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03 junho 2020

TEMPOS SOMBRIOS NOS CONVIDAM A REVISITAR ADOLF EICHMANN






Há três dias, quando ranços do autoritarismo ameaçavam destruir nossas instituições democráticas, o membro mais antigo, desde 2007, da Suprema Corte, o respeitado nacional e internacionalmente decano, Celso de Mello, veio a público para fazer um alerta mais que necessário, pois estava sendo acusado pelo próprio presidente da república e seus assessores, de ter se excedido na aplicação da lei. Em meio às pressões dos incomodados, o decano do STF, em alto e bom som, comparou o Brasil atual com a Alemanha Nazista.

Aos desavisados que nada conhecem da História Mundial e não sabem que os acontecimentos de cunho autoritário e fascista tendem, vez ou outra, a se repetir no decorrer do tempo, achei por bem trazer à baila as Cavernas de Aladim. Elas, sem sombra de dúvida, ainda estão por aí, a esconder maléficos fantasmas. Para aqueles que estão sempre fazendo releituras do passado totalitarista na História da Humanidade, creio, não ser difícil de perceber o “por quê” dos temporariamente amnésicos ficarem tão surpresos e suspensos com a fala firme do decano. É preciso resistir à destruição da ordem democrática, para evitar o que ocorreu na República de Weimar quando HITLER, após eleito pelo voto popular e posteriormente nomeado pelo presidente Paul Von Hindenburg como Chanceler da Alemanha, não exitou em romper e em nulificar a progressista democrática e inovadora Constituição de Weimar, impondo ao país um sistema totalitário de Poder” ─ disse do alto de sua envergadura, o veemente ministro Celso de Mello.

Em meio a três calamidades de um desgoverno, na Política, na Saúde e na Economia, tenho pra mim que, mais do que nunca, é tempo de avivar a memória. Me disponho a fazer um pequeno retrospecto histórico, revisitando a maior autoridade em “Totalitarismo e Banalidade do Mal” ─ a alemã, Hannah Arendt (1906 ─ 1975), historiadora e jornalista política, que participou em Jerusalém do longo julgamento do genocida Adolf Eichmann, responsável direto pelo Holocausto de mais de seis milhões de Judeus que foram exterminados em câmaras de gás nos campos de concentração. Tanto Eichmann, quanto o monstro, Hitler, tinham Adolf como primeiro nome.

No seu magnífico livro ─ “Eichmann em Jerusalém” (Editora Companhia das Letras) ─, Hannah Arendt faz uma desconcertante revelação:Eichmann havia sido descrito pelos PSIQUIATRAS como um homem obcecado, com um perigoso e insaciável impulso de matar, uma personalidade pervertida e sádica. Nesse caso, seu lugar seria o asilo de alienados”.

Os trechos de Hannan Arendt (replicados abaixo), fala da infância de Eichmann, que por incrível que pareça, corrobora exatamente com o pensamento de Freud em seus estudos sobre o desenvolvimento psíquico, quando afirmava que a personalidade, essencialmente, estaria formada por volta dos cinco anos de idade.

A infelicidade, começou cedo; começou na escola. O pai de Eichmann, contador da Companhia de Bondes de Solinger, teve 5 filhos, quatro homens e uma mulher, dos quais, ao que parece, só Adolf, o mais velho, não conseguiu terminar a escola secundária, nem se formar na escola vocacional para engenharia na qual foi matriculado então. Ao longo de toda a sua vida, Eichmann enganou as pessoas sobre suas primeiras dificuldades.”

Surpreendentemente, Eichmann falando a respeito de seus pais diante dos juízes que o julgavam em Jerusalém, se comportou como uma pessoa ressentida, como bem demonstra o trecho abaixo:

Eles não teriam se enchido de alegria com a chegada de seu primogênito se fossem capazes de ver, que na hora de meu nascimento, para provocar o gênio da felicidade, o gênio da infelicidade já estava tecendo os fios de dor e tristeza em minha vida. Porém, um véu suave e impenetrável impedia meus pais de enxergar o futuro”. (Eichmann em Jerusalém – página 39 - Companhia da Letras)

A reflexão histórica que Hannah, brilhantemente, levou a termo, naquilo que ela mesma rotulou de “Um Relato Sobre a Banalidade do Mal”, que ainda hoje serve como fonte inesgotável de consultas procedidas por políticos, filósofos, historiadores, sociólogos, universitários e psicanalistas, no intuito de se conhecer melhor os meandros maléficos que rondam a psique de um genocida, como foi o caso de Adolf Eichmann.

