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10 agosto 2011

Do Pai Arcaico ao Pai Moderno

O que os filhos fizeram do pai (editor desse blog)



Parece que aquele pai arcaico e guerreiro, à semelhança do Deus judaico, senhor dos exércitos e das famílias, cedeu o seu trono em troca de uma relação de cumplicidade com os filhos, para desempenhar funções jamais imaginadas em eras passadas. O pai de hoje já não consegue ser mais aquele que toma posse do filho para reger o seu destino.

Um exemplo de como eram as relações entre filhos e pais antiquados está presente na “Carta ao Pai”, que o escritor checo, Kafka (1883 – 1924), redigiu e nunca teve coragem de enviar ao seu destinatário. Na carta do autor de “Metamorfose”, que só veio a público após a morte de seu pai, encontramos essa emblemática declaração:

“Da tua poltrona, tu regias o mundo.

Tua opinião era a certa,

qualquer outra era disparatada,

extravagante, anormal”.

Hoje, as descrições da antropologia definem o pai da pós-modernidade como o “Pai Mutilado” que, ao fundar ou permitir uma moderna desordem no seio da família, abalou os velhos costumes centrados no poder coercitivo patriarcal.

Esse pai pós-moderno, já não vê mais o filho como um objeto inteiramente submisso a sua vontade. Por outro lado, o filho moderno também deixou de ser uma coisa para se tornar um sujeito integral.

O fato é que o que antigamente era totalmente imprevisível, hoje, se tornou corriqueiro: pai e filhos, no final de semana, passam horas na cozinha da casa fazendo barbeiragem nos fogões, ou jogando conversa fora após o almoço, trocando impressões de forma divertida sobre assuntos diversos do cotidiano familiar. Foi-se o temor do filho ser repreendido por discordar do pai. Aliás, não são poucos os filhos, que hoje, têm se tornados verdadeiros conselheiros dos pais, antes deles tomarem qualquer decisão importante. A seriedade da família antiga que, exigia uma postura sacra na hora solene das refeições, deu lugar aos incontroláveis momentos de humor, onde a descontração é o que conta, ante um pai espontâneo, rindo dele mesmo, em meio às histórias engraçadas contadas pelos filhos sobre as hilariantes peripécias do seu dia a dia.

A relação “Senhor-Servo” (patriarcal) deu lugar a um vínculo permeado de intensa cumplicidade, onde o pai é mais amigo do filho do que mentor, em que pese a sua condição de provedor. Os laços afetivos são tão estreitos, com visões de mundo tão alinhadas que os próprios pais chegam a aceitar de bom grado que os filhos posterguem ao máximo a sua saída definitiva da casa paterna.

Pais sendo contestados, desafiados e recebendo conselhos dos filhos?! Quem, em santa consciência do tempo dos nossos avós, poderia pensar que fosse um dia acontecer?!

Não sei bem como será a família do futuro após o desmoronamento dos muros rígidos que separavam o terreno da autoridade paterna do que era a área do filho.

Quem diria que o pai-patrão, um dia, viria a ser um exímio trocador de fraldas, fato que por si só, é um indicativo de que os tempos são outros, tempos de servir aos filhos sem pensar em interesses pecuniários, como era comum no passado dos pais que diziam com fervor: “Estou investindo nos filhos, para no futuro ser bem recompensado por eles”.

O terrível julgamento que proibia os filhos de superarem os pais, presente na evocação da famosa frase do poeta e filósofo romano, Horácio “Valemos menos que nossos pais, e nossos filhos valerão menos que nós” hoje, não há mais razão de ser.

Parece mesmo que estamos vivendo uma nova ordem em meio ao que os conservadores chamam de “desordem familiar”, onde o pai, à semelhança do Deus Patriarcal Judaico cansado de guerras, decidiu, de uma vez por todas, desnudar-se de todo poder para se reinvestir da horizontalidade do amor fraternal, em que todos do lar comungam de um mesmo sentimento, sem frescuras.


Ensaio por Levi B. Santos

Guarabira, 10 de Agosto de 2011

05 agosto 2011

O Velho Violão

O blog “Ensaios & Prosas” está completando neste mês de agosto 5 anos de atividade. Para rememorar o tempo em que me iniciava na arte de blogar, decidi republicar uma das primeiras crônicas que postei (agosto de 2006).
Trata-se da narrativa do triste destino que, sem a minha autorização, deram a um velho violão de braço e bojo quebrados - velho amigo e confidente de minhas antigas farras, que por um triz não foi parar no caminhão do lixo. Por sinal, ele ainda se encontra bem guardado no canto de um quartinho no fundo do quintal de minha casa.


