27 janeiro 2021

O Pastor e o Beija Flor de Rubem Alves



No capítulo de número 10 (“Que se Abram as Gaiolas Teológicas”) de seu memorável livro Pentecostalismo e Pós-Modernidade , o pastor César Moisés Carvalho(*) explora em linguagem metafórica, uma íntima e inusitada experiência, a qual, com os devidos créditos, passo a replicá-la.

Diz, ele:

Se eu fosse místico, teria agora de estar procurando um significado para o que me aconteceu. Explico-me. Todos os dias, há anos, mantenho um ritual. Após chegar em casa, antes de banhar-me, aproveito esse período lendo algum livro. Como o ambiente não é muito adequado, levo livros pequenos e não faço escolhas, apenas apanho algum aleatoriamente na estante. A obra da experiência de ontem, inicia-se com um prefácio do próprio autor, produzido vinte anos depois de ele tê-la escrito. pastor, aqui, faz uma pausa para se deter no prólogo do livro  Dogmatismo & Tolerância ─ de Rubem Alves (*)  Editora Loyola  página 08:                                                                                         

"Vivo num apartamento no oitavo andar. Minha filha Raquel, paisagista, fez-me um jardim de bromélias, folhagens e bambus no pequeno espaço da minha varanda. Mas aquele jardim não me deu alegrias. Os pássaros não a visitavam. Que tristes são os jardins sem pássaros. Era como os pássaros não me amassem. Transformei a minha tristeza numa crônica para o jornal. Tive então, no dia seguinte, uma surpresa: aprendi que os pássaros leem jornais! Ao entrar no meu apartamento encontrei-me com um beija-flor que entrara e não conseguira sair. Tive de pegá-lo com a mão. Como nós, homens, somos os seres que perderam a confiança nos pássaros, ele teve medo, fugiu e se debateu quando o segurei. Debateu-se tanto que deixou algumas penas azuis. Tomei as penas, amarrei-as e as dependurei no bambu. Desde então os beija-flores e uns pássaros pequenos cujo nome não sei me visitam todo dia. Isso me dá alegria. Nós, eu e os pássaros, temos sonhos comuns. Sonhamos com o voo e com a imensidão do céu azul."

(*) Rubem Alves (1933 2014), psicanalista, educador, teólogo, escritor e pastor presbiteriano.


Voltemos, então, ao relato de César Moisés Carvalho (**):

Se essa coincidência com a experiência do beija-flor surpreendeu, não menos diferente foi o que ocorreu com a ideia da Gaiola.

No último final de semana, participei de uma Escola Bíblica e, em um momento da mensagem, disse que os religiosos do tempo em que Jesus Cristo exerceu seu ministério, pareciam ter uma ‘Gaiola Teológica’ e nela enclausuraram o Senhor Deus. Qualquer pessoa que estuda a narrativa dos Evangelhos percebe que Jesus de Nazaré foi rejeitado, e quem o fez primeiramente e de maneira ostensiva foi a classe religiosa de sua época. Eles elaboraram paradigmas teológicos, preceitos de homens e ai de quem não se enquadrasse (no sentido mais pleno do verbo) nesses limites. Como Jesus Cristo negava-se a ser aprisionado e cerceado, mas apenas desconstruía tais gaiolas teológicas, tornou-se, sem querer o adversário comum deles. Assim, a minha surpresa foi tamanha quando verifiquei que, logo após contar sua experiência com o beija-flor, Rubem Alves, diz que ‘Deus criou os pássaros'. Bem, até aí nenhuma novidade, pois a Bíblia informa que no princípio Deus criou os céus e a terra e tudo que neles há. Contudo, com sua capacidade de metaforizar, no parágrafo seguinte disse que as ‘religiões eram gaiolas’. Tive um misto de alegria e frustração, pois percebi que minha abstração não teria mais ares de ‘originalidade’, pois o ‘contador de histórias’ havia se antecipado (ainda que sem eu o saber) dizendo que as ‘gaiolas criadas pelas religiões são feitas com palavras que pretendem prender o Pássaro' [em sua metáfora, uma alusão a Deus]".