No dia 11 de maio de 2020 (três semanas atrás) fez exatamente 60 anos que Eichmann foi capturado e sequestrado de um subúrbio de Buenos Aires na Argentina pelo exército Israelense, para ser julgado pela Corte Máxima de Jerusalém, por CRIMES CONTRA A HUMANIDADE.

No último capítulo e começo do epílogo do livro “Eichmann em Jerusalém”, obra de leitura obrigatória para quem quer se debruçar de forma profunda sobre o tema NAZISMO e ORIGENS do TOTALITARISMO, a alemã, filha de pais judeus não praticantes, Hannah Arendt, com seu olhar de águia, foi fundo ao “Coração das Trevas” ameaçadoras das sociedades democráticas de seu tempo.

Fica a cargo do leitor ou da leitora aquilatar o que nesse breve ensaio postado há de semelhança com os momentos atordoantes por que passa a nossa frágil república. Ontem, dia 02, o país contabilizava o total de 31.000 mortes, sendo 1.262 só nas últimas 24 horas, de uma pandemia que, ao que parece, ainda está longe do pico. Inacreditavelmente, essa imensa mortandade, na mídia televisiva, é assunto abordado de forma secundária. A primazia no noticiário na TV, pasmem, cabe as querelas da baixa politicagem ─ uma espécie de ópera bufa que castiga nossos ouvidos durante toda a noite, numa briga sem fim de egos inflamados nos três poderes, sempre girando em torno da figura central de um governo que, incessantemente, incita e desafia as próprias instituições que deveria respeitar. Recentemente, o nosso maior mandatário ao ser inquirido por uma apoiadora sobre os enlutados no dia em que o número de mortos bateu todos os recordes, respondeu de forma curta e grosseira: É o Destino de Todo Mundo!”

Mas voltemos a história do carrasco nazista alemão:

No cadafalso, diante da morte, Adolf Eichmann, ainda teve a audácia de proferir umas de suas frases clichês secas, demonstrando de forma cabal sua total insensibilidade: “Esse é o Destino de Todos!”. Viva a Alemanha, viva a Argentina!.

Assim, escreveu Hannah Arendt, no final do último capítulo “Julgamento, Apelação e Execução” de seu memorável livro:

Foi como se naqueles últimos minutos estivesse resumindo a lição que esse longo curso de maldade humana nos ensinou ─ a lição da temível banalidade do mal, que desafia as palavras e os pensamentos”.

Por falar em Banalidade do Mal, é triste a constatação de que em nossa república das bananas esse MAL, esteja simbolizado pelo descaso do governo federal com o infectado que a cada minuto morre de covid - 19 e pelas FakesNews financiadas com dinheiro público, detonadas aos montes nas redes sociais. Até o "Deus que deveria estar acima de todos" vem sendo vergonhosamente BANALIZADO para FINS PROFANOS. 


Por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de junho de 2020

30 março 2020

NA “NOITE DO APOCALIPSE” ― EU ESTAVA LÁ

Hospital Souza Aguiar – Rio de Janeiro



A Noite do dia 30 de março de 1972 na cidade do Rio de Janeiro ficou conhecida como “A Noite do Apocalipse”.

Hoje faz exatamente 48 anos que eu, como médico urgentista do Hospital Souza Aguiar, trabalhei por mais ou menos 8 horas ininterruptas dentro de um inferno, dissecando veias para administração de plasma e soros nos pacientes graves com mais de 50% de área corporal com queimaduras de 1º; 2º e 3º. Alguns, a meu lado, apesentavam os músculos do corpo em carne viva já desprovidos da pele. Outros com molambos de pele assadas penduradas por várias regiões do corpo em meio a uma gritaria macabra: Me socorra estou morrendo, e estavam mesmo, pois, à medida que eu e meus colegas de Residência Médica realizávamos a dissecção de veias, os gemidos iam diminuindo paulatinamente, de modo tal, que ao chegarmos para dissecar as suas veias, já não respiravam mais.

De ficar tanto tempo em uma só posição, cheguei a ficar com os pés dormentes. Só depois é que notei que estava com os sapatos encharcados de uma mistura pegajosa de sangue, soro e urina que tomavam toda a superfície do piso da sala de urgência, tendo que por todo esse tempo ficar inspirando aquele cheiro nauseabundo de secreções misturadas a odores de carne queimada.

Agora, em meio a uma pandemia dos infernos que, segundo as previsões da OMS, vai deixar no Globo um rastro de mortos na casa dos milhões, me sinto impotente diante de uma calamidade que se prenuncia apocalíptica.

Sei, perfeitamente, que já não tenho a mesma coragem e a mesma força de outrora quando encarei de frente a tragédia de Reduc em Duque de Caxias, a poucos quilômetros do Hospital vizinho à Praça da República no Centro da Cidade Maravilhosa, transformada, naquela ocasião, em um cemitério antecipado onde parentes choravam seus 48 mortos e mais de cinquenta feridos em estado desesperador.

