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03 janeiro 2022

As FACES PARADOXAIS do DEUS ‘JANUS’ (Janeiro)

 



As duas Faces do Deus ‘Janus’ 


A história do homem se repete porque ela é cíclica dentro do tempo infinito das eras. “O vento vai para o sul, e faz o seu giro para o norte; continuamente vai girando o vento, e volta fazendo o mesmo e eterno circuito". (Eclesiastes 1:6).

Na mitologia romana, a porta que o Deus dos INÍCIOS, ‘JANUS’(Janeiro) abre, é ao mesmo tempo, entrada e saída. No CARROSSEL do TEMPO, suas duas FACES (uma oposta a outra) simbolizam a metáfora mais autêntica de que o PASSADO, PRESENTE e FUTURO se intercalam ao sabor das circunstâncias.

As guerras de hoje, no fundo, têm a mesma força destruidora das de outrora. O ódio que as move vem do mesmo núcleo estrutural. Mudaram os personagens, mas a natureza humana continua a mesma. No lugar de armas toscas como lanças e espadas bíblicas usadas contra os inimigos de antigamente, temos hoje armas muito mais sofisticadas, como é o caso do arsenal mortífero em mãos das redes sociais. Pasmem, é em nome de Deus que executam com precisão a disseminação de notícias falsas com o intuito de desinformar e confundir a incauta população.

As desculpas e razões para explicar a intolerância entre as gentes continuam sendo as mesmas dos primórdios. Enfim, nada mudou debaixo do sol, como bem disse o autor de Eclesiastes. A incessante busca dos prazeres que consomem a maior parte da vida do homem é a mesma dos tempos remotos. Ela tem a mesma seiva de milênios de anos atrás. Os canais por onde deságua a agressividade latente que está em cada um de nós, em nada diferem daquela dos tempos passados. Mudam-se as formas externas, porém, na essência tudo continua igual.

Apesar de renovarmos nossas apostas por um ANO com menos dissabores, no campo da POLÍTICA, por exemplo, muda-se apenas a cobertura, e o BOLO permanece com os mesmos sabores e ingredientes dos que foram feitos em JANEIROS que já se foram.

Será que a hipocrisia que Cristo tanto combateu entre as lideranças de seu povo, não é a mesma de hoje?


O longo capítulo de Mateus 23 (Ai de vós hipócritas!) proferido por um Cristo indignado contra os Fariseus e Escribas de sua época, por acaso, não ressoa hoje com a mesma intensidade da proferida naquele longínquo passado? Será que atuais dirigentes e líderes dos povos sedentos de justiça não estão a reeditar os fatos do passado? Se a história é cíclica, ela se repete. Ficando claro e evidente que os fariseus e escribas, de hoje, continuam agindo e semeando a discórdia como faziam nossos antigos ‘líderes’. Todas as tiranias (as atuais e as de ontem) fazem parte da história de alguns indivíduos, ou grupos no poder, que se servem de violentos recursos para, inconscientemente, exteriorizar os seus sentimentos mais animalescos.


Raciocinando bem, o tempo não passa; nós é que passamos por ele. O que vemos hoje como novidade, já o foi no passado, como disse sabiamente o autor do livro de Eclesiastes (1:9): o que foi, isso é o que há de ser, e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há de novo debaixo do sol.”


Entra ano e sai ano, mas a caminhada implacável do tempo sempre é a mesma. O que notamos exteriormente em nós, de mudança, são apenas as marcas visíveis e indeléveis que o
TEMPO vai deixando em nossos corpos, à medida que passamos por ele. Em todo o tempo as virtudes, as vicissitudes e aflições são as nossas companheiras indissociáveis. Se nos despirmos dos trajes das representações no grande teatro de nossa vida de relacionamentos, e mergulharmos em nós mesmos, é que poderemos perceber os instintos mais rudes que estão escondidos lá no mais profundo do nosso ser o tenebroso e escuro oceano chamado pelo pai da psicanálise “inconsciente”. O apóstolo Paulo num dos seus profundos mergulhos em si mesmo, reconheceu que nele não habitava bem algum (Rom. 7:18), para logo depois, exclamar: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”(Rom. 7:24)


O homem criou fórmulas para encaixotar o tempo em calendários astronômicos e lunares uma tentativa de dar forma a mudança dos dias rigorosamente iguais. No girar constante do tempo a que denominamos semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios, nada mais fazemos senão transubstanciar o vazio do ‘NADA’, dando-lhe “carne e ossos” para chamá-lo de “tempo”.



