12 janeiro 2019

Sobre a Metáfora “Espinho na Carne”




E foi me dado um Espinho na Carne” (Saulo de Tarso)



É consoante em psicanálise que a metáfora “Espinho na Carne”, usada pelo apóstolo Paulo em uma de suas cartas, tem a ver com algo de natureza inconsciente que amarra o sujeito nos momentos em que o intrometido “Eu” costuma aparecer como se fosse senhor absoluto de todo o saber. O espinho, de tão íntimo e arraigado ao indivíduo, acaba por se tornar irremovível. É uma espécie de vínculo afetivo incrustado no passado da memória, sede de angústias e intensas dores morais, quando despertado ou tocado.

Na busca de um estado utópico de perfeição, dizemos que renunciamos a algo sombrio e íntimo de nossa personalidade (afetos que no passado nos garantiam um certo grau de satisfação egocêntrica). Como não somos senhores de nós mesmos, aquilo que percebíamos como afetos extirpados (simbolizados pela figura de um incômodo espinho na carne), independentemente de nossa vontade, retornam a nós, de uma maneira muito sutil e em momentos jamais imaginados. É em decorrência do choque entre afetos paradoxais de nossa natureza dual (Se quer, mas não se pode) que surgem a angústia e o mal estar psíquico. Usando outros termos, poderíamos asseverar que ninguém pode se considerar salvo desse tipo de sofrimento existencial.

Devem existir aspectos de nossa vida que até podemos dar um jeito, menos o ato de tirar o espinho da carne. Toda vez que pensamos ter eliminado o espinho de nossa carne, lá estamos a projetá-lo no outro. Por esse mecanismo de defesa, o espinhoso passaria a ser o outro, nosso “bode expiatório”, a quem julgamos. Ledo engano, o espinho na carne não se retira. Ele é um elemento necessário para equilíbrio do sujeito em suas ambivalências existenciais pela vida afora, além de um formidável antídoto para que ninguém possa se gloriar.

A compreensão “constrangedora” de que por mais que nos esforcemos, cativando uma imagem melhor e mais simpática para nós mesmos, continuará lá nas profundidades psíquicas do nosso ser, resíduos afetivos que muito almejaríamos jogar no mar do esquecimento, a saber: impulsos, inclinações, pensamentos e imagens destoantes daquilo que construímos como máscara virtuosa em nossa vida de relação.

Zygmunt Bauman, em “O Retorno do Pêndulo”, demostra que o armistício, na guerra entre os desejos ambíguos da alma humana, é sempre temporário, até o próximo confronto. O famoso sociólogo, assim como Paulo em suas relações com os romanos, faz uso da metáfora do espinho na carne, como indicativo ou reflexo da dualidade intrínseca da alma e da condição humana:

...Um espinho cravado no corpo das relações entre o indivíduo e a sociedade. [...]significa enfrentar situações nas quais a balança se inclina contra fazer o que se quer e a favor de fazer algo que se gostaria de evitar”. (Zygmunt Bauman)
Foi em um contexto análogo que, numa espécie de insight, o apóstolo Paulo diante dos altivos romanos fez desaguar do seu obscuro oceano interno afetos contraditórios, até então escondidos: “Pois o que quero isso não faço, mas o que não quero isso faço” (Romanos 7:15)

Em “A Gaia Ciência”, vejamos o que Friedrich Nietzsche escreveu em analogia à metáfora Paulina espinho na carne”:

Examinem a vida dos melhores e mais fecundos homens e povos e perguntem a si mesmos se uma árvore que deve crescer orgulhosamente no ar poderia dispensar o mau tempo e os temporais; se o desfavor e a resistência externa, se alguma espécie de ódio, ciúme, teimosia, suspeita, dureza, avareza e violência não faz parte das circunstâncias favoráveis sem as quais não é possível um grande crescimento, mesmo na virtude? O veneno que faz morrer a natureza frágil é um fortificante para o forte e ele nem o chama de veneno”.