O clarão que descortinou todo o céu e fez da noite dia, junto ao som altíssimo das explosões de todos os reservatórios de gás da refinaria, e que fizeram tremer as paredes do Hospital e quebrar vidros de algumas janelas ficaram por muitas noites a atormentar o sono em meu leito no quarto andar (reservado aos médicos residentes).

Eu estava lá na noite de agonia que, ainda hoje no Rio de Janeiro é lembrada como ─ “A Noite do Apocalipse”

A primeira imagem no topo da minha narrativa da ideia do horror, em detalhes, daquela grande tragédia em que o Governo Federal preferiu esconder o número de mortos, dentre eles 06 médicos, que nem hoje sabemos quem eram, pois a imprensa da época sob censura não podia revelar seus nomes.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de março de 2020

18 janeiro 2020

SÓ O TEMPO DIRÁ POR QUE O SECRETÁRIO ESPECIAL DA CULTURA FOI REVISITAR O MONSTRO NAZISTA JOSEPH GOEBBELS



                                                        Adolf Hitler e Joseph Goebbels


Foi com essa História de “Regeneração Cultural” que os dois monstros, Adolf Hitler e Joseph Goebbels (carrascos responsáveis pelo Holocausto Judeu), alienaram ou cegaram quase toda a população da Alemanha de sua época.

Aqui, pra nós, quero dizer, antes de tudo, que toda a forma de totalitarismo é deletéria, quer seja ela de extrema esquerda, ou de extrema direita.

Já martelamos demais a respeito dessa insana polarização. Quem não sabe que quanto mais inclinação tivermos para um dos dois lados tentando anular ou destruir o outro que nos é diferente, certamente iremos cair numa espécie de Totalitarismo?

A coisa funciona tão sutil, que a própria Censura psíquica pode aprontar surpresas desagradáveis, como o de fazer aflorar o que está guardado a sete chaves na instância que a psicanálise deu o nome de INCONSCIENTE.

O Inconsciente é a sede de memórias e sentimentos antigos que com o tempo, foram recalcados ou soterrados em lugares profundos da psique. Grande parte do que nos motiva advém dessa instância, principalmente no que tange aos “lapsos” que cometemos no dia a dia em situações de estresse ou de grande emoção. Aí dizemos numa espécie de racionalização (mecanismo de defesa): “Ops! Cometí um equívoco!.

Quem porventura não sabe que, nos momentos que estamos submetidos a forte tensão em nossos discursos, desejos ou impulsos independentemente de nossa vontade consciente podem de um segundo para outro aflorar, trazendo-nos tormenta?

Atos falhos, ambivalências, chistes, citações embaraçosas são fundamentais no trabalho do analista. Essas idiossincrasias, pelo avesso daquilo que é consciente, fornecem ao examinador elementos essenciais para que a verdade ofuscada do sujeito venha à tona ― assim reza a psicanálise

Nos sentimos como que traídos quando desejos e impulsos que considerávamos inaceitáveis em nós, rompem a barreira da Censura, deixando-nos repentinamente de saia justa. É em ocasiões como esta que, para evitar o desprazer, reagimos de forma racional tentando mascarar o que de verdade aflorou do inconsciente. Nessas horas, sempre de forma defensiva, costumamos dizer: “Eu não queria dizer isso”, ou “Fui mal entendido”, “Foi um lapso”, “Eu não sabia”, etc.

Foi em um discurso carregado de emoção, sob um suposto intuito de regenerar a sociedade brasileira que, inconscientemente, o ministro Roberto Alvim deixou escapar, em seus mínimos detalhes, uma excrescência do pensamento totalitarista do monstro nazista, Goebbels.
Mas, que fique claro: esses sentimentos ou afetos destrutivos já residiam em seus profundos arquivos mentais, desde muito tempo. Ressalte-se, aqui, que não quero execrar ninguém, pois, não somos diferentes: nossas inclinações autoritárias e de outras origens instintuais estão indefinidamente adormecidas nos arquivos indeletáveis de nossa Psique.

Mesmo a Bíblia afirmando que é preciso vigiar para não cair em tentação, quando menos se espera, ou quando o vigia postado na portaria da Censura resolve dar um cochilo, os recalques se imiscuem em nossa sala de visitas deixando-nos desarticulados.


