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06 maio 2021

A Volta das CRUZADAS do 'Deus Acima de Todos'





(Cavaleiro Cruzado)


Logo após o ataque às Torres Gêmeas (Nova Iorque ─ EUA) em 11 de setembro de 2001, o republicano George W. Bush decidiu reacender, em seu país, as ‘CRUZADAS’ da idade média do velho continente. Para nomear ou dar nome a essa guerra como ato de vingança, adotou o discurso maniqueísta de: os que estão do nosso lado são do BEM, e os que estão contra nós são do MAL. Osama Bin Laden foi, enfim, o nome escolhido por Bush para ser o inimigo ideal da nação ferida em seu orgulho; inimigo a ser caçado na Cruzada nominada ou batizada de ─ “Justiça Infinita” ─, sob a égide de um suposto “Deus que estava acima de tudo e de todos”.

O certo é que o conflito contra os muçulmanos (os do mal?), em nome do ‘Deus Acima de Tudo’ da geração do Tio Sam(os do Bem?), após o atentado às Torres Gêmeas, ressuscitou as CRUZADAS do período de 1096 à 1272 ─, guerra que visava a tomada da Jerusalém dos muçulmanos pelos cristãos dos principais países e reinos do velho continente, em um mega-conflito que durou quase duzentos anos. As Cruzadas foram um projeto tão criminoso que São Francisco se indignou a ponto de exclamar: "vim converter os infiéis e descobri que os que precisam de fé não são os guerreiros muçulmanos, mas os soldados de Cristo e,  antes de mais nada, os bispos que os conduzem" (Vide: 'O Livro Negro do Cristianismo' - página 18 - Ediouro)

Na pós-modernidade, estimulado pelo arquétipo dos cavaleiros cruzmaltinos, os cristãos americanos revestiram-se dos símbolos da idolatrada pátria para, num insano ufanismo nunca antes visto, editar mais uma vez a guerra fratricida(de irmãos contra irmãos) para fins terrenos, políticos e mundanos.

Não deu outra, Hollywood, ressurgiu para encetar uma TRÉGUA entre a face mercantil e mais sutil do 'Deus-Pai' da nação ocidental, sob o nome de Javeh, e a contra-face que, na ótica dos combatentes cristãos era a mais ameaçadora desse mesmo 'Deus-Pai', adorada pelos muçulmanos, com o nome de Alah (palavra que na língua árabe representava o mesmo Deus de Noé, Abraão, Moisés e Davi). 
O diretor de cinema, Ridley Scott, finalmente recebeu a autorização para, em 2005, lançar no mercado religioso o filme ─ ‘CRUZADA’ ─, espetáculo bem produzido para angariar a empatia tanto do público ‘cristão’, quanto do público muçulmano.

O presidente dos EUA, com sua mente doentia e perversa,  considerava-se o representante divino da ‘maior potência mundial’, agraciada com o poder de enfeitiçar os súditos, cuja missão principal era a de colocar seu próprio Deus no lugar mais alto do pódio, ou seja, em um lugar ‘ACIMA DE TUDO e de TODOS’, rebaixando aos lugares terrivelmente inferiores o Deus dos muçulmanos que eles consideravam vil. Coube ao republicano, George W. Bush, incendiar sua nação de fundamentalistas cristãos, trazendo de volta o espírito das antigas Cruzadas dos séculos X, XI e XII(tempo em que muitos muçulmanos, para não morrerem, foram obrigados a se “converterem” ao cristianismo).

Ainda hoje, os evangélicos de lá e os de cá do novo mundo usam o termo CRUZADA em suas campanhas de convencimento para ganhar almas para $eus rebanho$.

Pasmem senhores e senhoras, aqui, nas terras de D. João VI, consideradas o quintal do Império do Tio Sam, a ação perversa de se usar frases bíblicas ganhou contornos políticos e mundanos jamais imaginados. Em todas ações escusas e corruptas de propaganda política, intrometem, sem a menor cerimônia, o nome do ‘Deus-Javeh’ como meio mesquinho e ignóbil de angariar votos, apoio das massas e ‘favores’ inconfessáveis.

Os cruzados de outrora, à maneira dos militantes de hoje, eram também chamados de ‘militância de Cristo’ na ferrenha luta pela recuperação dos lugares alegadamente sagrados da Palestina; altaneiros, carregavam uma cruz em lugar bem visível de suas indumentárias, símbolo maior do ‘cristianismo’. Essa ‘Cruz de Malta’ tinha pouca diferença da ‘Cruz de Ferro’ que deu origem a suástica nazista. Por falar em suástica, coincidência ou não, saliente-se, que o morticínio dos judeus campeou tanto através das malditas Cruzadas, quanto sob o regime totalitarista do genocida maior do Terceiro Reich.

Nos dias atuais, mais do que nunca, versículos da Bíblia são pinçados e reverberados em alto som, como formas de seduzir o filão mais conservador da sociedade. “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” ─ é um dos bordões mais usados e abusados, hoje, para fins espúrios e nocivos. Mas esse artifício do reino das trevas vem de longe, e não se constitui nenhuma novidade. A História mostra que Deus, na sociedade festiva, nunca foi instrumentalizado para fins éticos, espirituais, transcendentais ou divinos, mas sim para vergonhosas barganhas e fins profanos. Não custa nada lembrar Hitler, cuja violência foi perpetrada no suposto nome do Deus Cristão. No livro Mein Kampf”, o genocida alemão cita 20 vezes o nome de Deus. No cinturão de todos os soldados ou guerreiros do Fuhrer estava lá escrito: 'Deus está conosco!' ─, lema que na idade média era monopólio da ‘Ordem Teutônica’.

