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03 junho 2020

TEMPOS SOMBRIOS NOS CONVIDAM A REVISITAR ADOLF EICHMANN






Há três dias, quando ranços do autoritarismo ameaçavam destruir nossas instituições democráticas, o membro mais antigo, desde 2007, da Suprema Corte, o respeitado nacional e internacionalmente decano, Celso de Mello, veio a público para fazer um alerta mais que necessário, pois estava sendo acusado pelo próprio presidente da república e seus assessores, de ter se excedido na aplicação da lei. Em meio às pressões dos incomodados, o decano do STF, em alto e bom som, comparou o Brasil atual com a Alemanha Nazista.

Aos desavisados que nada conhecem da História Mundial e não sabem que os acontecimentos de cunho autoritário e fascista tendem, vez ou outra, a se repetir no decorrer do tempo, achei por bem trazer à baila as Cavernas de Aladim. Elas, sem sombra de dúvida, ainda estão por aí, a esconder maléficos fantasmas. Para aqueles que estão sempre fazendo releituras do passado totalitarista na História da Humanidade, creio, não ser difícil de perceber o “por quê” dos temporariamente amnésicos ficarem tão surpresos e suspensos com a fala firme do decano. “É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando HITLER, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul Von Hindenburg como Chanceler da Alemanha, não exitou em romper e em nulificar a progressista democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder” ─ disse do alto de sua envergadura, o veemente ministro Celso de Mello.

Em meio a três calamidades de um desgoverno, na Política, na Saúde e na Economia, tenho pra mim que, mais do que nunca, é tempo de avivar a memória. Me disponho a fazer um pequeno retrospecto histórico, revisitando a maior autoridade em “Totalitarismo e Banalidade do Mal” ─ a alemã, Hannah Arendt (1906 ─ 1975), historiadora e jornalista política, que participou em Jerusalém do longo julgamento do genocida Adolf Eichmann, responsável direto pelo Holocausto de mais de seis milhões de Judeus que foram exterminados em câmaras de gás nos campos de concentração. Tanto Eichmann, quanto o monstro, Hitler, tinham Adolf como primeiro nome.

No seu magnífico livro ─ “Eichmann em Jerusalém” (Editora Companhia das Letras) ─, Hannah Arendt faz uma desconcertante revelação: “Eichmann havia sido descrito pelos PSIQUIATRAS como um homem obcecado, com um perigoso e insaciável impulso de matar, uma personalidade pervertida e sádica. Nesse caso, seu lugar seria o asilo de alienados”.

Os trechos de Hannan Arendt (replicados abaixo), fala da infância de Eichmann, que por incrível que pareça, corrobora exatamente com o pensamento de Freud em seus estudos sobre o desenvolvimento psíquico, quando afirmava que a personalidade, essencialmente, estaria formada por volta dos cinco anos de idade.

“A infelicidade, começou cedo; começou na escola. O pai de Eichmann, contador da Companhia de Bondes de Solinger, teve 5 filhos, quatro homens e uma mulher, dos quais, ao que parece, só Adolf, o mais velho, não conseguiu terminar a escola secundária, nem se formar na escola vocacional para engenharia na qual foi matriculado então. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas primeiras dificuldades.”

Surpreendentemente, Eichmann falando a respeito de seus pais diante dos juízes que o julgavam em Jerusalém, se comportou como uma pessoa ressentida, como bem demonstra o trecho abaixo:

“Eles não teriam se enchido de alegria com a chegada de seu primogênito se fossem capazes de ver, que na hora de meu nascimento, para provocar o gênio da felicidade, o gênio da infelicidade já estava tecendo os fios de dor e tristeza em minha vida. Porém, um véu suave e impenetrável impedia meus pais de enxergar o futuro”. (Eichmann em Jerusalém – página 39 - Companhia da Letras)

A reflexão histórica que Hannah, brilhantemente, levou a termo, naquilo que ela mesma rotulou de “Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, que ainda hoje serve como fonte inesgotável de consultas procedidas por políticos, filósofos, historiadores, sociólogos, universitários e psicanalistas, no intuito de se conhecer melhor os meandros maléficos que rondam a psique de um genocida, como foi o caso de Adolf Eichmann.

No dia 11 de maio de 2020 (três semanas atrás) fez exatamente 60 anos que Eichmann foi capturado e sequestrado de um subúrbio de Buenos Aires na Argentina pelo exército Israelense, para ser julgado pela Corte Máxima de Jerusalém, por CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

No último capítulo e começo do epílogo do livro “Eichmann em Jerusalém”, obra de leitura obrigatória para quem quer se debruçar de forma profunda sobre o tema NAZISMO e ORIGENS do TOTALITARISMO, a alemã, filha de pais judeus não praticantes, Hannah Arendt, com seu olhar de águia, foi fundo ao “Coração das Trevas” ameaçadoras das sociedades democráticas de seu tempo.

