18 junho 2020

A FUGA DO HOSPÍCIO






No tempo em que exercia sua função de cronista no Diário do Rio de Janeiro (1860) e na Gazeta de Notícias (1900), Machado de Assis publicava, diariamente, seus folhetins. Durante 40 anos, quando a Imprensa Brasileira gozava um período importante de consolidação, ironizou, como ninguém, o dia a dia da política e suas ideias prontas.

As cenas do Homem, dito civilizado, em seus folhetins, carregados de metáforas tinham um sabor de comédia e de insensatez, como esse que trago, com os devidos créditos, à baila em momentos trágicos e risíveis de nossa república das bananas.

A fuga do Hospício é mais grave do que pode parecer à primeira vista. Não me envergonho de confessar que aprendi algo com ela, assim como que perdi uma das escoras de minha alma. Este resto de frase é obscuro, mas eu não estou agora para emendar frases nem palavras. O que for saindo saiu, e tanto melhor se entrar na cabeça do leitor.
Ou confiança nas leis, ou confiança nos homens, era convicção minha de que se podia viver tranquilo fora do Hospício dos Alienados. No bond, na sala, na rua, onde quer que se me deparasse pessoa disposta a dizer histórias extravagantes e opiniões extraordinárias, era meu costume ouvi-la quieto. Uma ou outra vez sucedia-me arregalar os olhos involuntariamente, e o interlocutor, supondo que era admiração, arregalava também os seus, e aumentava o desconcerto do discurso. Nunca me passou pela cabeça que fosse um demente. Quando o interlocutor, para melhor incutir uma ideia ou um fato, me apertava muito o braço ou puxava com força pela gola, longe de atribuir o gesto a simples loucura transitória, acreditava que era um modo particular de orar ou expor. O mais que fazia, era persuadir-me depressa dos fatos e das opiniões, não só por ter os braços mui sensíveis, como porque não é com dois vinténs que um homem se veste neste tempo.

Assim vivia, e não vivia mal. A prova de que andava certo, é que não me sucedia o menor desastre, salvo a perda da paciência; mas a paciência elabora-se com facilidade; ─ perde-se de manhã, já de noite se pode sair com dose nova.

O mais corria naturalmente. Agora, porém, que fugiram doidos do Hospício e que outros tentaram fazê-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi aquela antiga confiança que me fazia ouvir tranquilamente
discurso e notícias. É o que acima chamei uma das escoras de minha alma. Caiu por terra o forte apoio. Uma vez que se foge do Hospício dos alienados(e não acuso por isso a administração) onde acharei método para distinguir um louco de um homem de juízo? De ora avante, quando alguém vier dizer-me as coisas mais simples do mundo, ainda que não arranque os botões, fico incerto se é pessoa que se governa, ou se apenas está num daqueles intervalos lúcidos que permitem ligar as pontas da demência às da razão. Não posso deixar de desconfiar de todos.

A própria pessoa ─ ou para dar mais claro exemplo, ─ o próprio leitor
deve desconfiar de si. Certo que o tenho em boa conta, sei que é ilustrado, benévolo e paciente, mas depois dos sucessos desta semana, quem lhe afirma que não saiu ontem do Hospício?”.

(A segunda parte dessa Crônica de Machado de Assis publicarei posteriormente).


Levi B. Santos
Guarabira, 18 de junho de 2020

03 junho 2020

TEMPOS SOMBRIOS NOS CONVIDAM A REVISITAR ADOLF EICHMANN






Há três dias, quando ranços do autoritarismo ameaçavam destruir nossas instituições democráticas, o membro mais antigo, desde 2007, da Suprema Corte, o respeitado nacional e internacionalmente decano, Celso de Mello, veio a público para fazer um alerta mais que necessário, pois estava sendo acusado pelo próprio presidente da república e seus assessores, de ter se excedido na aplicação da lei. Em meio às pressões dos incomodados, o decano do STF, em alto e bom som, comparou o Brasil atual com a Alemanha Nazista.

Aos desavisados que nada conhecem da História Mundial e não sabem que os acontecimentos de cunho autoritário e fascista tendem, vez ou outra, a se repetir no decorrer do tempo, achei por bem trazer à baila as Cavernas de Aladim. Elas, sem sombra de dúvida, ainda estão por aí, a esconder maléficos fantasmas. Para aqueles que estão sempre fazendo releituras do passado totalitarista na História da Humanidade, creio, não ser difícil de perceber o “por quê” dos temporariamente amnésicos ficarem tão surpresos e suspensos com a fala firme do decano. É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando HITLER, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul Von Hindenburg como Chanceler da Alemanha, não exitou em romper e em nulificar a progressista democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder” ─ disse do alto de sua envergadura, o veemente ministro Celso de Mello.

