império e na Atual República





[A Semelhança entre a tela do Grito do Ipiranga (no alto) - pintada por Pedro Américo em 1888 e a que vem logo abaixo - do francês Ernest Meissonier - retratando em 1875 a Vitória de Napoleão na Batalha de Friedland, para alguns experts, não foi mera coincidência.]



Notícia falsa (mutreta ou boato criado para retratar personalidades influentes e poderosas) foi coisa que nunca faltou na antiga Terra de Santa Cruz. A treta de que Dom João VI era, em público, um sôfrego comedor de coxas de galinha é contada por vários historiadores. Teria sido verdade essa afirmação, ou mentira dos invejosos do famoso e adulado rei?

“Carlota Joaquina - A Rainha Devassa”, título do livro de João Felício dos Santos ― Editora José Olympio ― traz uma narrativa em forma de romance, onde se evidenciam as contradições, mazelas e vicissitudes que infestavam o coração da poderosa mulher de um obtuso marido. O quanto tem aqui de fake news(notícias falsas) só Deus sabe. Já o historiador argentino Marsílio Cassoti em seu livro, “Memórias de Carlota Joaquina, a Amante do Poder” relata que a imagem infiel da rainha (esposa de D. João VI e mãe de D. Pedro I) foi divulgada e explorada maldosamente por seus adversários políticos.

Segundo alguns escritores dos dramas e comédias de nossa Colônia, D. Pedro I, filho de D. João VI não teve nem forças para gritar o “Independência ou Morte”, descrito com áurea patriótica pelos autores dos livros que, ávidos decorávamos nos grupos escolares. Segundo a versão sem arroubos extravagantes do ufanismo explorado pelo lado vitorioso, o coitado do imperador, padecendo de uma tremenda disenteria às margens do riacho Ipiranga, jamais teria condição de dar esse brado que tanto empolgou a meninada que fazia o curso primário na minha época. Hoje, como muito bem se sabe, a desidratação causada por perda de muito líquido nas fezes, deixa o sujeito lívido e sem forças para caminhar. Ao que tudo indica, esse fato, foi uma das primeiras fake news a nos ludibriar, ante o que se sabe, hoje, através das inúmeras obras contendo minuciosos achados históricos esquecidos ou escondidos intencionalmente nos porões ou arquivos mofados das grandes bibliotecas.

De Pedro Américo, dizem que foi contratado a peso de ouro para, 66 anos depois do suposto “Grito do Ipiranga”, pintar um quadro memorável de D. Pedro I e sua trupe. Em vez de mulas levando o grupo imperial serra acima, o famoso pintor, natural de Areia – PB (cidade serrana distante cerca de 15 quilômetros de minha cidade natal), para grandeza da pátria idolatrada, pincelou em sua grande tela, belos cavalos de corrida, guiados por gente ricamente fardada empunhando espadas reluzentes, num colorido impressionante. Cecília Helena de Salles, historiadora e professora da USP e coautora de “Brado do Ipiranga”, não me deixa mentir, sobre a farsa do quadro da Independência: “...não era comum usar cavalos, mas sim mulas, para fazer o trajeto da Serra do Mar. Os uniformes também eram galantes demais para o tipo de viagem que D. Pedro I estava fazendo. Sua comitiva não era numerosa, no máximo levava 14 pessoas”.

Na época, a obra de Pedro Américo causou muita polêmica, em virtude de ter plagiado, em muitos detalhes, o quadro que retratava a “Vitória de Napoleão na Batalha de Friedland” ─ obra do pintor francês Ernest Meissonier, em 1875.

Nas eleições para presidente, em 1945, espalharam a notícia de que o candidato Eduardo Gomes teria dito em pleno Teatro Municipal do Rio de Janeiro que Getúlio Vargas (seu adversário) andava com um bando de desocupados. O revide veio rápido: os getulistas divulgaram que o brigadeiro, Eduardo Gomes, era contra os marmiteiros, negros e espíritas.