EM RESUMO: a História das CRUZADAS é cíclica, ou seja, a essência de seu passado está sempre se repetindo, ou retornando à cada época de grandes  crises. Na verdade, aquilo que se percebe hoje como mudança, é apenas uma sutil e astuciosa enganação que não resiste ao crivo do tempo e da razão.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de maio de 2021


17 abril 2021

A Primeira Comissão de Inquérito (PCI) da LÍMBIA



Sobre o planeta dos hominídeos, denominado LÍMBIA, o que se sabe é que, sob a forma de ‘Limbo’, ela já estava presente no Canto IV do ‘Inferno’ em ‘A Divina Comédia’ de Dante.

Em uma tradução apócrifa do Gênese bíblico, alguns estudiosos dos MITOS afirmam que a Límbia se originou da junção ou choque entre Sodoma e Gomorra. Na verdade, em tempos remotos, esses dois planetas entraram em rota de colisão, provocando a destruição de quase todos seus habitantes. Dizem míticos historiadores que essa grande hecatombe foi um castigo divino devido à desenfreada corrupção e prostituição que em Sodoma e Gomorra corriam frouxas. Se a tradução apócrifa, diz que o cataclismo destruiu quase todos habitantes desses dois planetas, pode até se pensar ou cogitar que alguns pecaminosos tenham escapado, só não sabemos de que forma.

Mal havia sido criada (ou inventada), a Límbia foi invadida por um miasma que deixava a muitos abatidos, e fazia outros desaparecerem como que por encanto. A maioria lá, acentue-se, era formada por místicos de pensamentos rudimentares. Todos faziam incontáveis rituais e elucubrações diárias que, mais tarde, a lógica, a metafísica, a Teologia e a Ciência tomariam para si como objeto de suas inúmeras análises.

A comunidade era ainda bem pequena e imatura, mas, devido a praga recente de miasmas, em suas mentes já dançavam as sombras da ansiedade e do medo da morte. A maioria dos límbicos asseveravam que a corrupção havia sido banida com o choque interplanetário, mas alguns não acreditavam nesse mito.

Aparentemente, eram todos iguais e pacíficos. Porém, as pequenas brigas e rixas que aqui e acolá pipocavam, eram uma prova insofismável de que o pecado da corrupção de antes não havia desaparecido por completo; melhor acreditar que esse sacrilégio estivesse apenas em um estado de latência. O certo é que devagarinho, mas bem devagarinho mesmo, o burburinho foi aumentando entre eles, a ponto de, em certa ocasião, se ouvir da multidão, o grito: “Alternativas! Precisamos de alternativas, urgente!”.

Foi aí, então, que dentre eles surgiu um senhor de alta estatura, vistoso e de porte atlético que, sem ao menos prestar suas credenciais, foi logo bradando: “Em mim foi plantada a incipiente ideia de um ser perfeito. Não adianta tergiversar sobre esse particular e onipotente dom que me foi dado de forma misteriosa!”. É de admirar que um homenzinho raquítico e sem formusura, eu diria um quase anão, surgisse de repente como que para agradar ao homenzarrão em sua indumentária espacial(ou divinal?), gabando-se a falar: “Grande senhor, vos louvo como o primeiro a nos acalmar o espírito diante desse miasma mortal! Falai-nos, somos todos ouvidos!” em tom de bajulação e com a voz miudinha e fina, deixando os outros desconfiados.

O homenzarrão, que alguns o chamavam de Seráphico, viu-se na condição de não poder ponderar com ninguém a respeito do maldito miasma. Quanto à amalucada teoria que pretensamente defendia, seus ares de misticismo denunciavam que ele acreditava piamente ter vindo de “paraísos celestiais”.

Diálogo, na acepção da palavra, praticamente ainda não existia em Límbia, mas, surpreendentemente, o grande senhor ouviu, nitidamente, alguém sussurrar o termo ‘dialética’, em Latim arcaico ou primitivo.

Certa noite, o grandalhão místico, sem conseguir conciliar o sono, teve uma espécie de devaneio onírico. Na sua visão distorcida viu algumas pessoas aglomeradas, e pasmem, além da discussão sobre o miasma que se disseminava, conseguiu escutar vindo da multidão uma frase começando pela palavra Deus’ (ou Zeus) , arquétipo que, em sua percepção, só a ele teria sido reservado o direito de O pronunciar.

Passado algum tempo, o grande místico ou seguidor de alguma entidade religiosa, (sabe lá, um remanescente dos Sodomitas/Gomorristas que conseguiu escapar do castigo divino/planetário?) ─, deu início a uma tensa reunião, tentando convencer os demais a respeito de suas supostas boas intenções. O reverendíssimo, de repente, ficou de pé e, chutando para o lado a cadeira na qual estava sentado, vociferou:

Não vos inquieteis caros irmãos, a corrupção foi banida, o que agora existe é o meu deus e o sagrado, que vocês, se quiserem, podem evidentemente perceber, em mim!. Prometo que a cura do miasma virá e não tardará!”. As palavras ditas pelo místico senhor serviram de senha para o início de outro grande tumulto.