O VELHO VIOLÃO


Ao chegar à minha casa, vindo do trabalho, surpreendi-me ao te encontrar, meu antigo companheiro de grandes aventuras, combalido, de braço quebrado e cordas enferrujadas em desalinho, com o teu bojo a despregar lascas de madeira, ainda de pé, encostado a uma pilastra do grande portão da garagem, esperando o Caminhão do lixo que te levaria a um triste destino.

Entre os objetos lá do quartinho, no fundo do quintal, foste o único sentenciado e condenado a ser enviado para o “Lixão”. Certamente julgado por alguém, que te considerou um estorvo entre as relíquias acumuladas ao teu redor, as quais foram consideradas de mais valia.

Quem sabe, se antes de chegares a tua ingrata morada, outras mãos te pegariam, te apalpariam, e após uma complicada reforma, voltarias a alegrar ambientes de um outro dono. Uma coisa eu sei: a tua história por estes trinta e dois anos em que viveste ao meu lado, o teu novo patrão jamais saberia.

Nos desvãos de minha vida, por todo esse tempo, arranquei de ti muitas canções alegres, e algumas tristes. Tal qual uma esposa me acompanhaste na tristeza e na alegria. O teu som se fazia ouvir entre aplausos. Eras cobiçado pela tua postura e beleza. Os que te ouviam admirados, diziam ao te ver de pertinho: É um majestoso instrumento, um “Di Giórgio”. A tua superfície brilhava e refletia tudo ao teu redor, como se fosse um espelho. Tinha um cuidado especial para não seres arranhado em tua tez macia.

Não...! Não posso te dar tão infame destino! Por duas vezes colei as tuas partes quebradas e voltaste a alegrar a minha casa, pelas mãos dos meus três filhos, que cresceram na arte da música, dedilhando as tuas cordas.

Viajaste por tantos recantos do meu Estado, que eu perdi a conta. Em clubes, igrejas, praias e residências de amigos. Em festas de aniversários e outras comemorações, desde os idos de 1974, quando iniciava a minha vida de médico. Lembro-me ainda, no silêncio das minhas noites de insônia, quando a tua voz ficava mais pungente e suave, e, como um bálsamo, fazia-me flutuar em devaneios de um tempo que não volta mais.

O menor tributo que eu poderia te prestar, o fiz imediatamente, ordenando:

Recolham o que resta deste violão ao quartinho! Algum dia haverá conserto para ele.

Dei-te as costas, e saí, na esperança de que futuramente pudesse extrair de tuas cordas sons dolentes. Sons que me acalmavam o espírito nas noites enluaradas e frias de outono, que me inspiravam a tocar as velhas e nostálgicas canções, que nos meus quinze anos, ouvia ao lado de meu pai em sua vitrola antiga, de discos de setenta e oito rotações.


Crônica por Levi B. Santos.

Guarabira, 17 de julho de 2006

“Nossa memória é um mundo mais perfeito que o universo: ela devolve a vida àquilo que não existe mais” (Guy de Maupassant)


06 agosto 2010

“Ensaios & Prosas” Faz Quatro Anos


Foi no dia 06 de agosto de 2006, que resolvi adentrar no mundo da internet. Substituí o papel por uma tela de computador, e a minha caneta troquei por um teclado. De lá para cá, já se vão quatro anos que vivo engolfando a minha alma nesse recanto cibernético. É de frente a uma telinha luminosa que eu me exercito na arte de escrever como também na arte de ouvir, e, enquanto passam as páginas cinzentas dos dias e as páginas negras da noite, vou interagindo com uma grande rede de amigos virtuais, com os quais me identifiquei, talvez por terem histórias muito parecidas com a minha.

Talvez, quem sabe, esse desejo impulsivo de Ler — Escrever — Ler — Escrever... que me anima, seja um reflexo dos meus treze e quinze anos de idade, quando encolhido sob as tábuas de um banco de minha velha mãe, comercializava roupas e tecidos na Grande feira de Sábado em Alagoa Grande (PB). Era nos intervalos entre as vendas que eu me escondia a fim de matar a fome de leitura.

