16 setembro 2018

Abordagem Psicanalítica de Nossa Postura Político-Ideológica




Dois jovens pugilistas de Santorini (1550 a.C)


No mundo todo, particularmente em nossa nação, o que há de mais selvagem no inconsciente coletivo e individual está sendo exposto de forma violenta nas redes sociais e demais veículos de comunicação. Foi refletindo sobre esse instinto agressivo/destrutivo que resolvi revisitar um trecho que, há mais ou menos 20 anos, grifei no volumoso livro “Eros e Repressão”, de Rollo May (Editora Coleção Psicanálise). Trata-se do capítulo ― “O Neurótico e o Profeta”.

Partindo de sua experiência com a vasta clientela de neuróticos que atendia em consultório e, recorrendo ao que Freud já tinha profunda e minuciosamente analisado em “Mal Estar na Civilização”, disse Rollo May:

Nossos pacientes predizem a cultura vivendo conscientemente o que a massa do povo conserva ainda inconsciente. […] Hoje, a pessoa que tem problemas psicológicos carrega no próprio sangue o peso dos conflitos dos tempos e está destinada a predizer, através de seus atos e lutas, as crises que mais tarde irromperão de todos os lados na sociedade”.

Hannah Arendt, por sua vez, em seu livro “Sobre as Revoluções” recorreu a Freud (“TOTEM e TABU”), para nos revelar algo que vem bem a calhar com os momentos atuais de loucura coletiva:

A narrativa é clara: qualquer fraternidade de que sejam capazes os seres humanos nasceu do fratricídio, qualquer organização política a que tenha chegados os homens, teve origem no crime” afirmou, de forma enfática, a pensadora alemã de origem judaica, autora de antológicas obras, como "Origens do Totalitarismo" e a que trata do julgamento de "Eichmann em Jerusalém".

No Mito do Pai da Horda (“Totem e Tabu”, de Freud) os filhos mataram o Pai Primevo e fundaram a aparente fraternidade (ensejando a utopia de que tudo seria resolvido de maneira horizontal pelos irmãos). Ao dizer “aparente fraternidade”, corroboro com Freud que, em seus escritos, deixou claro que o Pai simbólico internalizado (Superego) nunca deixa de emitir suas ressonâncias na psique humana. Ele (o Pai) continua encarnado em nós, como uma das funções estrturantes, senão a principal, de nosso aparelho psíquico (o arquétipo paterno). 
“Após o ato (fratricídio), a s, filhos descobrem que também amavam esse pai; o amor é então, transformado em sentimento de culpa e a palavra do pai se converteu em lei simbólica. Este pai morto seria a condição de retorno da ordem e do estabelecimento de um laço social com a renúncia dos filhos ao gozo da mãe”. [Que Pai é Esse? ― Círculo Psicanalítico da Bahia).

O que Freud escreveu em 1921 continua muito atual, na medida em que os filhos ainda procuram idealizar um Pai, que não aquele primevo. Decorrido quase cem anos da primeira edição de “Totem e Tabu”, em sua febre ideológica polarizada, os filhos desse Pai imaginário reunidos numa suposta irmandade, continuam a usar da violência em suas relações inter-pessoais, chegando até, entre nós, a manchar o solo com sangue humano ― consequência nefasta das pulsões destrutivas e cruéis sobre o outro que lhe serve de “bode expiatório”.

É bom ressaltar, aqui, a referência que o psicanalista Jacques Lacan, nos anos sessenta, fez dos sintomas histéricos coletivos de maio de 1968, na França. Na ocasião, Lacan, se dirigindo aos jovens que gritavam bordões, tipo ― “É proibido proibir!” ― reverberou de forma enfática: “Como revolucionários vocês são histéricos a demandar um novo mestre. Vocês o terão!”.

De lá para cá, protestos violentos continuam varrendo vários países de todos os continentes. Tudo acobertado sob o manto da “democracia”. Na verdade o conflito ocorre primeiro dentro das mentes doentias de cada grupo. Nos renhidos embates, os polos afetivos ambivalentes da alma humana são rotulados de direita e esquerda. Não sabem os revolucionários que nesse confronto estão, apenas, projetando os próprios recalques provenientes dos porões de seu inconsciente no outro tido como inimigo.

Não sabem eles que, desde os primórdios, tese e antítese estão à procura de uma síntese, e não de um choque destrutivo. Republicanos e Democratas, Conservadores e Liberais, Intransigentes e Complacentes, Severos e Lenientes não são mais que adjetivos a denunciarem a dualidade dos afetos paradoxais de nossa alma.