Esse deus não é só seu, Ele também habita em nossos corações!” reclamaram, em uníssono, 11 pessoas (entre essas não estava o afoito e bajulador anão). Se servindo de ditos pinçados e decorados de um velho catecismo de sua bisavó, o fervoroso sacerdote, de pronto, arremata com bastante ênfase: “Em mim não há mácula, nem sombra de mentira. Deus conhece o meu coração, e sabe que desde o início dos séculos, eu já tinha sido o escolhido para reger o destino de vocês”.

E abriu-se o livro sagrado” que, até então, estava atado com sete fitas e selado com sete selos, para que todos pudessem estudá-lo por um certo tempo, até que do céu fosse determinada a ordem de instalação da Primeira Comissão Inquisitorial ou de Inquérito (PCI) do novo planeta que, primordialmente, trataria de investigar se realmente a ‘Cinchona’ (planta produtora de quinino, abundante na América do Sul), teria ou não o efeito milagroso de afugentar ou acabar com o miasma que estava ceifando vidas e deixando tristes e abatidos muitos dos primevos habitantes da recém-criada, LÍMBIA.

Finalmente, descobriu-se que para a Límbia não havia mesmo remédio, pois nada nela era levado a sério; nem o conhecimento nem a Ciência e nem as teses universitárias tinham sido por ela abrigadas. Na Límbia, supostamente sem pecado e sem pecadores, não se condena ninguém. Desde que apareceu essa ideologia de que os límbicos são incorruptíveis, as sentenças começaram a ser, indefinidamente, proteladas ‘ad-aeternum’.

E o que se vê, claramente, agora, é uma Límbia que não é dona de si. Como ocorre em todo planeta novo ou ressurgente, seus habitantes sempre herdam dos predecessores os mesmos vícios e males que não acabam em cada fim de mundo.

Os límbicos, em matéria de PCI(ou CPI), inconscientemente tendiam a seguir o mesmo roteiro traçado pelos hominídeos que os precederam. Até o refrão usado na Límbia era o mesmo da destruída Gomorra: “CPI tem dia para começar, mas não tem data para terminar!”

Então, o que ninguém jamais tinha imaginado, mais tarde ficou patente: a Límbia, com pouco tempo de inventada, ficou conhecida como a terra da ficção que virou verdade.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 17 de abril de 2021


22 setembro 2020

Israel, em Total Descontrole, Enfrenta Segunda Onda de COVID-19

 

Assustei-me quando tomei conhecimento de que o governo de Israel, tomara uma medida drástica para evitar o pior nessa pandemia de coronavírus. Pasmem, o primeiro ministro, Benjamin Netanyahu, foi obrigado a decretar (dia 18 do mês em curso) um rígido LOCKDOWN de 3 semanas, isto, depois de “atingir a cifra constrangedora de 3 mil casos novos de Covid-19 por dia”. O jornal “Jerusalem Post”, de ontem (dia 21), dá conta de que “os hospitais em Israel atingiram sua taxa de capacidade, e dois não podem mais receber pacientes”. "É incrível pensar como Israel deixou de ser o país que todos no mundo olhavam como modelo para um país que todos agora olham com um exemplo do que não se deve fazer" constatou ainda o jornal "Jerusalem Post" em um editorial.(https://g1.globo.com/mundo/blog/sandra-cohen/post/2020/09/07/por-que-israel-fracassa-no-combate-a-pandemia-do-novo-coronavirus.ghtml)

Negacionistas, os judeus ultraortodoxos têm sido, em grande parte, responsáveis pelo desastre atual na saúde pública desse país, no que diz respeito a Pandemia de Covid-19. Por sinal, esse tipo de comportamento grassa também nos EUA e no Brasil.

Os adeptos dessa facção religiosa israelita aproveitariam os três feriados israelenses para dar adeus às máscaras e ao isolamento social. Naturalmente, devem ter pensado:

Nós, o forte povo de Javeh, não necessitamos de máscaras nem precisamos de distanciamento social. Os outros, mascarados e assombrados que recusam as “patrióticas” aglomerações, são uns fracos”.

Antevendo o resultado de toda essa insana festança comemorativa do Ano Novo judaico, Israel se tornou a primeira economia desenvolvida a tomar tal medida (Lockdown) para conter a segunda onda de Covid-19 que, segundo estudiosos, poderá ser pior do que a primeira.

A propósito da atitude alienada dessa corrente religiosa israelita negacionista da pandemia de Covid-19 (que também tem seus discípulos em nossas terras) trago à tona uma emblemática frase do cientista judeu, Albert Eisntein(1879 ─ 1955) pinçada de um discurso que fez em Londres (1930) ─ dirigido à “Sociedade de Protecão à Saúde dos Judeus” (“Como Vejo o Mundo” ─ página 88 ─ Albert Einstein ─ Editora Cultura).

A pérola de frase que Einstein bradou no prólogo de sua memorável fala de 1930, ainda hoje, ecoa entre nós:

Quem quer manter o espírito deve se preocupar também com o corpo, que é seu invólucro”.



Por Levi B. Santos

Guarabira, 22 de setembro de 2020

03 junho 2020

TEMPOS SOMBRIOS NOS CONVIDAM A REVISITAR ADOLF EICHMANN






Há três dias, quando ranços do autoritarismo ameaçavam destruir nossas instituições democráticas, o membro mais antigo, desde 2007, da Suprema Corte, o respeitado nacional e internacionalmente decano, Celso de Mello, veio a público para fazer um alerta mais que necessário, pois estava sendo acusado pelo próprio presidente da república e seus assessores, de ter se excedido na aplicação da lei. Em meio às pressões dos incomodados, o decano do STF, em alto e bom som, comparou o Brasil atual com a Alemanha Nazista.