Por Levi Bronzeado

Guarabira, 1° de Janeiro de 2022


19 julho 2020

O EFEITO PLACEBO em Um Caso de Asma Brônquica






João Pereira Coutinho, além de doutor em Ciência Política pela Universidade Católica Portuguesa é ensaísta da Folha de São Paulo. Ele escreve sempre às Terças Feiras na última página do caderno “Ilustrada”. Achei por demais interessante sua abordagem sobre o efeito placebo”, em um artigo que publicou nesse Jornal, no dia 04 de setembro de 2018, sob o título “Nada de Novo Debaixo do Sol”.

Antes de o autor falar sobre o efeito placebo, fez referências ao fundamentalismo religioso, que ele considera não muito diferente do fundamentalismo daquele que se diz ateu. afirma em certa altura de seu texto. “...acreditar que só a ciência poderá redimir a condição humana é, nova ironia, uma transposição da linguagem religiosa para a do domínio da técnica”
Depois de confessar ser um hipocondríaco (e quem não tem um pouco disso?) há 42 anos em uma família de médicos, fez a seguinte revelação: “Em diversas ocasiões sei que fui enganado. Mas também sei que melhorei sempre: a visão de um comprimido funciona em mim como a promessa de um osso para um cachorro triste”.

O ensaio de João Pereira teve o condão de evocar em mim a figura de um paciente de adiantada idade, que no tempo em que dava meus plantões no setor de urgência (1980 à 2001) no Hospital Regional de Guarabira (PB), o via quase que semanalmente, em suas crises severas de asma brônquica. Certa ocasião em conversa com outros colegas chegamos à conclusão de que havia algo de fundo psicológico no desencadeamento da crise de falta de ar daquele senhor. Foi aí que decidimos aplicar o placebo da injeção de aminofilina que aplicada por via endovenosa fazia cessar imediatamente a crise. De tanto tomar a aminofilina ela já a conhecia de longe, pelo tamanho e cor da ampola. A ampola de água distilada, diga-se de passagem, tinha o aspecto semelhante ao do pequeno frasco de aminofilina. Saliente-se, aqui, que a água destilada é completamente inócua, quando se aplica bem lentamente na veia. Lembro que ele nunca deixava aplicar todo o conteúdo da ampola de 10 ml, pois com apenas um terço dela já se sentia completamente eupneico, e saía da sala de urgência rindo e agradecido.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 19 de julho de 2020

28 maio 2020

Quando o Nome de "Deus" é Envolvido em um Conflito Político-Ideológico





Este breve ensaio, bem que poderia ter o título, abaixo:

'Uso e Abuso do Nome de Deus para Fins Eleitoreiros'. [“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” Mateus 15:08]

Possuidora de uma vasta obra, entre as quais se destaca o antológico livro ─ “Adão, Eva e a Serpente”, a professora, de História da Religião na Universidade de Princeton, Elaine Pagels, foi partícipe da tradução de rolos encontrados em um vaso no subsolo do deserto da cidade egípcia de Nag Hammadi (provavelmente datados do século II d. C).

