27 maio 2019

“TARDES DE DOMINGO” de Um Torcedor Mirim (Anos Sessenta)









No domingo eu escapulia
Para o campo da engenhoca
No quintal de tia Anás
Futebol eu assistia.


Bem atrás de uma trave
Sobre a faxina escondido,
Eu aplaudia as jogadas
Do meu time preferido.


Cada gol era uma festa
A orquestra respondia.
Puxando um frevo alegre
Numa bela sinfonia.


Depois do primeiro tempo
No campo podiam entrar.
Pela frente do estádio
Eu entrava sem pagar.



Juntava umas três moedas
Para comprar as doçuras
Que vendiam na torcida,
Uma verdadeira loucura.


Vendiam amendoim
Laranja Pêra e sorvete
Pirulito e Alfinim
E palitos de rolete.



Geladinhas de refresco
Afora as tapiocas
Tinha doce americano
E pacotes de pipocas.



Iguarias iguais aquelas
Nunca pensei em provar.
Para falar a verdade
Nem em festas no meu lar.



Meu clube era o Tabajaras,
De grandes craques da bola:
Cereba e Lula Teixeira
Não me saem da cachola.


Você veja que loucura
Eu em cima de uma faxina,
Assistindo um partidaço
Com o Treze de Campina.



O Tabajaras em casa
Não perdia uma vezinha,
Mesmo ele jogando ruim
O juiz dava uma mãozinha.



          ..Os jogadores d’outro time,
Gritavam: “juiz ladrão!”
Para nós na passeata
Em cima de um caminhão.


Passando por minha casa
Em caminho obrigatório,
Mamãe se desesperava
Gritando um palavrório.


Sai de cima desse carro
Uma surra tu vais ter.
E eu pulando pels grades
Ía então me esconder.


Dizia então minha mãe
Numa tristeza medonha:
Tu és crente, vagabundo,
Tá me fazendo vergonha.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 27 de Maio de 2019

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09 abril 2019

Páscoa (“Pessach”) ― Como Estímulo ao Questionamento e a Conversa Franca







Que bom é continuar aprendendo, mesmo aos 72 anos de idade. Não sabia que, por ocasião dos jantares de PESSACH (A Páscoa, ou comemoração da fuga dos judeus da escravidão no Egito), as famílias judaicas se juntavam para desafiar uma criança a cantar o “Ma Nishtaná”, cuja tradução em nossa língua é: “Por que esta noite é diferente de todas as outras?” como revelou Jaime Spitzcovski (Jornalista da Folha e Integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP), no começo de seu consistente ensaio “Judeus, Política e Mitos no Brasil” (Folha de São Paulo de 25 de março de 2019).

Trata-se de momento revelador de traduções judaicas milenares. A escolha do mais jovem capaz de disparar dúvidas simboliza estímulo, desde a infância, ao questionamento” enfatizou o ensaísta da Folha, sobre esse inusitado significado do Pessach.

A Páscoa, como passagem de um lado tradicional para outro totalmente diverso, começa quando nos dispomos a ouvir de forma desarmada aqueles que nos questionam ou desafiam nossos rígidos conceitos. Conceitos apreendidos que, com o passar do tempo, se tornaram petrificados de um dogmatismo implacável. A visão mais aberta e dinâmica de Jaime Spitzcovski merece uma reflexão mais aprofundada, principalmente por nos tirar daquela defensiva zona de conforto a que nos acostumamos, como bem evidencia esse trecho do seu lúcido ensaio que, com os devidos créditos, aqui transcrevo: “os judeus não constituem comunidades monolíticas do ponto de vista ideológico. […] Existe em seu universo comunitário, gigantesco caleidoscópio de visões de mundo, de práticas religiosas e de ideologias políticas”.

Com relação a pluralidade de entendimentos dentro das comunidades judaicas no Brasil, ressaltou, Jaime Spitzcovski:

Entre judeus brasileiros há bolsonaristas e petistas. Entre os americanos, há democratas e republicanos. Quem crê numa comunidade judaica atuando, no plano político e partidário, de forma homogênea, inspira-se lamentavelmente em mitos medievais”.