Aos desavisados que nada conhecem da História Mundial e não sabem que os acontecimentos de cunho autoritário e fascista tendem, vez ou outra, a se repetir no decorrer do tempo, achei por bem trazer à baila as Cavernas de Aladim. Elas, sem sombra de dúvida, ainda estão por aí, a esconder maléficos fantasmas. Para aqueles que estão sempre fazendo releituras do passado totalitarista na História da Humanidade, creio, não ser difícil de perceber o “por quê” dos temporariamente amnésicos ficarem tão surpresos e suspensos com a fala firme do decano. É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando HITLER, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul Von Hindenburg como Chanceler da Alemanha, não exitou em romper e em nulificar a progressista democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder” ─ disse do alto de sua envergadura, o veemente ministro Celso de Mello.

Em meio a três calamidades de um desgoverno, na Política, na Saúde e na Economia, tenho pra mim que, mais do que nunca, é tempo de avivar a memória. Me disponho a fazer um pequeno retrospecto histórico, revisitando a maior autoridade em “Totalitarismo e Banalidade do Mal” ─ a alemã, Hannah Arendt (1906 ─ 1975), historiadora e jornalista política, que participou em Jerusalém do longo julgamento do genocida Adolf Eichmann, responsável direto pelo Holocausto de mais de seis milhões de Judeus que foram exterminados em câmaras de gás nos campos de concentração. Tanto Eichmann, quanto o monstro, Hitler, tinham Adolf como primeiro nome.

No seu magnífico livro ─ “Eichmann em Jerusalém” (Editora Companhia das Letras) ─, Hannah Arendt faz uma desconcertante revelação:Eichmann havia sido descrito pelos PSIQUIATRAS como um homem obcecado, com um perigoso e insaciável impulso de matar, uma personalidade pervertida e sádica. Nesse caso, seu lugar seria o asilo de alienados”.

Os trechos de Hannan Arendt (replicados abaixo), fala da infância de Eichmann, que por incrível que pareça, corrobora exatamente com o pensamento de Freud em seus estudos sobre o desenvolvimento psíquico, quando afirmava que a personalidade, essencialmente, estaria formada por volta dos cinco anos de idade.

A infelicidade, começou cedo; começou na escola. O pai de Eichmann, contador da Companhia de Bondes de Solinger, teve 5 filhos, quatro homens e uma mulher, dos quais, ao que parece, só Adolf, o mais velho, não conseguiu terminar a escola secundária, nem se formar na escola vocacional para engenharia na qual foi matriculado então. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas primeiras dificuldades.”

Surpreendentemente, Eichmann falando a respeito de seus pais diante dos juízes que o julgavam em Jerusalém, se comportou como uma pessoa ressentida, como bem demonstra o trecho abaixo:

Eles não teriam se enchido de alegria com a chegada de seu primogênito se fossem capazes de ver, que na hora de meu nascimento, para provocar o gênio da felicidade, o gênio da infelicidade já estava tecendo os fios de dor e tristeza em minha vida. Porém, um véu suave e impenetrável impedia meus pais de enxergar o futuro”. (Eichmann em Jerusalém – página 39 - Companhia da Letras)

A reflexão histórica que Hannah, brilhantemente, levou a termo, naquilo que ela mesma rotulou de “Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, que ainda hoje serve como fonte inesgotável de consultas procedidas por políticos, filósofos, historiadores, sociólogos, universitários e psicanalistas, no intuito de se conhecer melhor os meandros maléficos que rondam a psique de um genocida, como foi o caso de Adolf Eichmann.

No dia 11 de maio de 2020 (três semanas atrás) fez exatamente 60 anos que Eichmann foi capturado e sequestrado de um subúrbio de Buenos Aires na Argentina pelo exército Israelense, para ser julgado pela Corte Máxima de Jerusalém, por CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

No último capítulo e começo do epílogo do livro “Eichmann em Jerusalém”, obra de leitura obrigatória para quem quer se debruçar de forma profunda sobre o tema NAZISMO e ORIGENS do TOTALITARISMO, a alemã, filha de pais judeus não praticantes, Hannah Arendt, com seu olhar de águia, foi fundo ao “Coração das Trevas” ameaçadoras das sociedades democráticas de seu tempo.

Fica a cargo do leitor ou da leitora aquilatar o que nesse breve ensaio postado há de semelhança com os momentos atordoantes por que passa a nossa frágil república. Ontem, dia 02, o país contabilizava o total de 31.000 mortes, sendo 1.262 só nas últimas 24 horas, de uma pandemia que, ao que parece, ainda está longe do pico. Inacreditavelmente, essa imensa mortandade, na mídia televisiva, é assunto abordado de forma secundária. A primazia no noticiário na TV, pasmem, cabe as querelas da baixa politicagem ─ uma espécie de ópera bufa que castiga nossos ouvidos durante toda a noite, numa briga sem fim de egos inflamados nos três poderes, sempre girando em torno da figura central de um governo que, incessantemente, incita e desafia as próprias instituições que deveria respeitar. Recentemente, o nosso maior mandatário ao ser inquirido por uma apoiadora sobre os enlutados no dia em que o número de mortos bateu todos os recordes, respondeu de forma curta e grosseira: É o Destino de Todo Mundo!”