Cabe a nós, dominar nossas feras interiores. Ou não foi assim que Javeh, o Deus dos Hebreus, se apresentou a Caim, quando ele premeditou assassinar seu irmão Abel? Sob a forma de uma voz poderosa vinda do Inconsciente, Caim parou para ouvir: “O Pecado jaz à Porta, e sobre ti será o teu desejo, mas sobre ele deves dominar” (Gênesis 4 : 7)

Para finalizar esse breve ensaio, quero recorrer a emblemática confissão do psicanalista Carl Gustav Jung, quando após a Segunda Grande Guerra Mundial recolheu-se em sua casa às margens do lago de Zurique da sua amada Suíça, onde viveu seus últimos cinco anos de vida.

Durante a segunda guerra mundial, dizia-se “boca a boca” que o psicanalista Carls G. Jung tinha colaborado com o governo de Hitler
Em 1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: Está certo, eu vacilei.(JungUma BiografiaFrank McLynnRecord Editora)


Mesmo tardia, compreendo que a confissão de Carl G. Jung tirou um grande peso de sua consciência, além de ter resgatado sua biografia.

Entretanto, sei o quanto é difícil para o senhor, Roberto Alvim, confessar que vacilou e, por essa razão, não entro no mérito da questão que foi notícia em todos os jornais do mundo.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 18 de janeiro de 2019




20 julho 2019

E A LUA SE DEIXOU PISAR






Lá se vão 50 anos. Cursava o quarto ano de Medicina na UFPB, quando na tarde do dia 20 de julho de 1969 as ruas do bairro de Jaguaribe - em João Pessoa, de repente, ficaram desertas. Quase todos acorreram aos seus lares para assistir pela TV (em preto e branco), o homem pousar na Lua. Nesse tempo, residia na casa de uma tia, em um local aprazível, bem no finalzinho da tradicional e festiva av. Vasco da Gama.

Em meio ao chuvisco na tela da TV, deu para ver a poeirinha subir, segundos após Neil Armstrong tocar levemente a superfície da Lua. À medida que o astronauta caminhava desajeitadamente, os sulcos da sola de suas botas espaciais iam deixando fundas marcas na frouxa areia do solo lunar. Meu tio e eu ficamos estáticos diante daquele grandioso espetáculo. A Lua, nos corações dos namorados e poetas, a partir daquele momento deixava de ser fisicamente inacessível, para ser objeto de especulação dos astronautas da NASA.

Lembro que em 1961 (oito anos antes dessa grande conquista espacial), a cantora Ângela Maria (intitulada a Rainha do Rádio), já fazia seu protesto contra a briga entre russos e americanos na louca corrida para ver quem primeiro exploraria a morada de São Jorge e seu dragão. Para os menestréis e seresteiros que, em altas horas da noite derramavam suas vozes dolentes entre sublimes acordes tirados das cordas de seus violões, a Lua era sua indevassável e inspiradora deusa. Os da minha geração, com certeza, jamais esquecerão das sinfonias noturnas que nas noites enluaradas enchiam o ar, estimulando o(a)s jovens insones a sonhar doces sonhos em suas alcovas.

Hoje, a Lua, sem o mistério de antes, ainda dá o ar de sua graça nas fotos tiradas pela “geração smartphone”.

Enfim, venceu o progresso. De nada valeu o apelo ― “Lua... oh Lua... - não deixa ninguém te pisar!” ─ refrão da modinha carnavalesca “A Lua é dos Namorados”, cantada ardorosamente nos velhos carnavais.

Por Levi B. Santos
Guarabira, 20 de julho de 2019





24 março 2019

“Como Nós Podemos Evitar a Guerra?”






Virgínia Woolf (1882 1941) por volta de 1936, no tempo que corria a insurreição fascista na Espanha, em uma carta a ela endereçada, foi inquirida por um renomado advogado. Naquela época, como ainda hoje, a pergunta que ele fez (plena de significados e significantes – em Linguística), apresenta-se de difícil abordagem: “Na sua opinião como nós podemos evitar a guerra?”. Essa pergunta de feição aparentemente simples, ao partir de um homem para uma mulher, na realidade, tem em seu bojo signos ambíguos, como ambígua é a nossa natureza.

Foi por essa época que o físico Albert Einstein, em uma carta dirigida a Freud, ficou perturbado pelo mesmo sentimento ambivalente, mas humano, de querer e não poder. Einstein, era sabedor de que o barbudo cientista da alma, diferentemente do estudioso de física, discorria com clareza incomum o fenômeno da ambivalência: o primitivo e selvagem instinto de luta e de aniquilamento presente no indivíduo, convivia com o nobre ideal de se libertar completamente da guerra.

Susan Sontag, em seu livro “Diante da Dor dos Outros” , conta que Virgínia Woolf refletiu muito, antes de responder ao bacharel em Direito. Ela, apesar de ser instruída tanto quanto o nobre jurisconsulto, entendeu “que existia um grande abismo entre eles: o advogado é homem e ela é mulher. Homens(em sua maioria) fazem a guerra, gostam de guerra. Para eles existe uma glória, uma satisfação em lutar, que as mulheres (em sua maioria) não sentem ou não desfrutam”.