Em seu fenomenal livro ─ "As Origens de Satanás" ou “Um Estudo Sobre o Poder que as Forças Irracionais Exercem na Sociedade Moderna”, a historiadora faz referência a uma significante passagem destacada e traduzida desses rolos encontrados em 1945 no deserto de Nag Hammadi:

Conta-se que um cristão anônimo foi perguntado por um de seus discípulos sobre o que quisera dizer o grande apóstolo Paulo, quando advertira que ‘nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim contra os principados e potestades, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestes’ (Efésios 6:12). O mestre responde criando uma revelação secreta, intitulada ‘A Realidade dos Governantes’, a qual diz, eu enviei desde que perguntastes sobre a realidade dos governantes (cósmicos)”. Por causa de seu poder, ignorância e arrogância ele disse

Estás enganado Samael, isto é, “Deus dos Cegos”…

Elaine Pagels, ao tratar do “erro induzido por governantes sobrenaturais malignos, que se faziam passar por Deus neste mundo”, faz, acima de tudo, uma profunda reflexão sobre a ironia da condição humana, e seu intrigante legado de “amor” e ódio.

Toda vez que se envolve o nome de Deus numa luta Político-Ideológica entre irmãos com pensamentos diferentes ou opostos na perspectiva de que um destrua ou elimine o outro, como sobejamente a história ambivalente das religiões "monoteístas" tem demonstrado, o final desse enredo é sempre trágico. Quanto a esse anseio narcísico de irmãos querendo derrotar e menosprezar irmãos, já dizia o rabino e sociólogo Nilton Bonder, líder da congregação israelita no Brasil, em "Judaísmo para o Século XXI": "Não haverá paz, enquanto ambos, ou melhor, todos os lados interessados não forem derrotados. Uma derrota na expectativa de Triunfo de todos os lados é a única esperança da Paz. Sempre foi."

Em Resumo: É muito difícil negociar uma questão básica de ordem psicológica, quando se trata de saber qual dos dois filhos Deus gosta mais. Na história da divina e trágica comédia político-religiosa quando um deus (ou um messias) é manipulado e engodado pelo vil metal a ficar do lado de sua angélica e sanguinária militância, o do outro lado, por mais que se mostre capaz e não alienado, vai ser sempre rotulado de falso.


Para o antropólogo, Roberto Redfield,a visão mundial de muitos povos consiste em essência de dois pares de oposições binárias: ‘humano/não humano’ e ‘nós/eles’. A distinção entre ‘nós’ e ‘eles’ surge já em nossa mais remota evidência histórica em antigas tabuinhas sumérias e acadianas.


Uma sociedade não descobre simplesmente seus outros, ela os fabrica.” (Elaine Pagels)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de maio de 2020

13 maio 2020

O PSIQUISMO EM TEMPOS DE PANDEMIA ― BREVES CONSIDERAÇÕES




É na linguagem apreendida desde os meus primórdios que hoje, no ocaso da vida, ainda me ancoro. O que faço com as pulsões, fantasias, astúcias e finezas do meu tempo pueril, senão, dia a dia revolvê-las, reciclá-las ou adorná-las com as plumagens esmaecidas do presente?

Quando as trevas do mundo se me apresentam com toda sua dureza, acossado por uma pandemia horrorosa e mortal de um vírus que escolheu justamente os idosos com suas comorbidades para estabelecer a seleção “natural” mais drástica da pós-modernidade, só me resta empreender uma autoanálise. Então, à guiza de recolher algumas pérolas envido esforços na tentativa de ver, mais de perto, fantasmas escondidos nas profundezas de meu obscuro oceano psíquico, instância essa, denominada por Freud, “O Inconsciente”.

Sob o império das necessidades inerentes ao momento extremamente difícil da atualidade que, no meio religioso, já se nomeia como “o fim dos tempos”, nessa quarentena resignei-me a tatear por dentro de casa, vendo paulatinamente, as páginas cinzentas dos dias tombarem sobre as páginas negras da noite, ante meu débil olhar embaciado pela idade avançada.

