Mostrando postagens com marcador Crônicas do Cotidiano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas do Cotidiano. Mostrar todas as postagens

20 fevereiro 2023

Saudades dos VELHOS CARNAVAIS de Minha Adolescência em ALAGOA GRANDE(PB)

Me identifico muito com a melodia e a letra da marcha-rancho ‘Vila Esperança’ - imortalizada por Adoniran Barbosa em 1968 ─, um tributo que esse compositor, filho de imigrantes italianos, fez a sua amada Vila Esperança' (zona leste de São Paulo).
 Nos velhos carnavais de ruas, na minha adolescência, Alagoa Grande (e a aprazível lagoa do Paó em seu centro)) era a minha VILA ESPERANÇA repleta de foliões, blocos e troças - em fervente animação.
 Se hoje, o carnaval perdeu o brilho da prazerosa inocência, para gáudio dos nostálgicos daquele tempo, faço questão de ressuscitar a bela, tocante e saudosa marchinha ‘Vila Esperança’(vide vídeo abaixo) – iniciada com a voz arrastada e cansada de Adoniran Barbosa (1912 ─ 1982), também autor dos antológicos sambas: 'Saudosa Maloca', 'Trem das Onze', 'Iracema', entre outros. 
 GUARABIRA, 19 de fevereiro de 2023

03 janeiro 2022

As FACES PARADOXAIS do DEUS ‘JANUS’ (Janeiro)

 



As duas Faces do Deus ‘Janus’ 


A história do homem se repete porque ela é cíclica dentro do tempo infinito das eras. “O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo o mesmo e eterno circuito". (Eclesiastes 1:6).

Na mitologia romana, a porta que o Deus dos INÍCIOS, ‘JANUS’(Janeiro) abre, é ao mesmo tempo, entrada e saída. No CARROSSEL do TEMPO, suas duas FACES (uma oposta a outra) simbolizam a metáfora mais autêntica de que o PASSADO, PRESENTE e FUTURO se intercalam ao sabor das circunstâncias.

As guerras de hoje, no fundo, têm a mesma força destruidora das de outrora. O ódio que as move vem do mesmo núcleo estrutural. Mudaram os personagens, mas a natureza humana continua a mesma. No lugar de armas toscas como lanças e espadas bíblicas usadas contra os inimigos de antigamente, temos hoje armas muito mais sofisticadas, como é o caso do arsenal mortífero em mãos das redes sociais. Pasmem, é em nome de Deus que executam com precisão a disseminação de notícias falsas com o intuito de desinformar e confundir a incauta população.

As desculpas e razões para explicar a intolerância entre as gentes continuam sendo as mesmas dos primórdios. Enfim, nada mudou debaixo do sol, como bem disse o autor de Eclesiastes. A incessante busca dos prazeres que consomem a maior parte da vida do homem é a mesma dos tempos remotos. Ela tem a mesma seiva de milênios de anos atrás. Os canais por onde deságua a agressividade latente que está em cada um de nós, em nada diferem daquela dos tempos passados. Mudam-se as formas externas, porém, na essência tudo continua igual.

Apesar de renovarmos nossas apostas por um ANO com menos dissabores, no campo da POLÍTICA, por exemplo, muda-se apenas a cobertura, e o BOLO permanece com os mesmos sabores e ingredientes dos que foram feitos em JANEIROS que já se foram.

Será que a hipocrisia que Cristo tanto combateu entre as lideranças de seu povo, não é a mesma de hoje?


O longo capítulo de Mateus 23 (Ai de vós hipócritas!) proferido por um Cristo indignado contra os Fariseus e Escribas de sua época, por acaso, não ressoa hoje com a mesma intensidade da proferida naquele longínquo passado? Será que atuais dirigentes e líderes dos povos sedentos de justiça não estão a reeditar os fatos do passado? Se a história é cíclica, ela se repete. Ficando claro e evidente que os fariseus e escribas, de hoje, continuam agindo e semeando a discórdia como faziam nossos antigos ‘líderes’. Todas as tiranias (as atuais e as de ontem) fazem parte da história de alguns indivíduos, ou grupos no poder, que se servem de violentos recursos para, inconscientemente, exteriorizar os seus sentimentos mais animalescos.