Depois de tatear para cá e pra lá, Woolf, enfim, compreendeu que a pergunta do advogado escondia algo dúbio. Ela percebeu que a pergunta que lhe foi apresentada não foi no sentido de saber seus pensamentos sobre as maneiras de evitar a guerra. Diante da pergunta emblemática ela se deteu na expressão “Como Nós”. Ora, ao contrário de “Como nós”, “nenhum de ‘nós’ deveria ser aceito como algo fora de dúvida, quando se trata de olhar a dor nossa e a dos outros”.

Costuma-se dizer que os homens fazem as guerras e as mulheres sofrem as consequências. Evidentemente, essa assertiva tem lá suas razões de ser. Olhando por esse viés, desde os tempos mais remotos, a dor da mulher e a dor do homem tem contornos subjetivos diferentes ou diversos.

Em uma época em que as mulheres não dispunham de condições iguais aos dos homens nem na educacão, nem no trabalho e nem na liberdade , Virgínia Woolf lançou seu último livro “Os Três Guinéus”. O primeiro dos guinéus (símbolos do investimento) seria destinado ao Estado. O segundo guinéu seria destinado ao trabalho, e finalmente o terceiro guinéu deveria se empregado em favor das liberdades individuais e para a cultura. Mas o governo da Inglaterra abortou sua iniciativa antes de ser inaugurada, porque ela era mulher, e mulheres não sabem exercer a liberdade pensamento político da década de 1930.

O livro, acima referido, de Virgínia Wolf, trata justamente do “fato de que a guerra é um jogo de homens e que a máquina de matar tem um gênero, e ele é o masculino”. Esse foi um dos motivos, dessa sua obra ter sido a mais mal recebida de todas que a grande escritora britânica nos legou. 

Ao advogado que, em sua missiva, fez a crucial pergunta “Na sua opinião como nós podemos evitar a guerra?” recebeu da destemida Virgínia Woolf, essa incisiva resposta: “nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas. Quem é o ‘Nós’ que constitui o alvo dessas fotos de choque. […] essas fotos, documentos antes da chacina de civis do que de confronto de exércitos só poderiam estimular a repulsa a guerra”.  

 Biblioteca do CICV, DR/hist-00212-04

Para Woolf, assim como muito polemistas antibelicistas, a guerra é genérica, e as imagens que ela descreve são de vítimas anônimas, genéricas”. (Susan Sontag “Diante da Dor dos Outros” Companhia das Letras)

Fazia um dia claro e frio quando ela deixou sua bengala ao lado, atravessou os belíssimos prados e mergulhou rio adentro para não mais voltar”.

No próximo dia 28 de março de 2019 (Quinta Feira), completa 78 anos da morte de Virgínia Woolf.


P.S.:
Apesar dos escritos de Virgínia Woolf já ultrapassarem os cem anos, o diapasão da violência continua a vibrar em nossas terras. Por aqui, os conflitos belicosos e suas nefastas consequências se tornaram coisa tão banal, que nem despertamos mais para o fato de que estamos, há décadas, vivendo em meio a uma guerra civil.

A força de tanto contemplar a destruição de lares e famílias inteiras, as imagens do arquivo da dor, composto de corpos mutilados e sangue no asfalto e nas calçadas, já não mais nos tocam como antigamente. Como disse o psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris em seu artigo “A Dor dos Outros”, de 29 de maio de 2003:

O sofrimento dos outros seria como a musiquinha do caminhão de gás, que não nos acorda mais. Os fotógrafos que arriscam (e, às vezes, perdem) a vida para nos trazer imagens abomináveis foram chamados de ‘turistas de guerra’, como se por eles, a dor se tornasse mais uma atração no circo do mundo”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de março de 2019


24 setembro 2018

O Discurso Como Mecanismo de Defesa







Dentre os mecanismos psíquicos de defesa desenvolvidos por Freud um, muito usado, para defender ou escamotear interesses individuais e de grupos que se sentem em posição desconfortável, é a racionalização, geralmente, bem articulada em forma de discurso.

O discurso, quase em tom de desespero, do sociólogo e ex-presidente da república, FHC, realizado recentemente em forma de carta (dia 20), se enquadra muito bem nessa categoria freudiana. Na verdade, esse tipo de discurso de última hora, quando o barco está a naufragar, tem, por incrível que pareça, a função de proteger a pessoa declamante ou o grupo com o qual se identifica. Não é à toa que a psicanálise reza que no lado avesso do discurso elaborado sob forte ressentimento(a carta de alerta dirigida aos eleitores) reside o medo do autor perder algo de si ou para si que ele considera de crucial valor ou importância.