Em tempos pré-eleitorais o que mais se deseja (consciente ou inconscientemente) não é unir, nem é buscar no outro o seu próprio sintoma esquecido ou guardado a sete chaves. O que mais se deseja, entre os grupos, é rotular o outro de direita ou de esquerda, como se a identidade negativa e burra estivesse sempre presente no outro e não no seu próprio Eu. O que talvez não compreendam é que os afetos que tanto identificam o “republicano” quanto o “democrata” fazem parte de nossa alma dúbia. Alma que ora pende para um lado, ora para outro, tal qual um equilibrista a caminhar perigosamente em uma corda bamba. Essa realidade psíquica desqualifica qualquer um a ser árbitro para julgar os afetos de natureza subjetiva do outro.

Parece que em tempos de acirramento político há uma regressão ou involução humana, uma espécie de retorno ao tempo em que éramos bárbaros ou selvagens, retorno ao tempo dos clãs. Tempo em que éramos cegos para o mal que existia em nós mesmos: só tínhamos a capacidade de percebê-lo na tribo que considerávamos inferior à nossa.

De certa forma, o embate ideológico dos tempos atuais, nada mais faz, que trazer à tona os monstros que estavam adormecidos na psique humana, desde tempos imemoriais  como bem fez ver o psicanalista Christian Dunker, quando no jornal NEXO, em janeiro de 2018, discorreu sobre “os efeitos da crise política para os brasileiros”:

A massa tem esse funcionamento polar, de precisar sempre segregar os inimigos para reforçar os laços de identificação [entre iguais]. É como se o funcionamento de massa exigisse a produção de grandes ídolos que são sucedâneos do Pai, um Pai muito autoritário”  


A História sempre mostrou que é em época de descontrole e vazio de poder, que a figura paterna (arquétipo patriarcal) ressurge das profundezas da psique humana com força total. O veneno dessa força instintiva descomunal ao aflorar nas almas humilhadas, desamparadas e desesperadas, insinuam, em suas mentes infantilizadas, o desejo ou anseio de proteção. Proteção, que em ambos polos ideológicos extremistas (direita e esquerda), se remontam a figura paterna onipotente (super-ego). Nietzsche, naquilo que fico cunhado de "eterno retorno", já fazia menção a uma tendência de repetição de fatos indigestos no desenrolar da história humana, desde as mais remotas eras.


O que Freud, com a descoberta da área sombria de nossa psique a que denominou de “Inconsciente”, conseguiu deixar tão claro, senão a de que, em tempos de paz, instintos altamente agressivos representados por paixões ideológicas antagônicas dormem de forma latente em cada ser humano?
Procurando entender o que levava os homens a essa forma cruel e extravagante de conflito, Albert Einstein, em uma de suas muitas cartas enviadas a Freud, fez a fatídica pergunta: “Por Que a Guerra?”. O fundador da psicanálise, sendo judeu, ainda mais numa época conturbada de violento antissemitismo, não quis se estender no tema, revelando, apenas, que os dois polos representativos da ambivalência humana, quando em atrito, davam lugar a “pulsões destrutivas” (Tanathos).


Só não vê quem não quer, a “indomável psicose coletiva” que grassa em nossas glebas.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 16 de setembro de 2018

29 agosto 2018

Como Será o “Admirável Mundo Novo” das Próximas Décadas?






Em 1932, Aldous Huxley, publicou o clássico “Admirável Mundo Novo”. Acredito que essa obra de “ficção” tenha provocado muita sensação naquela época. Tempos, em que praticamente engatinhávamos em matéria de tecnologia e ciência. O que esse famoso autor inglês pensava que pudesse acontecer seiscentos anos para frente, será que em questão de poucas décadas se tornará uma realidade?

Pelo andar da carruagem, não estamos muito longe de ser dominados pela ciência e tecnologia, como Aldous Huxley, há 80 anos, tão bem previu, com ares de utopia. Muitos cientistas contemporâneos constatam que esse Éden utópico nunca esteve tão próximo de nós quanto agora.

Tomemos a China de hoje, como exemplo. Para quem ainda não sabe, o governo chinês já obriga as pessoas a efetuarem um cadastramento facial a fim de que, através de uma plataforma, possam ser observadas onde quer que estiverem, vigiadas por inúmeras câmeras, à semelhança das instaladas em toda parte para descobrir os opositores da ditadura do “Grande Irmão”, no clássico “1984” de George Orwell.