Aliás, foi a partir do início do século XVI, como efeito tardio da diáspora entre as tribos de Javé, que o êxodo de judeus de Portugal para as Terras de D. João VI se tornou bem mais intenso (Vide “Breve História dos Judeus no Brasil” de Salomão Serebrenick)

Mas voltemos ao Pessach e seu caleidoscópio de compreensões e incompreensões que, ainda hoje, continua sendo uma fonte inesgotável de aprendizado. Certo é, que releituras ou interpretações realizadas pelo viés do desprendimento e da simplicidade, nas entrelinhas do que os evangelistas escreveram, hoje, são bem vindas, mesmo sabendo que alguns da seara ortodoxa ou conservadora, não resistam em criticá-las de forma veemente.

A História da Igreja mostra que muitos (os hereges) pagaram com suas próprias vidas, por tentarem traduzir a linguagem coloquial dos evangelhos de uma forma que fosse entendida pelos fiéis, que mal conheciam o Latim.

Luiz Felipe Pondé (doutor em Filosofia pela USP, doutor em Ciências da Religião pela PUC-SP e colunista da Folha de São Paulo), em seu recente artigo de 01 de abril do corrente ano, na Folha, traz à tona um personagem muito conhecido da igreja o Mestre Eckhart ―, condenado pela inquisição, em 1328, por traduzir a Bíblia do Latim para sua própria língua, a Alemã. Graças a sua audaciosa tradução, as narrativas em grego dos evangelistas passaram a ser transmitidas de forma mais humanística e menos carregada de cerimonialismos. 
Para Eckhart, o desprendimento e a intimidade que o ser humano podia ter com Deus era o que, de forma cristalina, mais interessava. Jesus falava em aramaico, que vem a ser o idioma ancestral do hebraico. Nos signos dessas línguas irmãs existia uma mesma raiz, e, dependendo do contexto e do intérprete, o que era verbalizado possuía múltiplos sentidos. Eckhart, como exímio estudioso do Hebraico, sabia que essa língua permitia a existência dos contrários dentro de uma mesma enunciação. Já diziam os antigos escribas: “quando se imprime alma às letras, o sentido de uma palavra pode revelar significações inteiramente insólitas”.

Foi na contramão do que a ortodoxia rígida entendia, que o Mestre Eckhart deu uma interpretação, por muitos de sua época, considerada herética. Lucas, em seu evangelho, conta que Jesus parou na casa das duas irmãs para descansar de “sua dura e atribulada vida pública”. Ambas receberam com alegria o visitante. Enquanto Maria se deixa ficar extasiada ou embevecida aos pés de Jesus, sua irmã, Marta, sem cerimonialismos (no dizer do filósofo L. F. Pondé: “sem se prender a êxtase nenhum”), corre para a cozinha, a fim de preparar um saboroso “café” para seu caro hóspede. A atitude mística/contemplativa de Maria contrastava com o lado humano/íntimo de Marta, diante de seu visitante. Afinal, o Verbo tinha se feito carne para habitar entre elas, e nada melhor que rolar um papo entre goles de chá ou café, antes do sono chegar. Marta, talvez, naquele momento, estivesse celebrando a amizade demasiadamente humana, interpessoal e franca. Como a singularidade da pessoa é algo próprio e intransferível, respeitemos o modo de ser de Maria que, de forma diversa de sua irmã, preferiu aproveitar aquele momento ímpar para cultivar ou extravasar seu lado místico/divinal.

Entretanto, na visão do mestre Eckhart, não existia ocasião melhor para se trocar ideias ou entabular uma conversa mais íntima com um amigo, que nos intervalos entre os goles de “café” que se toma de forma desprendida ou bem espontânea. Quem já se sentou à mesa de uma cafeteria para conversar bem à vontade com amigo(a)s, sabe exatamente o que quero aqui ressaltar.

A lógica do filósofo Eckhart era essa, que o polêmico professor Luís Felipe Pondé, tão bem expressou no seu inspirado texto “Intimidade Com Deus” , publicado em sua coluna na Folha de S. Paulo de 01/04/2019. O seu ensaio é um presente e tanto para aqueles que quiserem esquadrinhá-lo com os olhos e o coração, na páscoa que se aproxima. O pequeno trecho, da sensata argumentação de Pondé, abaixo replicado (com os devidos créditos), não me deixa mentir:

Ter intimidade com Deus não é ficar paralisada diante de sua beleza, mas sim trocar uma ideia com Ele, fazendo um cafezinho na cozinha, lavando uma louça”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 09 de abril de 2019


30 março 2019

Mais Uma Reprise de “Os Deuses de Casaca”





Parece que na vida de nosso país, apelidado de republiqueta das bananas, a comicidade e a falta de seriedade no trato da coisa pública nunca se revestiram de tão degradantes aspectos como os que acontecem nos dias atuais.