Em meio a três calamidades de um desgoverno, na Política, na Saúde e na Economia, tenho pra mim que, mais do que nunca, é tempo de avivar a memória. Me disponho a fazer um pequeno retrospecto histórico, revisitando a maior autoridade em “Totalitarismo e Banalidade do Mal” ─ a alemã, Hannah Arendt (1906 ─ 1975), historiadora e jornalista política, que participou em Jerusalém do longo julgamento do genocida Adolf Eichmann, responsável direto pelo Holocausto de mais de seis milhões de Judeus que foram exterminados em câmaras de gás nos campos de concentração. Tanto Eichmann, quanto o monstro, Hitler, tinham Adolf como primeiro nome.

No seu magnífico livro ─ “Eichmann em Jerusalém” (Editora Companhia das Letras) ─, Hannah Arendt faz uma desconcertante revelação:Eichmann havia sido descrito pelos PSIQUIATRAS como um homem obcecado, com um perigoso e insaciável impulso de matar, uma personalidade pervertida e sádica. Nesse caso, seu lugar seria o asilo de alienados”.

Os trechos de Hannan Arendt (replicados abaixo), fala da infância de Eichmann, que por incrível que pareça, corrobora exatamente com o pensamento de Freud em seus estudos sobre o desenvolvimento psíquico, quando afirmava que a personalidade, essencialmente, estaria formada por volta dos cinco anos de idade.

A infelicidade, começou cedo; começou na escola. O pai de Eichmann, contador da Companhia de Bondes de Solinger, teve 5 filhos, quatro homens e uma mulher, dos quais, ao que parece, só Adolf, o mais velho, não conseguiu terminar a escola secundária, nem se formar na escola vocacional para engenharia na qual foi matriculado então. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas primeiras dificuldades.”

Surpreendentemente, Eichmann falando a respeito de seus pais diante dos juízes que o julgavam em Jerusalém, se comportou como uma pessoa ressentida, como bem demonstra o trecho abaixo:

Eles não teriam se enchido de alegria com a chegada de seu primogênito se fossem capazes de ver, que na hora de meu nascimento, para provocar o gênio da felicidade, o gênio da infelicidade já estava tecendo os fios de dor e tristeza em minha vida. Porém, um véu suave e impenetrável impedia meus pais de enxergar o futuro”. (Eichmann em Jerusalém – página 39 - Companhia da Letras)

A reflexão histórica que Hannah, brilhantemente, levou a termo, naquilo que ela mesma rotulou de “Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, que ainda hoje serve como fonte inesgotável de consultas procedidas por políticos, filósofos, historiadores, sociólogos, universitários e psicanalistas, no intuito de se conhecer melhor os meandros maléficos que rondam a psique de um genocida, como foi o caso de Adolf Eichmann.

No dia 11 de maio de 2020 (três semanas atrás) fez exatamente 60 anos que Eichmann foi capturado e sequestrado de um subúrbio de Buenos Aires na Argentina pelo exército Israelense, para ser julgado pela Corte Máxima de Jerusalém, por CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

No último capítulo e começo do epílogo do livro “Eichmann em Jerusalém”, obra de leitura obrigatória para quem quer se debruçar de forma profunda sobre o tema NAZISMO e ORIGENS do TOTALITARISMO, a alemã, filha de pais judeus não praticantes, Hannah Arendt, com seu olhar de águia, foi fundo ao “Coração das Trevas” ameaçadoras das sociedades democráticas de seu tempo.

Fica a cargo do leitor ou da leitora aquilatar o que nesse breve ensaio postado há de semelhança com os momentos atordoantes por que passa a nossa frágil república. Ontem, dia 02, o país contabilizava o total de 31.000 mortes, sendo 1.262 só nas últimas 24 horas, de uma pandemia que, ao que parece, ainda está longe do pico. Inacreditavelmente, essa imensa mortandade, na mídia televisiva, é assunto abordado de forma secundária. A primazia no noticiário na TV, pasmem, cabe as querelas da baixa politicagem ─ uma espécie de ópera bufa que castiga nossos ouvidos durante toda a noite, numa briga sem fim de egos inflamados nos três poderes, sempre girando em torno da figura central de um governo que, incessantemente, incita e desafia as próprias instituições que deveria respeitar. Recentemente, o nosso maior mandatário ao ser inquirido por uma apoiadora sobre os enlutados no dia em que o número de mortos bateu todos os recordes, respondeu de forma curta e grosseira: É o Destino de Todo Mundo!”

Mas voltemos a história do carrasco nazista alemão:

No cadafalso, diante da morte, Adolf Eichmann, ainda teve a audácia de proferir umas de suas frases clichês secas, demonstrando de forma cabal sua total insensibilidade: “Esse é o Destino de Todos!”. Viva a Alemanha, viva a Argentina!.

Assim, escreveu Hannah Arendt, no final do último capítulo “Julgamento, Apelação e Execução” de seu memorável livro:

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que esse longo curso de maldade humana nos ensinou ─ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos”.

Por falar em Banalidade do Mal, é triste a constatação de que em nossa república das bananas esse MAL, esteja simbolizado pelo descaso do governo federal com o infectado que a cada minuto morre de covid - 19 e pelas FakesNews financiadas com dinheiro público, detonadas aos montes nas redes sociais. Até o "Deus que deveria estar acima de todos" vem sendo vergonhosamente BANALIZADO para FINS PROFANOS. 


Por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de junho de 2020