22 junho 2012
Luiz Gonzaga ― A Cara do São João Nordestino
23 junho 2011
Saudades do São João de Minha Infância

Ah, que gratas recordações da simples gente de crenças robustas, moradores daquela aprazível rua na qual um velho bangalô acolhia meus pais, meu irmão (do meio), minha irmã caçula e eu! Só quando as noites de São João em Alagoa Grande (PB) coincidiam com os demorados cultos noturnos na igreja que frequentava, situada bem no final da São José (rua que era uma continuação da minha saudosa 13 de maio), é que a tristeza e a melancolia me invadiam. Não sei mesmo o que poderia acontecer comigo se meus pais soubessem que meus pensamentos, mesmo dentro do recinto sagrado, estavam muito mais centrados no lado de fora do que no interior do Templo, pensamentos que não comungavam com o enfadonho e longo ritual religioso do pregador, que me fazia perder a maior parte da festiva noite junto aos meus amiguinhos em seus folguedos juninos. Na maioria das vezes, tirava a sorte grande e não participava dos cultos religiosos, o que me deixava mais solto e livre para apreciar a beleza esplendorosa das lanternas multicores pregadas nas paredes de fora das casas, acima de cada janela e portas, se estendendo linearmente de cada lado da rua até se perder de vista. Lanternas em forma de pirâmides, de cubos, umas redondas como fole de sanfona, outras em forma de estrelas de variadas cores; todas escondendo a luz tremulante das velas em seu interior.
Lembro-me perfeitamente das noites de S. João, em que a lua cheia dava um toque todo especial aos balões multicores soltos pela gurizada irreverente e alegremente alvoroçada. Os balões de variados tamanhos subiam céleres, levados pelos ventos em meio a um céu límpido, e, aos poucos, iam se transformando em pontinhos de luz bruxuleante, em meio às estrelas cintilantes. Que maravilha era o espetáculo das girândolas cruzando o céu sobre nossas cabeças, encerrando o show pirotécnico. Logo após esse extasiante espetáculo, corríamos todos às nossas casas para recolher espigas de milho verde em palha a serem assadas nas brasas ainda avermelhadas do que restou das fogueiras.
Nas prazerosas noites de São João, poderia citar uma por uma, todas as pessoas que residiam naquela bucólica, festiva e engalanada rua de barro batido, desde o largo da padaria de Seu Abdias onde ficava o pequeno pavilhão destinado às quadrilhas juninas, até desembocar em uma pequena vereda junto à linha do trem, onde ao lado e no alto de uma ribanceira, à semelhança de um pequeno castelo, ficava encravado o majestoso e rústico armazém de Zé Hipólito, local onde se vendiam estivas, cereais e produtos agrícolas.
Quando, ao declinar da tarde, soava a melodia sinfônica da Ave Maria de Gounod, precisamente às 18 horas, adultos e meninos, ainda deglutindo pedaços de pamonhas e queijos de coalho, acorriam à rua para acender suas tradicionais fogueiras. Quão gratificantes eram àquelas horas rápidas de gozo esfuziante passadas em pleno meio da rua, inesquecíveis momentos que compensavam as agruras e fadigas da vida tão duramente trabalhada.
Hoje, ainda sonho com os chuveiros de gôtas belas e fosforescentes que exalavam muita fumaça branca; o cheiro da pólvora dos traques, dos beijos de moça, mijões e pequenos rojões não me saem da memória olfativa e afetiva.
Decorridos quase sessenta anos daquele idílico tempo, encontro-me, agora, detido aqui, diante do computador, a rememorar as saudosas noites de São João do meu tempo de menino.
Ouvindo o pipocar dos fogos, entremeados com o som de velhas cantigas juninas cantadas pelos passantes lá fora na rua, e inalando o cheiro da canjica de milho verde vindo do meu fogão, trago a esse recanto uma das saudosas músicas nordestinas mais tocadas durante o mês de junho nos anos sessenta:
Olha Pro Céu
Composição: Luiz Gonzaga / José Fernandes