A comédia machadiana “Os Deuses de Casaca” , escrita em 1886 (há mais de 150 anos) cai como uma luva para retratar a bagunça que está o país nesses últimos dias, onde peças de péssima qualidade e óperas bufas são encenadas no grande teatro dos três poderes situado no planalto central, que deram o nome de Brasília fantasioso palco onde os mais variados idealistas de ocasião exibem suas maquiavélicas e caricatas incongruências, cada vez mais escalofobéticas.

Os afetos da natureza humana são ambíguos, como ambígua é também as almas dos que lá no panteão dos poderes exercitam seus neurônios. Entretanto, a turbulência de seus inflamados egos não permite que enxerguem o óbvio: a da necessidade de um mínimo de consenso diante de suas facções rendidas à intolerância e ao ódio. Será que os meliantes de nossas “sagradas casas”, não percebem que tudo se inicia no vácuo da falta de vigilância, uma vez que o estar sempre alerta no domínio de nossas feras interiores, afastaria o narcisismo doentio e infantil responsável pela insana autofagia processo esse que, ao fim e ao cabo, não deixará ninguém de pé?

Mas o que fazer quando se teima em proceder como o escorpião da fábula, que não resistiu ao instinto de injetar seu letal veneno no elefante que gentilmente o conduzia a salvo, de um lado do rio para o outro. “Desculpe, é a minha natureza” foi a alegação do egoísta animal peçonhento, antes de afundar no caudaloso rio, levando consigo o generoso animal que tinha resolvido salvá-lo.

Se o(a) leitor(a) tiver paciência de conferir o terceiro ato da peça ― “Os Deuses de Casaca” ― vai notar que tudo o que Machado escreveu, há mais de 150 anos, retrata, em fortes cores, os conflitos intermináveis em uma Babel de línguas estranhas, onde ninguém mais se entende.

Já estamos por demais cansados de, no horário considerado nobre pela sociedade, assistir a bate-bocas ou quebra paus que, a custa de nossos suados impostos, os Jornais da TV aberta e fechada, veiculam de forma sensacionalista. Com certeza, Machado de Assis, nosso maior escritor e dramaturgo, retirou muito material do lamacento e ignominioso mar dos “deuses de casaca” de seu tempo, para relatar, com seu humor inconfundível, os dramas e comédias da velha república que já nasceu viciada, na histórica Rio de Janeiro, hoje, infelizmente saqueada e falida.

Replicarei, abaixo, alguns trechos do diálogo entre Júpiter (o Grande Pai e Rei dos deuses menores de Roma), seu filho Marte (Deus da Guerra), e Apolo(Deus do Sol e da profecia) A similitude dos personagens da comédia machadiana, com os atores das comédias sem pé nem cabeça que estamos a assistir, ultimamente, chega até a nos surpreender, como se tivessem sido encomendados exatamente para retratar as cenas burlescas dos sombrios dias atuais , a partir do Olimpo de Brasília.

Irei me deter no terceiro ato dessa insuperável peça de Machado de Assis, pelo fato de estar eivada de termos, hoje, usados e abusados nas divinas comédias do horário nobre nos canais de TV, em nossas glebas. No diálogo republicano machadiano, as falas esdrúxulas usadas são as que ainda hoje estão sendo brandidas pelos poderosos comediantes da pós modernidade. Expressões como: “congresso geral”, artifício da diplomacia”, “traidores”, reforma, “uma horrível Babel, onde a honra é de papel”.

Sem mais conversa, passemos aos trechos emblemáticos que aqui prometi replicá-los, do interessantíssimo diálogo entre os deuses Marte, Júpiter e Apolo


MARTE:

Desgraçado daquele que assim foge às lutas e à conquista!

JÚPITER:

Que tens feito?

MARTE:

Oh! Por mim, ando na pista de um Congresso geral. Quero, como fogo e arte, mostrar que sou aquele antigo Marte que as guerras inspirou de Aquiles e de Heitor. Mas por agora nada! É desanimador o estado desse mundo. A guerra, o meu ofício, é o último caso, antes vem o artifício. Diplomacia é o nome; a coisa é o mútuo engano. Matam-se, mas depois de um labutar insano. Discutem, gastam o tempo, cuidado e talento, O talento e o cuidado é ter astúcia e tento. […] A tolice no caso é falar claro e franco.

JÚPITER

Tens razão, filho tens!