Fica a cargo do leitor ou da leitora aquilatar o que nesse breve ensaio postado há de semelhança com os momentos atordoantes por que passa a nossa frágil república. Ontem, dia 02, o país contabilizava o total de 31.000 mortes, sendo 1.262 só nas últimas 24 horas, de uma pandemia que, ao que parece, ainda está longe do pico. Inacreditavelmente, essa imensa mortandade, na mídia televisiva, é assunto abordado de forma secundária. A primazia no noticiário na TV, pasmem, cabe as querelas da baixa politicagem ─ uma espécie de ópera bufa que castiga nossos ouvidos durante toda a noite, numa briga sem fim de egos inflamados nos três poderes, sempre girando em torno da figura central de um governo que, incessantemente, incita e desafia as próprias instituições que deveria respeitar. Recentemente, o nosso maior mandatário ao ser inquirido por uma apoiadora sobre os enlutados no dia em que o número de mortos bateu todos os recordes, respondeu de forma curta e grosseira: É o Destino de Todo Mundo!”

Mas voltemos a história do carrasco nazista alemão:

No cadafalso, diante da morte, Adolf Eichmann, ainda teve a audácia de proferir umas de suas frases clichês secas, demonstrando de forma cabal sua total insensibilidade: “Esse é o Destino de Todos!”. Viva a Alemanha, viva a Argentina!.

Assim, escreveu Hannah Arendt, no final do último capítulo “Julgamento, Apelação e Execução” de seu memorável livro:

“Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que esse longo curso de maldade humana nos ensinou ─ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos”.

Por falar em Banalidade do Mal, é triste a constatação de que em nossa república das bananas esse MAL, esteja simbolizado pelo descaso do governo federal com o infectado que a cada minuto morre de covid - 19 e pelas FakesNews financiadas com dinheiro público, detonadas aos montes nas redes sociais. Até o "Deus que deveria estar acima de todos" vem sendo vergonhosamente BANALIZADO para FINS PROFANOS. 


Por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de junho de 2020

21 julho 2017

O Terrível e Venerado Jararaca do Cangaço





Nas palavras do historiador potiguar, Luís da Câmara Cascudo, “José Leite de Santana, era um homem forte, resistente, ágil, moreno escuro, atirador exímio, grande lutador de faca”. Talvez por seu instinto predominantemente cruel, tenha recebido o apelido Jararaca.

Jararaca era um dos mais temíveis do bando de Lampião. A jornalista e ensaísta, Adriana Negreiros, em um artigo sobre os “Anais do Cangaço” publicado na Revista Piauí nº 130(de julho de 2017), conta que Jararaca, homem acostumado a beber mais cachaça que o recomendado, liderava um dos grupos mais ferrenhos dos bandoleiros de Lampião, por ocasião da invasão sem sucesso da cidade de Mossoró – RN, em 1927.

O certo é que após muitas escaramuças o bando de Lampião foi derrotado pela milícia estadual de Rodolfo Fernandes. “Jararaca foi atingido por um tiro no peito. Mesmo machucado e ainda embriagado, conseguiu levantar-se e correr, ocasião em que levou outro balaço na coxa”.

“A cela em que Jararaca ficou trancado tinha grades que davam para a rua. Centenas de Mossoroenses amontoavam-se em frente ao local para ver um cangaceiro de perto, como um leão feroz preso a uma jaula de zoológico. Enchiam-lhe de perguntas. Queriam saber quantos homens já havia matado. Se amealhara fortuna no cangaço. Quais eram seus arrependimentos. Até hoje, corre a lenda que, nesse momento, Jararaca teria confessado sentir um único remorso: de aparar crianças com a ponta do punhal. […] O preso revelaria detalhes operacionais da tentativa de invasão de Mossoró. O jornal Correio do Povo traria uma entrevista bombástica com Jararaca: ao repórter, o bandido citara nomes de políticos e coronéis nordestinos que davam proteção e recebiam dinheiro de cangaceiros”. Segundo a autora, Kydelnir Dantas, membro da Sociedade de Estudos do Cangaço, lembra que um dos comandantes da resistência, sustentou que Jararaca havia sido morto com uma coronhada do fuzil de um policial, sem que seu corpo sofresse qualquer decepação. Esse depoimento consta do livro “Lampião em Mossoró”.

Adriana Negreiros que, em 2018 lançará uma biografia da cangaceira Maria Bonita pela editora Objetiva, sobre o herói/vilão Jararaca, faz uma narrativa digna de nota em seu artigo à revista Piauí: “Mossoró (RN) tem, de fato, uma relação dúbia com os cangaceiros. 'Chuva de Bala no País do Mossoró', espetáculo teatral em que cerca de oitenta atores encenam a expulsão de Lampião, tratando o intendente Rodolfo Fernandes como herói, é um dos pontos altos da programação cultural da cidade, atraindo multidões de espectadores de toda a região”.

Na Mitologia, a Serpente representa ao mesmo tempo "a vontade de avançar e a vontade de recuar", coisa que devia estar bem presente na psique do temível bandoleiro, Jararaca. Reza a psicologia que essa ambivalência(sentimentos paradoxais) é uma característica indelével do ser humano. 

Diz então, Adriana Negreiros em seus anais do cangaço: o personagem Jararaca depois de ter sido preso, julgado, condenado sem que tivesse defesa, noventa anos depois de enterrado foi inocentado através de um julgamento simulado ocorrido em junho de 2017 na demasiadamente humana Mossoró. Um conselho de sentença, formado por um advogado, um padre, um jornalista, um médico e outros representantes da sociedade mossoroense, pelo placar de 6X1 absolveu o cangaceiro Jararaca.