É certo que, hoje, não mais existe inconciliabilidade entre a Teologia e a Psicanálise. O Judeu Sigmund Freud, por exemplo, foi um incansável leitor e intérprete das inúmeras figuras de linguagem presentes na Bíblia e bebeu a vida toda dessa insaciável fonte. Ela muito o auxiliou na construção dos conceitos linguísticos e científicos que serviram de base para a nascente Psicanálise, no final do século XIX. Tanto é assim, que o influente teólogo alemão Paul Tillich, no capítulo 8 (Significado Teológico do Existencialismo e da Psicanálise) de sua fenomenal obra “Teologia da Cultura” assim se definiu, a respeito: Certamente, o desenvolvimento da psicanálise tem sido de infinito valor para a Teologia. [...]As duas disciplinas não andam em caminhos separados, mas se interpenetram”

Voltando à metáfora Espinho na Carne criada pelo apóstolo Paulo: Freud, através de suas esmiuçadas observações, incansáveis análises e longos estudos da psique humana, chegou à conclusão de que não há indivíduos “sem espinhos”. Disse o fundador da Psicanálise: “Existe em todo ser humano uma instância especial na psique onde é mantida imagens, desejos e sentimentos considerados inaceitáveis, adquiridos em nosso desenvolvimento biossocial e psicológico afetos que gostaríamos de nos ver livres deles para sempre”.

A esse lado espinhoso da personalidade, que percebemos como indesejável, Carl G. Jung denominou Sombra”. Torcemos o nariz para esse nosso lado sombrio, e isso não passa de uma atitude defensiva ou reativa, pois, indubitavelmente, não temos o poder de anulá-lo ou destruí-lo através de nossa frágil vontade.

Foi em um conflito com esse lado medonho e obscuro, latente em si mesmo, que o próprio Paulo foi incitado a fazer essa crucial exclamação: “Miserável homem que sou. Quem me livrará do corpo dessa morte!”(Romanos 7: 24)

Para que eu não ficasse orgulhoso, recebi o dom de um obstáculo(espinho), que me mantém em contato com minhas limitações. Sem chance que eu ande de nariz empinado e orgulhoso! No princípio, eu não pensava nele(no espinho) como um dom. […]Agora enfrento com alegria essas limitações, como tudo o que me torna pequeno – abusos, acidentes, oposição, problemas.” (Palavras de Paulo Versão contemporânea da II Epístola aos Coríntios 12: 7-12).

Não poderia deixar de trazer a metáfora do espinho na carne para os tempos atuais, empregando-a no contexto do frenético mundo cibernético que, progressivamente, vem tomando conta de nossas vidas. O Facebook e o WhatsApp são exemplos de nossos novos objetos de desejo. O arguto espinho digital, apesar de está bem encravado em nosso ser, nunca esteve tão visível. O renomado sociólogo brasileiro, Jessé Sousa, em seu livro recentemente lançado pela Editora Estação Brasil ― “A Classe Média no Espelho Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade”(página 262), diz algo emblemático sobre esse novo espinho irremovível, a cujos efeitos sedutores cedemos, por não termos mais o livre-arbítrio em empreender sua  extirpação:

Todo o mecanismo precisamente concebido para atender aos desejos e necessidades de cada um, é produzido por nós mesmos. E tudo sob a aparência ingênua e confiável da troca de informações com amigos e familiares. Ninguém mais precisa invadir de modo ilegal nossa privacidade: agora nós a disponibilizamos, de graça (e não pela Graça – grifo meu), para que as empresas lucrem. (Jessé Sousa – Sobre nossa relação com as redes sociais)

Chegamos ao ponto de nos afligirmos em meio ao trabalho, lazer ou até em momentos devocionais, quando damos pela falta do smartphone. Na realidade, não podemos negar que as curtidas nos provocam uma ligeira anestesia ou sensação de bem-estar. Enquanto isso, o espinho na carne, responsável pela  dor existencial, sob a forma de um vazio impreenchível, continua inapelavelmente a reverberar as angústias de uma alma profundamente ferida em seu narcisismo.

Partes de mim se rebelam em segredo, e, quando menos espero, elas assumem o controle” (Epístola de Paulo aos Romanos 7: 23 Traduzida em Linguagem Contemporânea por Eugene H. Peterson)



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de janeiro de 2019

Site da Imagem: desistirnunca.com.br/nao-somos-apenas-o-que-pensamos-ser-freud/

02 janeiro 2019

CÉREBRO LIBERAL E CÉREBRO CONSERVADOR




Ela, a sempre Neurociência, não cessa de escavar os nossos cérebros na tentativa de desvendar o porquê de certas atitudes e comportamentos que adquirimos durante nossa trajetória existencial.