Lembro-me daquela época como se fosse hoje. E não é que pareço sentir o júbilo incomum que tomava conta de mim, quando esparramado no chão de cimento e pedra lia com avidez incomum, velhos jornais e revistas semanais, como O Cruzeiro e Manchete, que eram usadas como papeis de embrulhos para as roupas comercializadas. Recordo que recortava secretamente, com todo esmero, os artigos de Rachel de Queiroz, de Mário de Moraes e de David Nasser, para guardá-los em casa a sete chaves, no fundo de uma mala, sem saber que naquele solitário e nobre ato, estava inaugurando a minha primeira e rústica biblioteca. Passam na minha mente, agora, as grandes coleções de ensaios e crônicas do cotidiano daquela época, que se perderam, decerto, nas arrumações de casa efetuadas de tempos em tempos. Por achar que todo aquele monte de papeis velhos e encardidos de nada valia, alguém, provavelmente, deve ter jogado fora todo o meu acervo literário dos tempos de minhas primeiras incursões no mundo fantástico das letras.

Hoje, embora sentindo o peso da idade, posso assegurar que não desvaneceu a chama que me queimava o peito nos tempos de outrora. Nesse intercâmbio virtual intermediado pela PALAVRA, tenho feito muitas amizades. São inúmeros os amigos com quem troquei idéias e confidências, a maior parte deles está no quadro de seguidores no topo do blog. Entre os seguidores amigos, destaco Leonardo Gonçalves, Danilo Fernandes e Luis Paulo que foram os primeiros da blogosfera a me incentivarem, republicando com coragem e ousadia diversos ensaios “heréticos” de minha autoria em seus blogs de Apologética.

A todos que nesses quatro anos, interagiram aqui no “Ensaios & Prosas”, especialmente os amigos do peito da "Confraria dos Pensadores Fora da Gaiola"[C.P.F.G.], da qual faço parte, dedico-lhes a minha primeira postagem publicada em 6 de agosto de 2006.


............. CONTOS ESCONDIDOS

..........

.........Ah! Se realmente soubesses...

.......A minha alma empolgada

.......Embebida nos teus contos.

..........Seria aquilo inveja?

.......Versos enfim escondidos

........Por não saírem de mim?



........Se foi inveja escondida,

......Hoje o que agora escrevo

........É fruto de tua escrita

.....Pois ela encontrou guarida

.......Fez ninho, gerou, nasceu

........No coração deste velho

........


........Me deste total apoio

....Ao leres meus pensamentos,

......Que p’ra contê-los teria

.....Que negar a própria fonte,

.Que por ser tua e também minha

.......Quis jorrar esta poesia.


Guarabira, 06 de agosto de 2010

Agora, ouça o editor do blog no seu velho piano alemão, tocando "Feira de mangaio" do saudoso sanfoneiro paraibano Sivuca.

05 agosto 2009

"Ensaios & Prosas" Ganha Selo no Seu 3º Aniversário






Coincidentemente, acabo de receber um precioso selo no mês em que o Blog “Ensaios & Prosas” completa três anos de existência. Esta premiação veio lá de Betim – Minas Gerais, oferecida mui gentilmente por Marcelo Batista Dias – editor do blog “Ecclesia reformata sed semper reformanda”.


Como ser humano, regido pelo paradoxo do querer Ser, sem, no entanto Ser na plenitude que o selo requer (100% cristão), quero aqui dizer que, mesmo assim, prossigo em direção a esse alvo, sabendo de antemão que, apesar dos meus maiores anseios em alcançar essa perfeição, ela só será atingida na imortalidade, quando já não mais teremos esse “corpo corruptível”, como bem disse o apóstolo Paulo.


Foi justamente aqui nesse cantinho cedido pelo Google, que livre das limitadas paredes de um casarão obscuro chamado “doutrina”, pude enfim exercer a liberdade de dizer o que penso, em forma de prosa, versos, crônicas, ensaios, reflexões e paródias, sem medo da censura repressora e reacionária dos diversos campos do saber. Através da arte de blogar fiz muitas amizades sinceras. Foi navegando nesse imenso mar cibernético, que encontrei muitos amigos com os quais logo me identifiquei. Ainda guardo na lembrança o meu primeiro comentário na blogosfera cristã: foi uma opinião que emiti para abolir púlpito, gravata e paletó no recém criado “Púlpito Cristão”. O Leo respondeu: “Topo uma campanha contra gravata e paletó, mas tire o púlpito desse meio”. Ao que respondi mais ou menos assim: “Ora meu caro Leo, o púlpito serve mais às vaidades de quem está lá em cima do que a Deus”.