A temperatura da inusitada e risível descrição da ensaísta chega a um ponto efervescente: “Encerrada a audiência, o juiz, alguns jurados, advogados e jornalistas reuniram-se para almoçar num restaurante especializado em costela da javali. 'Fiquei surpreso com o resultado' ― disse o juiz Breno Fausto, enquanto esvaziava uma concha de feijão-verde no prato. 'Mossoró é um cidade peculiar. Ao mesmo tempo que se orgulha da resistência absolve um cangaceiro', comentou o juiz'”.

No cemitério de São Sebastião, a uma distância de 10 metros um do outro estão, hoje, o túmulo de Jararaca (o herói do Cangaço) e o túmulo de Rodolfo(o herói da resistência), ambos ostentando em suas superfícies de lousa fria e lisa, flores de variadas cores. A professora Ludmilla Oliveira que participou do juri simulado do famoso Jararaca saiu-se brilhantemente com essa: “Trata-se de um simbolismo. Os resistentes não venceram qualquer um. Venceram Lampião, O rei do Cangaço”. Não ficou para trás a prefeita da cidade, quando agradando a gregos e troianos, assim terminou seu discurso: “O maior resultado do julgamento é o resgate da história da Resistência, independente da absolvição ou condenação”.

Site da Imagem do Topo: https://www.folhetoteca.com.br/marca/costa-senna.html


P.S.:

[Resenha - com citações de trechos do insuperável artigo de Adriana Negreiros, sob o título ― “O Julgamento de Jararaca”. O texto integral, composto de 14 colunas, encontra-se a disposição dos leitores na Revista Piauí nº 130]

“Quis o destino que o Juri simulado de Jararaca ocorresse no mesmo dia em que, em Brasília, encerrava-se o julgamento da chapa Dilma-Temer no Tribunal Superior Eleitoral” (Adriana Negreiros).

O vídeo abaixo replicado mostra a repercussão do Juri de Jararaca (o cangaceiro que virou santo) em rede televisiva no Rio Grande do Norte



16 agosto 2013

“Chicana” ou Jogada de Mestre




Aproveitei uma parte da tarde de ontem (dia 15) para, pelo canal de TV Globo News, conferir o segundo dia da reta final do julgamento considerado pela imprensa como o maior do século ― O Mensalão.

Surpreendeu-me, no finalzinho da tarde, o “bate-boca” entre o Ministro Joaquim Barbosa e seu colega Ricardo Lewandoswski. Fiquei a me perguntar:
Por que tanta celeuma quanto à dosimetria da pena imposta ao bispo Rodrigues ― personagem menor do maior e mais amplamente investigado assalto às instituições públicas brasileiras, de que se tem notícia?

Só hoje, lendo o artigo do blog do Josias (dia 16), é que fiquei sabendo das possíveis segundas intenções do ministro Lewandowski, ao provocar o tumulto no final da sessão de ontem no STF. Entendi também o “por quê” da verdade inconveniente revelada de forma crua e dura pelo presidente do Tribunal, resumida na palavra “chicana”.

Para compreender melhor esse termo tão usado no meio jurídico, uma vez que não milito nessa área, recorri ao AULETE. Não precisei de muito esforço mental para saber o real significado do termo que o ministro Joaquim Barbosa, indignado, lançou contra as manobras protelatórias do astuto colega Ricardo Lewandowski.

Em um julgamento desse quilate sempre se aprende um pouco de Direito. E não é que o significado do termo “chicana”, entre outros, foi posto em primeiro lugar no dicionário de AULETE, assim definido:

1. CHICANA (jur): “Ação ou resultado de impedir ou dificultar o andamento de um processo, com argumento ou questão irrelevante, ligada a aspectos técnicos ou sutilezas e detalhes das leis”.

Do lúcido artigo do colunista Josias (do site UOL), reproduzo abaixo a maior parte dos trechos (com os devidos créditos) que, acredito eu, talvez possa contribuir para destrinchar o que Barbosa rotulou de “chicana”, nesse interminável imbróglio jurídico. Se não vejamos:


“Ao pegar em lanças pelo ex-deputado Bispo Rodrigues, personagem ‘mequetrefe’ do mensalão, o ministro Ricardo Lewandowiski abraçou-se a uma tese que aparece nas peças de defesa de alguns protagonistas do processo. Entre eles o ex-ministro José Dirceu e o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares. Foi pensando nisso que Joaquim Barbosa, presidente do STF e relator do processo acusou o colega de patrocinar uma ‘chicana’”.

“A exemplo da defesa do Bispo Rodrigues, os advogados de Dirceu e de Delúbio sustentam nos recursos (embargos declaratórios) que protocolaram no Supremo que seus clientes foram prejudicados pelo Tribunal na hora da dosimetria, o cálculo das penas. Alegam que o STF aplicou erroneamente uma legislação mais draconiana para crimes que teriam sido cometidos sob a vigência de uma lei mais branda”.