No campo da Medicina, robôs e maquinários digitais de última geração já substituem o encontro entre médico e paciente, principalmente, no que diz respeito aos exames de imagens. O paciente avalia, ele próprio, seus sintomas e se dirige às clínicas imagéticas a fim de realizar ultrassonografia, tomografia ou cintilografia. Nos EUA, para uma maior rapidez na obtenção de lucro, as empresas médicas têm que usar o precioso tempo de que dispõem para aumentar sua produtividade. Para isso, terceirizam a confecção dos laudos de imagens com empresas de tecnologia médica na Índia. Quando anoitece nos EUA o dia está amanhecendo na Índia. Enquanto os profissionais da medicina e os pacientes nos EUA dormem, as imagens são recebidas via internet para serem analisadas por técnicos indianosA coisa é tão sincronizada que na manhã do dia seguinte o paciente está recebendo seu resultado de exame, realizado por um agente que nem a própria clínica que o atendeu nem o beneficiário sabem quem foi o examinador e com que presteza foi elaborado o diagnóstico.

No filme “Eu Robô” de Will Smith, um personagem suicida-se ao perceber que a máquina dotada de inteligência artificial, com o tempo, passara a decidir o que os humanos deviam ou não deviam fazer uma espécie de ditadura das máquinas.

Já pensou nisso, caro pai ou avô dos dias atuais: Ginoides, como Sophia do filme "Eu Robô"(produzido em 2004), portadoras de inteligência artificial e altamente condicionadas, a passearem lado a lado com nossos bisnetos e tataranetos? 

No “Admirável Mundo Novo” imaginado por Aldous Huxley, o sentimentalismo e as emoções naturais do indivíduo são substituídas por um bem estar ou estado prazeroso de variada graduação, produzido de forma instantânea por substâncias químicas; tudo a depender da quantidade da dose ingerida do comprimido por ele denominado soma”. No mundo historiado pelo autor não existem mães nem pais para se alienar aos filhos. Os embriões são gerados em laboratórios e mantidos em incubadoras, para um posterior condicionamento psicobiológico. De acordo com a necessidade da comunidade (divididas em classes), produzem-se em séries, os alfas(entes superiores), e os de escala inferior ou decrescente: os betas, os gamas, deltas e ypsilons.

Na narrativa alegórica criada magistralmente por Aldous, todos os livros filosóficos e religiosos foram antecipadamente trancafiados em cofres superseguros, para que os seres produzidos laboratorialmente por cientistas não pudessem descobri-los. Se tal descoberta viesse acontecer, com certeza, provocaria um grave desequilíbrio ou conflito perigosíssimo entre os condicionados pelo avanço tecnológico/científico e os considerados selvagens(nascidos de forma natural). Na realidade, em sua fantasiosa descrição, o autor faz uma crítica ao mundo que, em sua época, dava os primeiros sinais de progresso, ensejando até a castração do lado afetivo humano, proveniente da ancestralidade paterna e materna internalizada em cada um. As criaturas de Aldous Huxley, chocadas em laboratório e depois condicionadas, são levadas a exclamarem de forma autômata: “Graças a Ford!” uma deferência ao poderoso Henry Ford, expressão que corresponde ao “Graças a Deus” dito de forma natural pelo primitivo ou selvagem.

A fantasia de Aldous, em sua antológica obra , tem muito a ver com a sociedade pós-moderna, cada vez mais influenciada pelas admiráveis conquistas tecnológicas que, em vão, tentam abafar o sofrimento, a angústia, os conflitos e as frustrações humanas. O homem da modernidade líquida é um sucedâneo do “Cidadão kane” que Orson Welles tão bem descreveu nos idos de 1941: personagem que queria reformar a sociedade construindo um mundo só seu, mas, no final, acabou sendo vítima de suas próprias armadilhas.

Certo dia, um dos Administradores do Conselho Supremo do Centro de Condicionamento (equivalente a um Alfa maior), sem querer, teve um sonho. “Sonhou que retirara um livro do cofre secreto. Ao abri-lo no lugar marcado por uma tira de papel, começou a lê-lo: nós não pertencemos a nós mesmos, assim como não nos pertence aquilo que possuímos. Não fomos nós que nos fizemos, não podemos ter a jurisdição suprema sobre nós mesmos. Não somos nossos próprios senhores.” (Admirável Mundo Novo Aldous Huxley ― Editora Globo página 277)