(**)Pastor pedagogo, pós graduado em Teologia pela PUC- Rio


Levi B. Santos

Guarabira, 27 de janeiro de 2021

25 janeiro 2021

“A Mercadologia da Fé é Um Subproduto do Cristianismo” (*)


(*) O artigo acima é sub-título de um capítulo do excepcional livro editado pela CPAD ─ “Pentecostalismo e Pós-Modernidade”(página 93) ─ de César Moisés Carvalho ─ pastor, pedagogo, pós-graduado em Teologia pela PUC – Rio.



O autor faz um paralelo entre o emocional e o espiritual no meio pentecostal, evidenciando as polarizações extremistas responsáveis pela banalização do sagrado e desprezo pelo que é racional, cultural e científico. No dizer de César Moisés, “O objetivo da maioria das mensagens é o convencimento do auditório à custa do suicídio da razão e com uma vergonhosa apelação emocional em nome do Espírito Santo. Quem nunca ouviu uma mensagem cujo tom parece querer impor que a experiência do pregador é que deve ser o critério da verdade e não a Escritura?" (página 151).


Ainda na página 151 de seu livro, César Moisés faz referência a uma afirmação de John Scott ─ em sua obra ─ “Cristianismo Equilibrado”: “Eu me sinto constrangido a dizer o que é mais perigoso dos dois extremos é o anti-intelectualismo e depois a entrega ao emocionalismo. Vemos isto em algumas pregações evangelísticas, que não consistem em outra coisa senão um apelo pela decisão com pouquíssima, ou nenhuma pregação do Evangelho e pouca, ou nenhuma argumentação com o povo a respeito, à maneira dos apóstolos”. Chegando ainda a afirmar, sem generalizar, “que a maioria da pregação supostamente 'ungida' ou 'de fogo' que se ouve atualmente é uma mistura de salivação, altíssimos decibéis e autoajuda”.


Detenhamo-nos, agora, nos trechos lúcidos de César Moisés, sobre a “Mercadologia da Fé”, os quais replico, abaixo, com os devidos créditos:


"É uma lástima que em tudo o que os homens colocam a mão transforme-se em algo terrível, manipulador, ruim. Por isso, não temo em afirmar que a Mercadologia da Fé, representada pela multiplicidade de igrejas, é um subproduto do cristianismo. Mas esse fato não diminui em nada a importância do evangelho, a fé em Deus, ou alegria da salvação". (página 93)

"Recentemente disse a um grupo de alunos meus que existem, para tudo, ao menos três formas de ver as coisas: a) a maneira como nós a vemos; b) a forma como alguém as apresenta para nós; e c) a maneira como elas realmente são. Simplificando, é possível entender que a fé não pode ser responsabilizada pelo que fazem em nome dela. As igrejas que são regidas pelas leis consumistas do mercado e exploram as pessoas não podem servir de desculpas para a extinção de todas ou para acusação indevida de que o cristianismo é uma fuga intelectual ou muleta psicológica. O fato de alguns transformarem suas igrejas em verdadeiras “loterias da fé”, onde pessoas são desafiadas e coagidas a apostar suas economias não significa que foi para isso que Jesus morreu".(página 93)

Sobre as Raízes Históricas do Anti-intelectualismo Pentecostal, afirmou, César Moisés:

"O pentecostalismo precisa se libertar da chamada 'interpretação espiritualizada' da Bíblia. Quantas interpretações são justificadas por interpretações descabidas, cujo único critério é o subjetivismo individual e manipulador? Sobre esse assunto cita o teólogo Alexander Carson que afirma categoricamente: 'Homem algum tem o direito de dizer, como alguns costumam fazê-lo: 'o Espírito me diz que tal ou tal é o significado de uma passagem'. 'Como pode estar ele seguro de que  é o Espírito Santo, e não um espírito enganador, a não ser pela evidência de que a interpretação é o sentido legítimo das palavras?. Todos os fundadores de seitas e as maiores heresias que existem se esgueiram na zona cinzenta da 'criatividade interpretativa' do texto bíblico'".(página 157). 

(Capa do livro Pentecostalismo e Pós-Modernidade de César Moisés Carvalho)


Por Levi B. Santos

Guarabira, 24 de janeiro de 2021