“A lei usada pelo Supremo é a de 10.763. Sancionada em 12 de novembro de 2003, ela elevou de oito para doze anos a pena máxima para os crimes de corrupção ativa e passiva. No caso do Bispo Rodrigues, o Supremo entendeu que o crime foi cometido em 17 de dezembro de 2003. Nesse dia, já sob a vigência da nova lei, o condenado recebeu uma ‘valeriana’ de R$ 150 mil”.

“A defesa alega que a corrupção consumara-se muito antes, na campanha eleitoral de 2002, quando foram afirmados os acordos que levariam aos pagamentos. Sob o argumento de que o Bispo Rodrigues não participara de tais entendimentos, o STF, em decisão unânime, enquadrou-o na lei mais salgada. Lewandowski, que compusera a unanimidade no julgamento do ano passado, agora resolveu guerrear pelo acolhimento do recurso.”

“Os advogados de Delúbio e de Dirceu também pedem o recálculo das respectivas penas. [...] O pano de fundo é uma reunião de José Dirceu com José Carlos Martinez, ex-presidente do PTB. Nesse ponto, acusou a Procuradoria, acertaram-se os valores das propinas repassada à legenda do delator Roberto Jefferson”.

“Martinez morreu em 5 de outubro de 2003. A nova lei anticorrupção seria aprovada apenas no mês seguinte, em 12 de novembro. Na sessão em que Dirceu foi julgado, o relator Barbosa informou ao colega Marcos Aurélio que a morte de Martinez ocorrera em dezembro de 2003. O que levou o Tribunal a enquadrá-lo na lei mais gravosa.

“Foi contra esse pano de fundo que Lewandowski aderiu à tese da defesa do Bispo Rodrigues, contrapondo-se a Barbosa e à maioria dos colegas. Como diria a rapaziada que encheu as ruas em junho, não foi só pelos 20 centavos. Ou, por outra, não foi pelo Bispo, mas pelos Cardeais”.  [ Blog do Josias ]


O ensaísta, Roberto Pompeu de Toledo, em seu artigo de última página na revista Veja desta semana, expressa todo o seu ceticismo com relação a esse truncado e moroso caso judicial. Merece destaque o que diz o jornalista em certo momento do seu ensaio:

“Vá explicar a um estrangeiro que um processo se arrasta por seis anos, enfim chega ao fim, mas o fim não é o fim, só prenuncia um recomeço, e o recomeço sabe-se lá quando terá fim.”



Guarabira, 16 de agosto de 2013

Site da Imagem: blogdeassis.com.br

03 agosto 2013

Breves Considerações Sobre VANDALISMO




A palavra vandalismo deriva de “Vândalos” ― uma tribo de origem germânica que saqueou Roma, no século V. Segundo a Enciclopédia Britânica, quando os Vândalos invadiram Roma, o império romano era um regime escravocrata e não apenas um centro de arte e de antiguidades.

Diz-se que “as colunas do coliseu e do senado romano foram erguidas ao custo alto de milhares de vidas que foram relegadas ao trabalho escravo, sob opressão e violência de uma minoria da elite romana”.

“O termo “vândalo” passou, pela primeira vez, a ser usado de forma casuística pelos donos do poder, durante a revolução Francesa, ocasião em que muitos dos antigos oprimidos passaram a radicalizar o processo político, e lançaram seu ódio contra a monarquia absolutista e suas instituições”. (vide artigo ― “Afinal quem Foram Esses Tais Vândalos”, no site ― “A Nova Democracia”)

Nos meus sessenta e seis anos de idade, não me lembro de uma época em que os termos Vandalismo e Vândalos foram tão usados e abusados por parte do governo, dos políticos, dos redatores da imprensa escrita e televisiva do país, quanto ocorreram nas recentes manifestações de ruas que pôs a presidenta Dilma, até o presente momento, a falar besteiróis e criar factóides para desmentir no dia seguinte.

Nas manifestações repleta de cartazes pedindo “Hospitais padrão FIFA”, os repórteres foram quase unànimes em classificar os Vândalos, como aqueles que infiltrados nos recentes protestos de um povo insatisfeito com os desmandos do governo, partiram para a depredação do patrimônio público em meio à grande maioria dos que de forma ordeira invadiu as ruas das grandes cidades de todo o país, sem a intermediação de partidos políticos e sindicatos.

Na noite fatídica em que o prédio do Congresso foi invadido por milhares de jovens, estava eu ligado no canal do Senado, vendo apenas quatro senadores que em meio a muitas cadeiras vazias, permaneciam no plenário do senado, numa espécie de vigília cívica. Os outros senadores temendo um desfecho violento, diante da aglomeração indignada de jovens, fugiram atabalhoadamente do recinto, em consonância com o ditado: “Pernas pra que te quero”.

Ficaram lá Pedro Simon, Pedro Taques, Magno Malta e Cristovam Buarque, trocando ideias sobre as manifestações inesperadas de uma juventude cansada de ser espezinhada e explorada pelo Governo Central.

Eis que em meio à conversa deles, chega a notícia de que Vândalos estavam quebrando as caríssimas e belas vidraças do Itamaraty. Lembro-me de que um dos senadores reagiu com vigor contra os atos de depredação de um prédio, para ele, revestido de alto simbolismo.