A Conclusão óbvia a que chegamos, após a leitura reflexiva de o “Admirável Mundo Novo”, é a de que o indivíduo, por mais que se considere evoluído, jamais poderá anular ou liquidar a idade média e o primitivismo que habitam as profundezas sombrias de sua psique. Por mais que tente se modernizar, nunca deixará de sentir as ressonâncias daquilo que foi arquivado e permanecerá eterno enquanto a vida venha durar. Cabe aqui relembrar o poeta e cantor cearense, Fagner, que nos deixou essa pérola de expressão que resume bem os afetos incontroláveis e imponderáveis do nosso inconsciente: “Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar/Sentimento ilhado, morto, amordaçado/Volta a incomodar” [“Revelação” Canção de Raimundo Fagner]


Entorpecido pelo SOMA que lhe deram pela boca, o Selvagem jazia adormecido. O sol já ia alto quando ele acordou. Ficou imóvel por um momento, os olhos piscando à luz, numa incompreensão de animal mutilado, depois, repentinamente, lembrou-se de tudo.

Oh meu Deus, meu Deus! cobriu os olhos com as mãos”. [Desfecho última página do livro “Admirável Mundo Novo”]


Por Levi B Santos
Guarabira, 29 de agosto de 2018

27 julho 2018

Fake News (?) No Império e na Atual República





[A Semelhança entre a tela do Grito do Ipiranga (no alto) - pintada por Pedro Américo em 1888 e a que vem logo abaixo - do francês Ernest Meissonier - retratando em 1875 a Vitória de Napoleão na Batalha de Friedland, para alguns experts, não foi mera coincidência.]



Notícia falsa (mutreta ou boato criado para retratar personalidades influentes e poderosas) foi coisa que nunca faltou na antiga Terra de Santa Cruz. A treta de que Dom João VI era, em público, um sôfrego comedor de coxas de galinha é contada por vários historiadores. Teria sido verdade essa afirmação, ou mentira dos invejosos do famoso e adulado rei?

Carlota Joaquina - A Rainha Devassa”, título do livro de João Felício dos Santos Editora José Olympio traz uma narrativa em forma de romance, onde se evidenciam as contradições, mazelas e vicissitudes que infestavam o coração da poderosa mulher de um obtuso marido. O quanto tem aqui de fake news(notícias falsas) só Deus sabe. Já o historiador argentino Marsílio Cassoti em seu livro, “Memórias de Carlota Joaquina, a Amante do Poder” relata que a imagem infiel da rainha (esposa de D. João VI e mãe de D. Pedro I) foi divulgada e explorada maldosamente por seus adversários políticos.

Segundo alguns escritores dos dramas e comédias de nossa Colônia, D. Pedro I, filho de D. João VI não teve nem forças para gritar o “Independência ou Morte”, descrito com áurea patriótica pelos autores dos livros que, ávidos decorávamos nos grupos escolares. Segundo a oposição, o coitado do imperador, padecendo de uma tremenda disenteria às margens do riacho Ipiranga, jamais teria condição de dar esse brado que tanto empolgou a meninada que fazia o curso primário na minha época. Hoje, como muito bem se sabe, a desidratação causada por perda de muito líquido nas fezes, deixa o sujeito lívido e sem forças para caminhar. Ao que tudo indica, esse fato, foi uma das primeiras fake news a nos ludibriar, ante o que se sabe, hoje, através das inúmeras obras contendo minuciosos achados históricos esquecidos ou escondidos intencionalmente nos porões ou arquivos mofados das grandes bibliotecas.

De Pedro Américo, dizem que foi contratado a peso de ouro para, 66 anos de pois do suposto “Grito do Ipiranga”, pintar um quadro memorável de D. Pedro I e sua trupe. Em vez de mulas levando o grupo imperial serra acima, o famoso pintor, natural de Areia – PB (cidade serrana distante cerca de 15 quilômetros de minha cidade natal), para grandeza da pátria idolatrada, pincelou em sua grande tela, belos cavalos de corrida, guiados por gente ricamente fardada empunhando espadas reluzentes, num colorido impressionante. Cecília Helena de Salles, historiadora e professora da USP e coautora de “Brado do Ipiranga”, não me deixa mentir, sobre a farsa do quadro da Independência: “...não era comum usar cavalos, mas sim mulas, para fazer o trajeto da Serra do Mar. Os uniformes também eram galantes demais para o tipo de viagem que D. Pedro I estava fazendo. Sua comitiva não era numerosa, no máximo levava 14 pessoas”.

Na época, a obra de Pedro Américo causou muita polêmica, tendo inclusive, sido acusada de plágio do quadro que retrata a “Vitória de Napoleão na Batalha de Friedland obra do pintor francês Ernest Meissonier, em 1875.