Recentemente, tenho dialogado com um grande companheiro de jornada ─ o colega de profissão Dr. Tony Ayres do blog Psicoterapeuta Cristão. Lembro-me bem de um dos seus entusiásticos comentários a mim endereçado, quando disse: “Creio que esta é uma das maiores bênçãos da Internet; através dela, encontramos verdadeiros amigos com os quais podemos solidificar a nossa fé e promover o mútuo crescimento, mesmo que eles morem a muitos quilômetros de distância”. Concordo com ele, quando certa vez disse para mim: “a nossa interação tem proporcionado uma reflexão profunda, do tipo da que não encontramos nas igrejas”.

É nesse espaço que tenho deixado as minhas emoções mobilizadas, meus símbolos, minhas marcas registradas sob a forma de palavras. A telinha do computador tem sido o meu papel e o meu “pombo-correio” dos recados que desejo transmitir aos meus amigos leitores. Se não houvesse um destinatário, se perderia a razão de minha escrita digital. Ao escrever sobre aquilo que poderia ter vivido, e não vivi, descrevo algo de mim, que como uma sombra reprimida, é projetada para o exterior, à guisa de reciprocidade do nosso interlocutor. Nas entrelinhas do que escrevo, às vezes, deparo-me julgando o outro, sem atentar que nesse julgamento estou projetando o meu “eu faltoso” sobre o meu próximo. É mais fácil censurar no outro aquilo que não admitimos em nós.


Seria inumano se não me sentisse gratificado pelas palavras e metáforas que até aqui deixei registradas, e, enquanto passam as páginas cinzentas dos dias e as páginas negras da noite, vou mergulhando mais intensamente a minha alma nesta arrebatadora cascata de letras, dádiva de Deus, concebida pela escrita e a leitura. E assim vivo, vivo, por isso escrevo.


Nesses longos 36 meses em que me dediquei à escrita “virtual”, o início do caminhar começou como uma brincadeira familiar, em que me deliciava em caricaturar em contos e crônicas provinciais, as figuras da família, as histórias engraçadas vividas por mim, pelos filhos e netos, e algumas invencionices de minha alma fugidia, como escapismo do mundo tão real e duro. Ao tentar fazer literatura algumas vezes, vivi outras vidas, outros mundos, em estórias mil. Procurei viver outras aventuras na pele de outros personagens, já que nossa vida é tão curta, tão breve, como diz o Salmo 103: “quanto ao homem, os seus dias são como a erva, e como a flor do campo, assim floresce; passando por ela o vento, logo se vai e o seu lugar não se conhece mais”.


Quando num certo momento da história do aniversariante (o Blog), parecia mesmo querer terminar sua jornada, já que pensei mesmo em parar de escrever, tive a doce e cativante alegria de ser, aos poucos, a cada dia, alimentado pelos imerecidos comentários dos leitores amigos, que sem saber ou perceber, contribuíram para a continuação dos trabalhos aqui publicados, fazendo parte mesmo de tudo o que estava sendo cozido na panela do pensamento.


Para não cometer injustiças, não vou citar os nomes dos muitos amigos virtuais que interagiram comigo nessa caminhada de três anos. Eles estão aí presentes nos enriquecedores e lúcidos comentários, que marcaram indelevelmente os diversos ensaios por mim postados Ultimamente, os textos que escrevi, em sua maioria, foram no sentido de nos levar a uma reflexão mais profunda sobre o grave momento que estamos atravessando, em que tantas heresias e deturpações são lançadas na mídia gospel no intuito de solapar o verdadeiro Evangelho de Cristo.


Que a graça Divina nos faça sempre entender que tudo que aqui escrevemos não vem de nós ─ é um dom gratuito de Deus.




Por Levi B. Santos
Guarabira, 05 de Agosto de 2009




P.S.: As regras de premiação recomendam que eu escolha cinco blogs para conceder esse honroso selo. Aí vão eles:





18 abril 2009

O ENSAIOS & PROSAS RECEBE PREMIAÇÃO






Este selo "melhores blogs da cristandade" foi um presente de primeiro aniversário do AMENIDADES DA CRISTANDADE, dedicado ao seu rol de blogueiros cristãos amigos. O parceiro de link Teóphilo Noturno do blog Este Mundo Jaz no Maligno ,foi quem me indicou para essa premiação, a quem agradeço de coração, nesse momento.