Surpreendi-me quando o senador Cristovam Buarque, emocionado, tomou o microfone e fez um emblemático discurso denunciando quem eram os verdadeiros vândalos, culpados por tudo que ali estava acontecendo.

Nos últimos dias, quando a presidenta e sua base aliada vêm de forma alucinada, tomando medidas arbitrárias, insanas, estapafúrdias, demagógicas e escravagistas, pisando a própria constituição que um dia prometeu defender, achei mais do que conveniente trazer à tona trechos da fala do grande educador Cristovam Buarque, naquela noite em que vidros foram estilhaçados no belo palácio do Itamaraty:

“Fala-se da violência dessa meninada lá fora. Gente, violência é aquilo contra o que eles lutam. Violência é o transporte público no Brasil, que deixa pais e mães de família uma hora num ônibus, três horas no trajeto para a casa todos os dias. Isso é violência. Violência é uma escola onde a criança não tem uma cadeira para sentar, uma cadeira desconfortável e estuda em um quadro negro, já nem mais aceito hoje. Violência é uma mãe e uma criança no colo em uma fila pra ser atendida porque a criança está doente. Isso é violência. Nós não temos jovens violentos. Temos um sistema violento.” ― disse

“E quando se fala em vandalismo: vandalismo de quebrar uma vidraça, que não devemos recomendar ou aceitar, é muito menor do que um vandalismo que se faz contra a vida dos brasileiros. Crianças morrendo por falta de UTI? Isso é vandalismo, porque o dinheiro foi para construir um estádio de 1 bilhão e seiscentos milhões de reais, onde só vai entrar quem paga 500 reais” ― disparou.

Um silêncio sepulcral dominava o plenário praticamente vazio, quando Cristovam desabafou: “O senado estar vazio, sem os outros senadores em um momento tão importante, é a maior forma de violência”.

“A violência não é da meninada nas ruas. A violência é do sistema que nós temos há 500 anos no Brasil, Violência é o senado vazio numa hora dessas.”
“Antes de acusarmos o vandalismo deles é preciso no perguntarmos: onde erramos? Antes de os chamarmos de vândalos é preciso admitirmos que fomos nós vândalos ainda maiores”.

“Nós políticos vandalizamos a Saúde Pública. Vandalizamos a Constituição. Vandalizamos a segurança pública. E o mais grave: vandalizamos a educação deste país”.

 “Quando dizem que no Brasil as crianças ficaram violentas na escola, eu digo: as crianças são pacíficas demais diante da violência da própria escola sobre elas, e o mesmo eu digo desses que estão quebrando as vidraças do Itamaraty.”

“Se em meio a uma multidão de manifestantes pacíficos, um pequeno grupo faz isso é porque matamos os sonhos dos nossos jovens e provocamos a ira dos outros. Nós políticos colaboramos para este ‘casamento’ perigoso entre o ‘sonho morto’ e a ‘raiva viva’ dos nossos jovens”.

“Se não nos perguntarmos onde erramos, não vamos parar com esses vândalos menores e muito menos com o vandalismo maior ― que é toda política social brasileira.”
 (Cristovam Buarque)

P.S.:

No próximo dia 14, o STF inicia a fase final do julgamento dos vândalos que estavam se locupletando no poder, e agora, vão  receber o veredicto final por crimes de peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.
É mais uma COPA contra a Impunidade que os jovens, com certeza, acompanharão por telões, inundando as ruas de Brasília.

Enfim, uma notícia que nos transmite esperança de dias melhores:

“O decano da corte máxima do país, Celso Mello, acredita que em no máximo oito sessões será possível concluir o julgamento dos embargos interpostos pelos mensaleiros.” 

Vide link:



Por Levi B. Santos

Guarabira, 03 de agosto de 2013

Site da Imagem: lorotaspolíticaseverdades.blogspot.com

11 janeiro 2013

Os Judeus Na Sociedade [3ª Parte]





O Caso Dreyfus ocorrido na França no fim de 1894, só veio confirmar o óbvio – “o de que psicologicamente falando, o judeu emancipado não pertencia ao país em que vivia”. Por outro lado, o país cuja regra de procedimento jurídico tinha por lema “liberdade, igualdade, e fraternidade”, experimentava também o seu paradoxo, quando traiu seus princípios fazendo valer o anti-semitismo, ao condenar sumariamente e injustamente um oficial Francês (de pais judeus), de espionagem em favor da Alemanha, que também tinha “judeus emancipados” no comando de seus exércitos.

A idéia sionista apregoada por Benjamin Disraeli em seus escritos, deve ter concorrido como uma das causas na disposição de se encontrar um judeu para ser o “bode expiatório” das primeiras escaramuças que desembocaram na primeira guerra mundial, uma vez que, inconscientemente, o próprio judeu tinha aversão ao conceito de igualdade expandido mundialmente pela revolução francesa.

Uma boa parte dos europeus desconfiava de que os judeus emancipados (mas saudosos de sua Sião) não estavam imbuídos do mesmo compromisso nacionalista dos cidadãos que tinham a sua pátria a defender.