MARTE:

Que acontece daqui? É que nesta Babel reina em todos e em tudo uma coisa o papel. É esta a base o meio e o fim. O grande rei é o papel. Não há outra força, outra lei. A fortuna o que é? Papel ao portador.
A honra é de papel; é de papel o amor. O valor já não é aquele ardor aceso, tem duas divisões é de almaço ou de peso.
Enfim, por completar esta horrível Babel, a moral de papel faz guerra de papel.

APOLO:

Sinto que o nosso esforço é baldado e imagino que não bateu a hora do destino. Que dizes Marte?

MARTE:

A Reforma há de vir quando o Olimpo, outra vez, em nossas mãos cair. Espera!


Por Levi B. Santos
Guarabira, 30 de março de 2019

24 março 2019

“Como Nós Podemos Evitar a Guerra?”






Virgínia Woolf (1882 1941) por volta de 1936, no tempo que corria a insurreição fascista na Espanha, em uma carta a ela endereçada, foi inquirida por um renomado advogado. Naquela época, como ainda hoje, a pergunta que ele fez (plena de significados e significantes – em Linguística), apresenta-se de difícil abordagem: “Na sua opinião como nós podemos evitar a guerra?”. Essa pergunta de feição aparentemente simples, ao partir de um homem para uma mulher, na realidade, tem em seu bojo signos ambíguos, como ambígua é a nossa natureza.

Foi por essa época que o físico Albert Einstein, em uma carta dirigida a Freud, ficou perturbado pelo mesmo sentimento ambivalente, mas humano, de querer e não poder. Einstein, era sabedor de que o barbudo cientista da alma, diferentemente do estudioso de física, discorria com clareza incomum o fenômeno da ambivalência: o primitivo e selvagem instinto de luta e de aniquilamento presente no indivíduo, convivia com o nobre ideal de se libertar completamente da guerra.

Susan Sontag, em seu livro “Diante da Dor dos Outros” , conta que Virgínia Woolf refletiu muito, antes de responder ao bacharel em Direito. Ela, apesar de ser instruída tanto quanto o nobre jurisconsulto, entendeu “que existia um grande abismo entre eles: o advogado é homem e ela é mulher. Homens(em sua maioria) fazem a guerra, gostam de guerra. Para eles existe uma glória, uma satisfação em lutar, que as mulheres (em sua maioria) não sentem ou não desfrutam”.

Depois de tatear para cá e pra lá, Woolf, enfim, compreendeu que a pergunta do advogado escondia algo dúbio. Ela percebeu que a pergunta que lhe foi apresentada não foi no sentido de saber seus pensamentos sobre as maneiras de evitar a guerra. Diante da pergunta emblemática ela se deteu na expressão “Como Nós”. Ora, ao contrário de “Como nós”, “nenhum de ‘nós’ deveria ser aceito como algo fora de dúvida, quando se trata de olhar a dor nossa e a dos outros”.

Costuma-se dizer que os homens fazem as guerras e as mulheres sofrem as consequências. Evidentemente, essa assertiva tem lá suas razões de ser. Olhando por esse viés, desde os tempos mais remotos, a dor da mulher e a dor do homem tem contornos subjetivos diferentes ou diversos.

Em uma época em que as mulheres não dispunham de condições iguais aos dos homens nem na educacão, nem no trabalho e nem na liberdade , Virgínia Woolf lançou seu último livro “Os Três Guinéus”. O primeiro dos guinéus (símbolos do investimento) seria destinado ao Estado. O segundo guinéu seria destinado ao trabalho, e finalmente o terceiro guinéu deveria se empregado em favor das liberdades individuais e para a cultura. Mas o governo da Inglaterra abortou sua iniciativa antes de ser inaugurada, porque ela era mulher, e mulheres não sabem exercer a liberdade pensamento político da década de 1930.

O livro, acima referido, de Virgínia Wolf, trata justamente do “fato de que a guerra é um jogo de homens e que a máquina de matar tem um gênero, e ele é o masculino”. Esse foi um dos motivos, dessa sua obra ter sido a mais mal recebida de todas que a grande escritora britânica nos legou. 

Ao advogado que, em sua missiva, fez a crucial pergunta “Na sua opinião como nós podemos evitar a guerra?” recebeu da destemida Virgínia Woolf, essa incisiva resposta: “nós estamos vendo, com o senhor, os mesmos cadáveres, as mesmas casas destruídas. Quem é o ‘Nós’ que constitui o alvo dessas fotos de choque. […] essas fotos, documentos antes da chacina de civis do que de confronto de exércitos só poderiam estimular a repulsa a guerra”.  