Nas noites intercaladas por momentos insones, ainda tenho alguns sonhos de esperança. Ainda sonho me vendo criança, colhendo fragmentos do Jardim do Éden nos idos de 1946, quando em Alagoa Grande nascia eu para a linguagem. Os meus pais, ainda tão jovens e imaturos, saídos de uma curta adolescência, usaram o VERBO, e o DESEJO Paterno/Materno para encarnar-me. Fui o primogênito, e como tal, honrado com o título de provedor da família, como bem simboliza o nome Levi, de origem hebraica, que hoje me faz jus, em todos os aspectos.
O psicanalista francês, Jacques Lacan, que promoveu a releitura das obras de Freud, fazia em seus seminários referências ao “Nome-do-Pai”, junto com a tríade do “simbólico, do real e do imaginário” ─ arquétipo introjetado pelo pai no psiquismo do filho. Mesmo já adulto, quando esse filho dá uma ordem, é a voz ancestral do Pai que fala através dele.

Um DESEJO, Uma PALAVRA, um dia nos fundou. Somos filhos das PALAVRAS. Elas permanecem lá, inscritas em nosso corpo. As ruínas dos castelos que imaginariamente construímos na infância, com certeza, estão arquivadas em nosso cérebro, Para não sermos consumidos, em tempos sombrios como esse que estamos atravessando, ressonâncias se deslocam dos alicerces movediços de nossas lembranças, para amenizar nosso sofrimento.

Embora tendo em mim os sinais físicos da fraqueza inerente à idade, não posso demonstrar abatimento espiritual. Às vezes, me quedo rindo por dentro, ao ouvir da esposa, dos filhos e netos a consoladora frase: “Ele está com aparência melhor!”. Na primavera, quando as belas flores de variadas cores dos boungavilles se derramam sobre os muros do meu quintal, o desânimo dá lugar a rasgos de esperança de novos tempos, novos ânimos, novos ares de felicidade.

Mas a felicidade, cantada em versos pelo nosso poetinha, Vinícius de Moraes, é fugaz, “como uma gota de orvalho numa pétala de flor/Brilha tranquila/Depois de leve oscila/E cai como uma lágrima de amor”.

Não sou senhor de mim, mas também não sou completamente incapaz de me reconhecer na criança que um dia fui. Não posso refletir sobre esse mundo complexo e ilógico que me escorrega entre os dedos, mas posso enxergar o material de que fui forjado para ser, com todas as vicissitudes e ambivalências, o que hoje sou.

Quando eu denomino esse mundo atual de complexo, ilógico e escorregadio, quero com isso dizer, que essa grave pandemia de coronavírus e a consequente banalização da morte em tempo real pela Televisão, está deixando, não só a mim, quanto aos outros inundados de ansiedade e reféns do desamparo. Cada um inquirindo a si mesmo, se será ou não a próxima vítima desse potente e imbatível vírus.

Como seres forjados para a angústia, de certa forma, o desamparo que experimentamos hoje, pode ser entendido, psicologicamente, como uma repetição ou eco do primeiro desamparo: a nossa expulsão violenta do aconchegante ninho materno ─ o Útero ─, quando, mediado pelo choro, passamos a viver em um mundo cruel e inóspito. Talvez, em nível inconsciente, o desamparo primevo, tenha algo a ver com a exacerbação dos sentidos que, agora, frente a uma Pandemia, se mostra quase que incontrolável.


02 maio 2020

O QUE HÁ POR TRÁS DO ─ “QUEM MANDA SOU EU!”




Essa frase ameaçadora faz parte do arsenal de jargões usados recentemente pelo presidente da república. Na verdade, esse grito ameaçador só pode partir de quem gostaria de MANDAR, mas não tem a mínima estatura moral para tal feito.

Aliás, se o presidente tivesse um pouco de tirocínio, iria entender que ele é um servidor público e, como qualquer funcionário público tem o dever, não de MANDAR, mas de SERVIR ao povo brasileiro. Portanto, ele é SERVO e não SENHOR, e estamos conversados.