E não é que, recentemente, neurocientistas andam a conjecturar sobre a existência dos genes da ideologia?

O antropólogo e evolucionista americano, Avi Tuschman — autor de "Nossa Natureza Política: A Origem Evolutiva do Que Mais Nos Divide" — disse, em uma entrevista nas páginas amarelas da revista Veja da semana passada, "que cientistas pesquisadores da Universidade College London, escanearam cérebros de estudantes através da ressonância magnética e, pelas imagens obtidas, conseguiram prever quais alunos eram mais conservadores e quais eram mais liberais. Aqueles identificados com os valores de direita possuíam uma área do cérebro, amígdala cerebelosa direita mais desenvolvida[...]. Já aqueles estudantes que se identificavam com valores relacionados à esquerda apresentavam outra região cerebral mais desenvolvida — o córtex cingulado anterior”.

Quanto a esses fenômenos, seria importante esclarecer o que é causa, e o que é consequência, em analogia à velha pergunta: "Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?"

Neurocientistas trabalham com a hipótese de que o alinhamento ideológico(conservador e liberal) seria conseqüência ou decorrência de uma diferença estrutural cerebral existente em cada um dos grupos. E se a maneira de ser do indivíduo adulto forjada lá na sua tenra infância, pesando nisso a sua formação ambiental, paterna, cultural ou mesmo de fundo religioso forem a causa, e não consequência, de tais modificações em determinadas áreas do cérebro? Segundo Freud, a carga afetiva e reações psíquicas defensivas da criança nos seus quatro ou cinco primeiros anos de vida são cruciais para a formação de sua personalidade. Por essa época, tanto a submissão quanto a rebeldia a uma autoridade exercem um fascínio incomum sobre o infante. O rebelde de ontem não seria o rebelde e liberal de hoje? O submisso e medroso de ontem não seria o precavido e conservador dos dias atuais? Ou o que denominamos "ser liberal" e "ser conservador" são fases que se intercalam, ao sabor das circunstâncias, em nosso caminhar existencial? No clássico, “Os Irmãos Karamazov”, Dostoiévski mostra que a contradição faz parte da natureza humana. O filósofo e ensaísta, Luiz Felipe Pondé, fazendo uma abordagem sobre a obra desse autor russo, chegou a afirmar: “Não é possível descrever o ser humano, categorizá-lo, prendê-lo; só se pode ouvi-lo.”
  
“O que é você? Uma conservadora? Uma Liberal?" — perguntou, certa vez, um entrevistador a famosa e polêmica filósofa política de origem judia, Hannah Arendt, naturalmente, querendo saber de que lado ela militava. Não sei. Eu realmente não sei e nunca soube. Você sabe que a esquerda pensa que sou conservadora, e os conservadores às vezes pensam que sou de esquerda” — respondeu, de forma desconcertante e lúcida, a entrevistada.

Freud chegou à Ciência como um rebelde — ainda que fosse, politicamente moderado, liberal, ligeiramente conservador e não tivesse simpatia por bandeiras vermelhas e barricadas” — afirmou Zigmunt Bauman, para realçar a ambivalência reinante em nossas decisões (Modernidade e Ambivalência — Editora Zahar). O homem é ambivalente porque apesar de latejar em si o ideal liberal, não deixa de sofrer influência de seu lado conservador inconsciente e reprimido.  
  
“Um superego amistoso, benevolente e útil, seria a solução ideal, como contraponto ao superego que age de forma tirânica e ameaçadora”— fez ver Freud, com relação ao teimoso liberal e ao passivo, temeroso e subserviente.

Em suma, a psicanálise e a neurociência não são totalmente inconciliáveis, apesar de divergirem em suas abordagens. Não podemos negar que existe certo consenso entre esses dois campos científicos, que exploram os nossos afetos ambivalentes: “Há uma tendência de nos tornamos mais conservadores à medida que envelhecemos” — concluiu, Avi Tuschman, em sua entrevista à revista Veja —, em consonância com a frase atribuída ao grande estadista e médico francês, George Clemeceau, contemporâneo de Émile Zola:

“Um homem que não seja comunista aos 20 anos não tem coração e um homem que permaneça comunista aos 40 não tem cérebro.”