Afirma Hannah: “O caso Dreyfus, em suas implicações, pode sobreviver porque dois de seus elementos cresceram em importância no decorrer do século XX. O primeiro foi o ódio aos judeus; o segundo a desconfiança geral para com a República, o Parlamento e máquina do Estado. A maior parte do público podia ainda continuar a conceber, certa ou erradamente, que esta última estivesse sob a influência dos judeus e do poderio dos bancos. Ainda em nossos dias o termo ‘antidreyfusard’ pode definir na França, de modo aceitável tudo que é anti-republicano, antidemocrata e anti-semita”.

“A caçada apaixonada ao judeu em geral não pode ser compreendida só como mero movimento político” – revela Hannah Arendt.

Mais tarde, Sartre em seu livro, “A Questão Judaica”, viria corroborar o pensamento de Hannah, ao dizer que não se podia traduzir o anti-semitismo só pelo viés político-econômico. “Se o Judeu não existisse, o anti-semita o inventaria” – assim falou o francês filósofo existencialista. O Caso Dreyfus, anos depois, se explicaria de maneira mais filosófica, subjetiva e psicológica, como demonstra este trecho da “Questão Judaica” (editora Ática, páginas 34 e 35): 

“O anti-semita escolheu ser criminoso, e criminoso de mãos limpas; mais uma vez foge às responsabilidades; reprimiu seus instintos homicidas, mas encontrou um meio de saciá-los sem admiti-los. O anti-semita é um homem que tem medo, certamente não dos judeus, mas de si mesmo, de sua consciência, de sua liberdade, de suas responsabilidades, da solidão, da sociedade e do mundo ― de tudo, exceto dos judeus. Adotando a essa postura, ele não adota apenas uma opinião, mas escolhe também a pessoa que quer ser.”

O caso Dreyfus tanto provocou ódio, como paixão. Freud, (só poderia ser um judeu) mais tarde em seus trabalhos de psicanálise, explicaria o fenômeno de projeção psíquica presente no anti-semitismo, como conta aqui, Hannah: “O que falar de Emile Zola, um contemporâneo de Dreyfus, com seu apaixonado fervor moral, sua atitude patética um tanto fútil, e sua declaração melodramática, à véspera da fuga para Londres, em que diz ter escutado a voz de Dreyfus implorando-lhe esse sacrifício”.

 O certo é que o paradoxal caso Dreyfus dividiu a França: fez chorar uma parte dela, e fez arder de ódio sua outra parte. Por incrível que pareça, antes da explosão da primeira guerra, o anti-semitismo quase não existia nas fileiras dos exércitos alemães. A razão principal de o anti-semitismo ter a França como berço, advinha do fato de Napoleão ter emancipado os judeus em todos os territórios por ele conquistados.

O psicanalista Renato Mezan, em seu livro “Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias” (editora Imago – edição 1995 – página 126), diz algo emblemático envolvendo o lado religioso: 

“O judeu é escolhido como alvo desta construção delirante porque historicamente estava associado ao Anticristo, através de todos os laços que pudemos discernir; porque social e economicamente, as novas oportunidades abertas pelo capitalismo o beneficiaram; porque, culturalmente, a assimilação da civilização ocidental o dota de instrumentos para participar dela, e mesmo para criticá-la, porque a maioria dos judeus continua a não se converter; e porque, em virtude de todos esses fatores inicia-se um processo de assimilação que tende a reduzir sua diferença frente à sociedade não judaica, isto é, tende a torná-lo exteriormente, e em certa medida, interiormente idêntico aos nãos judeus.”

Para se compreender o pensamento de Hannah Arendt sobre a condição ambígua e subjetiva do judeu e do não judeu, temos que nos reportar a esses acontecimentos que antecederam a primeira guerra mundial. A história desse povo até a segunda guerra mundial gira em torno da não aceitação do diferente. É o diferente que usamos para exorcizar o que há de estranho em nós mesmos. Até dentro do seio de uma própria família há sempre um que por não se enquadrar numa situação homogênea igualitária pré-determinada, é excluído do grupo. Isto é um dado muito importante para se entender a raiz ou a origem do totalitarismo.

Celso Lafer, em seu livro ― “Um Diálogo Com o Pensamento de Hannah Arendt”, (Edição de 2006 ― Editora Companhia das Letras ― página 113) diz algo, de extrema significação, no que diz respeito a gênese do totalitarismo:

“Com efeito, o mundo contemporâneo, caracterizado pelo desemprego crônico, pela automação, pela superpopulação e pelo risco onipresente da guerra nuclear, não há como não concordar com o pensamento de Hannah Arendt, quando ela afirma: ‘os acontecimentos políticos sociais e econômicos de toda parte conspiram silenciosamente com os instrumentos totalitários inventados para tornar os homens supérfluos’. De fato, se a guerra e a miséria são indiscutivelmente dois dos problemas centrais do nosso tempo, e se estes dois problemas têm como núcleo o absurdo e paradoxal contraste entre  um excesso de poder ― que cria, através da multiplicação dos meios da violência, as condições para uma verdadeira guerra de extermínio nuclear e também para o terrorismo de indivíduos e pequenos grupos ― e um excesso de impotência ― que vem condenando grandes massas à miséria e à fome, parece-me que a reflexão de Hannah Arendt sobre o totalitarismo e os riscos que ele contém de converter todos em supérfluos, guarda uma terrível e impressionante atualidade”.