A dupla da MPB, Baden Powel e Vinícius de Morais, cantando um de seus memoráveis sambas, já frisava ─ “o homem que diz sou, não é” ─, até porque aquele que é poderoso não precisa alardear aos quatros cantos que é ele quem manda, o que, definitivamente, não é o caso do neófito que está desonrando a cadeira presidencial com suas asneiras expostas diariamente nos meios de comunicação. A cada declaração estapafúrdia que o insensato faz, é um tiro que dá no próprio pé, e tome crise atrás de crise no auge de uma Pandemia que ele nega e boicota, incitando a população a não reconhecer como verdadeiros os protocolos médicos do Ministério da Saúde e da OMS. Por sua vez, os ativistas que se submeteram a uma lavagem cerebral sem precedentes, de forma histérica e idólatra o aplaudem e o adoram como se ele fosse o valioso Bezerro de Ouro erigido no deserto do Sinai pelo desobediente e frustrado povo Hebreu.

O que leva o presidente a usar com frequência o brado “Quem Manda Sou Eu!”, senão o desejo insano de fazer do palácio da Alvorada um puxadinho de sua casa. Indubitavelmente, a mistura maléfica do público com o que é privado se constitui uma das práticas criminosas que está levando o governo à decadência moral. A cadeira presidencial não pode ser trocada por um sofá presidencial para acomodar seus inconvenientes filhos, ainda mais na condição de investigados por promotores e Congresso.

Recentemente, o ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, foi pressionado pelo presidente para trocar o superintendente da Polícia Federal, Maurício Valeixo, por outro policial federal mui amigo de balada de seus intragáveis filhos (alvo de inquéritos em andamento na corporação). Moro, ao argumentar que o que o presidente estava propondo ali era uma interferência política, recebeu na cara, de forma ríspida e descarada um: é isso mesmo!”, expressão, que não deixa de ser um derivativo do surrado bordão “Quem Manda Sou Eu!”.

Segundo o professor e psicanalista, Mário Corso, as reações exacerbadas do presidente são consequência de uma fragilidade. O sujeito se sente inferiorizado e ataca. Sai em ataque de tudo, mas justamente pela fraqueza intelectual dele. Quando não tem argumento, troca de assunto chutando canelas do adversário. Ele não tem discussão nenhuma. Só ataca o adversário porque ele é consciente da sua fragilidade intelectual”.

Quando o presidente lança na cara do interlocutor o tradicional “Quem Manda Sou Eu!, está agindo em defesa de seu próprio EGO, ou seja, ao lançar mão de um escudo de proteção, ele, inconscientemente, está a reprimir ou recalcar fatos inconfessáveis e crimes não ditos em um abismo secreto de sua psique. Para os que sofrem de infantilismo e insegurança neurótica, o ATAQUE, representado pelo brado ameaçador em pauta, é, ao mesmo tempo, arma de DEFESA.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 02 de maio de 2020



26 janeiro 2020

“Não Estou Preparada!” ― Um Dilema Shakespeariano





Para o grande dramaturgo britânico, Oscar Wilde (1854 ― 1900), autor do famoso “O Retrato de Dorian Gray”, “a vida imita a arte mais do que a arte imita a vida”.

Ancorando-me no enunciado (verso e reverso) elaborado por esse renomado escritor, detenho-me agora no assunto mais comentado dos dias atuais nas redes sociais, nos jornais e na TV. Manchetes, tipo “A Namoradinha do Brasil é convidada pelo governo para assumir a Secretaria da Cultura” infestaram de forma maciça os meios de comunicações.

A consagrada atriz continua, ainda, ligada a Globo ― emissora de TV que a lançou no mercado televisivo. Lá, teve um inusitado sucesso de público em sua longa carreira. Em seu trabalho novelístico e artístico a atriz imitava tanto a vida de personagens das mais altas famílias, como a dos mais humildes moradores de antiquados rincões de nosso país.