Por Levi B. Santos
Guarabira, 22 de janeiro de 2015

Site da Imagem:  fotosearch.com.br

13 dezembro 2018

Diálogo Entre Édipo Rei e Creonte ─ (ou) Virtuosos e Tiranos na “Democracia”



Fragmentos de cerâmica Ateniense – usadas para contar votos nos processos democráticos



Em sua fenomenal obra “A Era do Imprevisto A Grande Transição do Século XXI”, Sérgio Abranches faz referências a trechos de um emblemático diálogo entre dois personagens míticos da Grécia antiga (berço da democracia). Édipo e Creonte funcionam como elementos basilares para compreensão e sustentação dos argumentos que o autor delineia e aplica às formas de governo do mundo atual, em face de um futuro de incertezas; não deixando, inclusive, de enfatizar que todo o mandante, sem o contraponto da oposição, pode se transformar em um tirano.

Uma pequena parte do diálogo do excepcional dramaturgo grego, Sófocles, abaixo replicada, retrata bem o antagonismo entre o detentor do poder e aquele que se encontra sob o seu mando. O primeiro age imbuído do desejo célere de fazer justiça, sem a profunda e devida reflexão. Enquanto o segundo (subalterno), de forma mais argumentativa, tenta buscar uma compreensão sobre a parte que lhe afeta de perto, sem perceber que, inconscientemente, também anseia pelo populismo do qual o outro é detentor.

Édipo Rei inconformado ao perceber que seus desejos foram contrariados por Creonte, exaure sua sentença:

Não quero teu exílio, quero a tua morte.

Creonte:
Seria justo se provasses a minha culpa. A retidão falta em tuas decisões

Édipo:
Quando se trata de meus interesses, não.

Creonte:
O meu interesse também mereceria igual cuidado.

Édipo:
Deves-me, da mesma forma, obediência.

Creonte:
Se mandas mal, não devo.

Édipo, apelando à turba, responde:
Meu povo! Meu povo!

Creonte contesta, de imediato:
Também pertenço ao povo que não é só teu.

O povo, que antes exaltava o Rei Édipo, aplaude agora o astucioso Creonte, que lhe usurpou o trono, passando-lhe essa reprimenda:

Não queiras ser mais o mestre de todas as coisas. O poder que ganhastes em outros tempos deixou agora de existir.


Uma vez no Poder, Creonte age da mesma forma que o rei Édipo, usando dos mesmos métodos de tirania. Ao invadir a esfera do privado em um suposto nome do estado, de forma desastrada, Creonte se corrompe ao interpretar a lei segundo seus interesses particulares, abusando do poder ao condenar injustamente Antígona. Na nascente Democracia Grega tudo funcionava como se cada eleito para o posto máximo do Governo tivesse um tirano latente dentro de si, coberto por uma capa exterior (falsa) de virtuosismo. A psicologia, depois de Freud, desnudou esse homem ao explicitar com clareza todo o mecanismo psíquico de fundo paradoxal, que ainda hoje o escraviza na pós-modernidade. Os poderosos, no entanto, continuam cegos para aquilo que a psicanálise na modernidade conseguiu dissecar. Desde a Grécia antiga os governantes no Poder estabelecem normas de conduta a ser seguidas por todos do andar de baixo, mas na surdina, eles mesmos, se consideram exceção à regra. Sob o manto da “igualdade – fraternidade e justiça”, na atualidade, nunca exteriorizaram de forma escancaradamente maléfica seus monstros interiores, que destroem ou inutiizam toda retórica discursiva de cunho virtuoso.

O dramaturgo Sófocles, antevendo o destino da capenga democracia de Atenas, coloca palavras lapidares na boca de Creonte, palavras que ressoam de forma mais dolorida em nosso sombrio tempo, travando nossa língua de um amargor muito mais forte e cruel do que aquele experimentado pelos filósofos no sonho democrático abortado na Grécia antiga. Creonte, ao abrir os olhos para o óbvio ululante, do fundo de seu ser, faz emergir uma insofismável verdade, no final melancólico de seu enredo trágico:

― “Não é possível conhecer perfeitamente um homem e o que vai no fundo de sua alma, seus sentimentos e seus pensamentos mesmos, antes de o vermos no exercício do poder”.