Raciocinando bem, o tempo não passa; nós é que passamos por ele. O que vemos hoje como novidade, já o foi no passado, como disse sabiamente o autor do livro de Eclesiastes (1:9): o que foi, isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há de novo debaixo do sol.”


Entra ano e sai ano, mas a caminhada implacável do tempo sempre é a mesma. O que notamos exteriormente em nós, de mudança, são apenas as marcas visíveis e indeléveis que o
TEMPO vai deixando em nossos corpos, à medida que passamos por ele. Em todo o tempo as virtudes, as vicissitudes e aflições são as nossas companheiras indissociáveis. Se nos despirmos dos trajes das representações no grande teatro de nossa vida de relacionamentos, e mergulharmos em nós mesmos, é que poderemos perceber os instintos mais rudes que estão escondidos lá no mais profundo do nosso ser o tenebroso e escuro oceano chamado pelo pai da psicanálise “inconsciente”. O apóstolo Paulo num dos seus profundos mergulhos em si mesmo, reconheceu que nele não habitava bem algum (Rom. 7:18), para logo depois, exclamar: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”(Rom. 7:24)


O homem criou fórmulas para encaixotar o tempo em calendários astronômicos e lunares uma tentativa de dar forma a mudança dos dias rigorosamente iguais. No girar constante do tempo a que denominamos semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios, nada mais fazemos senão transubstanciar o vazio do ‘NADA’, dando-lhe “carne e ossos” para chamá-lo de “tempo”.



Por Levi Bronzeado

Guarabira, 1° de Janeiro de 2022


09 maio 2020

A TERRÍVEL LÓGICA BOLSONARIANA





No dia 14 de abril de 2020 o Jornal Italiano "Correio dela Serra" fez uma análise da postura dos líderes dos principais países do mundo, quanto ao combate do Coronavírus. A nota 2, a mais baixa, coube ao negacionista Jair Bolsonaro. 

Desde o começo da pandemia, aqui no Brasil, o presidente, mesmo sofrendo pressão interna da população, vem atuando contra os protocolos da OMS, e do Ministério da Saúde, ao defender a abertura prematura do comércio em plena ascensão da curva de infecção pelo Covid-19. 

Uma reportagem da revista Britânica,"The Economist", em sua última edição, afirma que o presidente Jair Bolsonaro está isolado em seu discurso contra o novo Coronavírus, o que poderia marcar "o começo do fim de sua Presidência"

A fim de passar uma imagem de que "tudo não passa de uma gripezinha" o presidente, de forma maldosa, passou deliberadamente a incentivar a população a desobedecer às normas do isolamento social. As aglomerações arquitetadas pelo governo e  seus militantes, sem nenhum cuidado preventivo, passaram a ser rotina nos finais de semana em Brasília, somando-se a isso as carreatas com apelações antidemocráticas, tipo "Intervenção Militar com Bolsonaro no Poder, inclusive fazendo alusão à volta do AI-5.

Foi por essa época que o presidente aumentou o tom de desdém contra a Pandemia de Coronavírus, com asneiras do tipo: 
Assim como uma gripe, outra qualquer leva a óbito (frase proferida em 17 de março de 2020).

O povo vai saber que foi enganado pela crise do coronavírus. (frase proferida em 23 de março de 2020). 

Qual seria a estratégia inclemente do presidente, senão a de desejar uma curva de infecção vertical, com a rápida contaminação de todos, visando um suposto encurtamento do tempo da pandemia?
Como todos sabem, o maior mandatário da república nunca deu o mínimo de atenção para a gravidade que sua atitude impensada está, em consequência, levando o sistema hospitalar rapidamente ao colapso total. Ele nunca titubeou, por diversas ocasiões, em demonstrar que desejava proteger muito mais o Mercado do que as vidas humanas. De forma hiistérica, sem o mínimo de tirocínio, soltou pérolas do capitalismo selvagem, como essas:  

O Vírus tá aí, vamos ter de enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, pô, não como moleque! (frase proferida em 29 de março de 2020)

Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. É a vida. Você não pode parar uma fábrica de automóveis só por que há mortes todos os anos na estrada! (frase proferida em 27 de março de 2020).