Mas voltemos a história do carrasco nazista alemão:

No cadafalso, diante da morte, Adolf Eichmann, ainda teve a audácia de proferir umas de suas frases clichês secas, demonstrando de forma cabal sua total insensibilidade: “Esse é o Destino de Todos!”. Viva a Alemanha, viva a Argentina!.

Assim, escreveu Hannah Arendt, no final do último capítulo “Julgamento, Apelação e Execução” de seu memorável livro:

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que esse longo curso de maldade humana nos ensinou ─ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos”.

Por falar em Banalidade do Mal, é triste a constatação de que em nossa república das bananas esse MAL, esteja simbolizado pelo descaso do governo federal com o infectado que a cada minuto morre de covid - 19 e pelas FakesNews financiadas com dinheiro público, detonadas aos montes nas redes sociais. Até o "Deus que deveria estar acima de todos" vem sendo vergonhosamente BANALIZADO para FINS PROFANOS. 


Por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de junho de 2020

18 janeiro 2020

SÓ O TEMPO DIRÁ POR QUE O SECRETÁRIO ESPECIAL DA CULTURA FOI REVISITAR O MONSTRO NAZISTA JOSEPH GOEBBELS



                                                        Adolf Hitler e Joseph Goebbels


Foi com essa História de “Regeneração Cultural” que os dois monstros, Adolf Hitler e Joseph Goebbels (carrascos responsáveis pelo Holocausto Judeu), alienaram ou cegaram quase toda a população da Alemanha de sua época.

Aqui, pra nós, quero dizer, antes de tudo, que toda a forma de totalitarismo é deletéria, quer seja ela de extrema esquerda, ou de extrema direita.

Já martelamos demais a respeito dessa insana polarização. Quem não sabe que quanto mais inclinação tivermos para um dos dois lados tentando anular ou destruir o outro que nos é diferente, certamente iremos cair numa espécie de Totalitarismo?

A coisa funciona tão sutil, que a própria Censura psíquica pode aprontar surpresas desagradáveis, como o de fazer aflorar o que está guardado a sete chaves na instância que a psicanálise deu o nome de INCONSCIENTE.

O Inconsciente é a sede de memórias e sentimentos antigos que com o tempo, foram recalcados ou soterrados em lugares profundos da psique. Grande parte do que nos motiva advém dessa instância, principalmente no que tange aos “lapsos” que cometemos no dia a dia em situações de estresse ou de grande emoção. Aí dizemos numa espécie de racionalização (mecanismo de defesa): “Ops! Cometí um equívoco!.

Quem porventura não sabe que, nos momentos que estamos submetidos a forte tensão em nossos discursos, desejos ou impulsos independentemente de nossa vontade consciente podem de um segundo para outro aflorar, trazendo-nos tormenta?

Atos falhos, ambivalências, chistes, citações embaraçosas são fundamentais no trabalho do analista. Essas idiossincrasias, pelo avesso daquilo que é consciente, fornecem ao examinador elementos essenciais para que a verdade ofuscada do sujeito venha à tona ― assim reza a psicanálise

Nos sentimos como que traídos quando desejos e impulsos que considerávamos inaceitáveis em nós, rompem a barreira da Censura, deixando-nos repentinamente de saia justa. É em ocasiões como esta que, para evitar o desprazer, reagimos de forma racional tentando mascarar o que de verdade aflorou do inconsciente. Nessas horas, sempre de forma defensiva, costumamos dizer: “Eu não queria dizer isso”, ou “Fui mal entendido”, “Foi um lapso”, “Eu não sabia”, etc.

Foi em um discurso carregado de emoção, sob um suposto intuito de regenerar a sociedade brasileira que, inconscientemente, o ministro Roberto Alvim deixou escapar, em seus mínimos detalhes, uma excrescência do pensamento totalitarista do monstro nazista, Goebbels.
Mas, que fique claro: esses sentimentos ou afetos destrutivos já residiam em seus profundos arquivos mentais, desde muito tempo. Ressalte-se, aqui, que não quero execrar ninguém, pois, não somos diferentes: nossas inclinações autoritárias e de outras origens instintuais estão indefinidamente adormecidas nos arquivos indeletáveis de nossa Psique.

Mesmo a Bíblia afirmando que é preciso vigiar para não cair em tentação, quando menos se espera, ou quando o vigia postado na portaria da Censura resolve dar um cochilo, os recalques se imiscuem em nossa sala de visitas deixando-nos desarticulados.


Cabe a nós, dominar nossas feras interiores. Ou não foi assim que Javeh, o Deus dos Hebreus, se apresentou a Caim, quando ele premeditou assassinar seu irmão Abel? Sob a forma de uma voz poderosa vinda do Inconsciente, Caim parou para ouvir: “O Pecado jaz à Porta, e sobre ti será o teu desejo, mas sobre ele deves dominar” (Gênesis 4 : 7)

Para finalizar esse breve ensaio, quero recorrer a emblemática confissão do psicanalista Carl Gustav Jung, quando após a Segunda Grande Guerra Mundial recolheu-se em sua casa às margens do lago de Zurique da sua amada Suíça, onde viveu seus últimos cinco anos de vida.