 Biblioteca do CICV, DR/hist-00212-04

Para Woolf, assim como muito polemistas antibelicistas, a guerra é genérica, e as imagens que ela descreve são de vítimas anônimas, genéricas”. (Susan Sontag “Diante da Dor dos Outros” Companhia das Letras)

Fazia um dia claro e frio quando ela deixou sua bengala ao lado, atravessou os belíssimos prados e mergulhou rio adentro para não mais voltar”.

No próximo dia 28 de março de 2019 (Quinta Feira), completa 78 anos da morte de Virgínia Woolf.


P.S.:
Apesar dos escritos de Virgínia Woolf já ultrapassarem os cem anos, o diapasão da violência continua a vibrar em nossas terras. Por aqui, os conflitos belicosos e suas nefastas consequências se tornaram coisa tão banal, que nem despertamos mais para o fato de que estamos, há décadas, vivendo em meio a uma guerra civil.

A força de tanto contemplar a destruição de lares e famílias inteiras, as imagens do arquivo da dor, composto de corpos mutilados e sangue no asfalto e nas calçadas, já não mais nos tocam como antigamente. Como disse o psicanalista e colunista da Folha de S. Paulo, Contardo Calligaris em seu artigo “A Dor dos Outros”, de 29 de maio de 2003:

O sofrimento dos outros seria como a musiquinha do caminhão de gás, que não nos acorda mais. Os fotógrafos que arriscam (e, às vezes, perdem) a vida para nos trazer imagens abomináveis foram chamados de ‘turistas de guerra’, como se por eles, a dor se tornasse mais uma atração no circo do mundo”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 26 de março de 2019


04 março 2019

TERRA DE VERA CRUZ E SEU PRIMEIRO CARNAVAL (Um Pouco de Nossa História Lúdica)





Vera Cruz foi o primeiro nome dado ao que conhecemos, hoje, como Brasil. Em seu fascinante livro “As Festas no Brasil Colonial” (Editora 34) , o famoso pesquisador e historiador José Ramos Tinhorão, conta que a esquadra de Cabral desembarcou em Porto Seguro sob uma euforia tremenda , “em meio a troca de rosários, barretes e carapuças por arcos, setas e enfeites de plumas”.

Marujos europeus e galantes pintados de preto e vermelho ao som de gaitas e trombetas se misturaram aos nativos, numa confusão típica das aglomerações carnavalescas”. Pero Vaz de Caminha, em sua épica carta enviada ao Rei D. Manuel de Portugal, tomado por uma animação incomum, assim se expressou: “Terra para conhecer e também para folgarmos”.

Na Terra do Pau Brasil, o “Sagrado” e o “Profano” estabeleceram-se em uma perfeita harmonia. Tanto é assim, que após a primeira missa proferida pelo Padre Frei Henrique, seguiu-se sem intervalo, “o primeiro assustado com música e dança em terra chã com grandes arvoredos”. A folia dos indígenas pulando e dando saltos mortais, impressionou, sobremodo, os portugueses da esquadra de Cabral.

Segundo o historiador, em 1580, os alunos do colégio dos Jesuítas na Bahia, encontravam nas procissões uma oportunidade de extravasamento dos seus desejos carnais. Na data comemorativa do Corpus Christus”, havia um bloco denominado, O Mistério das Onze Mil Virgens”, uma procissão de oportunismo lúdico, que angariou a simpatia da maioria da população.

Em fins de 1717, o francês, Le Gentil de La Barbinais, quando passava por São Gonçalo, a convite do vice-rei Vasco Fernandes Cesar de Menezes, narra como se desenrolavam os desfiles lúdicos nos arredores de São Salvador:

Partimos em companhia do Vice-Rei e de toda a Corte. Próximo a igreja de São Gonçalo nos deparamos com uma impressionante multidão que dançava e pulava ao som de violas e atabaques, que faziam tremer toda a nave da igreja. Tivemos, nós mesmos que entrar na dança, por bem ou por mal, e não deixou de ser interessante ver numa igreja padres, mulheres, frades, cavalheiros e escravos a dançar, misturados a gritos de Viva São Gonçalo do Amarante!’.

Nas procissões do Espírito Santo, o padre Frei Antônio religioso do Carmo tocava viola publicamente com o Cônego de Angola – o padre Manoel de Bastos, e entre eles no mesmo carro alegórico, uma Vicência crioula forra de Ouro Preto, vestida de homem cantava o ‘Arromba’ e outras modas da terra. O bispo D. Antonio do Desterro era um folião inveterado e saia para farra na procissão usando como peruca a cabeleira da imagem de Cristo, isto em fins de 1759. Os lundus e os fados criados no século XVIII, mais tarde, se transformariam nas precursoras da música popular moderna”.