Na atualidade, historiadores, professores e jornalistas, numa espécie de releitura, descrevem os fakes ou news, como frutos de patriotadas republicanas, em contraste com narrativas verdadeiras onde a extravagância e ganância de personagens importantes de Nossa Risível História se sobressaem.

Pulando para um passado recente, precisamente em 1989, o candidato a Presidente, Fernando Collor, em uma trama farsesca, chegou a declarar pela TV que, Lula, seu opositor, iria mexer na poupança do povo, depositada nos Bancos Estatais. Foi uma audácia tremenda, pois esse maquiavélico plano, foi urdido na surdina por ele mesmo (Collor) e sua equipe econômica, antes de ser eleito Presidente da República. Muitos acham que essa maldita fake New concorreu para a derrota de Luiz Inácio Lula da Silva.

Para afastar Marina Silva de seu caminho, Dilma Rousself, na campanha pela reeleição em 2014, disseminou a notícia falsa de que ela, eleita fosse, tiraria a comida da mesa do pobre. Na propaganda eleitoral contra Marina pela TV, a comida sumia das mesas para que o dinheiro a ser gasto com a compra de mantimentos fosse entregue aos banqueiros.

Em uma reunião recente (junho de 2018), o ministro Luiz Fux, presidente do STE, mostrou-se esperançoso, alertando os marqueteiros no sentido de coibir a prática de mentiras na campanha eleitoral. Na ocasião, fez questão de informar que se ficar comprovado que a eleição foi resultado de uma notícia falsa, ela seria anulada.(rsrs)

Pelo que escreveu em suas inúmeras obras, Noberto Bobbio, maior cientista político do mundo, talvez esteja estremecendo no túmulo, com tudo que se falou até agora no que diz respeito ao combate às Fake News.
Esse famoso cientista político (falecido em 2004), em sua fenomenal obra ― “Elogio da Serenidade” (Editora UNESP ‒ página 90) fez uma afirmação profundamente cortante e irretocável, que vem bem a calhar com a preocupação do eleitorado e da Justiça Eleitoral quanto a disseminação de notícias falsas aqui em nossas plagas. Disse ele: “Não há esfera política sem conflitos. Ninguém espera levar a melhor num conflito sem recorrer à arte do fingimento, do engano, do mascaramento das próprias intenções”.

Realmente, a coisa não é tão fácil de debelar como muitos pensam. Para avivar nossa memória: antes de existir o twitter e o Facebook, encabeçado pelos EUA, os jornais e canais de Televisão do mundo inteiro revelavamr que o Iraque estava escondendo armas de destruição em massa. Todos sabem como essa notícia falsa manipulou e pôs a nu a nossa percepção politicamente tendenciosa.

Em meio a uma crise sem precedentes em nossa história, a necessidade de examinarmos a nós mesmos nunca foi tão premente. Só mergulhando nas profundezas de nosso obscuro oceano psíquico poderemos perceber que grudado na falsa notícia emitida, fica um pouco de nossas próprias idiossincrasias.


Por Levi B Santos
Guarabira, 27 de julho de 2018




06 setembro 2017

O Que Não Me Contaram na Escola Sobre o “Grito do Ipiranga”



Em plena tarde do dia 07 de setembro de 1822, D. Pedro I que saíra de Santos para resolver uma pendenga entre dois grandes partidos políticos de São Paulo, foi surpreendido por cólicas atrozes seguidas de numerosas evacuações intestinais. Várias vezes o príncipe apeou-se de sua mula baia, para entre uma ida e vinda no matagal da beira da estrada bem perto do Riacho do Ipiranga, expelir o abundante material fecal infectado de seus inflamados intestinos, fruto, talvez, de alimentos contaminados ingeridos com sofreguidão no dia anterior. Foi em meio a essa agonia tremenda que, tonto e debilitado pelo quadro de desidratação, dirigiu-se ao Padre Belquior —, peça importante de sua pequena e simples comitiva.
― E agora, Padre Belchior? ― disse com voz fraquinha, D. Pedro I (pálido e suando frio, incomodado por ardências provocadas pelas fezes ácidas).
― Não há outro caminho, que não seja o de cortar as relações da colônia com Portugal ― retrucou de modo incisivo, o padre e amigo, pouco antes de receber uma missiva de D. Leopoldina que fazia referência a um pomo maduro a ser colhido rapidamente.
D. Pedro caminha alguns passos (trôpegos). De repente, após tomar um chá de folha da goiabeira, estanca diante dos animais (que, provavelmente estavam comendo capim à beira da estrada), e diz (com fala trêmula, já bem enfraquecido pela intensa disenteria):
― Nada mais quero com o governo Português!" [Baseado no livro '1822' - de Laurentino Gomes]