O ator Lima Duarte (ex-companheiro de Regina Duarte na Novela Roque Santeiro), com a verve humorística que lhe é peculiar, fez uma inserção interessante entre o mundo da arte e o da vida real, reproduzida por Mônica Bérgamo em sua coluna na Folha de S. Paulo.
Disse, Lima Duarte, que na telenovela "Roque Santeiro" fazia o papel de um impulsivo coronel do interior:

A união de Regina com Bolsonaro é perfeita para o Brasil de hoje: Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura” afirmou, como que evocando o papel dos dois em Roque Santeiro(drama que bateu todos os recordes de audiência da Globo, em 1985).

Entrar na vida Política sem a muleta da fantasia ou da ficção parece ser coisa praticamente impossível. É que as coisas do Estado, de há muito, andam muito parecidas com o mundo ficcional das novelas.

Não estou preparada!”. Bem, isso é o que, até agora, a atriz Global afirma em suas falas recentes sobre assumir ou não assumir a Secretaria da Cultura.

Divagando sobre o que pode estar escondido no âmago da afirmação defensiva da artista:

Como carregamos em nossa índole a ambivalência desde os tempos mais remotos, na arte da política podemos agradar ou provocar. É em tempos de polarização excessiva que ocorrem os mais sérios atritos: se meu lado conservador se sobressai posso até agradar aos meus que militam na direita, mas, ao mesmo tempo, desagrado aos do lado oposto. E aí surge a pertubadora dúvida: a do pender ou não pender para o lado político que, momentaneamente, comanda a situação.

Na vida, equilibrando os dois lados de sua ambiguidade interna, a atriz muito representou, quer do lado do conservadorismo, quer do lado engajado na vanguarda pelos direitos femininos. Em “Malu Mulher” a atriz, em seu papel, vivenciou a violência doméstica, a submissão psicológica, a revolta contra o machismo. Tudo isso numa época em que não se aceitava a independência da mulher.

Acontece que depois de ter, por muito tempo, representado as contradições e idiossincrasias humanas através das novelas e mini-séries, a intérprete talvez esteja se vendo numa encruzilhada, sem ter ideia de como conciliar sua alma de desejos dúbios; sem o poder de efetuar a síntese dos dois lados antagônicos de seu duplo eu, para que haja, enfim, o mínimo de apaziguamento interior. 

Agora, sob o peso da idade e depois de muitos anos atuando na Vida de Representação, como sair dessa enrascada?

Abraão Grinberg e Bertha Grinberg em “A Arte de Envelhecer com Sabedoria” escreveram algo muito contundente sobre a consciência-de-si, que, com maior nitidez, aparece naquela fase da vida em que, pela soma das muitas experiências vivenciadas, já nos encontramos bem mais amadurecidos:

...É o instante da vida em que deixamos de ser a montanha para sermos um simples vale. O vale das montanhas do mundo dos homens. O instante em que a Locomotiva será conduzida pelos vagões”.

Coincidência, ou não, no campo da arte política, não vamos, somos levados. Vigiemos, pois é na terceira idade que a impetuosa necessidade de reflexão nos surpreende com mais intensidade.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de janeiro de 2020



18 janeiro 2020

SÓ O TEMPO DIRÁ POR QUE O SECRETÁRIO ESPECIAL DA CULTURA FOI REVISITAR O MONSTRO NAZISTA JOSEPH GOEBBELS



                                                        Adolf Hitler e Joseph Goebbels


Foi com essa História de “Regeneração Cultural” que os dois monstros, Adolf Hitler e Joseph Goebbels (carrascos responsáveis pelo Holocausto Judeu), alienaram ou cegaram quase toda a população da Alemanha de sua época.

Aqui, pra nós, quero dizer, antes de tudo, que toda a forma de totalitarismo é deletéria, quer seja ela de extrema esquerda, ou de extrema direita.

Já martelamos demais a respeito dessa insana polarização. Quem não sabe que quanto mais inclinação tivermos para um dos dois lados tentando anular ou destruir o outro que nos é diferente, certamente iremos cair numa espécie de Totalitarismo?