Os grupos de manifestantes barulhentos que desfilavam na semana da Quaresma tinham nomes muito parecidos com os blocos carnavalescos atuais: cornetadas, troças, chocalhadas, latadas e caçoadas”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 04 de março de 2019

11 fevereiro 2019

O “Estado/Mercado” e a Eterna Insegurança






As recentes tragédias de Brumadinho e das dez crianças que morreram enquanto dormiam no Centro de Treinamento do Flamengo, me fizeram voar no pensamento, assim como, mergulhar profundamente no oceano escuro/obscuro da reflexão.

As vítimas da primeira tragédia foram enterradas vivas na lama da Vale. Vejam que ironia: deve ter sido a mesma Vale que extraiu o ferro em Minas Gerais para transformá-lo em aço, a fim de que o mercado pudesse construir o container de uma porta só, e sem janelas. Esse monstro de aço, de quatro faces retangulares, veio a servir de local de descanso e dormitório para dez crianças que estavam sendo preparadas para brilhar no Mercado Internacional do futebol. Forjados seriam no mais querido clube do Brasil o Flamengo do Rio de Janeiro. Após a tragédia, na televisão, não faltaram especialistas em economia a brandir seus números estratosféricos: “A Vale perdeu 51 bilhões com o acidente em Brumadinho – Mg”.

Jamais, na vida, cheguei a imaginar que, num clube tão famoso, crianças/adolescentes (futuros atletas) estivessem a dormir em uma arapuca semelhante a uma lata de sardinha.

O Mercado de Formação de atletas arrebanham crianças de 14 à 15 anos mediante promessa de serem, um dia, exportados para os grandes clubes do mundo europeu. Na corrida em busca desse sonho há um preço a pagar: é necessário que alijem de suas vidas uma fase de suma importância no desenvolvimento do ser humano: a adolescência. Nessa fase há transformações neuro-hormonais que requerem acompanhamento mais aconchegante no seio da família, na escola, e na sociedade , coisa que todo indivíduo deveria levar a sério.

Por falar em “levar a sério”, lembrei-me, agora, do artigo “Futebol é Coisa Séria” , de Emerson Gonçalves, jornalista esportivo do “Globoespote.com”. Cai bem aqui, alguns trechos que pincei do seu emblemático ensaio editado em 18/02/2012:

E nesse mundo, especialmente em clubes e muitas federações falta seriedade. […] Vamos pegar sério no trato da grande indústria do futebol. Vamos exigir clubes bem administrados, salários em dia, federações bem dirigidas em prol de bem dos clubes e, sobretudo, dos torcedores. Vamos pegar sério, para valer, na exigência de segurança”.

Sobre a tal Exigência de Segurança”:

Sobre a “exigência de segurança” que tanto nos consome diante de lamentáveis fatos, pelo lado avesso, vem logo a nossa mente a percepção da “Eterna Insegurança”, da qual, infelizmente, somos escravos. Sabendo que o “deus do Mercado Esportivo” (como acontece em outras áreas mercantis) joga com a insegurança, recorro a Zigmunt Bauman, em “O Retorno do Pêndulo” (páginas 86 e 103):

Mas sem a vulnerabilidade e a incerteza não haveria o medo; e sem o medo não haveria o poder”. Na verdade o deus-Mercado é onipotente para o que lhe interessa. Quando é para seu único benefício ele priva de seu poder as próprias vítimas.

Continua, Zigmunt Bauman, o seu raciocínio sobre esse deus “potente/impotente”

Mas um deus sem poder não é uma força na qual se possa se confiar, que cumpre a promessa de fazer de certas pessoas seu ‘tesouro particular’, sua propriedade peculiar dentre os povos”.[…] Ao contrário da insegurança nascida do Mercado, óbvia e visível demais para que se possa consolar suas vítimas, essa insegurança alternativa com que o Estado espera restaurar o monopólio da redenção deve ser reforçada ou superdramatizada, para inspirar um volume suficiente de ‘medo oficial’, ao mesmo tempo se obscurece e se relega a segundo plano a insegurança economicamente gerada sobre a qual o Estado nada pode e nada quer fazer”.