70% da população brasileira vai ser contaminada pela Covid-19. Não adianta. Se não for hoje, vai ser semana que vem, mês que vem, é uma realidade. (frase proferida em 18 de abril de 2020).

Na sua lógica capitalista selvagem, existe somente a mão única: a da salvação da Economia, não importando a falência da Saúde nem tampouco a quantidade tremenda de mortos veiculadas diariamente pelos meios de comunicação. De forma exaltada e desumana, em sua ótica avessa e perversa, joga sobre a turba ensadecida indigestas indiretas dirigidas aos familiares que perderam seus pais e avós devido ao Covid-19. No dizer inumano dele: 

"O que são milhares de idosos com comorbidades, diante de uma recessão econômica?"

O presidente negacionista vem, semanalmente, protagonizando patéticos espetáculos na frente de seus extremados seguidores, numa espécie de maniqueísmo raso, visando unicamente o boicote às medidas de isolamento social; medidas adotadas em todo o mundo pela OMS com o objetivo de retardar a progressão da infecção pelo Covid-19 e, consequentemente, evitar o colapso do sistema hospitalar. 
O propósito do desalmado presidente, como o de querer que todos peguem a doença de forma rápida, supondo que o país ficaria livre logo da pandemia com todos voltando a trabalhar normalmente, é uma amostra de que se encontra totalmente perdido em suas racionalizações desordenadas. A insensibildade de um governante xenófobo, vai, com certeza, levá-lo, futuramente, a ser cobrado pela vida de muitos. 

Para o sistema, aqueles que passaram dos 65 anos de idade são, hoje, nada mais que estorvos a serem eliminados. Em suma, o que mais se deseja é a lógica de MERCADO, onde termos como INVESTIMENTO e DINHEIRO são os que mais contam, como mostra a mensagem do novo ministro da Saúde e empresário/consultor da área médica, Nelson Teich, cujo pensamento coaduna muitíssimo bem  com a lógica terrível do temível presidente:

E, se tem uma outra coisa que é fundamental, é que como você tem dinheiro limitado, você vai fazer escolhas. Então você vai ter que definir onde você vai INVESTIR. Então, sei lá, eu tenho uma pessoa que é uma pessoa mais idosa, que tem uma doença crônica, avançada, e ela teve uma complicação. Para ela melhorar, eu vou gastar o mesmo DINHEIRO que eu vou gastar para INVESTIR num adolescente, que tá com um problema. O mesmo DINHEIRO que eu vou INVESTIR lá é igual. Só que a pessoa é um adolescente que vai ter a vida inteira pela frente, e o outro é uma pessoa idosa, que pode estar no final da vida. Qual vai se a sua ESCOLHA?”. (Nelson Teich - em um vídeo polêmico de 2019)

Enquanto digito meu ensaio, essa exata lógica mercantil do Nelson Teich que o insensato presidente exalta em meio a gargalhadas, está acontecendo em várias UTIS do Brasil. Hoje, dia 09 de maio de 2020, no Rio de Janeiro, pasmem, 336 pessoas estão na fila por um leito de UTI.

Para quem, como o nosso presidente da república, desdenhou da pandemia e passou a vida inteira conclamando a população a não obedecer o isolamento social, essa tragédia ficará registrada nos anais da história mundial como a maior mortandade a cair no colo de um mandatário da nação.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 09 de maio de 2020