De acordo com as regras de premiação de selos, passo a indicar sete blogs para esse honroso distintivo. Aí vão eles:

Psicoterapeuta Cristão

Blog da Vanessa

Humor Cristão

Ministério Palavra de Esperança

Crônicas de Um Observador

Exejegues

Devocionais, Reflexões e Crônicas




Para receber o selo, se faz necessário seguir as seguintes regras:

1) Colocar o link do blog que ofereceu o prêmio ao seu blog;

2) Escolher outros sete blogs de conteúdo cristão (não importando a corrente ou denominação) para receber a premiação e colocar seus links no post que consta a premiação;

3) Comunicar os blogs premiados;

4) Colocar as regras e a imagem do selo no post de premiação.


Guarabira, 18 de abril de 2009

06 agosto 2008

O "BLOG" FAZ DOIS ANOS DE IDADE



Foi em agosto de 2006 que resolvi registrar em um blog, alguns ensaios, prosas, versos e crônicas de minha autoria. Dei inicio postando alguns textos em rascunhos, que tinha juntado ao longo de quatro ou cinco anos. De lá para cá, venho me aventurando no delicado campo da linguagem escrita, redigindo dois ou três textos mensais. Tenho preferência pelo estilo de escrita em forma de crônica. Ela nos confere mais intimidade no jogo das palavras, na retratação dos fatos emblemáticos que inundam o nosso dia-a-dia, neste movimento contínuo e cheio de surpresas, que é a VIDA.

A etimologia confirma o alto valor da crônica. O termo grego que deu origem a palavra crônica foi “chronus” – o Deus do tempo. Na mitologia esse deus devorava os filhos impiedosamente. Na nossa vida o deus “chronus” representado pelo tempo devora com avidez os momentos de alegrias, de prazeres, risos e tristezas, deixando no rasto algumas reminiscências entre fatos sepultados no mar do esquecimento.

As águas do rio que atravessamos em tempos remotos não são mais as de hoje, apesar do leito desse rio ser o mesmo. Ah, quem nos dera esconder e retardar a caminhada inexorável do tempo. Enchemo-nos de vontade, porém é inútil a tentativa de parar o relógio das horas. Ricardo Reis em um de seus poemas escreveu: “Envelhecemos. Não vale a pena fazer um gesto. Não se resiste ao deus atroz que os próprios filhos devora...”.

À medida que escrevemos uma crônica vamos recriando uma imagem daquilo que se experimentou como realidade, acrescentando pitadas de sentimentalismo, humor e sátira, que dão um sabor especial aos acasos revividos e passados para a escrita. E, essa recriação envolve tanto a área do humano, como a área do Divino. Na crônica, registramos coisas efêmeras que logo são esquecidas, como também escrevemos sobre coisas que não envelhecem e ficam sempre jovens. Ângelus Silesius (1624 -1667), místico e poeta, sugeriu que vivemos em dois tempos diferentes. Ele disse: “Nós temos dois olhos. Com um olho vemos o que se move no tempo e desaparece. Com o outro, vemos o que é eterno e permanece”. Os gregos tinham consciência desses dois tempos, por isso, usavam a palavra “chronos” para definir o tempo dos homens, cadenciado pelas batidas do relógio. Usavam por outro lado o termo “kairos” que significava o tempo medido pelas batidas do coração.

Enquanto o deus “chronos” avança paulatinamente no seu percurso, deixando em mim as marcas dos anos, vou anotando sem perda de tempo, o que o coração, através de suas pulsações de vida me leva a digitar nesse cantinho cedido pelo "google". Em dois anos de atividade, este espaço virtual que no americanês denominamos de BLOG, se tornou o local propício para expor minhas reflexões e divagações, assim como local para colher os ecos das críticas e opiniões dos amigos, acerca do que escrevo. E, nesta dialética cibernética vou renovando os meus conceitos, desconstruindo-me e reconstruindo-me na batida cadenciada desse relógio duplo chamado "coração-tempo".