Nas eleições para presidente, em 1945, espalharam a notícia de que o candidato Eduardo Gomes teria dito em pleno Teatro Municipal do Rio de Janeiro que Getúlio Vargas (seu adversário) andava com um bando de desocupados. O revide veio rápido: os getulistas divulgaram que o brigadeiro, Eduardo Gomes, era contra os marmiteiros, negros e espíritas.

Na atualidade, historiadores, professores e jornalistas, numa espécie de releitura, descrevem as fake news, como frutos de patriotadas republicanas, em contraste com narrativas verdadeiras onde a extravagância e ganância de personagens importantes de Nossa Risível História se sobressaem.

Pulando para um passado recente, precisamente em 1989, o candidato a Presidente, Fernando Collor, em uma trama farsesca, chegou a declarar pela TV que, Lula, seu opositor, iria mexer na poupança do povo, depositada nos Bancos Estatais. Foi uma audácia tremenda, pois esse maquiavélico plano, foi urdido na surdina por ele mesmo (Collor) e sua equipe econômica, antes de ser eleito Presidente da República. Muitos acham que essa maldita fake New concorreu para a derrota de Luiz Inácio Lula da Silva.

Para afastar Marina Silva de seu caminho, Dilma Rousself, na campanha pela reeleição em 2014, disseminou a notícia falsa de que Marina, eleita fosse, tiraria a comida da mesa do pobre. Na propaganda eleitoral contra Marina pela TV, a comida sumia das mesas para que o dinheiro a ser gasto com a compra de mantimentos fosse entregue aos banqueiros.

Em uma reunião recente (junho de 2018), o ministro Luiz Fux, presidente do STE, mostrou-se esperançoso, alertando os marqueteiros no sentido de coibir a prática de mentiras na campanha eleitoral. Na ocasião, fez questão de informar que se ficar comprovado que a eleição foi resultado de uma notícia falsa, ela será anulada.(rsrs)

Pelo que escreveu em suas inúmeras obras, Noberto Bobbio, maior cientista político do mundo, talvez esteja estremecendo no túmulo, com tudo que se falou até agora no que diz respeito ao combate às Fake News.
Esse famoso cientista político (falecido em 2004), em sua fenomenal obra Elogio da Serenidade(Editora UNESP ‒ página 90) fez uma afirmação profundamente cortante e irretocável, que vem bem a calhar com a preocupação do eleitorado e da Justiça Eleitoral quanto a disseminação de notícias falsas aqui em nossas plagas. Disse ele: “Não há esfera política sem conflitos. Ninguém espera levar a melhor num conflito sem recorrer à arte do fingimento, do engano, do mascaramento das próprias intenções”.

Realmente, a coisa não é tão fácil de debelar como muitos pensam. Para avivar nossa memória: antes de existir o twitter e o Facebook, encabeçado pelos EUA, os jornais e canais de Televisão do mundo inteiro revelaram que o Iraque estava escondendo armas de destruição em massa. Todos sabem como essa notícia falsa manipulou e pôs a nu a nossa percepção politicamente tendenciosa.

Em meio a uma crise sem precedentes em nossa história, a necessidade de examinarmos a nós mesmos nunca foi tão premente. Só mergulhando nas profundezas de nosso obscuro oceano psíquico poderemos perceber que grudado na falsa notícia emitida, fica um pouco de nossas próprias idiossincrasias.


Por Levi B Santos
Guarabira, 27 de julho de 2018




15 junho 2018

A Copa de 2018 e Seu Maior Astro ― O Grande Czar Vladimir Putin

Na Foto, Putin Discursa na Abertura da Copa 2018


Em janeiro de 2018, Vladimir Putin, de tronco nu e usando botas, seguindo o cerimonial cristão ortodoxo, fez o sinal da cruz no peito e mergulhou por três vezes nas águas geladas do Lago Selinger, seguindo um ritual que remete ao batismo de Cristo nas águas do Rio Jordão uma espécie de renascimento espiritual. (Vide Link)

O escritor norueguês, Karl Ove Knausgard, cedeu à Revista Piauí nº 138, de Março de 2018, uma pequena amostra de seu livro “Histórias Russas” (página 32). Trata-se de uma coleção de relatos emblemáticos que conseguiu colher em uma viagem que fez à Nova Rússia, precisamente, 100 anos após a revolução bolchevique. O trecho do livro, a ser lançado esse ano no Brasil, pela Companhia das Letras, traz uma entrevista sua com três mulheres que voltavam de Moscou em um velho e barulhento vagão de trem. O pequeno diálogo, abaixo reproduzido, tem tudo a ver com a nova imagem da Rússia e seu venerado Czar.