Imagem do Topo: kikacastro.files.wordpress.com/2020/04/duke-eday.jpg

22 abril 2020

O Ativista e o Desejo Compulsivo de Divulgar Fakes



É em época de Politização de Pandemias e outras graves crises sócio-econômicas que a disseminação de notícias falsas (Fakes) mais florescem.
As notícias falsas têm o condão de atrair os ativistas, de uma maneira tal, que eles preferem negar o óbvio, se agarrando a uma mentira a fim de satisfazer o narcisismo de seu doentio Ego. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista, já dizia: “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”
O Desejo compulsivo de divulgar mentiras funciona como uma espécie de alienação tão entranhada, que o ativista repele tudo que vai contra sua idolatria. Mesmo com os desmentidos por parte das Agências de Checagem, os militantes continuam acreditando nas falsas notícias quase sempre elaboradas com criatividade.
Esse fenômeno é bem explicado pela Psicanálise.
Freud, em “Psicologia das Massas e Análise do EU”, analisou profundamente essa situação de compulsão neurótica coletiva. Disse ele:
Quando indivíduos se reúnem num grupo mediado por um líder (extremista), “todas as suas inibições individuais caem e todos os instintos cruéis, brutais e destrutivos que neles jaziam adormecidos, como relíquias de uma época primitiva, são despertados para encontrar gratificação livre”.
Os sujeitos reunidos em grupo se submetem de corpo e alma aos ditames do seu imprevisível líder, embarcando facilmente em aventuras nunca imaginadas.
No dizer do psicanalista, Christian Dunker, a atual pandemia do Covid 19, deixou o presidente desnorteado. Na medida em que o vírus invisível e imprevisível não pode ser manipulado, o líder, de forma defensiva, reage negando a própria gravidade da doença. O mesmo acontece com sua militância. E haja FakeNews nos meios de comunicação como forma de minimizar a grave Pandemia. O comportamento desses ativistas é tão brutal que diante do sistema de UTIs entrando em colapso total, de forma criminosa, não titubeiam em viralizar fotos falsas com leitos desocupados, no intuito de mostrar que é tudo mentira. Estão tão cegos que desdenham diante de fotos que exibem muitos corpos sendo enterrados em valas comuns.
O ativista, enfim, é aquele que vive em uma eterna fuga, executando malabarismos a torto e a direita, como uma forma de proteger seus toscos ideais e seus próprios fantasmas.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de abril de 2020

22 março 2020

A ARTE DE CURAR DOS ANTIGOS BOTICÁRIOS


Anúncio de remédio à base de Quinina – Nossa História – julho de 2005


Estamos todos de Quarentena em meio a uma Pandemia viral. Aproveitando o ócio obrigatório nos imposto por tempo indeterminado, que tal recordar um pouco de Nossa História Colonial, no que diz respeito a Farmacopeia popular no início de Nossa República?

Antigamente, as Drogarias eram conhecidas como BOTICAS, e os farmacêuticos eram denominados BOTICÁRIOS. As boticas geralmente funcionavam junto às casas de seus proprietários. Diogo de Castro, contratado por Tomé de Souza, foi o primeiro que com uma arca portátil de Madeira, na Colônia Portuguesa, iniciou a preparação de mezinhas para “curar” as moléstias do seu Senhor e sua vasta corte.

Como em época de grandes epidemias, costuma-se buscar incessantemente alguma mezinha milagrosa quase sempre derivadas de plantas medicinais no intuito de debelar um mal que se alastra de forma assustadora, eis que o comércio de ipecacuanha e quina, começou a efervescer.

Sobre os Magos de Botica e sua farmacopeia tupiniquim na comercialização da “QUINA”, Henrique Soares Carneiro, doutor e professor de História da Universidade de São Paulo, assim escreveu:

A Quina, Cinchona ledgeriana, a mais eficaz terapia contra a Malária, é o grande exemplo de um medicamento indispensável para a saúde moderna que se originou do saber indígena. Descrita em 1633 pelo padre espanhol, Calancha, a Quina logo se tornou um produto indispensável ao médico jesuíta. A difusão européia dessa casca amarga de uma árvore americana foi dificultada, num primeiro momento, pelas nações protestantes. […]Em 1820, dois químicos franceses isolaram o alcalóide “Quinina” e, após 1860, os Holandeses conseguiram contrabandear sementes que foram aclimatadas em Java” (“Nossa História” julho de 2005)

A pandemia do Covid 19, aqui nas Terras de Dom João VI desperta, por ora, duas propostas que nos meios de comunicações e redes sociais, vêm provocando acaloradas discussões:

● Uma proposta visa administrar a Quinina nos casos sintomáticos de Coronavírus sem ter submetido essa substância à nenhuma avaliação farmacológica. Talvez, quem sabe, evocando a imaginação dos boticários do tempo antigo, que antes do isolamento da quinina já faziam uso do produto bruto, quando ainda não existiam testes científicos para esse fim.