Durante a segunda guerra mundial, dizia-se “boca a boca” que o psicanalista Carls G. Jung tinha colaborado com o governo de Hitler
Em 1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: Está certo, eu vacilei.(JungUma BiografiaFrank McLynnRecord Editora)


Mesmo tardia, compreendo que a confissão de Carl G. Jung tirou um grande peso de sua consciência, além de ter resgatado sua biografia.

Entretanto, sei o quanto é difícil para o senhor, Roberto Alvim, confessar que vacilou e, por essa razão, não entro no mérito da questão que foi notícia em todos os jornais do mundo.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de janeiro de 2019




24 março 2019

“Como Nós Podemos Evitar a Guerra?”






Virgínia Woolf (1882 1941) por volta de 1936, no tempo que corria a insurreição fascista na Espanha, em uma carta a ela endereçada, foi inquirida por um renomado advogado. Naquela época, como ainda hoje, a pergunta que ele fez (plena de significados e significantes – em Linguística), apresenta-se de difícil abordagem: “Na sua opinião como nós podemos evitar a guerra?”. Essa pergunta de feição aparentemente simples, ao partir de um homem para uma mulher, na realidade, tem em seu bojo signos ambíguos, como ambígua é a nossa natureza.

Foi por essa época que o físico Albert Einstein, em uma carta dirigida a Freud, ficou perturbado pelo mesmo sentimento ambivalente, mas humano, de querer e não poder. Einstein, era sabedor de que o barbudo cientista da alma, diferentemente do estudioso de física, discorria com clareza incomum o fenômeno da ambivalência: o primitivo e selvagem instinto de luta e de aniquilamento presente no indivíduo, convivia com o nobre ideal de se libertar completamente da guerra.

Susan Sontag, em seu livro “Diante da Dor dos Outros” , conta que Virgínia Woolf refletiu muito, antes de responder ao bacharel em Direito. Ela, apesar de ser instruída tanto quanto o nobre jurisconsulto, entendeu “que existia um grande abismo entre eles: o advogado é homem e ela é mulher. Homens(em sua maioria) fazem a guerra, gostam de guerra. Para eles existe uma glória, uma satisfação em lutar, que as mulheres (em sua maioria) não sentem ou não desfrutam”.

Depois de tatear para cá e pra lá, Woolf, enfim, compreendeu que a pergunta do advogado escondia algo dúbio. Ela percebeu que a pergunta que lhe foi apresentada não foi no sentido de saber seus pensamentos sobre as maneiras de evitar a guerra. Diante da pergunta emblemática ela se deteu na expressão “Como Nós”. Ora, ao contrário de “Como nós”, “nenhum de ‘nós’ deveria ser aceito como algo fora de dúvida, quando se trata de olhar a dor nossa e a dos outros”.

Costuma-se dizer que os homens fazem as guerras e as mulheres sofrem as consequências. Evidentemente, essa assertiva tem lá suas razões de ser. Olhando por esse viés, desde os tempos mais remotos, a dor da mulher e a dor do homem tem contornos subjetivos diferentes ou diversos.

Em uma época em que as mulheres não dispunham de condições iguais aos dos homens nem na educacão, nem no trabalho e nem na liberdade , Virgínia Woolf lançou seu último livro “Os Três Guinéus”. O primeiro dos guinéus (símbolos do investimento) seria destinado ao Estado. O segundo guinéu seria destinado ao trabalho, e finalmente o terceiro guinéu deveria se empregado em favor das liberdades individuais e para a cultura. Mas o governo da Inglaterra abortou sua iniciativa antes de ser inaugurada, porque ela era mulher, e mulheres não sabem exercer a liberdade pensamento político da década de 1930.

O livro, acima referido, de Virgínia Wolf, trata justamente do “fato de que a guerra é um jogo de homens e que a máquina de matar tem um gênero, e ele é o masculino”. Esse foi um dos motivos, dessa sua obra ter sido a mais mal recebida de todas que a grande escritora britânica nos legou. 

Ao advogado que, em sua missiva, fez a crucial pergunta “Na sua opinião como nós podemos evitar a guerra?” recebeu da destemida Virgínia Woolf, essa incisiva resposta: “nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas. Quem é o ‘Nós’ que constitui o alvo dessas fotos de choque. […] essas fotos, documentos antes da chacina de civis do que de confronto de exércitos só poderiam estimular a repulsa a guerra”.  

 Biblioteca do CICV, DR/hist-00212-04

Para Woolf, assim como muito polemistas antibelicistas, a guerra é genérica, e as imagens que ela descreve são de vítimas anônimas, genéricas”. (Susan Sontag “Diante da Dor dos Outros” Companhia das Letras)

Fazia um dia claro e frio quando ela deixou sua bengala ao lado, atravessou os belíssimos prados e mergulhou rio adentro para não mais voltar”.

No próximo dia 28 de março de 2019 (Quinta Feira), completa 78 anos da morte de Virgínia Woolf.


P.S.:
Apesar dos escritos de Virgínia Woolf já ultrapassarem os cem anos, o diapasão da violência continua a vibrar em nossas terras. Por aqui, os conflitos belicosos e suas nefastas consequências se tornaram coisa tão banal, que nem despertamos mais para o fato de que estamos, há décadas, vivendo em meio a uma guerra civil.