Para mostrar que a democracia grega já nasceu capenga, o historiador Luciano Cândido, em “O Mundo de Atenas”, cita Tucídides: O governo de Péricles foi democracia apenas nas palavras. Há quem a chame de democracia e quem a chame de outra maneira, cada qual de acordo com sua preferência, mas, na verdade, é uma aristocracia com o apoio das massas”.

Vejo nessa ideia da força corruptora do poder não contestado, as duas faces de Creonte na Trilogia de Tebas” (Sérgio Abranches)

Abranches, em sua magistral obra, empreendeu uma profunda abordagem sobre a Medida do Poder, trazendo para o presente o maniqueísmo da denúncia, do impedimento, assim como do populismo que sempre grassou entre os poderosos, desde os primórdios da civilização Grega. Na realidade, esse sonho democrático (repleto de maquinações) ensaiado pelos personagens míticos do dramaturgo Sófocles (400 a.C), ainda hoje, se faz plenamente presente em todos seus aspectos. As profundas mudanças e transições históricas globais (retrocessos) que estamos a experimentar na atualidade, não nos deixam mentir.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 13 de dezembro de 2018

24 novembro 2018

“A MOÇA DO SONHO” E A “DEMOCRACIA BANGUELA”



Clique na Figura para ver melhor




A canção “A Moça do Sonho” de Chico e Edu Lobo , foi esboçada para o show Cambaio em 2001. Em uma nova e magistral interpretação - foi incluída no recente Show e CD “CARAVANAS” de Chico Buarque.

Foi lá no magnífico Teatro Pedra do Reino – João Pessoa (15 de setembro de 2018 – pouco mas de duas semanas antes do primeiro turno da eleição para presidente da república), que tive a oportunidade de ver um Chico de pé (com sinais na face, denunciando seus setenta e quatro anos de idade). Impassível, só as mãos meio trêmulas acompanhavam, sob a forma de sentidos gestos, sua voz melancólica. Teatro lotado. Na plateia nenhum pio se ouvia, e as estrofes da dolente canção “A Moça do Sonho” extravasavam de sua boca, agitando e vibrando as cordas dos corações daqueles que estáticos o ouviam sentados em aconchegantes poltronas.


Arrisquei perguntar: Quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó.

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: Quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu.” (Primeira parte de “A Moça do Sonho”)

O poeta é o rei das metáforas.

É impossível pensar em qualquer sonho sem que uma motivação original não tenha passado pela mente: quer seja um desejo, anseio ou impulso. O Sonho simplesmente é produto de uma elaboração dramática que parte dos fragmentos históricos pré existentes no subsolo de nosso aparelho psíquico”. (Já dizia Freud, em “A interpretação dos Sonhos” – página 86)

E Chico, o poeta maior da MPB, por fim, como um exímio artista em “A Moça do Sonho”, exibia seus próprios desejos, seus próprios sonhos, sua utopia, sua esperança/desesperada, seu anseio em retornar ao “Jardim do Éden”, seu gozo imaginário por um venturoso “Milênio de Paz e Justiça” de que trata a religião cristã no livro do Apocalipse Bíblico.
Como metáfora para os dias atuais, por que não traduzir a “Moça do Sonho”, como a Democracia sonhada por muitos, principalmente, em tempos sombrios de mudança de governo?

Sou da época de Chico Buarque, e aprendi nos livros de História que a Democracia (ou sonho democrático) nasceu na Grécia de Péricles e Aristóteles - 500 Anos a.C.. Mas a coitada, creio eu, foi tão maltratada que já chegou ao Novo Mundo desdentada.

A título de realce, não poderia deixar de repetir, aqui, o que escreveu o pai de Chico (o Historiador Sérgio Buarque de Holanda) sobre nossa suposta cordialidade democrática ─ no antológico clássico ─ “Raízes do Brasil”:

A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido. […] Nossa independência, as conquistas liberais que fizemos durante o decurso de nossa evolução política vieram quase de surpresa; a grande massa do povo recebeu-as com displicência ou hostilidade”.