● A Outra proposta diz ser temerário o uso da Quinina, uma vez que não foi testada nem protocolizada e liberada pelo Ministério da Saúde para casos positivos de Coronavírus.

Como médico, não poderia deixar de insistir com esse alerta/esclarecimento:

A Quinina nunca foi testada cientificamente em casos do Covid 19, isto é, não se sabe que efeitos colaterais ou malefícios poderão advir do seu uso, a médio e longo prazo, feito de forma indiscriminada.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de março de 2020

14 setembro 2019

EM RUÍNAS A CATEDRAL DO INÍCIO DE NOSSA VIDA ACADÊMICA (Turma de 1971)





O mitólogo, Joseph Campbell, falando sobre o PODER do Simbólico em nossa realidade psíquica, o comparou a esfera do Sagrado. Disse ele: “Um templo é uma paisagem da alma”.

Fui, não nego, inundado por uma imensa tristeza, ao contemplar o Velho edifício que nos serviu de Templo no início de nossa jornada como acadêmicos de Medicina; templo, agora, em completa ruína e total abandono.

Transtornado, a mim mesmo perguntei e ao mesmo tempo respondi: o que aconteceu com a nossa primeira CATEDRAL? Só pode ter sido vítima de uma violação sacrílega.
Não à toa, os nossos guias ou mestres eram denominados catedráticos. Se vivos fossem, que diriam, hoje, os sacerdotes, Asdrúbal, Amílcar, Aníbal, Vitorino, Genival Veloso, e outros que os arquivos travados de minha memória, por ora, não me permitem trazer à tona?
Só sei que esses denodados guias, foram os primeiros a abrir nossos olhos para o estudo macroscópico e microscópico do corpo humano inerte e fatiado, porém sagrado.

Que extasiantes aulas recebíamos dos veneráveis mestres! Lembro de que, lá fora, enquanto nossos “xamãs”(líderes inspirados pelos espíritos para condução das cerimônias) se preparavam para execução do doce/crucial rito (as aulas), as alamedas que contornavam o Templo Sagrado, nos intervalos das ministrações, nos serviam de espaço profano para extravasamento do lado oposto da dualidade intrínseca de nosso mundo afetivo ou interno, como faz ver bem, Elíade Mircea, no trecho, abaixo, pinçado de seu antológico livro “O Sagrado e o Profano”:

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. Profano é tudo que não é sagrado, toda a vida comum do dia a dia, os fatos e atos da rotina”.

O certo é que quando adentrávamos nos recintos mais íntimos da Catedral primeira de nosso passado de acadêmico, algo nos transformava: um misto de medo, temor e tremor nos contagiava, algo como uma voz angelical a imbuir em nosso espírito o mesmo sentimento solene que assoma os corações dos fiéis que ascendem ao altar da catedral para, em sua prece dominical, oferecer seus sacrifícios vivos e agradáveis a Deus.

Cada um de nós da turma de 1971, com certeza, guarda célebres lembranças desse longínquo passado. O nosso colega Evaldo Carneiro, portador de uma fantástica memória, foi buscar no baú de seu abismo psíquico, memoráveis lembranças, uma delas retocadas pelo colega Joaquim. Não poderia deixar de ressaltar, aqui, o brilhante passeio histórico que saiu da pena do colega Jaime Xavier.

Quantas imagens, quantas memórias surgiriam se o caleidoscópio do nosso inconsciente coletivo daquele saudoso tempo pudesse, um dia, destravar seus arquivos e deixar fluir seu conteúdo por completo. Com certeza, livro nenhum caberia a autobiografia do nosso primeiro ano de faculdade (peço vênias ao nosso genial biógrafo ― o irmão Fonseca).

Ao olhar demoradamente o que restou de nosso primeiro palácio sagrado, me vieram à lembrança a melodia e a letra de “Saudosa Maloca” magistralmente interpretada pelos “Demônios da Garoa”. O estribilho desse memorável samba, cai bem aqui, como epílogo de minha melancólica descrição:

Saudosa maloca, maloca querida
Din din donde nos passemos
Os dias feliz de nossas vidas”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de setembro de 2019