Em meio ao pedido de socorro vindo de altos escalões de nossa república, alguns, de forma escancarada (em nome de uma suposta paz), incitam a renúncia de um dos dois principais postulantes ao cargo de presidente da república, como a melhor das soluções. Dizem até: a pátria em situação de extrema gravidade está a exigir o sacrifício de um dos que estão em primeiro lugar nas pesquisas. Aqui, é bom que se ressalte: o mecanismo de defesa psíquica interessa ou favorece mais ao autor da carta de alerta fora de tempo, movido, pelo menos inconscientemente, por um sentimento de culpa.

Freud descobriu a nascente desses mecanismos de defesas: eles têm origem na infância e perduram por toda a idade adulta. Foi a partir do pai e contra ele (como autoridade patriarcal) que a criança em tenra idade iniciou o desenvolvimento de todos os tipos de defesa, como: introjeção ou recalque, negação, projeção, reação e a tal racionalização. Desde a aurora de nossas vidas fazemos uso desses mecanismos de defesa que, da instância do Superego (Pai simbólico ou imaginário), nos ameaça punir com a culpa diante das astúcias do ego.

A expressão popular “discurso da boca para fora” , em ocasiões sombrias, quando o jogo jogado se encontra aos 40 minutos do segundo tempo, tem lá a sua razão de ser dita. “Os humanos têm uma forte necessidade de viver em grupos, próximos um dos outros. Mas essa necessidade entra em conflito com sua agressividade inata e seu desejo de se satisfazer egoisticamente. [..] Para muito de nós, a tentativa de reduzir a culpa, evitá-la ou expiá-la é um importante motivador” (Michael Kahn – “Freud Básico” – Editora Civilização Brasileira).

Como a História é cíclica, basta dirigir o olhar para trás, a fim de perceber que não só em nossos adversários, como em nós mesmos, e entre nossos amigos, esse fenômeno chato e doloroso está repetidamente sendo recriado. Interessante, é que dois dias após sua carta-discurso, FHC veio a público afirmar pelo Twitter que sua carta tinha sido dirigida ao povo, e não aos partidos (às cabeças pensantes responsáveis pela sopinha de letras que inunda o país). E aí, a emenda saiu pior do que o soneto, pois, o sociólogo incorreu em mais dois mecanismos de defesa muitíssimo estudado por Freud: o de negação e o de projeção. O tom da carta deu a impressão de uma mera forma de negar (junto às altas cúpulas) ser responsável pela atual situação vexatória; situação que, ao contrário de sua argumentação de fundo defensivo, foi obra executada em seus minimos detalhes, de cima para baixo. Pasmem: através do mecanismo de projeção pôs toda a culpa na conta do povo, com essa infeliz frase, endereçada aos eleitores: “Ainda há tempo para deter a marcha da insensatez”

Faltam poucos minutos para o término da partida: agora, é só esperar, para ver o resultado daquilo que foi plantado entre nós. Espernear não adianta. O choro pelo descaso e a indiferença para com o sofrido povo, inevitavelmente, não vão trazer de volta o leite derramado.


Por Levi B. Santos
Gurabira, 23 de setembro de 2018

OBS:
Imagem do Topo: "O Inconsciente é a Verdadeira Realidade Psíquica" Sigmund Freud (1856 - 1939) O Livro da Psicologia ― GloboLivros

06 março 2018

O Internauta e os Novos Verbos da Era Digital







Os internautas (aqueles que navegam pela internet), com a evolução digital, vêm, cada vez , incorporando(do verbo “incorporar”, ou guardar na memória do computador) verbos derivados de expressões da tecnologia digital. Esses termos técnicos são aportuguesados e conjugados regularmente com o intuito de facilitar a interação e comunicação dos usuários das redes sociais.

Dentre os deveres dos navegantes da Internet, se inclue o de conhecer estrambóticos verbos, considerados de mau gosto, ou feio, por alguns da velha guarda. Já que falei em “velha guarda”, quem diria que um dia, nós, pais e avós de hoje, iríamos nos valer de nossos filhos e netos para aprender uma nova língua ̶ a cibernética abrasileirada? Numa inversão total do que acontecia nos tempos em que estudávamos as primeiras letras, estamos, hoje, oferecendo aos que foram por nós criados, nossas mãos de anciões à palmatória, a fim de apreender o “INTERNETÊS” (língua da Internet).