A força de tanto contemplar a destruição de lares e famílias inteiras, as imagens do arquivo da dor, composto de corpos mutilados e sangue no asfalto e nas calçadas, já não mais nos tocam como antigamente. Como disse o psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris em seu artigo “A Dor dos Outros”, de 29 de maio de 2003:

O sofrimento dos outros seria como a musiquinha do caminhão de gás, que não nos acorda mais. Os fotógrafos que arriscam (e, às vezes, perdem) a vida para nos trazer imagens abomináveis foram chamados de ‘turistas de guerra’, como se por eles, a dor se tornasse mais uma atração no circo do mundo”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de março de 2019


27 fevereiro 2018

Trump, a Bíblia e o Lobby de Armas





O presidente e religioso fundamentalista, Donald Trump e os senhores do lobby de armas que o apoiaram, querem, por cima de pau e pedra, armar os professores em salas de aulas, como medida saneadora de massacres em escolas dos EUA.

Mas a coisa pode tomar proporções maiores. Nunca é demais lembrar a chacina do dia 05 de novembro de 2017, quando um homem armado matou 26 fiéis (deixando mais de 20 feridos), no momento em que se realizava um culto matinal, no Templo Batista de Sutherland Springs no Texas.

Pelos atos, cada vez mais loucos que vem executando, falta pouco para que o profeta-presidente tente obrigar pastores e demais líderes religiosos a portarem fuzis como medida preventiva contra massacres no interior das igrejas.

Tudo, mas tudo mesmo, por mais incrível que pareça, pode sair da cartola do poderoso presidente fundamentalista americano. Empunhar a bandeira do lobby sagrado de porte irrestrito de armas dentro dos templos, pode ser a próxima jogada. Não se assustem, se, para tal empreitada, de forma utilitária e abusiva, Trump venha descontextualizar a fala do Messias perante seus discípulos, descrita por Lucas em seu evangelho (Lucas 22: 35 à 38):

Disse-lhes Jesus: Quando vos mandei sem bolsa, alforge ou sandália, faltou-vos, porventura alguma coisa? Eles responderam: Nada. Disse-lhe, pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforge; e o que não tem espada, venda a sua veste e compre-a”.

Aliás, o presidente do “Fim do Mundo ou do Armagedom” vem dando profetadas em nome do seu Senhor, para tudo quanto é lado. Recentemente ganhou apoio da maioria dos evangélicos fundamentalistas dos EUA, ao prometer transferir a embaixada americana de Israel para Jerusalém, bem de acordo com a profecia altamente beligerante de atiçar a reconstrução do Templo de Salomão, destruído no ano 70 d.C (hoje, no local, encontra-se a mesquita de Al-Aqsa — erigida pelos muçulmanos no século VII)
.
Voltando ao tema sobre o forte lobby de armas dos EUA, e, ao mesmo tempo, querendo esquentar a nossa memória, replico aqui, uma declaração do servo maior do Senhor das Armas, colhida de um discurso seu de tom retributivo realizado em abril de 2017, na Associação Nacional de Rifles (NRA):

Eu lhes prometo que, como presidente, jamais vou interferir no direito das pessoas de possuir e portar armas. A liberdade é um presente de Deus. Vocês me apoiaram e eu vou apoiá-los agora” ― acrescentou, Trump, sabedor de que em mais de 28 estados americanos não  exigem, sequer, a idade mínima para que se possa comprar uma arma.

Após o tiroteio numa escola da Flórida, que deixou 17 mortos (dia 14), Trump, pressionado pela sociedade, esboçou uma leve reação (prometeu proibir a transformação de armas legais em fuzis automáticos). Mas o lobby de armas (NRA), reagiu de imediato, rechaçando as propostas do presidente.


Pergunta-se:


Até quando o “Lobby dos Exércitos de Israel” junto com o interesse do mercado fundamentalista dos EUA usarão o nome de Javé para insuflar o Mercado de Armamentos e a desova de suas armas letais nas terras que o patriarca Abraão sonhou, um dia, tomar para si e sua conflituosa geração?


Como o paradoxal “Senhor das Armas” vai permitir que Jerusalém seja a cidade da paz, se é o conflito eterno que mantém a poderosíssima indústria armamentista a todo vapor? Ou não estão lembrado da segunda guerra mundial ― conflito ―, em que os poderosos e riquíssimos judeus Rothschild, através do seu “inteligentíssimo-deus-mercado”, lucraram como nunca na história, financiando os dois lados da guerra: tanto o exército de Hitler quanto os aliados anti-Hitler?


Resumo da Ópera: Jamais Jerusalém será símbolo de triunfo de uma facção sobre a outra. Nominá-la de “Muro das Lamentações”, por enquanto, lhe cai muito bem como representação da soberba humana, até que pelas armas sejam derrotados todos os guerreiros.




P.S.:


Nas redes sociais também se guerreia. Jerusalém pode ser minha ou sua. Para ver quem ganha, registre seu voto pela internet. (rsrs)


Por Levi B. Santos

21 março 2017

O Criador da Psicanálise e Sua Criatura Em Face de Hitler


O Criador (Freud) e sua criatura (Jung)


Freud, o criador da psicanálise, tinha a alma dividida entre as correntes sionista e antissemita. Talvez, por isso, tenha se detido muito sobre o termo “ambivalência”. Por ser um judeu da diáspora, foi considerado um infiel pelos seus. Queria fazer de Carl Gustav Jung seu sucessor, mas a criatura era filho de um pastor protestante. Portanto, como cristão, acima de tudo, Jung não poderia deixar de corroborar com o ideal bíblico de uma Terra Prometida só para os judeus no caldeirão fervente da Palestina.