Há holocaustos e holocaustos; há genocídios e genocídios. Segundo Zygmunt Bauman em seu livro “Modernidade e Holocausto” (página 114):

“O genocídio moderno é diferente. O genocídio moderno é um elemento de engenharia social, que visa produzir a uma ordem conforme o projeto de uma sociedade perfeita. A cultura moderna é um canteiro de jardim. Defini-se como um projeto de vida ideal e um arranjo perfeito das condições humanas. Constrói sua própria identidade desconfiando da natureza. Com efeito, define-se a si mesma e à natureza, assim como a distinção entre as duas por sua desconfiança endêmica em relação à espontaneidade e seu anseio por uma ordem melhor, necessariamente artificial.

Bernardo Sorj, formado em História dos Judeus pela Universidade de Haifa em Israel e professor da UFRJ, sobre os judeus da pós-modernidade, faz uma afirmação extraordinária, evidenciando a condição judaica artificial no século XXI:

“O judaísmo moderno ― tanto o secular como o religioso ― quis ser sistemático e coerente, centrado no outro e não em si mesmo, isto é, autojustificatório. Foi impulsionado por uma forte tendência a querer legitimar sua existência pela ‘contribuição do judaísmo à cultura universal’ ― como se o direito de existir dependesse da produção de prêmios Nobel ―, forçando a convergência e mesmo a identidade entre os valores judaicos e os valores modernos definidos pelo Estado nacional. A vontade racionalista do judaísmo moderno procurou encobrir o dilaceramento existencial e prático da vida judaica, que desejava e deseja ser ao mesmo tempo universal e particular, igual e diferente, manter múltiplas lealdades, transitar por vários mundos, estar no centro e nas bordas de cada sociedade, inclusive, como vemos na sociedade israelense[...]. [...] Israel representa um caso típico do esforço sistemático que os Estados nacionais desenvolveram para destruir a diversidade cultural de sua população. O esforço fracassado de criar uma cultura judaica secular ‘naturalista’ e desapreço pela diáspora como fonte de valores e de vivência criativa foram elementos constitutivos do esforço normalizador, normatizador e disciplinador da ideologia e do sistema educacional que se implantou em Israel. O sionismo foi sem dúvida o movimento que mais fustigou a diáspora, propondo inclusive seu fim[...]. [...] A diáspora foi demonizada como responsável pelos séculos de perseguições.”

O escritor e pensador Nilton Bonder, presidente da congregação israelita do Brasil, diz algo duro e veementemente verdadeiro:

“Compreender o monoteísmo não apenas como a religião de um D’us único, mas de apenas um povo, é um ato de triunfalismo no século XXI. Jerusalém se tornou símbolo de um triunfo, e se há algo que a paz não é... é ser fruto do triunfo”.
“No momento, o estado de Israel não assegura plenamente os direitos ao desenvolvimento e a prática da livre consciência. Ele dá o monopólio na área de direito civil a uma única corrente dentro do judaísmo, excluindo outras correntes religiosas e os judeus (e árabes) seculares”.

Termina aqui a terceira e última parte de uma reflexão sobre os judeus na sociedade durante os séculos XVIII – XIX, baseada no pensamento de Hannah Arendt. Para análise dos judeus no século XXI, recorri aos renomados autores: Zigmunt Bauman, Bernardo Sorj e Nilton Bonder.


FONTES:

●Hannah Arendt, Origens do totalitarismo – (páginas 90 à 114) – 8ª edição – Companhia das Letras
●Jean Paul Sartre, A Questão Judaica – (páginas 34 e 35) – Editora Ática
●Renato Mezan, Psicanálise, Judaísmo: Ressonâncias – (página 126)  –  Editora Imago
●Celso Lafer, Um Diálogo com o Pensamento de Hannah Arendt – (página 113) – Edição 2006 – Companhia das Letras
●Zygmunt Bauman, Modernidade e Holocausto – (página 114) –  Edição 1989 – Jorge Zahar Editor
●Nilton Bonder e Bernardo Sorj, Judaísmo para o Século XXI – (páginas 47 à 49 e 124 à 130) – Edução 2001 – Jorge Zahar Editor


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07 janeiro 2013

Os Judeus na Sociedade [2ª Parte]




Nesta segunda parte, trago interessantes inserções de Hannah Arendt, onde, de maneira cabal, ela demonstra o ambicioso projeto de Benjamin Disraeli (1804 – 1881) que, no intuito de enfrentar o orgulho da casta, pela primeira vez, evocou o orgulho racial, cujo efeito foi comparável ao de uma bomba no meio da sociedade. 

O Estado-nação que no século XIX concedia aos habitantes judeus a igualdade de direitos, que visava à homogeneização da população, recebia um duro golpe. Não resta dúvida de que a emancipação dos judeus sempre teve um sentido ambíguo, pois o próprio Estado continuou favorecendo os “judeus excepcionais”, que formavam um grupo a parte entre os demais. O Estado-nação não tinha como tirar dos banqueiros judeus o poder de movimentar a estrutura dos negócios que deixavam os príncipes à mercê de suas bem articuladas transações.