E por falar em “sonho democrático”, não é que o cartunista, André Dahmer, da Folha de São Paulo (no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2018) publicou um humorado quadrinho (Vide Figura no Topo do texto) que, muito bem, poderia ter esse título: “Você Beijaria a Democracia Banguela?”

Bem, pelo menos em sonhos (utopia), o poeta maior da MPB deixa implícito na pungente canção, o desejo (que também é o nosso) de um dia encontrar essa “Moça”, e não voltar jamais (que fique claro: com todos os dentes e não banguela)


Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a Vida não…


Um lugar deve existir
Uma espécie de Bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre as escadas que fogem dos pés
E relógios que andam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava jamais”. (final da letra de “A Moça do Sonho”)




03 novembro 2018

QUANDO O ATO DE PERDOAR É UM “TAPA NA CARA DO OUTRO”







Quando se fala em perdoar o outro, há que se deter no fato de que há perdões para todos os gostos. Existe até aquele tipo de pedido de perdão que faz cessar a raiva de quem planeja a tal ação não tão virtuosa assim. Digo não virtuosa por ser de fundo egoístico. No ato do “generoso” está escondido o desejo inconsciente (ou consciente) de constranger àquele que o injustiçou.


Há quem afirme que o ato de perdoar uma pessoa inimiga pode, por incrível que pareça, ser uma espécie de vingança recolhida. Nesse caso, a pessoa que pede perdão ao faltoso, sente-se como se tivesse dado um soco no estômago ou tapa na cara de quem lhe fez mal. Na realidade, a solicitação de perdão da pessoa atingida em sua sensibilidade àquele que provocou o dano, tem mais a função de aliviar o ressentimento interior do magoado ― uma forma sutil e até certo ponto covarde ―, que pode muito bem ser considerada um revide a suposta ofensa recebida. Refletindo bem, esse ato de pedir perdão confere a quem o pede, uma sensação de superioridade sobre o outro que, nessas ocasiões, se mostra desconcertado ou constrangido. Uma versão bíblica mais versátil sobre essa modalidade de perdão se encontra no Livro de Provérbios de Salomão (25: 21, 22): “Se teu inimigo tiver fome, dá-lhe pão para comer, e se ele tiver sede, dá-lhe água para beber. Porque juntarás brasas ardentes sobre sua cabeça”.

Em resumo, é mais ou menos assim, o que se passa na mente de quem resolve pedir perdão ao inimigo:


...esperei demais que ele viesse me pedir perdão, até que encontrei uma fórmula de me vingar dele: ao invés dele vir a mim, quem vai a ele sou eu, quando deveria ocorrer o contrário”.


Por outro lado, lá no fundo do coração ou do inconsciente de quem pede essa modalidade de perdão, flui uma nesga de prazer ao ver o outro humilhado ou lívido de vergonha. Reza a psicanálise que isso faz parte das nossas relações narcisistas de cada dia.


Na verdade, o simbolismo da expressão ― “tapa na cara ou soco no estômago” ―, pode corresponder a mistura de duas dores: a de um que, fomentado pela mágoa, não conseguiu esquecer uma ferida antiga e a do outro que não teve como guardar remorso por algo acontecido em sua vida pregressa.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 03 de novembro de 2018

21 outubro 2018

VIAGEM IMAGINÁRIA AO IMPÉRIO DO MEDO



Quadro “O Grito” de Edward Munch


Enquanto escrevo essas linhas, jornalistas da Globo News no programa “Central das Eleições” discutem, alvoroçadamente, sobre a pesquisa mais recente do “Datafolha”, contendo dados estatísticos sobre o medo de implantação de uma futura ditadura no Brasil. A pergunta feita ao eleitor foi essa:

Qual a chance de haver uma nova ditadura no Brasil?

A resposta mostrou o país rachado: 50% tem medo de que a ditadura volte.

Em época que a mídia trata de explorar o medo entre os eleitores, nada melhor que recorrer ao sociólogo, Zygmunt Bauman, e refletir um pouco sobre o que ele diz no trecho, abaixo, de sua obra Vida Liquida”:

a vida na sociedade líquido-moderna é uma versão da dança das cadeiras, jogada para valer. O verdadeiro prêmio nessa competição é a garantia (temporária) de ser excluído das fileiras dos destruídos e evitar ser jogado no lixo”.