O grande embate entre o Criador e sua criatura se deu com o florescimento do hitlerismo. A historiadora da psicanálise de origem francesa, Elisabeth Roudinesco, no livro “Sigmund Freud Na Sua Época e Em Nosso Tempo”, editado na França em 2014 e aqui pela Zahar em 2016 obra muito aplaudida pela crítica mundial , relata que em fevereiro de 1930, bem antes do início da segunda grande guerra, o velho barbudo argumentava perante o físico, Albert Einstein, sobre o fanatismo irrealista de seus irmãos em criar um Estado Judeu na Palestina. Portanto não partilhava da ideia sionista de recuperar os lugares sagrados para si. Dizia ele: “Não posso sentir qualquer simpatia por uma fé mal interpretada que faz de um pedaço do muro de Herodes uma relíqua nacional e, por causa dela desafiar os sentimentos dos habitantes do país. […]Teria sido mais sensato fundar uma pátria judaica num solo não historicamente carregado”.
Lógico que, como todo judeu da Diáspora, Freud jamais poderia ser adepto do sionismo. Sionismo, que depois mostrou a sua verdadeira cara: “um movimento político cujo objetivo era um governo de influência mundial controlado pelos banqueiros internacionais de orientação sionista”.

Por outro lado, Jung, criatura freudiana, na época da ascensão de Hitler principal personagem da 2ª guerra mundial , mantinha a concepção dúbia de que havia um arquétipo judaico no inconsciente coletivo do povo judeu; ao mesmo tempo, percebia o fulgor das massas em torno do Führer como uma resposta natural do inconsciente cristão na psique da raça ariana. Em uma correspondência de 1934 diz jung: “Freud já me acusou de antissemitismo só porque me recusei a aprovar seu materialismo sem alma. Com essa propensão a farejar antissemitismo em toda parte, os judeus terminam efetivamente por gerar antissemitismo”. (Elisabeth Roudinesco… página 421). Na ótica de Freud e da elite judaica anti-semitismo não era o mesmo que anti-sionismo.

A Alemã de origem judaica, Hannah Arendt (filósofa política e ex-aluna de Heidegger), ainda nos dias atuais é considerada “persona non grata” por, em seu polêmico livro “Eichmann em Jerusalém”, entender, assim como Freud, que o sionismo, no fundo, era uma ideologia racista e nacionalista.

Elisabeth Roudinesco, sobre ambivalência refletida na dualidade “sionismo-antissemitismo”, coloca Jung em um conflito idêntico ao de Freud: “Ao mesmo tempo que recriminava os judeus por forjar as condições de sua perseguição, Jung pretendia ajudá-los a se tornarem melhores judeus. O que equivalia a dizer que, em conformidade com sua teoria, Jung recusava o modelo freudiano de judeu sem religião, do judeu do iluminismo. Condenava a figura moderna do judeu desjudaizado e culpado, segundo ele, por haver negado sua 'natureza' judaica. […] No intuito de conduzir os judeus ao terreno da psicologia da diferença, Jung passou a acompanhar a evolução de seus discípulos judeus exilados na Palestina”. Contudo, em uma de suas correspondências, deixou uma emblemática pergunta no ar: “Seria por estarem tão habituados a não serem judeus que os judeus precisam concretamente do solo palestino para reconduzi-los à sua judeidade?”

Olhando bem, não se constitui um paradoxo o que Elisabeth Roudinesco aqui afirma em seu memorável livro: Jung era sionista por antissemitismo, ao passo que Freud recusava o sionismo porque não acreditava um só instante na ideia de que os judeus encontrariam uma solução para o antissemitismo conquistando a Terra Prometida”.

Quando a coisa nazista se acentuou, o Criador (Freud) fugiu para Paris, e de lá para a Inglaterra, que o recebeu de braços abertos. Quanto a criatura Jung, foi por Göring alçado a presidência do Instituto Alemão de Pesquisa Psicológica e Psicoterapia. Nesse balaio de gatos se agruparam dissidentes freudianos, junguianos e supostos “independentes”.

Apesar de sua biografia manchada pelo fato de ter ficado durante grande parte do período bélico ao lado de Hitler, há controvérsia se Jung foi realmente um colaborador nazista. Como a ambiguidade é a marca essencial da psicanálise, a história registra que a criatura no final da segunda guerra foi recrutada pelo serviço secreto americano para servir como agente em prol dos aliados. Em 1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: “Está certo, eu vacilei.” (Jung Uma Biografia Frank McLynn Record Editora)

Enquanto isso, o Criador (Freud), agora bem instalado no paraíso londrino que lhe serviu de asilo, longe do inferno nazista, voltava-se para um tema polêmico e ambíguo, como é tudo que se refere aos elementos míticos do campo religioso judaico-cristão, pondo, aos 82 anos de idade, os retoques finais em seu “Moisés e o Monoteísmo”, publicado no ano de sua morte (1939). Ficou lúcido até a partida, no dia do Perdão (Yom Kipur), em setembro de 1939, quando o espectro da guerra caía por toda a cidade de Londres, em meio a máscaras contra gases que eram distribuídas para fazer face aos intensos bombardeios que a Alemanha do demoníaco Hitler despejaria naquele fatídico mês sobre seu último refúgio a Inglaterra.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 21 de março de 2017