Disraeli foi longe. Diz Hannah Arendt: “Ele sabia que a aristocracia, que, ano após ano se enriquecia comprando títulos de nobreza, externava sérias dúvidas quanto ao valor de tais títulos [...]. [...]Disraeli, embora não fosse o único judeu exceção que acreditava na sua qualidade de escolhido sem acreditar no Deus de quem partira a escolha ― e de quem poderia partir a rejeição ―, elaborou uma doutrina racial a partir desse tolo conceito de missão histórica. Afirmava que o princípio semita representava tudo o que é espiritual em nossa natureza, e que só existia uma aristocracia: a ‘aristocracia da natureza’.”

A autora mostra de maneira clara “que a ideologia racial moderna formulada por Disraeli, apenas comprovava os sentimentos de inferioridade social, e que as doutrinas raciais por ele engendradas eram para servir a fins sinistros de caráter político.”

“Os intelectuais judeus estavam expostos às influências dos judeus reformistas que desejavam transformar os dois elementos básicos da fé judaica ― a esperança num Messias e a crença na eleição de Israel ― para atingir um fim: a restauração do Sião.[...]. [...] Da crença na escolha do povo por Deus advinha a fantástica ilusão compartilhada por judeus e não judeus, de que os judeus são por natureza mais inteligentes, melhores e mais aptos a sobreviver ― promotores da história, o sal da terra. Assim, certo de ter-se libertado dos laços e preconceitos nacionais, o intelectual judeu, ao sonhar com um paraíso na terra, estava na verdade mais longe da realidade política do que seus pais, que, ao orarem pela vinda do Messias, pelo menos esperavam pelo retorno de seu povo à Judéia”. 

Hannah evidencia um grande paradoxo entranhado na psique do judeu moderno: “A secularização engendrou o ‘chauvinismo’ judeu, que, engenhosamente, substituía o desejo de Estado e Sociedade próprios, pervertendo a sua denominação confessional, na qual, (nas palavras de Chesterton): ‘o próprio indivíduo deve ser adorado como reflexo do grupo ao qual pertence, tornando-se o seu próprio ideal e até o seu próprio ídolo’.”

“Em seu primeiro romance “Alroy” (1833), Disraeli elabora o plano de um Império Judeu no qual, os judeus reinariam como uma classe estritamente delimitada e separada. O romance mostra a influência das ilusões reinantes naquela época, a respeito das possibilidades de poder dos judeus, bem como a ignorância do autor quanto às verdadeiras condições de poder no seu tempo. Quanto mais tomava conecimento da eficaz organização dos banqueiros judeus em questões de negócios e de sua troca internacional de notícias e informações, mas se convencia de que se tratava de algo como uma sociedade secreta que, sem que ninguém o soubesse, tinha nas mãos os destinos do mundo”.

“Disraeli, diante do domínio avassalador do feudalismo financeiro da dinastia judia dos Rothschilds sobre todos os reis e príncipes da época, publica seu segundo romance, ‘Coningsby’. Neste livro, ele abandona o sonho de um Império Judeu para revelar um plano fantástico, segundo o qual o dinheiro judeu dominaria a ascensão e a queda das cortes ― como já vinha acontecendo diante do poder supremo da diplomacia da elite judaica, que manipulava as bolsas de ações da Inglaterra e da França ― obtendo ganhos estratosféricos”.

Disraeli sentia-se orgulhoso por ter derrotado fragorosamente, Napoleão, com a ajuda dos banqueiros, da grande família Rothschild que, obrigatoriamente, passava sua fortuna a herdeiros, frutos de casamentos consangüíneos, para não disseminar com estranhos o grandioso capital que possuía (Vide o livro de Herbert R. Lottman ― “A Dinastia Rothschild” ).

“Com a consistência da maioria dos racistas fanáticos, Disraeli mencionava sempre com desprezo o ‘moderno princípio’ de nacionalidade, novidadeiro e sentimental. Detestava a igualdade política sobre a qual se sustentava o Estado-nação. Como conhecia a nobreza do seu tempo muito melhor do que jamais veio a conhecer o povo judeu, não é surpreendente que tenha moldado o conceito de raça à feição de conceitos de aristocracia”.

“Na verdade, as convicções de Disraeli vinham do tempo de seus predecessores prussianos. Considerava-se um reformador judeu que ambicionava transformar a religião nacional em denominação religiosa, sabendo que a religião é um assunto privado; Mas não tinha como fugir desse dilema: o revolucionário judeu que fingia ser um cidadão do mundo para desfazer-se da nacionalidade judaica − o judeu educado que era um homem na rua e judeu em casa”.

 Para Hannah, “os judeus até então haviam escapado do judaísmo para a conversão; mas era impossível fugir da condição de judeu”. A comprovação dessa premissa veio no “fim–de-século XIX” com o paradoxal “Caso Dreyfus”, que será assunto da 3ª parte do capitulo (sinopse): “Os Judeus na Sociedade”.


FONTES:

●Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo – (páginas 89 à 108) – 8ª edição – Companhia das Letras
●Herbert R. Lottmann, A Dinastia dos Rothschilds − (páginas 31 e 32) – Edição 2011 – LPM Editora;
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 (CONTINUA na Parte III – com “O Caso Dreyfus”)