P.S.:
Segundo a pesquisadora Cecília Helena Salles de Oliveira, “a data 7 de setembro de 1822 não foi considerada, de início, particularmente relevante como marco simbólico da formação da nação, nem pela imprensa, nem pelo próprio D. Pedro”. [História Viva/Dueto Editorial]
“66 anos após o grito (que não houve – grifo meu), Pedro Américo se ofereceu para fazer a obra e ganhou uma boa quantia pela encomenda: 30 contos de réis – como comparação, em 1888, o governo de São Paulo aplicou 22 contos de réis na área da saúde. Na época, muitos políticos achavam que não seria preciso pedir a alguém de fora para fazer o quadro (Américo já vivia na Itália), mas, como tinha amigos influentes, ele conseguiu a indicação” Na verdade o quadro 'Independência ou Morte!' foi um plágio descarado do quadro do francês Ernest Meissounier, o qual retratava a vitória de Napoleão em 1807 na batalha de Friedland [Vide: História Pensante]
O grito farsesco da narrativa oficial inaugurada pelas elites em sete de setembro de 1822, em pouco mais de sessenta e sete anos, novamente sem a participação popular, foi encenado no Rio de Janeiro, naquilo que denominaram “Proclamação da República” (15 de novembro de 1889). Do Grito (que não houve) de D. Pedro I à badalada “Reforma Política” dos dias atuais, lá se vão 195 anos de histórias mal contadas.


Site da Imagem do Topo: novarussanostrilhos.blogspot.com.br

Levi B. Santos
Guarabira, 06 de setembro de 2017

13 dezembro 2016

Um Tenebroso Sonho com a República



Não raramente tenho tido sonhos angustiantes. Mas esse que tive recentemente, pela gravidade do momento que ora atravessamos, talvez tenha sido o mais estarrecedor. Não obstante, os antigos acreditarem que sonhos podem prever o futuro, na minha cética compreensão, acompanho Freud, quando ele diz que “todos os sonhos se originam do passado em todos os sentidos”. Mesmo projetado num futuro, o sonho do tempo presente tem, em seu bojo, conteúdos já experimentados e recalcados no subsolo obscuro da mente.


Sonhei que estava no início de julho ― três meses antes da eleição presidencial de 2018 ―, época em que a operação Lava-Jato, como nunca tinha ocorrido antes, vinha funcionando de forma temerária e avassaladora. Lembro bem da voz tonitruante que fez estremecer todo meu corpo: “já contamos com mais de trezentos congressistas denunciados como réus”. Manchetes dos principais jornais do país passavam por minha mente dando conta de que nossos seis principais partidos políticos estavam sem pré-candidatos à presidência da república. Ninguém estava em condições de assumir o posto maior da nação, provocando, em consequência, uma crise sem precedentes desde que o mundo é mundo.