A coisa funciona tão sutil, que a própria Censura psíquica pode aprontar surpresas desagradáveis, como o de fazer aflorar o que está guardado a sete chaves na instância que a psicanálise deu o nome de INCONSCIENTE.

O Inconsciente é a sede de memórias e sentimentos antigos que com o tempo, foram recalcados ou soterrados em lugares profundos da psique. Grande parte do que nos motiva advém dessa instância, principalmente no que tange aos “lapsos” que cometemos no dia a dia em situações de estresse ou de grande emoção. Aí dizemos numa espécie de racionalização (mecanismo de defesa): “Ops! Cometí um equívoco!.

Quem porventura não sabe que, nos momentos que estamos submetidos a forte tensão em nossos discursos, desejos ou impulsos independentemente de nossa vontade consciente podem de um segundo para outro aflorar, trazendo-nos tormenta?

Atos falhos, ambivalências, chistes, citações embaraçosas são fundamentais no trabalho do analista. Essas idiossincrasias, pelo avesso daquilo que é consciente, fornecem ao examinador elementos essenciais para que a verdade ofuscada do sujeito venha à tona ― assim reza a psicanálise

Nos sentimos como que traídos quando desejos e impulsos que considerávamos inaceitáveis em nós, rompem a barreira da Censura, deixando-nos repentinamente de saia justa. É em ocasiões como esta que, para evitar o desprazer, reagimos de forma racional tentando mascarar o que de verdade aflorou do inconsciente. Nessas horas, sempre de forma defensiva, costumamos dizer: “Eu não queria dizer isso”, ou “Fui mal entendido”, “Foi um lapso”, “Eu não sabia”, etc.

Foi em um discurso carregado de emoção, sob um suposto intuito de regenerar a sociedade brasileira que, inconscientemente, o ministro Roberto Alvim deixou escapar, em seus mínimos detalhes, uma excrescência do pensamento totalitarista do monstro nazista, Goebbels.
Mas, que fique claro: esses sentimentos ou afetos destrutivos já residiam em seus profundos arquivos mentais, desde muito tempo. Ressalte-se, aqui, que não quero execrar ninguém, pois, não somos diferentes: nossas inclinações autoritárias e de outras origens instintuais estão indefinidamente adormecidas nos arquivos indeletáveis de nossa Psique.

Mesmo a Bíblia afirmando que é preciso vigiar para não cair em tentação, quando menos se espera, ou quando o vigia postado na portaria da Censura resolve dar um cochilo, os recalques se imiscuem em nossa sala de visitas deixando-nos desarticulados.


Cabe a nós, dominar nossas feras interiores. Ou não foi assim que Javeh, o Deus dos Hebreus, se apresentou a Caim, quando ele premeditou assassinar seu irmão Abel? Sob a forma de uma voz poderosa vinda do Inconsciente, Caim parou para ouvir: “O Pecado jaz à Porta, e sobre ti será o teu desejo, mas sobre ele deves dominar” (Gênesis 4 : 7)

Para finalizar esse breve ensaio, quero recorrer a emblemática confissão do psicanalista Carl Gustav Jung, quando após a Segunda Grande Guerra Mundial recolheu-se em sua casa às margens do lago de Zurique da sua amada Suíça, onde viveu seus últimos cinco anos de vida.

Durante a segunda guerra mundial, dizia-se “boca a boca” que o psicanalista Carls G. Jung tinha colaborado com o governo de Hitler
Em 1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: Está certo, eu vacilei.(JungUma BiografiaFrank McLynnRecord Editora)


Mesmo tardia, compreendo que a confissão de Carl G. Jung tirou um grande peso de sua consciência, além de ter resgatado sua biografia.

Entretanto, sei o quanto é difícil para o senhor, Roberto Alvim, confessar que vacilou e, por essa razão, não entro no mérito da questão que foi notícia em todos os jornais do mundo.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de janeiro de 2019