Após os recentes e graves acidentes, que poderiam ter sido evitados, a palavra “AMOR” veio à tona nos quatro cantos do planeta Terra. Talvez, o psicanalista argentino, Gustavo Dessal, tenha sido mais feliz ao substituir, na atualidade, essa nobre palavra, por “degradação líquida do amor”, como mostra o trecho, abaixo, pinçado do prefácio que fez sobre O Futuro do Mundo Líquido de Zigmunt Bauman.

A degradação líquida do amor é um grave sintoma de nossa época, na qual a ação corrosiva do discurso neoliberal encontra cada vez menos obstáculos para transformar cada um de nós em mercadoria” (Gustavo Dessal)


Por Levi B. Santos
Guarabira, 11 de fevereiro de 2019


12 janeiro 2019

Sobre a Metáfora “Espinho na Carne”




E foi me dado um Espinho na Carne” (Saulo de Tarso)



É consoante em psicanálise que a metáfora “Espinho na Carne”, usada pelo apóstolo Paulo em uma de suas cartas, tem a ver com algo de natureza inconsciente que amarra o sujeito nos momentos em que o intrometido “Eu” costuma aparecer como se fosse senhor absoluto de todo o saber. O espinho, de tão íntimo e arraigado ao indivíduo, acaba por se tornar irremovível. É uma espécie de vínculo afetivo incrustado no passado da memória, sede de angústias e intensas dores morais, quando despertado ou tocado.

Na busca de um estado utópico de perfeição, dizemos que renunciamos a algo sombrio e íntimo de nossa personalidade (afetos que no passado nos garantiam um certo grau de satisfação egocêntrica). Como não somos senhores de nós mesmos, aquilo que percebíamos como afetos extirpados (simbolizados pela figura de um incômodo espinho na carne), independentemente de nossa vontade, retornam a nós, de uma maneira muito sutil e em momentos jamais imaginados. É em decorrência do choque entre afetos paradoxais de nossa natureza dual (Se quer, mas não se pode) que surgem a angústia e o mal estar psíquico. Usando outros termos, poderíamos asseverar que ninguém pode se considerar salvo desse tipo de sofrimento existencial.

Devem existir aspectos de nossa vida que até podemos dar um jeito, menos o ato de tirar o espinho da carne. Toda vez que pensamos ter eliminado o espinho de nossa carne, lá estamos a projetá-lo no outro. Por esse mecanismo de defesa, o espinhoso passaria a ser o outro, nosso “bode expiatório”, a quem julgamos. Ledo engano, o espinho na carne não se retira. Ele é um elemento necessário para equilíbrio do sujeito em suas ambivalências existenciais pela vida afora, além de um formidável antídoto para que ninguém possa se gloriar.

A compreensão “constrangedora” de que por mais que nos esforcemos, cativando uma imagem melhor e mais simpática para nós mesmos, continuará lá nas profundidades psíquicas do nosso ser, resíduos afetivos que muito almejaríamos jogar no mar do esquecimento, a saber: impulsos, inclinações, pensamentos e imagens destoantes daquilo que construímos como máscara virtuosa em nossa vida de relação.

Zygmunt Bauman, em “O Retorno do Pêndulo”, demostra que o armistício, na guerra entre os desejos ambíguos da alma humana, é sempre temporário, até o próximo confronto. O famoso sociólogo, assim como Paulo em suas relações com os romanos, faz uso da metáfora do espinho na carne, como indicativo ou reflexo da dualidade intrínseca da alma e da condição humana:

...Um espinho cravado no corpo das relações entre o indivíduo e a sociedade. [...]significa enfrentar situações nas quais a balança se inclina contra fazer o que se quer e a favor de fazer algo que se gostaria de evitar”. (Zygmunt Bauman)
Foi em um contexto análogo que, numa espécie de insight, o apóstolo Paulo diante dos altivos romanos fez desaguar do seu obscuro oceano interno afetos contraditórios, até então escondidos: “Pois o que quero isso não faço, mas o que não quero isso faço” (Romanos 7:15)

Em “A Gaia Ciência”, vejamos o que Friedrich Nietzsche escreveu em analogia à metáfora Paulina espinho na carne”:

Examinem a vida dos melhores e mais fecundos homens e povos e perguntem a si mesmos se uma árvore que deve crescer orgulhosamente no ar poderia dispensar o mau tempo e os temporais; se o desfavor e a resistência externa, se alguma espécie de ódio, ciúme, teimosia, suspeita, dureza, avareza e violência não faz parte das circunstâncias favoráveis sem as quais não é possível um grande crescimento, mesmo na virtude? O veneno que faz morrer a natureza frágil é um fortificante para o forte e ele nem o chama de veneno”.