Em minha visão, um senhor de longa beca preta, parecendo um dos ministros do Supremo, saiu-se com essa: “Eu avisei! Eu avisei que a Lava-Jato, com seu ímpeto puritano, terminaria por inviabilizar o país!” No desenrolar do sonho veio a minha percepção que o vaticínio do ministro teria começado a se concretizar em uma reunião secreta, por ocasião da recusa de um membro do Senado em assinar uma intimação enviada pelo próprio STF, nos idos de dezembro de 2016. Um detalhe do sonho, nunca vou esquecer: O senhor de preto, usando da ironia, cantarolava (baixinho, para ninguém ouvir) o último verso de ― ”FESTA” ―, música funk muito conhecida, na voz da grande intérprete baiana, Ivete Sangalo: “...Vai rolar a festa/Vai rolar/O povo no gueto/Mandou avisar.”

De repente, me vi em um grande salão ricamente condecorado. Um guarda com vestes imperiais, dirigindo-se a mim, detonou: aqui você não pode entrar, os três poderes estão se reunindo para descascar um grande abacaxi! Depois de vários jantares secretos nesse belíssimo salão nobre, as autoridades levantaram-se cabisbaixas e, tomando seus valiosos automóveis, desapareceram com destino incerto, como fantasmas evaporando no ar. Foi quando vi uma fumaça branca subindo no céu do planalto central brasileiro, indicando que haveria eleição para presidente da república: Do lado de fora do prédio vi uma grande faixa branca onde estava escrita, em letras vermelhas reluzentes, a inscrição: “A fórmula encontrada foi uma intervenção vinda do Céu!”. Por falar em Céu, pude escutar uma voz cavernosa a imitar a célebre e sábia decisão de Cristo diante dos apedrejadores da prostituta, narrada nos Evangelhos: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”. 

Perguntei ao guarda sobre o motivo dessa reunião secreta. Após olhar para frente, para trás e para os lados e não vendo ninguém por perto, segredou-me ao ouvido: Pelo placar de 9X1, ficou decidido que só os réus com até três processos é que poderiam se candidatar ao posto máximo do país. Pelo mesmo escore, também decidiram que a Lava Jato seria controlada por um Conselho, aos moldes do CNJ. Diante do caráter urgente prevalecera o bom senso de que não se deveria retardar o veredicto. Imediatamente, após a fala do guarda, vi uma enorme pomba falante passar em voo rasante sobre minha cabeça. Em todo seu esplendor, ela estava alí, bem evidente a grasnar em latim: “Periculum in mora!”


Em minha mente, eu tinha a nítida percepção de que a decisão tomada de urgência pela alta cúpula dos poderes não tinha agradado aqueles presidenciáveis que, apesar dos fardos pesados que carregavam nos ombros e em outros recantos, estavam na crista da onda midiática.

Como é comum em sonhos se pular em frações de segundo de um ambiente para outro completamente diferente, de repente estava eu deitado no sofá de minha sala assistindo ao Jornal da GloboNews (edição da meia-noite), do qual, só retive na memória a última fala do comentarista de plantão, especialista em política e economia:

“...Talvez tenha sido por isso que o dólar subiu e a Bolsa despencou. O Mercado, as empresas nacionais/internacionais e os banqueiros não gostaram da solução acordada pelos três poderes. Os que estavam de corpo e alma envolvidos em muitas denúncias na Lava-Jato eram os preferidos do Mercado. O Mercado temia os mais puros de coração(os com menos de três processos): é que os imaturos, devido a falta de traquejo político-econômico, poderiam por tudo a perder ao assumir o cargo de presidente da república. Os barões, administradores dos bancos e das grandes empresas, apesar de confiarem no espírito poderosamente inflamável do Neo-Liberalismo, temiam que o presidente eleito, imbuído de um idealismo edênico, interferisse em suas futuras e obscuras negociatas com o poder público”.

O desfecho do sonho foi tremendamente assustador. Lembro que estiquei-me todo, ficando nas pontas dos pés sobre o assoalho de madeira de lei, a fim de me debater com mais vigor contra a água turva de odor irrespirável que inundava o salão nobre. Quando me encontrava no momento de maior agonia, lutando para que a água turva não entrasse em minhas narinas, nauseado e completamente sem forças, acordei do meu tenebroso sonho republicano.




Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de dezembro de 2016