Ainda, no tocante ao medo, gostaria que respondessem a essa pergunta:

Vocês sabem por que o filme Titanic atraiu tanta gente, chegando na época a superar todos os recordes anteriores de bilheteria? Na verdade, quem pergunta e ao mesmo tempo responde, em forma de metáfora, é Jacques Attali:

O Titanic somos nós, nossa sociedade triunfalista, autocongratulatória, cega e hipócrita, sem misericórdia para com seus pobres uma sociedade em que tudo está previsto, menos os meios de previsão… Todos imaginamos que existe um iceberg esperando por nós, oculto em algum lugar no futuro nebuloso, com o qual nos chocaremos para afundar ouvindo música… .
Attali, identificou vários icebergs: financeiro, nuclear, ecológico, social e o proveniente do fundamentalismo religioso,” (Zygmunt Bauman – Medo Líquido).

Não poderia, de maneira alguma, deixar de trazer à tona o maior pensador e dramaturgo do século XX, o alemão Bertolt Brecht. Ele diz algo que vem bem a calhar com o sentimento de medo que, por ora, domina os corações da geração dos ex-colonos de Portugal. Da sua memorável comédia “De Nada, Nada Virá” , trago um trecho que,(quem sabe?), pode funcionar como um calmante ou antídoto contra a neurose coletiva que domina atores de diversos escalões da sociedade:

O PENSADOR:
Vou pensar alto, o que querem representar, se isso não atrapalhar o meu próprio pensamento?

OS ATORES:
Vamos apresentar a vida dos homens entre os homens

O PENSADOR:
O que querem provar com isso?

OS ATORES:
Não sabemos, o que você acha que poderá ser provado, se apresentarmos a vida dos homens entre os homens?

O PENSADOR:
De Nada, Nada Virá.

OS ATORES:
???

Podem até considerar que o que eu vou dizer aqui é coisa de louco. Mas, como é livre a expressão do pensamento, quero dizer ao nobre leitor(a), que o meu pessimismo parece, hoje, ter dado lugar a um incipiente otimismo (o otimismo dos atores da comédia de Brecht – rsrs).
Mas não ria não! Console-se. Pensando bem, vejo que os navios de grande calado, hoje, bem mais reforçados do que os de 1964 navegam pela mesma rota que passou o velho Titanic, sem, no entanto, correrem o perigo de se desmancharem frente a choques de média intensidade (Marolas ou marolinhas, na linguagem do velho timoneiro, Lula).

Ademais, não custa lembrar que, logo logo, chegará o Natal, depois vem a festa do reveillon, e mais um pouco a frente, o Carnaval. Por esse tempo todo, podem ficar certo, não haverá grandes navegações em alto-mar, pois, os navegadores (comandantes) estarão todos gozando férias prolongadas. Ou não estão lembrados que o Brasil, como é de costume, só começa a funcionar depois da Páscoa?. Até lá, não vai haver perigo de afundamentos de navios nem afogamentos de passageiros. Haverá, sim, por esse período de tempo, uma acomodação geral e irrestrita. Nesse ínterim, os derrotados de ontem se abraçarão com os vitoriosos de hoje em Copacabana na festa de fogos, ou mesmo na Sapucaí. E o povão, feliz da vida, poderá ver pela TV os componentes dos blocos partidários (ou sopinhas de letras) a torcer, efusivamente, por suas escolas de sambas financiadas com dinheiro público.

E o Império do Medo, então, se transformará em Império da Alegria. Os de togas, os de paletós e os vestidos de roupas de militares sairão de braços dados com os fantasiados portando armas de brinquedos, numa algazarra, aos olhos de muitos, irracional. Foliões, desfilando com máscaras de todos os que concorreram à Presidência da República, se deleitarão num clima de pacificação jamais visto nas terras de Santa Cruz.

Falou o profeta, que hoje, se encontra sem medo e de bom humor.

Despeço-me, não sem antes, a título de alerta, deixar aqui para cristãos e não cristãos, uma máxima do apóstolo Paulo, considerado o fundador do cristianismo: “Queres tu, pois, não ter medo da autoridade? Faze o bem...” (Romanos 13: 3)


Por Levi B, Santos
Guarabira, 21 de outubro de 2018