É certo que, hoje, não mais existe inconciliabilidade entre a Teologia e a Psicanálise. O Judeu Sigmund Freud, por exemplo, foi um incansável leitor e intérprete das inúmeras figuras de linguagem presentes na Bíblia e bebeu a vida toda dessa insaciável fonte. Ela muito o auxiliou na construção dos conceitos linguísticos e científicos que serviram de base para a nascente Psicanálise, no final do século XIX. Tanto é assim, que o influente teólogo alemão Paul Tillich, no capítulo 8 (Significado Teológico do Existencialismo e da Psicanálise) de sua fenomenal obra “Teologia da Cultura” assim se definiu, a respeito: Certamente, o desenvolvimento da psicanálise tem sido de infinito valor para a Teologia. [...]As duas disciplinas não andam em caminhos separados, mas se interpenetram”

Voltando à metáfora Espinho na Carne criada pelo apóstolo Paulo: Freud, através de suas esmiuçadas observações, incansáveis análises e longos estudos da psique humana, chegou à conclusão de que não há indivíduos “sem espinhos”. Disse o fundador da Psicanálise: “Existe em todo ser humano uma instância especial na psique onde é mantida imagens, desejos e sentimentos considerados inaceitáveis, adquiridos em nosso desenvolvimento biossocial e psicológico afetos que gostaríamos de nos ver livres deles para sempre”.

A esse lado espinhoso da personalidade, que percebemos como indesejável, Carl G. Jung denominou Sombra”. Torcemos o nariz para esse nosso lado sombrio, e isso não passa de uma atitude defensiva ou reativa, pois, indubitavelmente, não temos o poder de anulá-lo ou destruí-lo através de nossa frágil vontade.

Foi em um conflito com esse lado medonho e obscuro, latente em si mesmo, que o próprio Paulo foi incitado a fazer essa crucial exclamação: “Miserável homem que sou. Quem me livrará do corpo dessa morte!”(Romanos 7: 24)

Para que eu não ficasse orgulhoso, recebi o dom de um obstáculo(espinho), que me mantém em contato com minhas limitações. Sem chance que eu ande de nariz empinado e orgulhoso! No princípio, eu não pensava nele(no espinho) como um dom. […]Agora enfrento com alegria essas limitações, como tudo o que me torna pequeno – abusos, acidentes, oposição, problemas.” (Palavras de Paulo Versão contemporânea da II Epístola aos Coríntios 12: 7-12).

Não poderia deixar de trazer a metáfora do espinho na carne para os tempos atuais, empregando-a no contexto do frenético mundo cibernético que, progressivamente, vem tomando conta de nossas vidas. O Facebook e o WhatsApp são exemplos de nossos novos objetos de desejo. O arguto espinho digital, apesar de está bem encravado em nosso ser, nunca esteve tão visível. O renomado sociólogo brasileiro, Jessé Sousa, em seu livro recentemente lançado pela Editora Estação Brasil ― “A Classe Média no Espelho Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade”(página 262), diz algo emblemático sobre esse novo espinho irremovível, a cujos efeitos sedutores cedemos, por não termos mais o livre-arbítrio em empreender sua  extirpação:

Todo o mecanismo precisamente concebido para atender aos desejos e necessidades de cada um, é produzido por nós mesmos. E tudo sob a aparência ingênua e confiável da troca de informações com amigos e familiares. Ninguém mais precisa invadir de modo ilegal nossa privacidade: agora nós a disponibilizamos, de graça (e não pela Graça – grifo meu), para que as empresas lucrem. (Jessé Sousa – Sobre nossa relação com as redes sociais)

Chegamos ao ponto de nos afligirmos em meio ao trabalho, lazer ou até em momentos devocionais, quando damos pela falta do smartphone. Na realidade, não podemos negar que as curtidas nos provocam uma ligeira anestesia ou sensação de bem-estar. Enquanto isso, o espinho na carne, responsável pela  dor existencial, sob a forma de um vazio impreenchível, continua inapelavelmente a reverberar as angústias de uma alma profundamente ferida em seu narcisismo.

Partes de mim se rebelam em segredo, e, quando menos espero, elas assumem o controle” (Epístola de Paulo aos Romanos 7: 23 Traduzida em Linguagem Contemporânea por Eugene H. Peterson)



Por Levi B. Santos
Guarabira, 12 de janeiro de 2019

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