Ensaio por: Levi B.Santos

Guarabira, 06 de Agosto de 2008

12 setembro 2006

OS PRESENTES ─ NOS MEUS SESSENTA ANOS




Oito horas da manhã. Após um plantão médico, encontro-me rodeado pelos presentes que Deus me deu nestes sessenta anos de idade e trinta de casado. Todos com cara de sono para um café surpresa.

Quantos pais, com esta minha idade, gostariam, mas, por motivos os mais variados se encontram impedidos de ter presentes como estes diante de si.

Não posso aquilatar, se é bom ou prejudicial para os filhos, tê-los debaixo do mesmo teto. Uma coisa eu sei: o pão que recebo tem dado para todos. Concordo com minha esposa Luza, quando diz: “Deus não deixará o justo desamparado, nem a sua descendência mendigar o pão”.

O meu primeiro presente recebido está aqui ao meu lado. Luza ─ Mulher de fé inabalável que contagia os nossos corações de uma imorredoura esperança, sem a qual não teríamos força para enfrentar as lutas de cada dia. A sua frase predileta, dita com tanta ênfase é esta: “Deus ainda vai me dá a oportunidade de ver meus filhos realizados. Disto não tenho dúvida”. A sua fé contrabalança a dureza de meu ceticismo. A sua sensibilidade é o contraponto de minha lógica e razão. É quando fica mais claro entre nós, que a razão e a fé têm de andar juntas.

O meu segundo presente: George. “Sobejo da morte”, como era chamado pelos pediatras do AMIP, quando de seus longos períodos de tratamento hospitalar. Superou tudo e venceu. Terminou seu curso superior. Continua lendo e estudando muito, aguardando o seu lugar ao sol. Ultimamente tem sido meu incentivador, auxiliando-me nas redações de minhas crônicas. Caladão. Já deu grande prova de fé e determinação em momentos difíceis de sua vida. Vive atualmente o encantamento de ser Pai de uma menina fora de série.

O terceiro presente: Glauber. Também um pedaço de mim, pelas suas tiradas de humor e presença de espírito inigualável. Alegrando sempre o ambiente e nos tirando da monotonia. Por acaso: rir não é o melhor remédio? Homem de uma paixão avassaladora. Sonhador e idealista. Faz projetos mirabolantes que, às vezes, pensamos que não vai dar certo, mas nos rendemos, pois através da INTERNET ele resolve tudo nos mínimos detalhes, deixando-nos boquiabertos. Sentimentalista que é, está hoje numa dúvida atroz: entre continuar gozando das delícias do lar paterno, ou enfrentar um longínquo mundo desconhecido (Argentina).

O quarto presente: Thiago. Uma porção de mim, pelo seu espírito rompedor. Também passei por esta fase. Ele teve a coragem de numa igreja de estilo conservador, adotar um tipo de música de ritmo moderno. Por isso mesmo, nesse meio, ele se tornou um espelho para os jovens de sua idade. Sabe dosar bem o estudo na escola onde exerce sua liderança e os trabalhos espirituais. Herdou uma fé muito parecida com a da mãe.

O quinto presente: minha nora Mauricéia. Deixou o aconchego familiar, para fazer de minha casa o seu novo lar. É bem-vinda. Sabemos que cada família tem o seu modo de ser. Ela está sendo a ponte entre nós e a sua família. Sendo desta forma responsável pela iniciativa de um rico aprendizado, que estamos usufruindo com os seus. Aqui fica um conselho para ela e George: não deixem que o egoísmo paire sobre vocês, impedindo-os de colherem os frutos de uma interessante experiência à dois.

O sexto presente: Ana Gabrielle. O meu xodó, e o de todo mundo aqui em casa. É ela que tira do sério este velho chato e sisudo. Sou duas vezes pai. E criança de novo ao tentar entender este pequeno ser, que se inicia na arte da linguagem. Sabe Deus, o porquê de só vir atender aos anseios de uma mãe (Luza) por uma filha, no início da terceira idade.

Apesar, da avó está um tanto abatida, pois, já está entrando pela terceira semana de uma virose. Mesmo assim não tem medido esforços em cuidar com muito carinho e dedicação de sua querida neta, observando ensimesmada as sua travessuras e cenas de ciúme.

Diante de todos estes vivos presentes, outros seriam perfeitamente descartados.

MUITO OBRIGADO.

(Crônica lida durante o café surpresa, em 11/09/2006)