Parafraseando o Messias narrado pelos Evangelhos, “Quem não se fizer criança, de novo, não pode adentrar no reino virtual”. Então, não tem outra saída, a não ser nos consolarmos e não nos envergonharmos de pedir ajuda aos mais novos, que estão mais bem adaptados aos neologismos criados pela tecnologia digital.

Quase todos os verbos usados nas redes, são originados de palavras ou expressões tecnológicas digitais. Aos termos expressos na língua do “Tio Sam”, é só acrescentar as terminações “ar” ou “ear”, e está formalizado o Verbo no seu estado natural (ou no Infinitivo). De tão usados e abusados, os “neo-verbos” estão se tornando triviais entre nós. Nem mais notamos quando os digitamos em nossas POSTAGENS (ops, olhem aí um substantivo que tem no verbo “Postar”, sua raiz, e significa “textos publicados na internet”). Alguns verbos, de tão comuns, já foram incorporados aos nossos dicionários mais conhecidos (Aulete, Houaiss, etc).

Quem, porventura, souber de mais uma nova aquisição Verbal do astucioso mundo cibernético, é só acrescentar à lista abaixo.

1. LINKAR: vem do Inglês Link, que significa LIGAR.
2. LOGAR: vem do inglês Login, que significa ENTRAR ou fazer LOGIN
3. DELETAR: vem do Inglês, e significa APAGAR ou EXTINGUIR.
4. BECAPEAR: vem do Inglês, sgnifica Fazer cópias de segurança, ou fazer BACKHUP
5. UPAR: vem do inglês Upload, e significa subir um arquivo da rede, fazer UPLOAD
6. ZIPAR: vem do inglês, tem esse significado ̶ compactar um programa ou arquivo.
7. IMPUTAR: vem do inglês IMPUT, e significa INSERIR DADOS
8. HACKEAR: vem do inglês HACK, e significa acessar dados sem autorização.
9. SPAMNAR: vem do inglês SPAM, e significa enviar mensagem estúpida pelo correio eletrônico (e-mail)
10.SCANNEAR: vem do inglês, SCANNING, e significa ESCANEAR algo e arquivar no computador. O mesmo que DIGITALIZAR (transformar ou converter sinais ou imagens e guardá-los em arquivos do computador)

Os três verbos da era digital, elencados abaixo(conjugados em todos os tempos e em todas as pessoas do singular e do plural), já constam nos principais dicionários do mercado brasileiro. O primeiro da lista abaixo, por sinal, é usado de forma obsessiva pelo presidente Trump, em seu dia a dia.

2. BLOGAR (esse, hoje, está em decadência)
3. GOOGLAR.
4. LINKAR

O Leitor(a) basta clicar em cada um dos quatro verbos acima, para conferir sua conjugação.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de março de 2018
Site da Imagem: vejasp.abril.com.br/blog/vejinha

10 novembro 2017

A “Suprema Compaixão” no Reino de Trump





Na cerimônia de posse do presidente republicano, Donald Trump, a pastora Paula White fez, em oração, esse pedido: “Deus misericordioso, revele ao nosso presidente a capacidade de conhecer a vontade, a sua vontade, a confiança para nos liderar e a COMPAIXÃO para ceder ante os nossos melhores anjos.” (Vide lin). 

Em seu discurso de posse, Trump bradou: “Essa carnificina americana termina aqui e agora!”. As tiradas de cunho xenófobo do presidente recém eleito, não se constituem surpresas: as profecias anunciadas durante sua campanha já tratavam do pacote de maldades que viria à baila, assim que o resultado das eleições fosse oficialmente confirmado. 

O “novo-velho” messias da hipermodernidade americana, em seus discursos fundamentalistas, prometia devolver a “Terra Prometida” aos americanos, ao mesmo tempo, cheio de empáfia, ameaçava expulsar e devolver os imigrantes a seus países de origem. Achando pouco, para gáudio dos ”compassivos” da nação que o apoiou, fomentava a construção de um muro de separação na fronteira de seu reino com o México.

A prece da pastora implorando a Deus o derramamento da compaixão no coração empedernido de Trump trouxe a minha memória dados estatísticos sobre esse afeto à moda americana que o escritor e historiador inglês, Theodore Zeldin, em Uma História Íntima da Humanidade” (obra antológica escrita há mais de setenta anos), tão bem dissecou. Saliente-se que as referências estatísticas desse autor, apesar de serem antigas, na atualidade permanecem praticamente incólumes. Sobre a Compaixão Americana, disse Theodore, de forma contundente:

Hoje em dia, 45% de todos adultos se engajam em trabalho voluntário, ajudando os outros pelo menos cinco horas por semana. Mas a maior parte deles(54%) acredita que as pessoas, em geral, atraem sofrimentos e que a caridade não é uma resposta, mas apenas um curativo temporário. Dois terços dos americanos consideram importante não se envolver muito nos problemas alheios: antes de tudo, convém cuidar de si mesmo e, se ainda lhe restar força, então ajude os outros. […] Ficou demonstrado que os frequentadores de igrejas não são mais compassivos do que aqueles que não as frequentam; não param para prestar socorro a um garro enguiçado nem cuidam de parentes idosos com mais frequência. Alguns apreciam aquela sensação de 'amaciar o ego' ao serem tidos como generosos, ou heróicos, e se sentem aventureiros quando demonstram misericórdia; é o espírito de aventura o que mais o estimula. Nos velhos tempos, os americanos tentavam ser compassivos, em obediência aos mandamentos de Deus. Agora, valem-se mais frequentemente da terapia para explicar seus motivos: a caridade lhes faz bem, melhora a imagem que fazem de si”.

Vez por outra estamos a confundir “compaixão”, com “pena”(dó). Compaixão, seria sentir com o outro, sofredor. O sentimento que expressamos como pena, por sua vez, poderia dar a ideia de algo partindo de um ser em condição mental superior para um ser em estado psíquico inferior. Mas a pena que sentimos do outro que sofre, pode perfeitamente ser uma ressonância ou consequência de um acontecimento doloroso vivido em nosso passado de criança ou de adolescente. No caso, esse sentimento estaria mais para a compaixão, se por compaixão entendêssemos a repetição imaginária de algo doloroso vindo dos recônditos de nossa psique. A situação daquele que sofre, detonaria em nós o gatilho de um despertar. Seria o caso de se dizer que o afeto da compaixão, volta e meia, a nós retornaria no encontro com o outro que no presente padece; as dores do outro corresponderiam às dores primevas, quem sabe, relativas às coisas aparentemente esquecidas, mas poderosamente arquivadas nos porões do nosso sombrio inconsciente.

Mas há outras modalidades forçadas da “generosidade compassiva”, que talvez estejam a balançar os corações dos republicanos que elegeram Donald Trump. Por se situar dentro do jogo do poder terreno, e ser de natureza interesseira, essa modalidade de compaixão está mais para uma farsa.

Como bem sabemos, a “generosidade compassiva” pregada pelas religiões dominantes, em sua prática, carrega o cheiro da vaidade. No discurso da religião oficial pedagógica americana do Reino de Trump, esse afeto “generosamente compassivo”, traduzido pelo lado avesso, busca, sobretudo, a admiração das pessoas, reforçando a vaidade ou o caráter mercantil e fundamentalista de grande parte da suprema membresia republicana.

Na verdade, o mote de fundo puritano “América para os Americanos” , brandido pelo presidente, assemelha-se muito ao apregoado por Hitler: o Führer alemão no passado de tão triste memória, invocava a pureza da raça ariana, em detrimento dos judeus e demais minorias. Hoje, na esteira da xenofobia trumpiana, ganha terreno uma compaixão às avessas assumida de forma egocêntrica pelos ativistas da supremacia branca dos EUA. Recentemente, a cidade de Charlottesville(EUA) serviu de palco para a explosão de ódio por parte de "brancos supremos" contra negros e judeus.

Ao que parece, a Era Trump veio despertar, em um suposto povo divinamente escolhido para mandar e desmandar na América, a adormecida intolerância contra os considerados hereges e os rotulados de “raça inferior”. No entanto, quando esse “povo de sangue supremo” planeja a purificação de seus pecados ou podridões, são exatamente os marginalizados que são usados por ele como “bode expiatório”(no ritual de purificação praticado pelo povo hebreu, um bode era escolhido para carregar os pecados da comunidade. Depois, o animal era abandonado no deserto, para que os males nele projetados ficassem bem distantes do “povo sagrado”).

Na visão radical do todo-poderoso, Trump, a compaixão é entendida pelo avesso: os oprimidos não são os estrangeiros que vivem nos EUA, são os americanos ressentidos que perderam um pouco de suas riquezas, e agora culpam os imigrantes pelo seu estado atual. Mas, no Velho Testamento há uma passagem bastante interessante, um conselho dado ao povo escolhido de Javeh, para que pudesse manter o passado bem vivo em sua mente, quando acolhido foi em terras estranhas (Egito). No entanto, hoje, em benefício próprio, os remanescentes desse povo preferem se fazer de cegos para aquilo que os escribas, a respeito do sentimento compassivo, deixaram escrito no Livro Sagrado(Torah) do Deus a quem supostamente seguem:

Ao estrangeiro não maltratarás, nem o oprimirás, pois vós mesmos fostes estrangeiros na terra do Egito.” (Êxodo 22: 21)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 10 de novembro de 2017

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