O escritor/viajante despertando de seu marasmo ao ouvir a palavra “Putin”, pediu, imediatamente, a sua intérprete que traduzisse a conversa alegre das três mulheres russas que estavam acomodadas perto de sua poltrona:

A torrente de língua russa fluía fácil, quase onírica, para um lado e outro do compartimento semiadormecido, e no meio dela ouviu a palavra 'Putin'.”

Ela falou alguma coisa sobre Putin? ―, perguntei.
Falou, sim. Está dizendo que a mãe dela é grande fã do Putin ― revelou, a intérprete,
Amamos nosso país e, pela primeira vez, temos um presidente cristão, um presidente ortodoxo ― disse Natalya.

Em seguida, ela pegou uma revista que estava sobre a mesa para nos mostrar a capa. Nela, todas as fotos eram de Putin. Numa das fotografias ele aparece nu até a cintura.

Está vendo isto aqui? Será que Trump pode exibir o corpo dessa forma? Ele (Trump) é velho. O corpo dele não passa de um amontoado de banha.

As três riram alto.

Já se passaram 100 anos desde a revolução. O que isso significa para vocês?―, perguntou o entrevistador.

Não damos bolas para isso, Natalya respondeu. ― Foram 100 anos sem Deus. Puseram abaixo todas as igrejas. Agora elas estão sendo reconstruídas e a gente pode ir à igreja sem medo. Aqui nesta cidade tem um ícone da Virgem Maria. É muito, muito antigo. Quando acharam ele, estava todo preto. Agora está clareando aos poucos. A cada ano clareia um pouco mais.”

Na abertura do sorteio dos grupos de nações que estariam na Copa do Mundo, impecavelmente vestido, o Grande Czar da Era Pós Moderna afirmou em bom tom: “Temos certeza que impressões inesquecíveis serão deixadas naqueles que vierem à Rússia”.

Depois da vergonhosa derrota do Brasil para a Alemanha em 2014, se eu pudesse ir à Copa na Rússia, não perderia meu precioso tempo indo aos estádios. Com certeza, faria uma viagem idêntica a que empreendeu o escritor norueguês no ano passado. Visitaria os museus da cultura eslava oriental, revisitaria os locais onde nasceram e viveram os autores de “Crime e Castigo”, de “Guerra e Paz” e de o “Diário de Um Louco”. Claro é, que incluiria, Turguêniev, que escreveu “Memórias de Um Caçador” (livro preferido do czar, Putin, que também é louco por caçadas). Segundo pessoas ouvidas pelo escritor/viajante, a beleza do mundo da infância de Turgueniev continua intacta na Nova Rússia.

Não tenho condições de ir a Rússia. Mas, “como o passado está em nós e não no mundo”, resta-me torcer para que o Livro “Histórias Russas” de Karl Over Knausgard, apareça em nossas livrarias na época da Copa. Só assim, entre jogos insossos, viajarei na imaginação pela Rússia dos indômitos e maiores literatos do mundo, como Dostoiévski, Tolstoi e Gorki. Escutarei da boca de seus descendentes contos verídicos e narrativas míticas de um povo que trafegou pelo ateísmo utópico dos bolcheviques e, hoje, quem diria, faz uma espécie de retorno romântico aos braços dos poderosos e moderníssimos czares que dominam o “Mercado Espiritual” da Cruz.

O imbróglio, mais “político/inspiritual” que divino, continua insolúvel, como dantes, pois a figura divina introjetada nas mentes dos eslavos do ultra-moderno Czar, tanto esparge luz sobre os seus simpatizantes, como cobre de sombras aqueles que se recusam a entrar no seu jogo.

As três mulheres que travaram um diálogo com o autor de “Histórias Russas” em seu périplo pela Rússia (ano 2017), na sua santa inocência, exaltavam o poderoso Putin e rebaixavam o gorducho e desajeitado Trump. Se refletissem melhor, veriam que os dois têm algo em comum. Não sei como reagiria o rebanho das eternas ovelhas sofredoras e submissas por natureza, se descobrissem que o deus do profeta Trump, que o incita a atirar ao ar suas ridículas estocadas, tem, em secreto, um relacionamento amigável com o deus cristão do ortodoxo, musculoso e venerado Putin.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 15 de junho de 2018